domingo, 28 de fevereiro de 2010

Clarice Lispector



Destravo-me assim na sofisticação diária desta escrita. Repito-me sentindo o mundo que é metade de mim e quando lembro a terra treme, os rios secam, o mar evolui... Nada do que digo ou escrevo se grava em leituras e escutas por ser tão somente barulho apaixonado. Só me permito. Ânsia violenta. Tinta de sangue. Escritos diários nas paredes dos banheiros dos bares em que me embriago e ninguém poderá ler. Minha mensagem nasce fadada ao fracasso e se não desisto é porque nunca me saberia diferente. Eu, em Clarice Lispector, destravado dando o passo humano inscrito numa novela. Tem amor no meu coração; eu lembro e me espelho mais vazio nas palavras que vêm dela:
"Estou a um quase passo de admitir que a vida que levo é um pretexto para ofuscar a vida que não gostaria de ter. Vida como desculpa por existir. E o incrível é que eu não dou o passo. Fico tão imóvel que estar parada é o meu maior movimento. O mais violento. E não consigo sair exatamente daquele lugar onde todas as sensações ocorrem, justamente por estar tão grudada em mim é onde mais dói: na pele. "

Só assim eu amanheço.

Deveres, arre!

Devo querer dizer para fora do vazio
Devo me perder entre pessoas e olhares
Devo alongar distâncias e não permitir
Devo ser cruel e fechar os braços
Devo violentar a poesia e ser só matemático
Devo cobrar justiça de Deus
Devo desistir dessas coisas de mares
Devo ter novas roupas e etiquetas
Devo matar a solidão com qualquer pessoa
Devo ler e escrever e ter sucesso
Devo dominar as regras gramaticais
Devo mentir mais sobre paz e amor
Devo banalizar as flores
Devo aceitar o conselho dos felizes
Devo me dilacerar em nome das posses
Devo crescer e esquecer infantilidades azuis
Devo espezinhar religiões
Devo duvidar da fé
Devo arranjar disciplina cartesiana
Devo parar de sonhar
Devo parar de esperar
Devo esquecer a escrita
Devo negar o que me inspira
Devo apagar minha memória amorosa
Devo seguir os caminhos que me apontam
Devo deixar de ser o que escolhi para mim.

Basta! Assim, prefiro morrer...
Eu não devo nada!!!

Astrud Gilberto

Ela é nascida em Salvador, viveu alguns anos no Rio e desde 1963, mora nos Estados Unidos. Bela voz, foi mulher de João Gilberto, com quem teve um filho, João Marcelo. Tem algumas interpretações memoráveis da Bossa Nova cantada em inglês; acompanhou João em algumas das suas incursões musicais com Stan Getz e hoje, de modo discreto, é um nome festejado pelos cultuadores deste gênero musical que conquistou os estadunidenses. Astrud é baiana e é uma cantora que merece ser vista, ouvida e lembrada. Sempre.

Gal Costa


No céu , no mar, na terra, canta... Gal Costa! Atotô.

Maria Bethânia: Dezembros


Em 1986 morreu Mãe Menininha do Gantois e Maria Bethânia, dirigida e produzida por Caetano Veloso, terminava essa lindeza lítero-musical chamada Dezembros. Um ano de grande perda na vida pessoal da cantora e a chegada de um dos seus mais representativos trabalhos nos anos 80. Ali tem Yorubahia, de Roberto Mendes e Jorge Portugal; Quero ficar com você, de Caetano Veloso; Doce espera, de Marina Lima e Antonio Cícero; Anos dourados, de Tom e Chico, entre outras. É um disco que festeja e deve ser festejado sempre no cenário musical contemporâneo deste país. Novinho, eu o ouvia tanto e tinha tanta alegria por tudo musical e poético que me chegava na força vocal desta mulher: Maria Bethânia.
Meu domingo está nas vozes de Maria Bethânia ( não tem como não ser), Gal Costa, Chico Buarque e Edu Lobo; e minhas memórias acenando para o encontro. Parace que dizes, te amo, não lembro...

Gal Costa e Chico Buarque: A mulher de cada porto


Profícua tríade musical: Gal, Edu e Chico...
ELE
Quem me dera ficar meu amor, de uma vez
Mas escuta o que dizem as ondas do mar
Se eu me deixo amarrar por um mês
Na amada de um porto
Noutro porto outra amada é capaz
De outro amor amarrar,
ah Minha vida, querida, não é nenhum mar de rosas
Chora não, vou voltar
ELA
Quem me dera amarrar meu amor quase um mês
Mas escuta o que dizem as pedras do cais
Se eu deixasse juntar de uma vez meus amores num porto
Transbordava a baía com todas as forças navais
Minha vida, querido, não é nenhum mar de rosas
Volta não, segue em paz
OS DOIS
Minha vida querido (querida) não é nenhum mar de rosas
ELE
Chora não
ELA
Segue em paz
Edu Lobo/Chico Buarque
P.S.: Volta, para que eu fique em paz.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Acesso

O seu nome me alucina excita cala transporta...
O seu nome fita minha boca
Que vê nos seus olhos a
Senha de acesso para
O beijo secreto
Que não demos
Mas é.

Porta do vento

Quando há sonho azul em mim
É porque adormeci pensando em você

Elegância Poitier

Sidney
Poitier

Primeiro me foi Ao mestre, com carinho; depois Adivinhe quem vem para o jantar e O sol tornará a brilhar, todos versando sobre questões interraciais e o jovem Poitier, um dos melhores atores do cinema mundial, desfiando talento e beleza e se afirmando como ator e negro na torrente racista fábrica de sonhos chamada Hollywood.
Ao mestre, com carinho marcou minha infância, assisti aos 9 anos, e nunca mais esqueci este filme que até hoje se embala em mim, ao som daquela canção na voz da cantora inglesa Lulu.
Amanheci com saudades de Sidney Poitier, o ator do primero filme que vi sobre educação, professor e alunos, as complexidades desta relação, as dores, as cores e mais que tudo: os amores que se eternizam daí!
Signey Poitier, orgulho negro de quase 83 anos do grande cinema feito no mundo!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Gal Costa: sua voz, nossa vida


Gal


O tempo é paralelo e em várias dimensões. Ele me reordena num processo de animação visual e auditiva e tudo que apreendo chaga a mim em fragmentos da arte. Meu vínculo super humano. Contrapontos do que sinto em formatos de passado virando futuro, de futuro ameaçado e presente lotado de saudade. Saudade imprimida na doçura afinada da mais bela voz... Cantiga.

O tempo que me envelhece e me faz, sozinho, rir de mim mesmo; este mesmo tempo que me sangra em poesias e me faz desaprender mas não esquecer. Eu não esqueço.

O tempo é a sabedoria ventando, é a eternidade não sendo. Eu ouço canções para marcar minha duração e fico preso à história delas que também são minha vida sem narrativa concreta.

O tempo é maior que o espaço - deveras; e sigo em cansaço impregnado numa voz que faz a brisa no Porto da Barra e me põe imerso nas memórias que achava ter ficado para trás.

