sexta-feira, 31 de julho de 2009

Espelhamento


E quase que inexiste de tão pequeno e distante. Mas é puro. Vai ao fundo do que espelha a alma sem negar o corpo. Orienta a favor das coisas que fazem sentido. É límpido e pulula.Ventila e inspira em suas vestes azuis. Domínio do sonho. Música ouvida da janela que se abre para o mar. Passeio gostoso da memória afirmando o encontro. Truques e brincadeiras. Acha o verde para reluzir esperança. Um aperto de mão. Abraço demorado. Olhos nos olhos - feito criança refletida ao espelho. Tão pequeno mas tão verdadeiro. Aquece de palavras expostas em livros. É ninho. Agasalho. E quando calor, é água matando a sede. Um sorriso. Uma seta seguindo sem queda e sem volta. Fura outras perspectivas e cria um único destino. Um. O que deveria ser dois. Um cabendo na miudeza. Missivas do alento. Fagulha e oração. Eternidade com cara de menino. Além de tudo, amizade. Saudade na presença. Subida da alegria. Abraço demorado. O sonho de ontem na vontade de hoje. Encontro vernacular. Carinho escrito distante. Beijo sem dar. Espera lenta e sagrada. Tão pequeno do lado de lá e tão gigante acolhendo de cá. Espera e habita.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

À procura de um olhar


Anote aí: dia 31 de julho, a partir das 19 horas, os olhares de Pierre Verger, Claude Lévi-Strauss, Jean Manzon, Marcel Gautherot, Olivia Gay, Luiz Braga, Bruno Barbey, entre outros, ganham guarida no Palacetes das Artes Rodin Bahia.
Nesta data, será aberta a exposição “À procura de um olhar – fotógrafos franceses e brasileiros revelam o Brasil”, evento que integra o Ano da França no Brasil. A curadoria é de Diógenes Moura e a mostra permanece na instituição até o dia 3o de agosto, com promoção do Intituto Casa da Photografia, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Secretaria de Cultura do Estado da Bahia e Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).
O Ano da França no Brasil é organizado pelo Comissariado geral brasileiro, Ministério da Cultura e Ministério das Relações Exteriores. Na França, pelo Comissariado geral francês, Ministério das Relações Exteriores e Européias, Ministério da Cultura e da Comunicação e por Culturesfrance.
(Retirado do blog Inéditos e Dispersos, de Vitor Carmezim. Endereço eletônico: http://carmezim.wordpress.com/ ).

Mil e um Zés Celsos

Foto do Portal Terra

Esta matéria foi retirada hoje, 30 de julho de 2009, do Terra Magazine ( http://terramagazine.terra.com.br/), e aparece aqui para homenagear o grande José Celso Martinez Corrêa:

Advogado, artista, diretor de teatro e de cinema, ator, músico e compositor. Este é José Celso Martinez Corrêa, mais conhecido como Zé Celso. Suas facetas podem ser conhecidas de 30 de julho a 6 de setembro no Itaú Cultural. "A Ocupação Zé Celso", nome da exposição, traz fotos e documentos inéditos acompanhando o artista da sua infância aos dias de hoje.
O evento é parte da série de mostras de curta temporada, programada pela instituição, sobre veteranos consagrados que servem de referência e influência às novas gerações de artistas que despontam nas artes visuais, no teatro e na literatura.

Centenas de fotos, 12 sets com cenários representativos de cada época, 33 monitores, sete projetores e até um quarto, chamado Paucucama, cujas projeções só poderão ser vistas por maiores de 18 anos.
Zé Celso nasceu em Araraquara em março de 1937. Mudou para a capitar e nos anos 1960 deu início ao seu trabalho com o grupo do Teatro Oficina. Sua produção é encarada por vezes como como orgiástico, dionisioaco e antropofágico, como menção ao movimento surgido durante a Semana de Arte Moderna de 1922.
O grupo liderado por Zé Celso era amador e foi formado quando ainda integrava a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Alguns de seus primeiros sucessos foram: Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki; O Rei da Vela, de Oswald de Andrade e Na Selva das Cidades, de Bertolt Brecht. Sempre irreverente, Zé Celso ganhou todos os prêmios de melhor direção.
A pesquisa foi feita por Marcelo Drummond, Elaine Cesar e uma equipe do Teatro Oficina. Álbuns da família Martinez Correa e dele mesmo, arquivos na Unicamp e do Instituto Moreira Salles, gavetas no Oficina, testemunhos do próprio registrados nas centenas de entrevistas de todos os gêneros que já deu resultaram em uma compilação de informações como ninguém reuniu até hoje.
Todo este material pesquisado vai subsidiar, ainda, documentário sobre a vida do artista. Dirigido por Tadeu Jungle e Elaine Cesar, com realização do Itaú Cultural, será lançado em dezembro deste ano.

Foto: João Luiz de Castro

SERVIÇO

Ocupação Zé Celso

29 de julho, coquetel de abertura

De 30 de julho a 6 de setembro

De terça a sexta, das 10h às 21h

Sábs., doms. e feriados, das 10h às 19h

Entrada franca

Terra Magazine

terça-feira, 21 de julho de 2009

DVD - As canções que você fez pra mim


Jornalisticamente tudo foi dito sobre as desvantagens da aquisição do DVD As canções que você fez pra mim, projeto de 1993, da minha Maria Bethânia,encabeçado pela Universal. Só queria que tivessem recuperado Adeus,Bye Bye, sucesso da Banda Eva, na época com a voz de Ivete Sangalo, e com a qual Bethânia em seu show no TCA, enlouqueceu a plateia.
Agora aquele show e este registro marcam o meu desbunde pela Abelha Rainha. Assisti-lo me coloca no centro de memórias perfumadas e amorosas e eu me sinto novamente naquela noite doída e absurda quando ela cantou Genipapo Absoluto. Bethânia é o colorido da minha voz apaixonada, ou melhor, é o simbolo de uma paixão exitosa e correspondida. Essa espécie de sentido que ela deixa em mim, por favor Orixás, não me deixem perder.
O DVD poderia ser bem melhor. Mais o melhor daquilo tudo ninguém traduzirá e mais ainda: ninguém pode tirar de mim. Ave este projeto - longe de ser popularesco como as elites( arre!) disseram. Canta Bethânia,do seu jeito inteligência beleza paixão e êxito!

O poeta pede ao seu amor que lhe escreva

Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.


O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.


Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.


Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

(Tradução William Agel de Melo)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Billie Holiday - Strange Fruit

Para sentir intensamente o que eu não me canso de repetir:


video


50 anos de morte de Billie Holiday

Billie Holiday ( 07/04/1915 - 17/07/1959)
Foi em 17 de julho de 1959 que o mundo perdeu a sua maior cantora de todos os tempos. Aos 44 anos, se ia de modo doído e ingrato, com o fígado arrebentado, o patrimônio mundial da canção, Billie Holiday. São cinquenta anos de saudade alimentando o mito da mulher que reinventou a canção nos Estados Unidos e se espalhou para o mundo na dosagem exegerada da emoção em inteira sintonia com sua rara musicalidade. A voz e o canto mais belos e assombrosos que os ouvidos humanos já conheceram. Uma mulher genial em retirada da vida de modo trágico, aviltante, mas nunca minimizou o seu legado de inventividade no centro da canção estadunidense espraiada por todo globo terrestre. Acredite: Billie Holiday vive!

da cor azul é mar


Daquele semblante que viceja os melhores lugares.
Da voz que acalma feito água.
Da luz que reanima.
O sorriso.
Os olhos formulados em carinho.
O jeito do sossego
A boca do fervor.
Vermelha.
No meu azul maior.
O mar que me ocupa
E não recebo outras paisagens.
O que é mais caminho
O que refaz destinos
O que é o outro nome da paz.
Meu corpo adormece e espera.
Vibra sobre todas as imagens
Ignora qualquer estação.
Espera e nega a ilusão.
Semblante das águas
Coisas de mãe em mim
Traços de incesto.
Transmutação do verde
Cheiro de esperança e sexo.
A marca do amor que não me sai.
Meu paraíso ensimesmado,
Ciumento, desértico.
Quando hoje é nunca.
Mas eu espero.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Amor, Oxum


Quanto mistério, quanta beleza, quanta luz, quanta força. Banha meu ori com suas águas plácidas e renovadoras, enche meu peito de esperança, me embala com seu dengo e sedução, me enfeitiça de alegria e me faz conquistar. Rainha do doce - serena canção no abrigo de mim!
Amor, Oxum . Dourado de riqueza e azulado em nosso desejo! Ora ê ê ê ô! Ritmo do prazer. Musa encantadora de todas as artes. Corpo fecundo, vida de hoje e eterna! Ora ê ê ê ô!
Mimo das emoções e da palavra que descreve o profundo do humano: peixe água rio escorrendo em meu mutuê. Filha dileta do meu Pai: Guian dos caminhos! Amor, Oxum. Do seu jeitinho naquele jeitinho que só pode ser o meu. Ora ê ê ê ô!

Noite de Estrelas

Maria
Arde na terra a solidão da lua
Iluminando meu olhar perdido
Entre campinas, abismos, chapadas...
Meus olhos queimam a última lembrança
Como fogueira em noite de estrelas.
Me deito só, com vista para o mundo
Calando fundo meus sonhos, minhas queixas,
Mas alço vôo em busca de teus passos
Piso descalço na terra do teu corpo
Suave passo, suave gosto, cheiro de mato
Meu braço lasso, eu lanço em segredo.
Vem ser meu canto, meu verso, meu soneto
Vem ser poema no árido deserto
Serei oásis, silêncio, festejo
Serei sertão nas horas de aconchego...
Ana Basbaum/Roberto Mendes
P.S. Depois de muitos copos no Mocambinho; lágrimas e lágrimas e doendo todo como bem gosta a poeta Ana Basbaum.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Ludo Real

Jussara Silveira

Que nobreza você tem
Que seus lábios são reais
Que seus olhos vão além
Que uma noite faz o bem
E nunca mais
Que salta de sonho em sonho
E não quebra telha
Que passa através do amor
E não se atrapalha
Que cruza o rio
E não se molha
Ê, ê, a ê andaia
A lua ê, a lua ê andaia [2x]
Chico Buarque/Vinicius Cantuária
Esta música nesta voz naquele jeito naquele tempo naquela hora na minha memória na minha vida no meu sonho no meu silêncio me fazendo ouvir de madrugada tudo que seria pra mim inteira felicidade... deságua e não estanca e Ju insiste em me fazer desesquecer.

O sol que a chuva apagou


Comprei este livro por dois motivos. O primeiro foi o título que me convidou a afetuar a compra. Renatinho Russo naquela canção Giz despejando memórias eternas em mim. Depois, a escritora é Állex Leilla, meu segundo motivo muito importante. A menina é uma seguidora talentosa de Caio Fernando Abreu, e circula entre as grandes revelações que a nova literatura brasileira nos trouxe. Com ela, a gente se sente numa atmosfera meio Caio F. e Ana C., e viaja a lugares especiais em nós mesmos.
Quanto ao livro em questão, gostei muito da história, da leveza da novela gay, como ela mesma diz. Mesmo não lendo nenhuma novidade, é bom ter o final, em livro, como foi o de Thiago e Felipe... O amor entre dois homens exposto de maneira exitosa. A música do Renato, e outras citadas ao longo do texto, pode servir de trilha sonora para a leitura de um livro, que se pretende ( ou eu pretendo?) um filme levinho e bem feito. A gente merece. Deixa o verão pra mais tarde né, Amarante?

A cidade das mulheres: uma etnografia do encantamento

Ruth Landes
Há livros que nascem para a eternidade. Quanto mais criticado e desvalorizado pelo saber especializado, eles vingam, subvertem tradições e ensinam até mesmo a seus detratores. A cidade das mulheres, da antropóloga Ruth Landes, é exemplar nisso de se eternizar pelo encantamento; de viabilizar o método etnográfico numa linguagem literária alcancável a todos; permitir mais beleza a antropologia, narrando a história das mulheres negras de um povo; aquelas que dignificaram a vida social dos baianos, tornando-se mais visíveis e mais especiais que os homens, numa cidade onde o machismo sempre imperou em qualquer setor social.
Esta obra prima testemunha que é possível se fazer ciência social sem os arroubos linguísticos tradicionais na escrita de teóricos como Pierre Bordieu ( ás vezes insuportável) que nos afungentam de suas importantes assertivas. A cidade... é um livro inteligível, científico, norteado pelo olhar e pelo texto poético da escritora, pra mim, grande antropóloga. Esta obra, mais a A família-de-santo, de Vivaldo da Costa Lima, são responsáveis pela minha paixão irrefreável pela antropologia. Tornei-me antropólogo, também, por isso.








Deixa o verão

Mariana Aydar( sabor de música)

Deixa eu decidir se é cedo ou tarde
espere eu considerar
ver se eu vou assim chique-à-vontade
qual o tom do lugar.
Enquanto eu penso você sugeriu
um bom motivo pra tudo atrasar.
E ainda é cedo pra lá
chegando às seis tá bom demais
Deixa o verão pra mais tarde
Uh ah ãã aeãeã
Não tô muito afim de novidade
Fila em banco de bar
Considere toda hostilidade
que há da porta pra lá
Enquanto eu fujo você inventou
qualquer desculpa pra gente ficar
E assim a gente não sai
que esse sofá tá bom demais
Deixa o verão pra mais tarde
Uh ah ãã aeãeã
E eu digo,cá entre nós
deixa o verão pra mais tarde
Uh ah ãã aeãeã
Rodrigo Amarante
P.S.: Um pouco daquele verde no ar. Talvez em Nova Iorque. Já.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Logradouro

Caminhar aí, na rua, distraidamente... Alcançar, tocar, sentir, amar, gozar e ir. Sem mais voltar.

