terça-feira, 30 de novembro de 2010

Arany Santana: negra cidadania


Em 1990, quando eu era um sonhador estudante de história, na Ucsal, conheci de perto, em carne e osso, a voz do mais importante concurso de beleza da Bahia: A noite da beleza negra do Ilê Aiyê, que foi até nós, jovens aspirantes acadêmicos, numa aula de História da Bahia, nos ensinar cidadania negra.


Foi isso. A dona da voz era a bela atriz e professora Arany Santana, diretora fundadora do grupo cultural Ilê Aiyê, que se tornou a marca imprescindível nas noites de gala que elegem a Deusa do Ébano, eleita a cada ano, para comandar os desfiles do mais representativo bloco afro do País. Ali, a poesia do Ilê se avolumou para ser expressa pela verve artística da professora, seduzindo a gente a entender as armadilhas do racismo e a promover, mesmo que por instantes, o contato sagrado com a chamada ética da coexistência.


Virei discípulo da jovem senhora que se tornaria, 14 anos depois, a primeira Secretária da Reparação de Salvador, da Bahia e do Brasil. Uma mulher das letras que possui uma das oratórias mais comoventes nos movimentos sociais baianos; alguém que faz da política meio de expressão e ação a favor da liberdade e do bem estar social do negro, do branco, do índio e dos mestiços.


Nascida na cidade de Amargosa – Bahia, sendo atualmente a Secretária da Sedes na gestão governamental em exercício, Arany Santana é a grande homenageada de hoje, na Câmara dos Vereadores de Salvador, da qual receberá o título de cidadã soteropolitana. A negra cidadã que salvaguarda, em sua trajetória, histórias inestimáveis de conquistas para o povo negro do lugar mais negro desta nação.


Uma filha dos ventos, mãe de Tiganá e Jaguaray Santana, guerreira mulher que me ensinou belas lições sobre convivência e movimento social, uma alma altiva e exemplar que figura nesta cidade como mãe-irmã espiritual de muitos, inclusive minha. Alguém que aprendeu com o tempo a aguçar sua sensibilidade política e fazer avançar as relações interraciais na Cidade da Bahia, ultrapassando as adversidades, e exercitando, de verdade, o respeito pelas diferenças.


Agora, oficialmente, cidadã da sua amada São Salvador da Bahia.
(Publicado no Opinião, do A Tarde, em 30 de novembro de 2010)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Arany Santana recebe título de cidadã soteropolitana

Cerimônia de homenagem a Arany será amanhã. Foto: Arisson Marinho | Agecom

"Amanhã, terça-feira, Arany Santana, vai se tornar a mais nova cidadã soteropolitana. Natural de Amargosa, a educadora, gestora, professora, atriz, uma das fundadoras do Ilê Aiyê, ex-secretária municipal da Reparação e atual secretária estadual do Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza, vai receber o título concedido pela Câmara Municipal, às 19 horas.

A festa promete ser grande com a participação de diversos segmentos da sociedade civil organizada, povo-de-santo, do qual Arany faz parte, intelectuais, artistas e a comunidade do Ilê Aiyê, claro. Homenagem mais do que merecida."

( Retirado do Mundo Afro de Cleidiana Ramos)

sábado, 27 de novembro de 2010

Norah Jones, mais som e poesia num sábado qualquer

Minha Norah

Carregando na beleza... Uma voz que me empurra às delícias que o sexo traz. Uma voz Norah no alinhamento direto com a maior, Billie Holiday. Carregando nas cores sem ter o que dizer, pois sim, agora, em mim, é sentir sentir sentir Lover Man na emissão de Norah. Carregando nas memórias e melhorando os pensamentos para este sábado, de fato, acontecer!

Poema para Queila

Águas da Serra da Barriga - Alagoas

Em algumas pessoas, a beleza é um suporte externo,
revigora os olhos alheios e basta.
Em outras, ela é uma extensa revelação que
começando bem de dentro domina o que se enxerga
por fora.
Em Queila, estes sentidos se multiplicam,
e tudo que se designa a ser beleza
pode ser atingido quando o olho vê
o rosto desta mulher
bem acima das aparências.

A grande Fabiana Cozza reverencia Tiganá Santana

Tiganá
Fabiana Cozza ( "a Consciência Negra está muito além dos nossos tecidos")

A sensibilidade da grande cantora alcançou o baiano Tiganá Santana, que é apresentado na coluna da diva paulistana no Yahoo, ao lado de Maurício Tizumba e Sérgio Pererê. O texto é expressivo e perfila com integridade a grandeza da maior revelação da música brasileira nos últimos anos: o nosso Tiganá. Confira:

Contemporâneos mas de gerações diferentes Mauricio Tizumba, Sergio Pererê e Tiganá são três reis magos. Vêm de negreiros diferentes no que concerne o rufar do tambor e os tecidos nobres que vestiram seus descendentes. Os dois primeiros aportaram nas Minas Gerais. O terceiro, em Salvador.

Os chamo de reis pela nobreza com que constrõem suas trilhas artísticas e ampliam seus/nossos olhares para além da aldeia que os/nos gerou, convidando gentes de muitos outros cantos para participarem de suas festas. Os chamo de magos porque fazem o que a palavra “magia” permite: arte, ciência, encantamento, proteção.

Tizumba é artista edificante e fundamental da geração após a de Milton Nascimento. Também herdou os negros das Gerais – do Candombe entoado por Dona Mercês, na Serra do Cipó, ao Congado do bairro de Aparecida comandado pela batuta da Maria. O Moçambique, as gungas, o patangomi que ele chacoalha e entoa na voz, nas composições aqui no Brasil e fora dele. Conheci “Tiza” na Alemanha ao lado de suas três parceiras – instrumentistas e cantoras – Beth Leivas, Danuza e Raquel Coutinho dançando e tocando para uma platéia de gringos deslumbrada pelo som sagrado que brotavam. Ali, em Berlim, em noite de festival internacional, a coroa assentava na cabeça deste ator, cantor, compositor e dançarino que se fez Tizumba há mais de 35 anos de carreira.