O tempo é. 65 anos quase e um abrupto afastamento. Mulher viva patrimônio de uma nação. O tempo é. Escritos espalhados e sem sentido pululando no peito sujeito de homem sem segredos a ouvir canções galcostianas e doer sem morte na ideia da saudade.

O tempo me é saudade se repetindo. Eu sinto e vibro naquela emissão. Tenho a largura do mundo no meu coração maltratado mas eu espero.

O tempo é minha espera alicerçada em cega esperança. Meu tempo se escora e descansa em minha fé. Não tenho história e nunca seria minha vida um livro. Tenho este átimo de presença frente ao meu espelho e quando me vejo já morri.

O tempo é aquela voz sumida que continua - zumbido bem sentido no batuque da minha emoção. Meu chamar Dindi. Meu desligar o motor. Minhas ruas de outono. A cara de Gabriela. O poeta ressuscitando. A lágrima negra que cai e dói. Sua voz, nossa vida.

Meu tempo é ela e ele que não saem daqui.

Vigília das Águas: Pelo fim da violência contra as mulheres





Chamamos TODAS as pessoas que acreditam num mundo livre de todas as formas de violência para ABRAÇAR as ÁGUAS – princípio feminino vital – do Dique do Tororó, num ato por uma vida sem violência, sem racismo, sexismo, lesbofobia, intolerância religiosa e outras manifestações correlatas.

O que? Vigília das Águas
Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres
Quando? 05 de março de 2010 a partir das 17h.
Onde? Dique do Tororó-Salvador/ Bahia



COMISSÃO DE ORGANIZAÇÃO:
Projeto Encruzilhada de Direitos/CEAFRO, Sindoméstico, MST, MNU, Articulação Negras Jovens Feministas, Munegrale, Grupo de Mulheres do Alto das Pombas, Liga de Mulheres de Salvador, Roda Baiana, Força Feminina, CAMA, Ajobi, Terreiro do Cobre, Terreiro do Bogum, Ilê Axé Baba Okê, Casa de Oxumarê, Frente contra a criminalização de mulheres e pela legalização do aborto, Obsevatório da Lei Mraia da Penha- NEIM-UFBA, IMAIS, Coletivo de Mulheres do Calafate, AMIGA, Instituto Búzios, Instituto de Mídia Étnica, Amuleto, Oposição Operária Salvador, Juventude Operária Católica-JOC, CETEFEN, Associação de Moradores de Pau da Lima, Molinmbra, Católicas Pelo Direito de Decidir.

APOIO:
CEAFRO/CEAO-UFBA, SPM-PR, SPM-SEPROMI, CESE, INGÁ

Desalento


Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim
Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim

Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos.

Chico Buarque e Vinicius de Moraes





quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Andanças e Saudade


E eis imagens da adoração - caminhos trilhados em identificações e fé. O achego da areia abrigando o branco da rosa entregue e a prece maior que a Mãe ouviu. Algo que nunca ficará para trás - o sentido íntimo límpido maior de uma vida banhada pela presença mágica da mulher divina, a mãe explícita de todos os peixes. O pôr-do-sol de um lugar que não se elucida. O sim para a vida que entra pelos olhos e a paz discreta de se viver perto do mar. Dali - lugar das sereias e encantados - saem as energias que corporificam muitas realizações e permite ao humano melhores andanças do tamanho existencial de cada um.
Dali - o peito lotado de saudades acometendo lágrimas aos olhos - o mundo é menos passageiro. O estar dura ali. Cada coisa imprime-se no mesmo nome tatuado na memória e existe, para além dos corpos e sexos, a trama ancestral do amor. Há encontro no verde do que se vê. Cheiro afrodisíaco de peixe no lugar supremo da fé. Luzes sobre as mentes vazias de pensamento e o corpo percebendo como poderíamos viver.
Os pés sobre a areia sustentando oníricas imagens que ventilam um coração amoroso que só se sabe, nestas rotas apressadas do tempo, no termo saudade.





Juliana Ribeiro: Novos rumos para a música na Bahia

Juliana Ribeiro

Marlon Marcos

Especial de Salvador (BA)

Ela é jovem, 31 anos, negra e linda. Nascida numa família classe média em Salvador, é graduada em história e dedicada pesquisadora da Música Popular Brasileira. Faz mestrado no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da UFBA, pesquisando o samba brasileiro em seus primórdios. Diz-se apaixonada pela deusa Clementina de Jesus e sem deixar a tradição, ensaia novos rumos mercadológicos para a terra fustigada pela mão única da música feita em função do carnaval: a Bahia.
Juliana Ribeiro é exemplo de persistência - como esta menina acredita no próprio talento -, houve um tempo em que ela se produzia, fazia sua divulgação mediática, mantinha mailing com notícias de shows; compunha, estudava, pesquisava, ensaiava e, é claro, o melhor, cantava. Seu trabalho tem aparecido muito na terra da Axé Music, e ela inova, conseguindo levar para cenários carnavalescos, o seu canto potente, seu repertório apurado em uma presença de palco vista só em artistas como Maria Bethânia e Ney Matogrosso. Ela é baixinha e, como a diva santo-amarense, cresce e envolve a todos em sua música que traz o samba para fazer ponte cultural, com muito êxito, entre a Bahia e o Rio de Janeiro.
Já foi comparada a Daniela Mercury e Mariene de Castro, mas Juliana assinala sua personalidade fazendo registros de canções de modo bem pessoal e inteligente. Aliás, inteligência artística é o que não falta à cantora, sabedora do que pode fazer musicalmente, mediando algumas limitações vocais, pequenos exageros de quem cresce aprendendo, com uma musicalidade que encanta a todos que a escutam.
Lançou em 2009 seu primeiro EP ( Extended Play), trazendo seis canções que são: "Beira de Maré" e "Quem Vê?" de sua autoria em parceria com Tito Fukunaga e Gil Meireles; "Isto é Bom" de Xisto Bahia; "Ascendo o Luar" de Tito Fukunaga e Marcos Sampaio; "Lição de Vida" de Reginaldo Souza e "Batuque na Cozinha" de João da Baiana.
O sucesso atemporal na voz de Martinho da Vila, Batuque na Cozinha, funciona deliciosamente na leitura da baiana, sendo um dos momentos mais vibrantes tanto na gravação fonográfica como nas execuções ao vivo, nos concorridos shows de Juliana Ribeiro.
Ilustrando seu talento como compositora tem a canção Beira de Maré, samba delicioso, que faz referências diretas a Gilberto Gil e instala uma atmosfera das canções praieiras do onipresente Dorival Caymmi, a letra é um primor:
Beira de mar beira de marémaré sem fimbeira de marbeira de marémaré sem fim
abre a porta da licença me apresento por aquiabre a porta da licença me apresento por aqui
vim de longe eu não sou daquide outros mares eu vimda lua fui companheirafarol luz me guiabrincando de marinheiropeixinho de água do marbrincando de marinheiropeixinho de água do mar
beira de mar...
pelo mar vou navegando do jeito que eu vou eu vimmas pelo mar vou navegando do jeito que eu vou eu vim
na alma trouxe meu canto meu verso meu patuáatracando nesta areia histórias eu vim contara lua branca me ouvindo calada me contemplara lua branca me ouvindo calada me contemplar
beira de mar...
vou me embora vou me emboratão cedo não volto aquieu vou me embora vou me emboratão cedo não volto aqui
vou seguindo o meu caminhomeu destino é navegarbaías e enseadas moradas de Yemanjáconfesso não me despeço prefiro me retirarconfesso não me despeço prefiro me retirar
beira de mar ...
vou me embora vou me emborado jeito que eu vou eu vimeu vou me embora vou me emborado jeito que eu vou eu vim
(beira de mar...) eu vim da Bahia cantarcantar coisa bonita que tem lá no marlá no maró mãelá no mar que é morada de mãe Yemanjácom a alma meu canto meu patuáeu vim da Bahia pra cantarmaré sem fim ooooh
maré sem fim
Tudo em Juliana Ribeiro, a princípio, pode parecer repetitivo pelo fato dela evocar sempre os grandes sambistas deste país, cantando lindamente o mestre baiano Batatinha, e saudando Clementina de Jesus e Carmen Miranda. Ou cansar os mais incrédulos quando afirma se inspirar e cantar o chamado "samba de raiz". O fato é que, além de ótima cantora, a moça é pesquisadora e visita constantemente jongos, maxixes, chulas, sambas-de-roda, samba-canção; e cria composições sem temer ou negar influências de nomes que marcaram o gênero mais brasileiro do nosso cancioneiro.
Na Bahia, ela não é uma "solista dissonante", se a gente encontrar para ouvir Stella Maris, Sandra Simões, Mariene de Castro, Manuela Rodrigues, Cláudia Cunha, Déia Ribeiro, Ana Paula Albuquerque; ou a veterana e empolgante Márcia Short e a revelação nacional, a elegante e talentosa Márcia Castro. Estas vozes femininas aprontam mudanças positivas para a música feita na Bahia e Juliana é outra possibilidade de exportação de Salvador, para em qualidade, alcançar o mundo.
Ela está à altura de Mariana Aydar, Céu, Roberta Sá, Verônica Ferriani, podendo mostrar outras nuances musicais feitas neste território que hoje só é associado aos nomes da cantora Ivete Sangalo e da doublé Claudia Leitte.