Além do Mocambinho

Foto Carlos Barros
O pensamento voa, já foi dito. Meu olhar voa e incide. Traz minha força de querer alcançar. Eu o movo sem álcool e não me aparto de mim. Ver minha imagem e escrever e me lançar ser. Uma esperança de Nova Iorque em mim. Trajetos esverdeados nesse momento de segura escuridão. Preciso viajar com o corpo. Ter-me nos espaços vivos da novidade. Outro sonho feliz de cidade. Musicalizar a memória com o desejo latejando, vibrando, pulsando e... Meus olhos voam mas não se perdem de mim; são minha força correta, feitiço e entrega. Alongam e vivificam minhas palavras. As palavras em mim são meus olhos escrevendo-se.

Ilza e o Mocambinho: lugares gostosos

Foto Carlos Barros

No Largo Dois, no Centro da Cidade da Bahia, existe um lugar banhado de negritude e aconchego. Trânsito de gente bonita,cerveja geladíssima, comida deliciosa,bom serviço e alegria! Mais que tudo: tem a presença mágica de minha amiga, dona do Bar, Ilza, mulher retada, de tempero e destempero como o Tempo, cheia de energia e Axé!
Adoro o Mocambinho, ele trouxe luz para o Centro da Cidade e muita gente especial pinta por lá, para incrementar o papo, falar de arte, de política, de lutas contra o racismo, a homofobia, o sexismo...E, claro, beber muito, comer bem, e sentir prazer...Se não tivesse os últimos eu não iria lá. Assembléia é melhor em outros espaços! Isso mesmo.

Giz

Renatinho ( coragem minha)
E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém aparecer
Ou quando quero
Quando quero
Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És parte ainda do que me faz forte
E, pra ser honesto,
Só um pouquinho infeliz
Mas tudo bem
Tudo bem, tudo bem...
Lá vem, lá vem, lá vem
De novo:
Acho que estou gostando de alguém
E é de ti que não me esquecerei
(Quando quero...
Quando quero...
Quando quero...
Eu rabisco o sol que a chuva apagou...
Acho que estou gostando de alguém...)
Renato Russo

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Edgar Morin:" A Bahia é o coração vivo da cultura brasileira"

Foto: Haroldo Abrantes ( Jornal A Tarde)


Edgar Morin concedeu entrevista exclusiva à repórter Ceci Alves ainda em estado de graça por ter visto, na noite anterior, o Balé Folclórico da Bahia. Apesar de ter sido mais uma das muitas atividades de suas férias baianas, a ida ao Balé Folclórico o suscitou questões sobre as quais se debruça em seus estudos: a globalização e os efeitos que causa na cultura original dos países a ela afeitos. O pensador – que partiu domingo rumo ao Rio de Janeiro e a São Paulo para cumprir agenda de compromissos e palestras até o dia 19 – pondera: “A globalização tende a destruir as culturas frágeis, que não podem resistir, mas fortifica as que encontram em si mesmo sua força”. Isso ele disse, entre outras coisas, na entrevista que segue.
A TARDE O Sr. escolheu a Bahia para suas férias e para a comemoração de seu 88º aniversário. Quais as impressões desta nova estada?
Edgar Morin: Para mim, a Bahia é o coração vivo da cultura brasileira, porque guarda, em si, a simbiose do aporte africano, do aporte português e, infelizmente não tanto, do indígena. A riqueza maior da cultura brasileira, desta síntese, se encontra na Bahia. E é isso que eu, pessoalmente, apreciei bastante. E o balé (Balé Folclórico) que eu vi ontem à noite, com a presença dos orixás, me entusiasmou muito.
AT O Sr. sempre fala sobre a globalização e seus efeitos positivos e negativos nas culturas originais. O Sr. percebeu esses efeitos na Bahia?
EM: A globalização tem dois aspectos contraditórios. De um lado, sobre o plano da cultura, é um processo de homogeneização a partir de um modelo ocidental, que tende a destruir a cultura original, no singular. Mas, por outro lado, esse processo provoca uma resistência da cultura original, que quando é forte o suficiente para resistir, floresce. Na Espanha, por exemplo, o flamenco iria se dissolver num processo de homogeneização e ressuscitou porque muitos jovens tiveram vontade de resgatar e pediram aos anciãos para servir-lhes de modelo. A globalização provoca a resistência da cultura baiana, mas a fortifica à medida em que graças ao vídeo, ao DVD, graças ao concerto que o Balé Folclórico faz na Europa ou na América, encontra vitalidade.
AT A globalização e o neoliberalismo jogaram em conjunto para destruir ou para regenerar a cultura?
EM: É a resistência a esses processos que regeneram a cultura. Desde que a globalização se desenvolveu nos anos 90, provocou uma unificação econômica e técnica e muita resistência étnica e nacional. Os efeitos são contraditórios. Eu acho que, no fundo, foi o liberalismo econômico que provocou a crise econômica atual. E, a meu ver, todo o problema futuro reside em saber se poderemos regulá-lo e controlá-lo.
AT E para onde nos leva esta crise econômica?
EM: Temos que conceber a crise econômica como um aspecto de uma crise planetária múltipla. Temos a crise da biosfera, da degradação da natureza – que é muito perigosa; da sociedade tradicional, desintegrada pelo desenvolvimento; da modernidade, porque, nos países onde a modernidade triunfou, como na França, ela está em crise por não satisfazer às pessoas. Ela provoca uma vida cada vez mais estressada nas cidades, a desertificação do campo, etc. A globalização cria uma crise múltipla e geral para toda a humanidade. E é isso que tem que ser visto. A crise econômica é só um aspecto desta crise maior. E, evidentemente, temos que buscar uma mudança de caminho, porque se continuarmos na via do desenvolvimento técnico, econômico, da modernização, nós vamos ao encontro de uma catástrofe múltipla e generalizada. Ecológica – e não somente ecológica, porque o desenvolvimento técnico e científico conduz à multiplicação das armas nucleares –, que na globalização não existe somente a unificação técnicas, mas há resistências da civilização, há conflitos que começam a se desenvolver. Então, estamos numa crise múltipla e é necessário começar a se pensar em mudar de via. E depois, tem que se ver como mudar de via... Mas isso não é assunto para uma entrevista só...
AT O governo Lula se orgulha de que a crise econômica mundial causou o mínimo de danos e/ou efeitos na economia brasileira e o Brasil está na classe de “país emergente”. Será que esse processo de “desenvolvimento” é favorável para o Brasil, de acordo com o que o Sr. pensa?
EM: Devemos tomar alguns aspectos positivos do desenvolvimento e evitar outros negativos. Por exemplo, se a Amazônia se transforma num gigantesco campo de soja, isso será talvez interessante para a agricultura industrializada da soja, mas será uma grande perda para o Brasil, que perderá uma parte de sua riqueza na biodiversidade vegetal; que perderá a possibilidade de transformar a Amazônia para um novo tipo de turismo humanista; que perderá as culturas indígenas, que fazem parte da diversidade humana. Assim, o Brasil deve procurar o desenvolvimento humano, de sua própria cultura, das relações humanas mais do que imitar a China pelo saldo do crescimento econômico.
AT O Sr. estaria escrevendo um livro sobre estas novas vias de desenvolvimento para a humanidade. É dessas coisas que estamos falando que o Sr. trata em seu livro?
EM: Eu posso simplesmente dizer que, pelo que eu vejo, precisamos ir por vias novas, que devem convergir para a necessidade de uma reforma econômica, social, política, cognitiva, da educação, de reforma de vida e de reforma ética. E todas essas reformas são interdependentes: se isolamos a reforma de vida, ela fracassa; se isolamos uma reforma econômica, ela fracassa. É preciso que essas reformas comecem a progredir juntas. Nós não estamos nem no início do início disso, mas, pra mim, é esta a nova via.
AT O Sr. tem um olhar pessimista do que está acontecendo hoje no mundo?
EM: Na história, há o provável e o improvável. O que é o provável? É aquilo que, para pessoas que estão situadas num momento e lugar históricos, tendo boas informações sobre o curso das coisas, pode projetar sobre o futuro. Mas eu considero que o provável é catastrófico. Nós vamos ao encontro de uma degradação geral, não somente da natureza, mas de nossa própria vida. Mas, há sempre o improvável, e o improvável acontece com frequência na História. Veja, a eleição de Obama, que é um evento muito positivo, pelo menos para mim, e era totalmente improvável seis meses antes. E a via que eu indico é o caminho improvável, que pode se transformar e, ao se desenvolver, virar provável.
AT E onde o Brasil se situa nesta balança?
EM: O Brasil está justamente indo no sentido do improvável para o provável, porque é um país que tem muitas iniciativas criativas, em todos os setores da sociedade civil, em todas as regiões. Tomemos, por exemplo, o caso da reforma que me interessa, a reforma da educação, eu acho que o Brasil é mais avançado para ir atrás desta reforma que muito país por aí. O Brasil tem a vantagem de poder olhar, do Atlântico, a África e a Europa, do Pacífico, o Japão e a China. E tem, em si mesmo, uma população que veio do Japão já há bastante tempo, e, agora, da China. É um país que é muito bem situado. É um país que tem muito recurso natural, que o ajuda a não ser tão dependente do mundo exterior. E, de resto, ele tenta, neste momento, depender muito menos, tanto econômica quanto tecnicamente, dos Estados Unidos, o que pode fazer ao ter seu próprio petróleo ou comprando aviões mais na França do que nos Estados Unidos... Bem, o Brasil é um país que, do meu ponto de vista, pode ter um papel de motor, mas ele tem que mudar a concepção muito esquemática do desenvolvimento, que é puramente o econômico e o técnico.
AT Quais são aspectos humanos precisam ser recuperados para enxergar esta outra via de desenvolvimento?
EM: A convivialidade. Quando eu passeei pelo Centro Histórico de Salvador, eu vi pessoas que estavam nas rias, sentadas em cadeiras, que comiam... Eu via a relação humana. Mas quando se constrói como em São Paulo os grande imóveis, gigantescos, não há mais as relações pessoais. É preciso saber salvaguardar a qualidade dos relacionamentos humanos, pessoais. E é isso que é ameaçado se nós fazemos o desenvolvimento técnico e econômico às cegas.
AT Aqui, no Brasil, o governo pratica, cada vez mais, uma espécie de “capitalismo Robin Hood”, que tenta descentralizar os recursos para que cada vez mais pessoas tenho acesso ao dinheiro – principalmente na cultura. Mas não há muitos avanços na formação das pessoas que o recebem. É como se o dinheiro fosse dado aos “desvalidos culturais”, para desafogar-se um pouco da consciência pesada de não cuidar condignamente destas manifestações. Vale a pena dar dinheiro, mesmo sem preparar o terreno para isso?
EM: É possível que sempre haverá um número de pessoas que podem utilizar esse dinheiro para fins culturais. Não conheço suficientemente o contexto baiano para dar um julgamento definitivo, mas isso que a Sra. me diz mostra que o importante é, efetivamente, formar as pessoas em um conhecimento mais complexo, mais rico, a uma cultura que combine um conhecimento científico, literário e artístico e salvaguardar todas as qualidades que vêm da tradição. Por exemplo, acho que se o Balé Folclórico recebesse dinheiro, ele seria muito bem utilizado. Mas isso depende das instituições e das pessoas que recebem o dinheiro.
AT ...E justamente eles vêm reclamando de não ter dinheiro suficiente para tocar as suas atividades, porque o governo contingenciou o repasse de verbas por conta da crise...
EM: Olha, se eu fosse o governador do Estado da Bahia eu saberia o que fazer, mas, para isso eu preciso ser eleito (risos)! Vou lançar minha candidatura, para poder responder a isso (risos)...
AT Estamos, então, no caminho da degeneração ou da regeneração?
EM: As forças de regeneração estão ativas na base das sociedades, mas as forças de desintegração são forças dominantes. Então, não sei ainda quem vai ganhar.
AT E na Bahia, quais são as forças que jogam?
EM: Vejo, em todos os casos, a resistência de uma cultura rica e todas as resistências comportam um aspecto positivo, porque quando dizemos não a alguma coisa que não convém, este não significa um sim a algo que convém. E o sim é desenvolver sua própria riqueza cultural.
AT E o que vem depois da globalização? Haverá uma outra fórmula sendo gestada?
EM: A globalização começou no fim do século XV, com a conquista das Américas, com a colonização, a escravidão, e se transformou, no século XX, quando houve a descolonização. Mas havia, também, as hegemonias econômicas e se transformaram na dominação da economia capitalista no planeta... A globalização vai conhecer outras transformações. E se ela não conhece transformações positivas, para uma sociedade, haverá regressão, caos e desastre diferentes. Frequentemente a humanidade volta atrás e toma o a caminho da decomposição. Agora, será ou a decomposição do que existe ou um novo tipo de globalização. Eis a minha profecia (risos).
AT Quais são aspectos humanos precisam ser recuperados para se enxergar esta outra via de desenvolvimento?
EM: A convivialidade. Quando eu passeei pelo Centro Histórico de Salvador, vi pessoas que estavam nas ruas, sentadas em cadeiras, que comiam... Eu via a relação humana. Mas quando se constrói como em São Paulo os grande imóveis, gigantescos, não há mais as relações pessoais. É preciso saber salvaguardar a qualidade dos relacionamentos humanos, pessoais. E é isso que é ameaçado se nós fazemos o desenvolvimento técnico e econômico às cegas.
AT Estamos, então, no caminho da degeneração ou da regeneração?
EM: As forças de regeneração estão ativas na base das sociedades, mas as forças de desintegração são forças dominantes. Então, não sei ainda quem vai ganhar.
AT E na Bahia, quais são as forças que jogam?
EM: Vejo, em todos os casos, a resistência de uma cultura rica e todas as resistências comportam um aspecto positivo, porque quando dizemos ‘não’ a alguma coisa que não convém, este ‘não’ significa um ‘sim’ a algo que convém. E o ‘sim’ é desenvolver sua própria riqueza cultural.
( Entevistadora: Ceci Alves; entrevistado: Edgar Morin; Caderno 2 - A Tarde//13 de julho de 2009).