( Publicado no Terra Magazine em 22 de janeiro de 2010)

P.S.: Juliana Ribeiro está conquistando integralmente a Cidade da Bahia. Isto é bom demais!

Chet Baker



Ontem o mundo em seus turbilhões aniquiladores caíram sobre mim: a burrocracia humana. E tudo muito cheio, muito barulho, muita incompetência... O vazio não se deixava chegar e eu sabia: só silêncio! Onde encontrá-lo? Na dimensão dos anjos malditos; numa voz magistral e um trompete elegância - Billie Holiday, Chet Baker. Doeu até me esvaziar. Fiquei só com Baker já que a doçura do seu canto sussurro sou eu inteiro e me perdi, na maldição, deste mundo dos cristãos. Na coloração da tristeza pela arte, me salvei das regras e da poeira nos documentos. Esqueci-me que estava em Salvador e que tornaria enfrentá-la na manhã seguinte... Nada, meu ouvido estava colado na voz e no trompete de Chet...

Sorrisos e lágrimas e meu mundo insone a me fazer lembrar. Eu naquele cansaço pessoano, sem escritos, ouvindo tão perto tão longe a força dos meus devaneios que era minha paixão. Arriscando-me a pronúncias desnecessárias e quando bem acordado extraía dali o silêncio purificador da minha alma: a beleza inexplicável de Chet Baker. Esse meu riso interno na certeza que ele existiu. O improviso da grande arte no jazz da vida de um homem atormentado. Minhas lágrimas exteriores a comprovar o vazio generalizante da vida que exercemos e eu girando de prazer naquela voz me fazendo mais doer na dor do artista: uma relação sexual. Inteira.

Minha vontade de não amanhecer mas também, de ficar eternamente no movimento sereno daquela dor que a voz trazia e me entregava prazer... Chet Baker - outro tipo de poesia consonante com o Pessoa e o Rimbaud que sou eu; o Chet que me faz amar mais João Gilberto; o Chet que realçava a inigualável cantora Billie Holiday... O Chet que me faz tremer rememorando o que eu mais quis na vida e mesmo sem acontecer me consola... O Chet que eu ainda sonho na voz de Gal Costa.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Eu grito: Jussara !!!

Jussara Silveira cantar para Dorival Caymmi


Desgastosa condução burocrática, acrítica, caótica e sem respeito é a vida cotidiana nesta Cidade da Bahia e eu clamo o que corporifica o seu melhor. Eu grito: "Jussara!!!". Silveira - no canto certeiro do nosso mestre dos mares, rei brasileiro do cancioneiro, inventor da Bahia na qual eu amaria viver. Grito menos: "Juliana!!!" - mas não saio da poesia e singro minha vida de sonhos, exausto em planos, mergulhado na mediocridade que chefia todos os cantos desta cidade. Mediocridade que é minha e gerada em mim também. Mediocridade queimando meu ori ao meio dia e tudo sob calor, torpor, espera suada e confusão...



"Jussaraaaaaaaaa!!!" - traga-me você em canção. Seu silêncio que ensina e a sua calma que anima a gente a querer realizar... Canta Caymmi e Calcanhotto em aproximação marítima e traz bons ventos para as esferas mais poéticas de uma cidade que deixou de ser. Você em trejeitos aquáticos, caça e peixe, desperta pela voz a vontade de um povo e livra-nos dos barulhos abusivos daqueles que só fazem enriquecer e massacrar a nossa coexistência.

"Jussaraaaa" traz "As Meninas" e nos faz aprender: quero a voz belíssima de Rita Ribeiro na Bahia, em sintonia com a afinação de Márcia Short, negando algumas coalhadas cantoras de carnaval; quero o gestual da paz imprimindo uma leveza musical só vista igual na eterna Gal Costa... Quero o primor do seu repertório combinando com o céu lindo de Salvador e seu rosto lindo refltido nas águas da Baía de Todos os Santos - ainda sem ponte e minimamante preservada. Quero me escoar para algum lugar que tenha integridade e a arte esteja acima: seu canto.

Faz-me melhor ver o que de melhor nós baianos temos: o mar da Bahia. Estou entre a dor, o amor e o mar... Estou entre mim e você. Andando pelas ruas das Laranjeiras; indo do Porto da Barra à Ipanema... Magnetizado em palavras que não são minhas e as tenho por indignação. É isso: minimizo minha dor na esperança de ouvi-la ecoando-se aos ouvidos deste povo que também é seu.