Verde traz


"Verde, as matas no olhar, ver de perto
Ver de novo um lugar, ver adiante
Sede de navegar, verdejantes tempos
Mudança dos ventos no meu coração
Verdejantes tempos
Mudança dos ventos no meu coração"
Eduardo Gudin/Costa Netto

domingo, 12 de julho de 2009

João Antonio, quem mais seria?

João Antonio
Um escritor é um delineador de horizontes. Há escritores que reinventam a vida sem inventar nada, ou melhor, sem sair da vida, do cotidiano, e a explicita de modo invulgar falando a linguagem de todos e sendo a melhor literatura.
O escritor paulista João Antonio é exemplar na construção de prosas invulgares sobre o nosso cotidiano. Deslizando sobre temáticas às vezes assombrosas, como a criminalidade, outras incomuns, como eguns do Candomblé de Babá, da Ilha de Itaparica, ou fala da eterna Araca, A dama do Encantado, a saudosa Aracy de Almeida; tudo com o requinte de quem nasceu para a literatura e presta imensos serviços culturais a um país, este país, como o nosso.
Jornalista autoral, João Antonio me foi apresentado por outro mestre do jornalismo, um menino de 26 anos, um dos melhores no ramo da comunicação escrita que eu conheço: Claudio Leal. Foi Leal quem me emprestou Abraçado ao meu rancor, me fazendo, como neófito, viajar na escritura deste João que, às vezes, nos arranca as vísceras. Li também, e confesso, com mais prazer, Malagueta, Perus e Bacanaço, saído pela Cosacnaify, e que está em promoção nas "Saraivas" de Salvador, apenas 19,90. Imperdível. Compra-se barato e vive-se experiências espetaculares, de casa, economizando muito, porque com esta leitura a gente só sai para o trabalho.

sábado, 11 de julho de 2009

Densidade


A cidade é Nova York. A cantora é a maior de todos os tempos. O pensamento é um intervalo entre ser e querer sem ditames do tempo. A voz me arde no Centro da Cidade da Bahia . Uma caminhada longa desvela fragilidades. O peito reage alegre sem saudade e reabre-se para novos preenchimentos. Esperança é assim. Olhos verdes na minha cara apontando alguma solução. Nova York é logo ali. Meros pensamentos aquecidos no lamento bonito daquela voz feminina.

O que é tele-transporte? A alma pode viajar? O que é estar lá sem sair daqui? Ver é amplo e cruel. Não ver dói mas sossega. Eu quero embarcar. Chegar na imensidão das novidades. Me deslumbrar e escrever obviedades. Quero me sentir mais vivo. Doer de prazer. Mergulhar no mar verde do meu querer e sair inteiro. Ter sobrevivido.

Cada recorte vocal é uma sensação de novidade: a maior paisagem que um ouvido pode sentir e navegar. Encontro com a tristeza maioral. Sem pejuízos. Intacta inspiração. Vestes do blue ansiando um outono em NovaYork.

Nova York - para que o novo seja novo em mim. Billie Holiday.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A danaide


A danaide - Escultura de Auguste Rodin


Esta obra comporá a exposição com peças de Rodin, no Palacete das Artes, em outubro próximo, e é alusiva a lenda das danaides - outra história de condenação. Me fascina essa coisa de carregar água, ainda que de modo vão, pela eternidade afora. De certa forma, me vejo nessa tarefa. Carrego se esvaindo de mim a imagem líquida do amor (des) sentido.


Um pouco da lenda:


"O irmão gémeo de Dánao, Egipto, tinha cinquenta filhos, que foram instruídos a casarem-se com as cinquenta filhas de Danao, as Danaides. Dánao preferiu fugir para Argos, onde foi recebido pelo rei (algumas fontes dão o nome de Pelasgo, outras de Gelanor). Houve uma disputa pelo trono, mas Pelasgo entregou-o após um oráculo dizer para o fazer. Entretanto os filhos de Egipto perseguiram Dánao até Argos, e para evitar uma guerra ele concordou finalmente com o casamento das suas filhas. Porém, intruíu-as para matarem os seus esposos na noite de núpcias. Todas cumpriram o combinado, excepto Hipernestra (ou Amimone). Danao puniu-a por isso, mas Afrodite interveio e salvou-a. Mais tarde, Dánao perdoou-a e permitiu-lhe permanecer casada com o seu marido, Linceu. As restantes quarenta e nove Danaides tiveram como noivos os vencedores de várias competições organizadas pelo seu pai. Danao foi mais tarde morto por Linceu como vingança pela morte dos seus irmãos.
Em algumas versões, as Danaides que assassinaram os seus esposos foram punidas, no Hades, a encherem de água uma jarra com furos, por onde a água voltava a sair."


Fonte: Wikipédia ( não tive alternativa).

Morada de Mim


Dos lugares que posso alcançar
De tudo que posso amar
Da força que quero exercer.
Da beleza que me ocupa
De alguma certeza que quero em mim
Da água mais irrefutável.
Da minha cama natureza
Ao lado dos meus irmãos
Dos meus olhos que ao verem, me acalma.
Do destino de assombro e proteção
Dos lençois baluartes
Caminho entre sonorizações.
Do feminino que me habita
Luz sobre os instantes
Mítica cidade que procuro.
O mar
do mar
para o mar.
Morada de mim.

Stevie Wonder: voz interplanetária

Stevie Wonder
P'ocê
Para que eu melhore um pouco mais e colha do mundo sabor. Veja novos lugares da aeronave que é a voz: Stevie Wonder. Presença negra negra negra negra em minha vida. Luminosidade que só a música traz. Balanço do corpo, dança da memória. Maravilha. Marcas do melhor que a cultura estadunidense tem. Corte e reconstrução. Maravilha. Poética invasiva : outra África em ressignificação. Voz interplanetária, múltiplas comunicações, assim:
La la la la la la La la la la la la
My Cherie Amour, lovely as a summer's day
My Cherie Amour, distant as the Milky Way
My Cherie Amour, pretty little one that I adore
You're the only girl my heart beats for
How I wish that you were mine
In a cafe or sometimes on a crowded street
I've been near you, but you never notice me
My Cherie Amour, won't you tell me how could you ignore
That behind that little smile
I wore How I wish that you were mine
Maybe someday you'll see my face among the crowd
Maybe someday I'll share your little distant cloud
Oh, Cherie Amour, pretty little one that I adore
You're the only girl my heart beats for
How I wish that you were mine
La la la la la la
La la la la la la
(Mon Cherie Amour, Stevie Wonder)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Da imensidão do que eu não sei


Tenho me movido à Fé. Ainda que amargo e insatisfeito. Circulando entre os diferentes sendo eu o mais anômalo. Tenho me achado no seio das convenções e tão impróprio a elas tenho sofrido sem perdão. Agora não há um lugar que me alie ao mistério; não quero compreender, quero sentir e saber por que tão sensível? Hoje não há solução e a violência alheia me alcançou e eu não me absolvo do insucesso de não saber esquecer. O tempo pesa e me expulsa de mim. Quanta coisa a realizar e quanta coisa a aprender. Vivo desta busca: aprender-realizar. Meu peito vagueia neste dissabor. O Rio de Janeiro à minha frente e eu por nada em Salvador ao longo de uma vã conflituada desvelada caminhada na vontade de Ser-Me. Algo para além daqui no coração meu que me aniquila. A vida, em minha tradução, é assim: imensidão e basta! Falta da morada no olho outro que morreu de mim. Hoje é inverno.
Que a Fé me devolva à esperança, combustível maior que preciso para insistir na busca. Pronúncias do prazer por saber que mesmo perdido eu também participo deste louco mistério que é viver. Ouça: meu coração ainda pulsa, não sei como mas...Pulsa.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Minha cabeceira

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
Clarice Lispector

Por que tão sensível?

Ah, mundo tosco! Tanto desconforto para nada. Nada em pleno deserto. Figurações do obtuso. Nenhuma cena protagonista. Todo mundo imundo na normalidade difusa. Todos enquadrados na coragem violenta: violentar meramente o outro. Subjugar necessariamente. Postular óbitos indevidos. Maltratar. Vê sangrar o outro. Dinamitar sonhos. Infernizar. Quantos?
***
Eu quero uma canção em mim. Guiando-me para dentro do que desejo ser. Fazendo-me ver sol à noite. Acordando-me, quando de verdade, para novos amanheceres. Parece que eu não estou aqui...Tudo retilíneo sem comportar sensibilidade. Não me quero em reproduções comportamentais de nenhuma espécie. Tenho direito de ser o avesso de mim mesmo e comunicar integridade nisso. Quantas manhãs turvas eu tenho que suportar. Turbulência demais desaba a gente. E eu grito isso. " Aonde tem gente neste mundo?". Quanto fedor e desejo exterminador. Há brilho e esperança em mim. Quero antes do fim, aclive!
***
Nem beber eu tenho podido. Devo usar a saúde em quê? Em quem? Pessoa dizendo: "quem não quer sofrer que se isole". O mundo é um moinho que no tempo tritura depressa. Tenho sede. E destilo senti-mento. Um vasto e daninho caminho e eu nele sem direção. Nem o abismo sei onde fica. Mil perguntas me assolam e minimizam o desalento em mim." Vai e diz que eu chorei, que eu morri". " Quero ver de novo a luz do sol". Eu preciso saber o que é "o novo". E me ver rezando. Ver o dia movido pela fé na alegria e encontros gerando. Saborear morangos. Ter agridoce. Renascer.
***
Receber em uma carta manuscrita: eu amo você. E dedilhar algumas páginas no silêncio apaziguador da profunda felicidade. O melhor mundo é uma temática feminina. Eu vou assim. Uma bermuda branca cobrindo uma cueca vermelha e uma camisa rosinha dizendo coisas a todos, longe do novo, dizeres tolos repetitivos banais padronizados e mecânicos. Minha roupa tão linda e limpa atentando contra mim? " Aonde tem gente neste mundo?". Que vente muito neste fim de tarde entre sol e chuva. Minha música é saudade. E eu vago assim.
***
Uma voz feminina ao longe. Um canto. Mitos desfiando em minha consciência o ser de mim. Sons da selvageria salvadora. O começo de tudo. O antes do mundo e eu vendo como um sonho. Ares, mares, ventos. Eu de uma janela em profundo alcance. As perguntas em desgaste. O mito no ritual da minha auto-delação: a escrita. Tudo mais simples abrigando a vindoura civilização. Meus olhos, desde lá, aprendendo o deslumbramento. A voz me rasgando em sua cor vermelha. Eu no sentido indecifrável da paixão. A voz mito de uma natureza humana. Deusa. O canto. Eu chorando a pesada futura solidão. A missão da antevisão. Meu olhar de lindeza sobre o mundo me ensinando a fraquejar de emoção. Eu que me perco e me embriago em mim mesmo. Avante, sozinho, sem porquês. Límpido no que vejo e adoro. O peso da vida e luz clareando a visão. Minha boca suja, meu corpo à espera,tantos sonhos meus, minha pele azul, minha adoração incontida, lágrimas oceânicas, minha força, meu destino nesse meu eu de amor.
***
Por que tão sensível?

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Mahler e aquela sinfonia

Gustav Mahler(7/07/1860# 18/05/1911)
Era tudo vazio. Movido a som que trazia tristeza. Um conto no formato película para também prender os olhos. Olhar fugidio de um sob a observação idólatra do outro. E aquela sinfonia ambientando Veneza na memória: presença de mar, gôndolas, versos soltos, orquestração de violino, cinza brilhante, olhos castanhos, lágrimas mínimas, fastio, sentidos, obrigatoriedade... O tempo faltara e exterminara o sentimento amor tido como atemporal. O tempo gastou-os de espera e de fato, nada houve a não ser de um lado. Idolatria misturada à sinfonia do maior dos eruditos. A vontade de viajar e de lá, promover o êxito artístico da junção entre Mahler, Mann e Visconti. A vontade, é claro, destes juntos mas enviesados a um final feliz.
***
A vida passa. Para além do que se imagina e extermina. Sonhos e desejos. Corrobora o desespero de se morrer sem o alcance do maior sentido. A vida passa inscrita no lamento de uma sonorização avisando-nos: vocês estão de passagem mas eu, música atemporal, não. Entre adagietos e allegrettos tudo escorrendo para a morte. Notas descrevendo o peso da saudade do inconsumado. Desvarios e prelúdios do quase sepultamento. Despedida sem se ter como. Escrita no bico do pombo. Imensidão.
***
O corpo como humana ruína. Tanto tempo atrás e a imagem intacta no espelho da memória. Mahler tocando numa eletrola sem data, a novela de Mann largada ao chão, o vento trazendo com força tudo em identificação com o filme de Visconti. E agora, na boca, uma bala com gosto de frustração. E muito sangue.
***
A vida, às vezes, é assim: desilução. E pequenas mortes nos acontecem todo dia. Da éterea sensação de eternidade só a arte não é passageira. Até o sentido maior do que foi produzido pelo humano se esvai fedendo quando não há encontro. Mas a memória dói e corrói para nos mostrar fracos. Iludidos e pesados. Leves só na ânsia, e por ter cometido loucuras tentando firmar-se no sentimento sofismado. De um lado. Do outro, a entrega dilacerada íntima da Sinfonia de número cinco de Gustav Mahler; entrega que se cala no afã do alívio descrito no suícidio do amor que não passava.
***
Som da tristeza indescritível e da beleza mais sobre-humana. Como o amor que se morreu.

Saúde Mental

O louco poeta amoroso Cazuza
Por Rubem Alves

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzscheficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes aocomando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, bastar fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.Pensar é uma coisa muito perigosa... Não, saúde mental elas não tinham.Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de políticoque tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se software,"equipamento macio". O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito.O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes.

Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos,entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturisconsertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele.

Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que otoca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saía de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou.Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias. Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes.