Faz -se ponte, Jussara e, nos liga a intensidade criativa que as canções em sua voz desenham... Nós que não sabemos do novo e só fazemos invalidar a grandeza dos grandes que nos inventaram como litorâneos - queremos matar a presença etérea e eterna de Jorge Amado, desmemoriar o legado caymmiano, estigmatizar Gal Costa, tirar Daniela Mercury do carnaval baiano, queimar vivo o grande Lazzo, emprestar palcos a Margareth Menezes, silenciar o canto lindo e urgente de Márcia Short, acabar com os projetos de Sandra Simões, não deixar que Tiganá Santana exerça a sua força, expulsar Vírginia Rodrigues, ignorar Manuela Rodrigues e... Como contraponto, retratando nossa visão acuidadamente cultural: esticaremos o verão tendo como maior atração a animadora Cláudia Leitte.

E aí, eu berro: Jussaraaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!



terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A minha vida é um barco abandonado

Fernando Pessoa
Barco ( eu) Abandonado

A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado ?
Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.
Morto corpo da ação sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.
Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.
Fernando Pessoa
P.S.: Vida, eu faço do seu abandono Poesia...

Acima da Verdade


Para Iemanjá
Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.
Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,
Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.
Ricardo Reis

Maria Bethânia


Quero acordar dali me perdendo das palavras e me deixando ver mais vazio. Seguro de um fascínio absoluto que é cênico e inconcluso e pode desvanecer... Quero deixar de rastrear aquele olhar e abandonar aquela mão apontando caminhos... Estar imune à serenidade da imagem, aos cortes da fala, ao peso da ausência meditada, às canções, à beleza sem medida, à excelência, à arrogância, à feição de diva, ao minímo, ao excesso, aos brados acústicos, à força daquele mistério, ao medo que ruge nela, ao salutar silêncio. Quero desaprendê-la.
Vir à tona mesmo que sem qualidade e ser sem fanatismos ou espera: melhorar-me! Eu - um projeto de mim solto nesta arte de se ter sozinho sem o consolo edificante da musa - a que nunca chega! A não ser nas revoadas artísticas da sua condição: águia predileta, aguaduto de uma nação.
Quero secar daquela água mesmo que deixe minha alma em sede eterna e me dar o perdão para ser totalmente livre e andar contrário ao seu voo inspiração... Quero aprender o seu distanciamento sem o jogral do olho, sem o texto da cara: nada de psicodramas ou de curas arrebatadas - estou nos líquidos de uma cisão que são minhas lágrimas geradas pela distância que perfila ela.
Quero não atravessar a Ponte - esquecer sons poemas amanheceres paixões luares olhares lugares escritos discos gente - e viver no confuso lado de cá a imaginar o que seria, em prazer, o tenebroso lado de lá...
Escrevo para espelhar a terrível fantasia de que possível seria apagar da audição da minha alma a voz apaixonada desta mulher que é a voz da minha paixão.
Então, em palavras, eu volto a dormir. E que ela cante e declame. Para mim, a vida se suaviza ali naquela garganta.

John Keats: esses dias em mim

Do romantismo
A Bela Dama Sem Piedade
John Keats(1795--1821)
Oh! O que pode estar perturbando você,
Cavaleiro em armas,
Sozinho, pálido e vagarosamente passando?
As sebes tem secado às margens do lago,
E nenhum pássaro canta.
Oh! O que pode estar perturbando você,
Cavaleiro em armas?
Sua face mostra sofrimento e dor.
A toca do esquilo está farta,
E a colheita está feita.
Eu vejo uma flor em sua fronte,
Úmida de angústia e de febril orvalho,
E em sua face uma rosa sem brilho e frescor
Rapidamente desvanescendo também.
Eu encontrei uma dama nos campos,
Tão linda... uma jovem fada,
Seu cabelo era longo e seus passos tão leves,
E selvagens eram seus olhos.
Eu fiz uma guirlanda para sua cabeça,
E braceletes também, e perfumes em volta;
Ela olhou para mim como se amasse,
E suspirou docemente.
Eu a coloquei sobre meu cavalo e segui,
E nada mais vi durante todo o dia,
Pelos caminhos ela me abraçou, e cantava
Uma canção de fadas.
Ela encontrou para mim raízes de doce alívio,mel selvagem e orvalho da manhã,
E em uma estranha linguagem ela disse...
"Verdadeiramente eu te amo.
"Ela me levou para sua caverna de fada,
E lá ela chorou e soluçou dolorosamente,
E lá eu fechei seus selvagens olhos
Com quatro beijos.
Ela ela cantou docemente para que eu dormisse
E lá eu sonhei...
Ah! tão sofridamente!
O último dos sonhos que eu sempre sonhei
Nesta fria borda da colina.
Eu vi pálidos reis e também príncipes,
Pálidos guerreiros, de uma mortal palidez todos eles eram;
Eles gritaram..."A Bela Dama sem Piedade
Tem você escravizado!
"Eu vi seus lábios famintos e sombrios,
Abertos em horríveis avisos,
E eu acordei e me encontrei aqui,
Nesta fria borda da colina.
E este é o motivo pelo qual permaneço aqui
Sozinho e vagarosamente passando,
Descuidadamente através das sebes às margens do lago,
E nenhum pássaro canta.

P.S.: Que cantem os pássaros aqui!

Atrás da Rainha

Foto Lisa Castillo

Foi puro movimento. Ficar ao lado dos amigos, no Crocodilo, ouvindo Daniela Mercury cantar: mágica carnavalesca em uma diferença que quero cultuar para que tenhamos também, uma festa momesca com jeito de teatro música dança expressividade...Foram muitos beijos alternativos para a assistência- pipoca fora da corda e de dentro o encantamento dos andarilhos de La Mercury tirando o pé do chão e se emocionando com a poesia que ela tão bem sabe nos entregar. Com menos impáfia Daniela seria excelência... Mas Bethânia tem impáfia e é excelência, não é? Deixa Daniela ser e que não a arranquem, em desdém e indiferença, do nosso caranaval. Daniela é diferença e só vou ao Crocodilo por causa dela. Foi lindo! Três dias de puro movimento.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Gal Costa e o Mar



Quando Gal canta Caymmi, Gal canta o mar... E o mar é inscrição da voz dela. Beleza maior que nos entrega leveza alegria no sentido contínuo da perfeição. A voz marinha de Gal é o azul que me veste. Rio e Bahia. Porto da Barra e Ipanema. Gal morena hippie de todas as praias. Sereia da afinação, raridade cristilina de um país que, na música, sabe dar certo. Quando Gal chega nos chega a música em suas rotas de satisfação humana indo à fruição dos deuses. O pacto dela é com as divinas formas do cantar e tudo se aproveita... Rememorando a sua obra, sua presença ausente mas indelével, se faz inteira e a Música Popular Brasileira caminha abaixo do ouro das suas digitais. Mulher canta água... A mais aquática e doce voz de cantora no Brasil de todos os tempos.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Maria Bethânia e Márcia Short: raios de Oyá!


"Para viajar basta existir"
Fernando Pessoa
De certo que o vento sai da gruta por onde sai a voz: gargantas grave e aguda instaurando a diversa visão; de certo que dali reinam os raios e a perigosa calma de quem grita! A beleza negra em sua íntegra afirmação. Mulheres atrevidas. Musas que transportam temas poemas águas areias e sedução. Encontro irmanado aos pés de Oxum e Oyá! Lugar que sangra: mênstruos paixões vermelhos. Errância da sagração esvaindo-se e vencendo o mundo. Belas letras do que se diz abaixo do mistério e quando cantam: belas Oyás!