A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música.Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o funk pode ser tomado à vontade.Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensarásempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato. Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram.
P.S.: Agradeço a meu amigo Cláudio Rangel o envio deste texto do mestre Rubem Alves.

domingo, 5 de julho de 2009

A voz de Maria Bethânia para Clara Nunes

Maria
Suspiro. A voz de Maria para homenagear a voz de Clara. Uma noite de premiações. Luz sobre a música brasileira. E a voz sublime de Maria realçando nossas memórias de outra voz retumbante - marco da nossa história. Um encontro no centro do Brasil significando um encontro no âmago do meu coração. Perfis da nossa grandeza; frutos da nossa brasilidade. Formato luso-africano da inventividade do cancioneiro nacional. Maria Bethânia ressoando-se em outra cantora que em muitos aspectos se assemelhava a ela. Mas eram, ou melhor, são bem diferentes...
Prêmio de Música Brasileira 2009, ano Clara Nunes, Teatro Municipal do Rio de Janeiro, noitinha de 1 de julho e a canção mais celebrada na voz de Clara, minha favorita, Conto de Areia, na voz sem igual da maior cantora desta terra, Maria Bethânia. À letra:


É água no mar, é maré cheia ô
mareia ô, mareia
É água no mar...

Contam que toda tristeza
Que tem na Bahia
Nasceu de uns olhos morenos
Molhados de mar.

Não sei se é conto de areia
Ou se é fantasia
Que a luz da candeia alumia
Pra gente contar.

Um dia morena enfeitada
De rosas e rendas
Abriu seu sorriso moça
E pediu pra dançar.

A noite emprestou as estrelas
Bordadas de prata
E as águas de Amaralina
Eram gotas de luar.

Era um peito só
Cheio de promessa era só
Era um peito só cheio de promessa (2x)

Quem foi que mandou
O seu amor
Se fazer de canoeiro
O vento que rola das palmas
Arrasta o veleiro
E leva pro meio das águas
de Iemanjá
E o mestre valente vagueia
Olhando pra areia sem poder chegar
Adeus, amor

Adeus, meu amor
Não me espera
Porque eu já vou me embora
Pro reino que esconde os tesouros
De minha senhora

Desfia colares de conchas
Pra vida passar
E deixa de olhar pros veleiros
Adeus meu amor eu não vou mais voltar

Foi beira mar, foi beira mar que chamou
Foi beira mar ê, foi beira (2x)

Romildo S. Bastos/Toninho


P.S.: Viva a Música Brasileira!

sábado, 4 de julho de 2009

Waly Salomão - lembrando o poeta

Waly
Na Esfera Da Produção De Si-Mesmo (II)
Leituras Noturnas
Tenho fome em me tornar em tudo que não sou.
E o propósito não cumprido de ficar noite adentro a ler Fernando Pessoa e ir tendo minhas pestanas queimadas para nada. Mas que diferença faria tê-las queimadas para alguma coisa se a imagem que tive com a luz do quarto apagado quando acendo a luz com a luz do quarto apagado quando acendo a luz quando quando a imagem que tive com a luz do quarto quando quando quando acendo a luz quando a imagem que tive quando a luz do quarto apagado quando acendo a luz e tento apreendê-la se me foge ou já não é a mesma -
irreconhecível na expressão embaralhada. E o que seria "tê-las queimadas para alguma coisa" se o fundamento da ação é sempre vão e as etapas não duram um brusco diário.
Leio até me arderem os olhos
O livro de Fernando Pessoa.
( Linda alucinação: retirada do livro Gigolô de Bibelôs,pela Rocco. Adoro)

Áurea Martins - o reconhecimento

Áurea Martins
Surgida para o mercado em 2003, a veterana cantora carioca Áurea Martins,que recebia elogios de Elizete Cardoso, nos idos anos 60, dona de uma voz poderosamente bela, levou o Prêmio de Música Brasileira 2009,antigo Prêmio Tim, como melhor cantora de MPB, pelo irrepreensível CD Até Sangrar, lançado em 2008,pela Biscoito Fino.
Que cantora e que justiça: há horas que eles acertam e cumprem o papel de premiar quem mais beleza musical acrescentou ao cenário brasileiro no ano anterior à premiação. Até Sangrar não é um trabalho fácil. É uma audição de doer e deve ser descoberto,embalado e oferecido à vida! Coisas do Brasil ! Coisas cariocas e nossas! Que cantora! Hora mais que merecida!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Paula Toller: nossa voz pop em 2008

Prêmio é bom. Principalmente para quem está em cena há mais de vinte anos e já foi chamada de gata miadora, mosca morta, adolescente tardia e sempre continuou. Paula Toller, lider e voz do nosso Kid Abelha, ganhou o Prêmio de Música Brasileira 2009, pelo ano de 2008, como melhor cantora Rock Pop, finalmente reconhecida como figura séria e importante no cenário musical deste país. Afinada e dona de uma voz deliciosa, Paulinha traz memórias mágicas da minha adolescência;nunca deixei de acompanhar o Kid e adoro os CD's solos da artista. Essa coisa do coração apegado a paixões juvenis, como se isso tivesse idade, é bem entendido pelo canto da musa maior do Rock nacional, depois de Rita Lee, é claro! Parabéns, Paulinha...Resiliência sempre! Adoro seu trabalho.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A dor e a delícia de ser mulher

Nadine Labaki

A vida não precisa ser uma obra prima para concentrar beleza, leveza, doçura, tristeza, amor e movimento. Nem precisa ser uma tese de doutorado reificando o machismo que ainda prepondera neste planeta. Não precisa se reduzir a discursos de feministas e nem desafiar a alegria em nome de ideologias disputando hegemonias. Tem momentos, e esses são os mais prezerosos, que a vida está numa tela de cinema desenhando uma cultura, musicando a dança do feminino, trazendo à tona formas deliciosas e doídas da mulher se exercendo e nos convidando a sentir com risos nos lábios e lágrimas nos olhos.
Tão simples quanto gozar e sentir saudades do amor. Imagens que declaram: vale a pena e muito pode ser feito. Dançar. Tomar sorvete. Caminhar. Ler aqueles textos de lá. Sonhar na voz de Mariana Aydar. Fazer algum trabalho. Seguir em conversas. Trocar poemas.Ter mistério. Falar de verdade. Exercer a Fé!
A mulher é um ser de encantamento:tão próxima e tão mistério! Não é esta coisa de ter filhos, cuidar do marido ou ser muito gostosa.É cor nos ambientes trazendo segurança. Beleza vívida... Superação dos mitos Oxum Afrodite Yara. E se quiser, pode ser mãe, cuidar bem do amor e ser muitíssimo gostosa. Doer e gozar de feliz! Uma velha que guarda papel como cartas de amor. Uma lindona amante que espera burramente...Uma senhora que não sabe do seu tempo...Uma falsa virgem precisando enganar...E uma lésbica linda e cheia de romantismo. Tudo bem devido se todas elas fossem só isso. Não são e o que chega dali ilumina o coração naquela possibilidade.
Caramelo, o filme, é um recorte de uma mulher libanesa homenageando Beirute, e nos adoçando neste instante que temos e chamamos de vida. Como vale a pena e como é bom ver mulheres filmando e se mostrando nesta coisa do ser feminino. Gênero descrito na leitura de mulher. O resto parte daí e depois, de dissertações e teses, vira livro. Antes, é película, beleza e prazer.
P.S.: Carmezim, obrigado,viu? Nunca deixe de escrever!!!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Caramelo e o universo feminino

Por Vitor Carmezim

"Rimbaud

E

de repente percebi
que par délicatesse j’ai perdu ma vie”

Neide Archanjo, em Todas as Horas e Antes


Uma mulher que namora um homem casado e anseia que ele desfaça o casamento. Uma muçulmana que vai se casar, mas não sabe como dizer ao futuro marido que não é mais virgem. Uma atriz que não aceita a velhice. Uma mulher que sente atração por mulheres. Uma senhora que abre mão da vida em função da irmã mais velha.
Em Caramelo (Sukkar Banat, 2007, Líbano/França), os substantivos femininos reinam. E também flutuam, imperiosos, os sentimentos que povoam o universo feminino sob a forma do desejo, da abdicação, do receio, da superação, da submissão, da crença no amor. Da beleza. Do cuidado.
A história se passa, boa parte, dentro do Sibelle, salão de beleza do qual são donas três das personagens citadas acima. Ali, entre bobs, escovas, pinças, alicates, os dilemas são postos, sem maquiagem. Ali, fluem as conversas e as opiniões de umas com as outras, e o espectador passa a mergulhar nos meandros da alma feminina, tão rica, misteriosa e bela.
Rima mostra que gosta das mulheres com o olhar. Nada diz o filme todo sobre isso. Cala, num “silêncio que não é mudez”, como escrevera Ana Cristina Cesar.
Layale – vivida pela atriz Nadine Labaki, que também dirige o filme – vive às voltas com sussurros ao celular e buzinas do carro do homem misterioso cm quem se relaciona: um homem casado. É a história da entrega, das amarras de um amor em suspensão todo o tempo.
É pelas mãos de Layale que o caramelo do título aparece na sua forma mais visceral: a mulher do seu namorado vai ao salão para se depilar. E será tratada por Layale, que antes de aplicar o produto, se delicia, às escondidas, com o sabor do caramelo utilizado como cera – o sabor da vingança, da vitória enviesada, do doce se sobrepondo ao amargo de viver na sombra.
As outras histórias do filme têm também suas riquezas e pequenas pérolas imperdíveis. Pedras brilhantes engendradas no modo feminino de encarar o mundo, viver as relações humanas: todas elas emolduradas sob a égide do amor.
É impossível escapar do impacto doce de Caramelo.
Retirado do blog Inéditos e Dispersos (http://carmezim.wordpress.com/)

Do mistério

(...)
Por que eu me permito? De onde vem o vaticínio desta entrega?O que me prende ,à revelia de mim, ao sabor do nada que fora de mim se basta em fascínio e sedução? O que me desfaz para me completar por inteiro? Faz-me secar de desejo para depois operar o milagre da inspiração? Será o amor uma horda?Será o amor um intento do constante vazio?Qual a limítrofe entre afeto e fixação? Devo caminhar em silêncio?O que devo ler nos olhares que recebo?Por onde se ergue a desistência?Qual a palavra ainda não dita? Palavras não falam.
(...)
Eu não escrevo para ninguém. Há movimento interno demais e despejo algumas coisas ininteligíveis para dentro da trituração alheia. Sem direção nem alvo. Sou-me seta atônita louca crônica indo a nadificação. Pouco me valhem, aqui, sociologias...Filosofia é o peito pedinte e me sobram palavras que não atingem. Por que tenho que atingir? Meu segredo invalida as conhecidas formas de comunicação. O que busco ainda não foi inventado. Minha palavra inexistente vê. Desejo. Outro tempo para além do corpo e próximo da alma. Estou depois aqui no presente sem possibilidade. Quero uma outra cultura que me sirva em satisfação. Quero ir irrigado em mistério para dentro do sonho real.
(...)
Por que sempre falta tempo? E coragem? E sorte? Permissão. O mundo é um moinho. Tudo caminha para o dessentido. A órbita dos estabelecidos, dinâmica do Poder, é que dá sentidos à vulgaridade que fundamenta o humano. A ordem é medíocre: nem menos nem mais. Meio, sem chances de aclive. Basta. Não subverta. Caminhe na posse da reiterada caminhada. Pouco movimento. Signifique o que você deve ser. Na ordem.
(...)
Meu coração é subversivo e cheio de razão. Aliás, cheio de ditames emocionais. O que sou, sou porque sinto! E vivo a me perder nas imagens de uma escrita próxima, lânguida, mágica, mas: covarde. A razão que não é minha me diz que o "tempo passou", "se desgastou", "avante", "esqueça e siga". Não esqueço e escrevo numa linha daninha contra o "meu". Ser sendo no que posso querer de uma alma poética. Vivo numa circular espera. Repito repito repito repito repito repito repito feito água numa pedra.
(...)
Meu coração é puro mistério. É amor.

A atriz e a estrela

Emma Thompson
Julia Roberts
Não tem jeito: o cinema tem cara. Ou caras. E são elas que nos acompanham em nossa trajetória de espectadores; e algumas nos arrebatam por questões muitas vezes inexplicáveis. Muito longe de querer exprimir formas do talento, quando penso em Julia Roberts me dá uma alegria indefinível. Adoro ela na tela. Ela que é uma atriz regular. Ela que às vezes é linda, outras tão feia, mas sempre ilumina com sua presença os cinemas mundo afora. É uma estrela. Ampla dimensão atingindo nossos olhares. A Malu Mader estadunidense. Filmes com ela me atraem.Ultimamente Hollywood tem faltado com meu prazer estético.
Mas também tem, no cinema, o magnânimo talento. Revestido de beleza. Desenhado em doçura e elegância discreta. Às vezes o talento grita e nos intima a assistir filmes monótonos só para ver a arte acontecer. A arte da representação. O toque mágico de dar vida, com primor, a outros que autores, nem sempre muito inspirados, criam. Às vezes é algo shakespereano, inteiro, ocupando nossa recepção e explicando-nos sobre a grandeza de um ofício. Há quem afirme que falta nela química cinematográfica e que deve muito a Vanessa Redgrave e Meryl Strepp ( estupendas!!!)... Eu falo de Emma Thompson, atriz inglesa, que assim como Marília Pêra e Fernanda Montenegro, em talento, não deve nada a ninguém no mundo.

Adeus, Pina Bausch

Pina Bausch

A dança moderna perdeu um dos seus nomes mais expressivos: Pina Bausch. Coreógrafa alemã que encantou o mundo com destreza e paixão; iluminou de movimentos as raias de espectadores por todo Ocidente e se tornou também conhecida a partir das imagens de Fellini e Almodóvar. A primeira vez que ouvi falar sobre ela foi através de um depoimento de Caetano Veloso( tinha que ser) e daí passei a prestar atenção na grande bailarina que pude conferir melhor em cenas de filmes de Pedro Almodóvar.
Ela era um rastro de leveza e força. Descobriu-se com câncer recentemente e cinco dias depois morreu de modo repentino. A dança contemporânea louva Bausch e nós, espectadores, damos adeus à sua grandeza artística. Bravo!