Comigo

Eu quero me dizer o quanto preciso de mim e que sair à procura de outros é meu traço profundo de auto-traíção.
Eu quero dizer que sem mim não vivo e que me suporto ao banheiro, bêbado, insone, intranquilo, amedrontado e fugindo do inexorável real: eu nasci comigo, ficarei sempre comigo e morrerei assim, ao meu lado centro dentro sem saídas...
Eu quero dizer que também sou de partilhas e me comunico na ânsia de dar amor. Meu destino de mim para mim é o âmago do amor que sinto e dedico ao outro... É estando eixado eu no meu próprio convívio, me alimentando na satisfação da minha presença, que saberei me dar ao possível ato de amar de fato alguém... Eu sei estar comigo e é isso que nunca me deixa só.
Marlon Marcos
"A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo."
Fernando Pessoa

Felicidade Clandestina

Clarice Lispector

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o.
E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho.
Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia.
Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. ”Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada.
Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Clarice Lispector
P.S.: Benditos sejam os livros em minha vida. Sou eu quem sabe das linhas, e mais ainda das entrelinhas, que fazem aquelas horinhas salvadoras; quantas viagens em tanto aprendizado e meu peito sonhando e a mente desejando criar histórias em sintonia com a mestra maior de mim. Fui eu, quando criança não nascida, quem escreveu Felicidade Clandestina. Revelei, em espírito, minha história a Clarice e ela eternizou como sua na grandeza de sua escrita. Hoje quero assim: uma verdade inventada!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Refletido numa voz

Gal e o mar

Em cada canto de mim há o frescor de uma lembrança e nada se cansa em se fazer lembrar aqui. Eu não me esqueço. Ouço vozes em olhares, sinto perfumes em meu paladar, cheiro sabores de gente e toco no indelével poético de quem, para sempre, grudou-se em mim. Não há vazio, meus espaços estão ocupados - o daninho é que não sei desalojar e sigo pesando gente nome cor letra escrita roupa rastro riso barulho silêncio. Silêncio me salva; mas às vezes me mata. E eu estou morto ouvindo versos na mais bela das vozes: "se o amor escraviza mas é a única libertação". Sigo livre dentro da mortandade e sei pensar contra mim. Penso tenso sem querer chorar: meus olhos a distância e meu coração de perto são minha condenação. E eu sei aonde está. Eu sei encontrar na linha do horizonte ou na fuga do desejo gerada pelo medo pela repulsa do não se deixar. Eu me deixo refletido numa voz: "minha luz escondida, minha bússola e minha desorientação". Festejo tristezas - há um carnaval se findando aqui e ali as cinzas do meu desencontro. Quero espelhar a beleza dos meus sonhos: tenho algo a dizer e digo na voz sagrada de um canto, eu - sentindo a calmaria suja e fedorenta da cidade mais amada. Vago sozinho e sempre pela paisagem mais amada: o mar soteropolitano. Visto-me de rosa e espero a canção acontecer...Tenho tantos sonhos e leve, tenho muito o que dizer e transformar em ser o movimento do meu desejo. Quero ainda. Muito. E insisto no tempo de outrora:" pra ser feliz, pra sofrer, pra esperar, eu canto... uma flor sem limites, é somente porque eu trago a vida aqui na voz". Sucumbo sem tempo nenhum e por esse aprisionamento me torno o deus da minha existência.
E, para esperar eu escrevo.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Ivete leva prêmios, mas quem brilha no último dia é Daniela


Daniela Mercury foi o grande destaque do último dia de folia

Terminou. A terça-feira (16) foi a sexta e última noite do Carnaval 2010 de Salvador. Tradicionalmente, a TV Bandeirantes anuncia os vencedores do troféu Band Folia, espécie de título extraoficial do Carnaval da cidade. Ivete Sangalo foi a grande vencedora, levando os prêmios de melhor cantora e melhor música (Na Base do Beijo). Na agenda oficial, o último dia teria 68 trios pelos três circuitos. No Barra-Ondina, 21 atrações estavam previstas. Outras 25 no Campo Grande. Mais 22 no Centro Histórico.

Entre as grandes atrações da noite de despedida, Moraes Moreira. Ele voltou ao Carnaval da Bahia depois de dez anos para homenagear os 60 anos de existência do trio elétrico, cantando músicas compostas em parceria com Dodô e Osmar. No circuito Barra-Ondina, ele cantou músicas como Bom De Viver, Preta, Pretinha e Chame Gente. Moraes Moreira é considerado o primeiro cantor a se apresentar em trios elétricos, em 1975, já que antes eram tocadas apenas músicas instrumentais.

As quatro musas
Das quatro musas do Carnaval baiano, três se apresentaram em Campo Grande na terça-feira. Ivete Sangalo - que nos dias anteriores foi vestida de cacatua, "cavala", zebra e onça - apareceu de borboleta. Mas quem visse e arriscasse um pavão não erraria. Ela voltou a cantar Lobo Mau, hit que causou polêmica. Carla Perez e Tatau, do trio Alô Inter, se recusaram a cantar a música por considerarem que ela tem conotações que possam fazer apologia à pedofilia.

Bem, se Ivete cantou Lobo Mau, Claudia Leitte não cantaria Lobo Mau. A ex-líder do Babado Novo seguiu sua performance de fantasias baseadas no circo e surgiu, desta vez, de mágica. Ela passou pelo Campo Grande, como a terceira musa da folia baiana, a neoestilosíssima Alinne Rosa, que cantou com um modelito futurista feito pelo estilista Fause Haten.

Das principais estrelas femininas do Carnaval baiano, a única que se apresentou no Barra-Ondina no último dia foi Daniela Mercury. E ela simplesmente arrebentou. Homenageou Neguinho do Samba, um dos inventores do samba-reggae, morto em outubro de 2009. Generosa, deu espaço em seu trio a artistas mais consagrados como Margareth Menezes e Tatau, mas também a uma de suas backing vocals, que cantou They Don't Care About Us, música de Michael Jackson gravada em parceria com o grupo baiano Olodum.

Os troféus do Band Folia podem ter ido para Ivete, Claudia Leitte pode atrair multidões, Alinne Rosa pode mostrar crescimento estético a cada ano, mas quem fez as apresentações mais interessantes e inteligentes no Carnaval da Bahia foi mesmo Daniela Mercury.

(Retirado do Portal Terra)

Márcia Short: o brilho de uma voz

Mais nobreza negra no carnaval da Bahia
E diga yes à presença musical de Márcia Short no carnaval de Salvador... Sem nenhum recurso retórico, foi mágico ouvi-la ao lado de Daniela, Tatau e da grande Margareth Menezes, no Crocodilo, na última noite do carnaval 2010. Vozes que já se imprimiram, historicamente, nesta festa soteropolitana; a de Márcia soa afinação, íntegro canto feminino que adoça nossa audição e faz o corpo tremer... As belas vozes de Tatau e de Daniela, a bela e forte voz de Margareth e a de Short... O canto mais límpido num timbre que acalma e anima, sem o destaque merecido, esta dama negra baiana foi honrada (e honrou) com o convite da rainha Daniela para acompanhá-la e juntar talento e experiência no movimento momesco mais vibrante do planeta. Era nítida a presença de Márcia - centelhas de luz que corporificam a sua emissão aguda, soprano, líquida, às vezes, sólida, outras... Uma expressão atemporal que, por favor, deve continuar a nos embalar nas raias musicais que o carnaval favorece.
Márcia Short: mais nobreza negra no carnaval da Bahia!

Grande encontro: Márcia Short, Tatau, Margareth Menezes e Daniela Mercury, nossa majestade!

Maravilhoso encontro. Dia de Rei e Rainhas. Melhor momento do carnaval 2010. De quebra, a voz de Tatau cantando Princípio do Mundo e fazendo a gente relembrar e chorar de saudade de quando o Ara Ketu era, de longe de perto, o melhor bloco de Salvador e Tatau , a voz poética da nossa grande folia. Foi lindo ouvir e ver aqueles quatro juntos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Falares Quintanianos

Para não deixar de sentir a poesia santa de todo dia...

BILHETE
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,enfim,tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
******
"Qualquer ideia que te agrade,
Por isso mesmo... é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro em ti se achava inteiramente nua..."
O tempo
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas... Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
E crescer fazendo tempo para você ser mais leve mais feliz e estar bem consigo mesmo em torno dos outros.

Ao sabor de La Mercury

Daniela no Crocodilo
Ela inova, agita, embeleza e, às vezes, fala demais. O tom professoral desta que é a maior atração feminina do carnaval baiano a impede de ficar em sintonia com o tom de descontração da festa e ao invés de ser bem vista, precipitados a acusam de chata e elitista. Mas ela educa e a gente se emociona com seu canto preciso que este ano contou com a Neojibá, orquestra sinfônica comandada pelo maestro Ricardo Castro que forma jovens músicos eruditos. Ela lê poemas e faz homenagens, convida gente de peso e se alonga em discursos desnecessários. Poderia falar menos para se harmonizar com o desejo de todos de ali, na avenida e camarotes, entrar na folia.
Com um figurino mais cuidado, realçando sua beleza e valorizando suas curvas joviais, em matéria de arte no palco do trio La Mercury é imbatível e ela canta de verdade, se expressa de verdade; deveria cumprimentar mais o público e evitar insistências com mestres como Caetano Veloso que, apesar de ter cantado com ela lindamente, a esnobou sem querer perder seu ritmo de férias, esquecido apenas quando o Psirico passa e o grande poeta enlouquece...
Sou mais Daniela e penso: ela pode falar mesmo, tem um belo texto, é inteligente, e se Marrom comenta carnaval por que Daniela Mercury não pode ensinar coisas novas e edificantes para o nosso povo? Ela sabe muito e faz a festa, classuda, excelente repertório, impele a se tirar o pé do chão e leva para o circuito Barra-Ondina configurações de espetáculos artísticos.
Não tem jeito: La Mercury é a rainha e Caetano, Gil, Moraes, Armandinho e a família Macêdo, a mestra Baby Consuelo, a excelente Márcia Short ( outra instrutora do nosso carnaval), sabem disso!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Maria Bethânia: Movimento dos Barcos

Minha senhora,

Impossível anular em mim a sua energia artística. Quanto ao seu exercício humano, que Nossa Senhora cuide, como sempre, com afinco e amor da sua caminhada, entregando-te serenidade e encantamento nesses seus dias consigo mesma.

Esta canção, na tua voz, me avassala. Estejas feliz!

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Mariana Aydar - Deixa o Verão

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Do tamanho da eternidade

Rembrandt ( O homem nu)

Foi falado ao interior do búzio em seus ruídos marítimos: amor inconcluso tão leve tão nada tão paz tão tudo. Do tamanho da eternidade. Solidificado num escrito sobre a areia da praia. Areia pesada de água sal sentimento. Um pouco de vento saudando a memória e o corpo despido entregue aos eventos sagrados diante do altar natural: o mar. Refaz-se nele o desejo moído pelo tempo de agora; por lá, nas ondas do mar, aquele amor existe sem antes nem depois. Ele simplesmente é. Tem a cara da eternidade, às vezes se entedia, mas é... A nobreza doce de um encontro de almas aquáticas indicado pela força das deusas da água do fogo do ar da terra das folhas: Natureza e Transmutação. Gravura histórica da nudez de um à procura do outro. Amor profundo nas sutilezas poéticas que é pura fome, puro desejo, puro sexo. Do tamanho insensato disso que é a eternidade.

Movimento dos Barcos


Estou cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais
Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais
Que passa ao largo do nosso corpo
Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo
Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento
Jards Macalé/Capinan

Esta canção é um assombro pra mim: traz alívio e desespero; é triste mas imprime liberdade e dá vontade de seguir. Sentido da necessária despedida, o tombo de uma cidade sobre mim e eu tendo que partir. Dor de amor absoluto, e na canção, ouvindo-a, não sei de onde vem: cidade, castanho, verde, Nova Iorque, São Paulo, Cachoeira, Candomblé, Colibri? Nada me é dito mas eu reflito e sinto a alagadura encantada desta canção aqui no meu ori no meu coração. Silêncio no porto azulado da minha vida; impossível sem poesia e sem música.

À procura




"É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais
Que passa ao largo do nosso corpo"


A insígnia deste adeus prenuncia muitas canções para este carnaval. É festa e dói. Lágrimas banham o sorriso no sentido do desespero que deve ser: agonia na rota do desconhecido. Pausa feito um corpo entregue à morte. O eu sem saber - nada que movimente ou oriente esta busca e as respostas calam nas perguntas impossíveis... As percussões orquestram o silêncio que traga a consciência ativa na estrada da despedida. Sem sabedoria nem resposta, a entrega poderá ser salva porque nesse instante se instaurou o mistério. E em beleza o cinza é igual ao azul, só que mais triste.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A bela Confeteria Colombo - Rio de Janeiro

Marlon
Marcos

Sob o click de Jan, meu amigo baioca, lá, no lugar das guloseimas, um dos símbolos históricos do nosso amado Rio de Janeiro: Confeteria Colombo.
Numa dessas viagens de grande acolhida, descanso, bons pensamentos e esperança. Luz em nove dias na Cidade Maravilhosa - ingresso no Ano Novo de 2010, pedindo a Iemanjá frutos positivos, edificantes que me tragam o inesperado bom! Tudo novo de novo. Axé!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Ao deus que for das práticas do amor


Sou eu aquecendo com meus lábios o movimento frio dos seus dedos.
Meus olhos lhe dizendo saudade em direção de um lugar sem tempo.
Este vazio no peito à espreita da sorte e...
Você suando de costas para tudo que ofereço.
Um silêncio inoportuno traduzido em morte.
E o corte de uma canção que convida ao amor.
Aquele sabor na cor castanha dos seus olhos
Arrancando o castanho dos meus em sua direção.
Sua mão fria que não me segura e nem faz perguntas
Eu sem porto sem paz sem cais sem brisa sem firmamento.
Quebro no asfalto da memória a garrafa inglória das mensagens
Tão ditas e não enviadas porque jamais teriam saída
Da boca sua que se fecha e afasta do fogo que há em mim.

Salvador: nova guinada musical

Santana
Juliana Ribeiro

Mariela Santiago

A Cidade da Bahia, nossa querida Salvador, grande centro de irradiação artística para o Brasil, ao longo de sua história, no século XX, deu ao cancioneiro nacional muitos nomes que revolucionaram a música brasileira e que ajudaram a conferir a este país a posição de um dos mais criativos produtores musicais do planeta.
Impossível, neste espaço, elencar os nomes baianos que agigantaram a canção brasileira. Mas, nossa sofrida e alegre cidade, internamente, sempre se alimentou de uma musicalidade dedicada ao carnaval que depois da invenção sagrada do trio elétrico em Dodô e Osmar, passou pelo samba do mestre Batatinha, de Riachão, Gordurinha, chegando à voz eletrizada de Moraes Moreira e da grandiosa Baby Consuelo; sem falar nos Apaches do Tororó, no Ilê, no Malê, no Badauê. Tudo muito centrado na carnavalização que descambou na rentável Axé Music, sistematizada pelo criativo Luiz Caldas; daí foram macacões, mortalhas, abadás; Chiclete, Asa, Ivete, para ilustrar a maior festa da Bahia. De 1985 até os dias atuais, a música baiana, com destaque midiático, com alcance massivo de público, girou em torno daquilo que o jornalista Hagamenon Brito, grande conhecedor de música popular, para chatear, nomeou Axé Music.
Ficamos mergulhados e desgastados na música do carnaval. Novidades vieram com o pagode do Gera Samba, depois É o Tchan, Harmonia do Samba (revolução sonora e comportamental na dança de Xandy); mais recentemente, Psirico, Fantasmão e Parangolé – tudo verão, tudo carnaval.
Feições artísticas que transpuseram a fábrica carnavalesca foram: o nome internacional Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Margareth Menezes, Márcia Short e Gerônimo.
Agora, findando-se a primeira década do século XXI, temos a chance de viver intensamente nossa musicalidade alicerçada numa base criativa mais universal e menos presa à indústria carnavalesca. Tem acontecido na terrinha, o ecoar de vozes iluminadas, de canções urbanas, de músicos primorosos, todos dedicados a conviverem com o Axé, fazendo de Salvador palco de efervescências sonoras dialógicas com o melhor que se produz nas principais capitais brasileiras.
É um alento sonoro, por exemplo, conhecer o trabalho autoral de Tiganá Santana, que lançou recentemente o CD Maçalê, e traz para o Brasil elementos da cultura banto, do ponto de vista poético e musical, elaborando canções em língua quibundo, quicongo e re-orientando, esteticamente, o fazer de outros compositores e intérpretes: o moço é um gênio e vai dar muito que falar. Nesta estrada de novidades baianas, já temos uma nacional, a elegante Márcia Castro que já cantou até com Mercedes Sosa e no palco desfia estilo e talento. E Manuela Rodrigues, bela compositora e excelente cantora tomando conta das melhores rodas musicais de Salvador. Temos a afinação espetacular de Sandra Simões nos ofertando sempre com grandes projetos que trazem o melhor da música e o melhor de Sandra.
Para não falar só de compositores-cantores, há de vicejar culturalmente uma cidade que tem como oferta musical composições de Roque Ferreira, Roberto Mendes, Jorge Portugal, Márcio Valverde, Luciano Salvador Bahia, Jota Velloso, o negro Dão que também canta lindamente, Edu Alves, Harlei Eduardo, Juracy Tavares.
Devemos prestar a atenção na mais representativa cantora em atividade na Bahia, Stella Maris a mais bela voz, profunda intérprete, sempre acompanhada e dirigida por outro patrimônio artístico baiano: Alex Mesquita.
Também a inenarrável Mariela Santiago, a grandiosa Juliana Ribeiro – nome a se lançar ao Brasil rapidinho; e os rapazes: Carlos Barros, voz de entrega doce e Peu Murray – arraso negro na música baiana.
Prestem atenção a Ana Paula Albuquerque – impressionante cantora que a Bahia também deve apresentar ao nosso país.
Estamos dando uma guinada de muita qualidade: Tiganá Santana, Stella Maris, Juliana Ribeiro, Márcia Castro, Sandra Simões, Manuela Rodrigues, Cláudia Cunha, Mariela Santiago, Carlos Barros, Ana Paula Albuquerque, Rita Braz, Juracy Tavares, Peu Murray, Jota Velloso, Clécia Queiroz, Mazzo Guimarães, Edu Alves, Déia Ribeiro, Dão. Não paremos por aí.

Marlon Marcos é jornalista e antropólogo

( Publicado no Opinião do A Tarde em 02 de fevereiro de 2010)

Mariana Aydar - Beleza


Aqui, eu sei, um brilho me mantém, não pára
Na dor, a cor não falta, não
E não gasta
Calor, me vem, subindo, me mantém acesa
Vazou pra ti,
Se chegou aí, beleza
Aqui, eu sei, um brilho me mantém, não pára
Na dor, a cor não falta, não
E não gasta
Calor, me vem, subindo, me mantém acesa
Vazou pra ti
Se chegou aí, beleza
É nosso Sol, é nosso ardor,
É nosso tanto de calor
Que vem, que vai, inunda o céu de cor
É sensual, fenomenal,
Um ritual de exaltação
Ao deus que for das práticas do amor
Aqui, eu sei, um brilho me mantém, não pára
Na dor, a cor não falta, não
E não gasta
Calor, me vem, subindo, me mantém acesa
Vazou pra ti
Se chegou aí, beleza
É nosso Sol, é nosso ardor,
É nosso tanto de calor
Que vem, que vai, inunda o céu de cor
É sensual, fenomenal,
Um ritual de exaltação
Ao deus que for das práticas do amor
Mariana Aydar
P.S.: Esta música tem cheiro cor sabor dos melhores dias... Amo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Daniela Mercury: ventilação no carnaval da Bahia

Daniela Mercury


E se é para estar no carnaval da Bahia: eu vou na poesia balanço inspiração arte de Daniela Mercury... Vou para descansar e pensar no quão desgastado tem sido as coisas nessa nossa festa maior. Vou também, e melhor, para dançar andarilho, louvar de verdade Oyá, cantar com minha gente, meus pares e irmãos... Daniela é a força absoluta no que ainda pode ser carnaval baiano. Coadunada a Baby Consuelo e a Márcia Short - também presente, bem presente este ano, felizmente - ela faz festa e estética nessa inteireza primeira da gente sempre querer brincar. E com prazer, doa em quem doer, salve Daniela Mercury!!!

A voz de Jussara: delicado sereno, orvalho, flores na audição

Jussara Silveira

A moça, musicalmente, é arrepio e resolução. Sua voz se reveste em sua elegância de rainha e combina com a maior das sofisticações: a simplicidade inventiva. Musa da eloquência sonora perseguida desenfreadamente pelos melhores compositores. Talento acima dos mercados que vibra novidades e preserva nossa memória. Sua presença de mulher linda é um acordo inteiro dela com a arte. E tudo nela é acerto estético naquele dom natural da delicadeza: a beleza modelar passeando pelo tempo, dialogando com ele, se ajustando a ele sem prejuízos sonoros ou visuais. Musa do encantamento que acolhe, toca, aparece, agradece. Abraço magistral que alimenta e consola: coisas de sereia meio mato meio marágua: síntese feminina do que deve existir para melhorar nossos rumos coexistenciais.
Arrepio e resolução em um canto sob medida que adere na gente naquele sentido descrito na eternidade. Musa das simplicidades; diva que enxerga o indivíduo, lança feitiço, beija, abraça, agredece e segue alta pelos caminhos sublimes que seu talento lhe nos consagrou. Fruto raro de uma relação simbiótica: cantora e ouvinte unidos pelo elo semente inscrito nas canções que denotam, no caso dela, um encontro realmente amoroso.
Jussara - sublime ruído rodando em minha eletrola para muito além do tempo.

É assim que eu me sinto melhor


Hvar, Croácia


Em algum lugar que o mar seja azul... onde a vida esteja sem noção de tempo, que haja risco, haja perigo, brisa para novidade e movimento; um pouco de calor a banhar o amor que levo comigo e deita na sonorização do agora brindando o meu gozo!

É assim que eu me sinto melhor: ouvindo música num lugar com sol e mar para banhar a poesia inteira que é a minha existência.


domingo, 7 de fevereiro de 2010

Prainha

Aydar
Hoje tem que ser uma composição de Chico César na voz de Mariana Aydar, com sabor de praia poesia cerveja amor... E a cidade? Melhor não seria que Salvador da Bahia; hoje não me quero em silêncios, preciso do som necessário, um canto feminino que me acolha e eu me recolha ao movimento de beleza em um finalzinho de tarde no Porto da Barra. Hoje é para profundos esquecimentos, deixar para trás parte de configurações da alma. Esquecer querendo-se ser e se estar com quem, verdadeiramente, nos ama. Prainha na minha terra: Bahia, nada mais.
Vontade de ir pra i, prainha
Vontade de ficar na minha
Onde o sol à tardinha se esconde
Onde a noite escura nem é
Onde o mar vem lavar o meu pé
Onde só não me sinto sozinha
Praia aô, biribando sô
Vou a sem bando ô
É assim que eu me sinto melhor
Praia aô, biribando sou
Vou sem bando ô
É assim que eu me sinto melhor
Vontade de ir pra i, prainha
Vontade de ficar na minha
Onde o sol à tardinha se esconde
Onde a noite escura nem é
Onde o mar vem lavar o meu pé
Onde só não me sinto sozinha
Praia aô, biribando sô
Vou a sem bando ô
É assim que eu me sinto melhor
Praia aô, biribando sou
Vou sem bando ô
É assim que eu me sinto melhor
Chico César

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A palavra implícita

Corpo Masculino - Alair Gomes



Eu tenho uma palavra implícita e não por causa de mistério, segredo ou enganamento; é a palavra que me serve de alimento e quando quero despistar eu falo: 'amor'.
A palavra não tem este sentido - ela é sem entrega e nada receptiva. Mas alimenta e me condena a querer viver rabiscando - a ter uma escrita. Eu tão indisciplinado, acordo de madrugada com o barulho desta que nem sei, é só palavra?
Tenho andado na precisão do agora, deixado de fazer projetos e perdendo algumas coisas que só acontecem através deles - projetos.
Eu nessa figuração do agora. O que posso comprovar para outrem?
O meu coração pulsa e eu respiro, tenho muitos discos e livros, ido ao cinema e teatro,tomo banho de mar na Bahia e depois da poesia, fortes são minhas contas a pagar.
Como seria o desenho desta palavra que hoje me acordou 01:14 da madrugada de domingo para segunda? Quem lerá minhas indagações?
Eu tenho uma palavra implícita: pizza, colibri, fugacidade, ermo, asma, fastio, ida, preso, cadafalso, riso, choro, morte, fé.
Uma palavra que não é nada disso.
Mas é.

Maria Bethânia : o canto da griô

Maria ( foto Marcos Samara)

Amanhã, a Cidade da Bahia celebra os 45 anos de carreira de Maria Bethânia através de reflexões sobre sua obra; intelectuais e artistas se debruçam, pontualmente, sobre aspectos sócio-antropológicos nas construções estéticas da cantora que contam, histórica e culturalmente, os caminhos da cultura popular no Brasil nas últimas quatro décadas.
Será feita - nas sessões organizadas entre palestras, conferências, oficinas e saraus que compõem o Congresso Brasileiro sobre o Canto e a Arte da Maria Bethânia - uma sociologia da Beleza. A beleza raríssima de Maria Bethânia - posta a nos entregar o melhor que a palavra , o som, a música, enfim, a canção pode oferecer à existência humana nesses arredores brasileiros e em muitos planetários.
Um trabalho de fãs que indica a qualidade da artista em questão: análises serão feitas para se compreender do ponto de vista acadêmico uma expressão artística que não carece deste tipo de explicação - mas será feita: uma sociologia da beleza singrando fé, festa e emoção!
Além de tudo que será discutido neste congresso para reafirmar nossa inclinação para as criações populares - é nisso que somos bons - este evento deve enviar um documento sugerindo à Universidade Federal da Bahia e à Universidade do Estado da Bahia, o nome Maria Bethânia Vianna Telles Velloso para receber o honroso título de Doutora Honoris Causa pelo conjunto de sua obra que tanto dignifica a Bahia e o Brasil e serve como instrumento de estudo e pesquisa para melhor se entender a história da cultura brasileira. Salve, por 45 anos de carreira, a nossa doutora ( e cantora!) Maria Bethânia.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A Dona do Rio Vermelho em Salvador

Outra Ela -altiva dona do Rio Vermelho
poesia_presente pra yemanjá (Karina Rabinovitz)

Esta festa do Dois de Fevereiro, em Salvador, no belo Rio Vermelho, sempre me silencia. E eu me banho em instantes de alegria e fé. Só ou acompanhado, meu coração presencia a energia desta que é nossa Grande Mãe: a negra senhora gerada em Abeokutá e que hoje é poesia marítima no Brasil. As pessoas que passam com seus presentes na mão levando no coração um tipo de esperança azulzinha, clara como o céu. Há também a poesia engarrafada - luz artística de uma retroalimentação: a poeta e a divindade e a divindade e a poeta... Inspiração celeste.

Rio Vermelho - quanta história pra contar. Pescadores re-imaginando a vida e a gente se juntando para louvar uma divindade feminina. A mulher em sua força, Iemanjá Odô Iyá. Lindo 2010 em minha vida, Mãe, e , nas graças do meu Pai Oxalá!