A mesma terra deu um fruto diferente chamado Sergio Pererê. Na lida do amigo mais velho, este artista impunha um charango no peito e cria sua ponte, estreita e tênue, entre a África de Youssou N´Dour e Salif Keita e o Brasil de Clementina de Jesus a João Bosco. Pererê fala de um país para além de sua placenta, aponta sua “parabolicamará” para outros continentes e transita entre eles sem cor.

Há alguns anos formou com outros parceiros como Sassá e Mestre Anthonio o grupo Tambolelê que arrasta uma multidão de jovens e adultos pelas ruas de Belo Horizonte em qualquer festejo, para qualquer direção. Suas letras seguem um dos fundamentos mais sagrados da cultura africana que é o respeito e a escuta aos mais velhos. Seu disco “Labidumba” e o nome do mesmo vem de um último suspiro do pai que lhe disse: “grave e leve esse nome consigo”.

Tiganá aportou em Salvador há 28 anos e para descobrir de onde veio foi investigar nas letras e dialetos – Quimbundo e Quicongo – sua semente. Faz música ancestral, canta como se rezasse, com a mesma dignidade das baianas que carregam acarajés em seus tabuleiros e o sorriso estampado no rosto há mais de 300 anos. Quando exerce seu ofício, todos rezam com ele. É bonito e luminoso de ver a paz tomando assento em sua música. Semana passada Tiganá esteve na Balada Literária, organizada por Marcelino Freire, e desfiou a canção “Le Mali chez la Carte Invisible”.

“De vez em quando eu sou a árvore que fez o Mali
ser a pele a cobrir as mulheres caídas sem os seus corpos.
A raça humana aqui pode ser infinita
se ela se chama partir
certa de sua unidade morta.
A África está dentro das crianças e o mundo está fora…”
Tizumba, Pererê e Tiganá dão muito sentido ao que chamamos de “consciência negra” porque ela está muito além de nossos tecidos.

Pra conferir, tudinho, inclusive os grandes músicos em ação, visite: http://colunistas.yahoo.net/posts/6672.html

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sinais diacríticos em mim


Há ali, em cada sinal de reverência feito ante as águas, toda a possível sabedoria que carrego em mim. O movimento alheio e o meu para as águas é uma composição da alma que areja o pensamento e viabiliza muitos sentidos que me tornam mais feliz exercendo minha existência. Ali eu singro a beleza que apazigua os tormentos do dia a dia e me refresco de fé. Eu - o filho do mar sob o sol do Brasil, da Bahia... Ali eu reinvento a vida e sigo, leve e lindo, como rosas flutuando sobre as ondas e alimentando o destino humano frente às divindades. Ali toda a poesia toma conta de mim e me faço herdeiro da cosmologia iorubana que me faz filho dileto da Grande Mãe, senhora dos seios volumosos, a mulher que me embebe em projetos e irradia, a partir de mim , a luz que emerge das profundezas do oceano. Atlântico Sul na cidade de São Salvador.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A alma da gente

Foto de Marcel Hohlenwerger

No lugar mais solar e inevitável,
espelhando na gente
o ancestral que nos faz caminhar.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Maria Bethânia: a fora de moda que é norte para o Brasil


Em resumo, ela espelha sua própria força. E diz querer "diminuir" o Brasil dos grandes centros para voltar nossos olhares para as coisas simples do interior; mas acaba agigantando tudo que a voz toca com seus projetos de arte lítero-musical. A mulher de 64 anos, uma senhora linda nascida no Recôncavo baiano, é exemplo do muito que se pode fazer ao longo de uma existência. Longe das antigas marcas definidoras que desenham o envelhecimento, Maria Bethânia está no auge da carreira e com certeza, acesa na vitalidade que sua artisticidade mais amadurecimento conferiram à sua vida.
Por mais que seja desgastado se insistir nesta constatação, Maria Bethânia, em atividade, é um norte estético educativo antropológico e histórico para o nosso País; é um fenômeno contínuo que, por mais que Claudia Leitte, Ivete Sangalo ( não deveriam nem ser citadas aqui) vendam muito e estourem em popularidade, serve de esteio, podendo ser criticado e nos levar à critica profunda de nós mesmos. Não só cantar ( e ela tem feito isso beirando a perfeição), mas pesquisar, lançar luzes a trabalhos oportunos e geniais como o de Paulo César Pinheiro, Jussara Silveira, Rita Ribeiro, Tereza Cristina, entre outros; fazer da poesia bandeira educativa; espraiar por toda nação os poemas de Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Fausto Fawcet, Antonio Cícero, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Jorge Portugal, José Craveirinha, Chico Buarque, Cecília Meireles, Sophia de Mello Breyner, Arnaldo Antunes, Beto Guedes, Chico César, Ana Basbaum, Carlos Drummond de Andrade, Jota Velloso, Neide Archanjo, Gonzaguinha, Adriana Calcanhotto e textos da outra deusa, Clarice Lispector. Pois sim, são todos literatos conduzidos ao grande público pelo canto teatral e sócio-antropológico de Maria Bethânia.
A Universidade Federal da Bahia e todas as outras baianas vacilam, num misto de burrice conceitual e de machismo recorrente, ao não conferirem a esta artista o título de Doutora Honoris Causa pelo conjunto da sua obra que presta favores intelectuais ao Brasil e em muito orgulha o estado da Bahia.
Ela se diz fora de moda, e segue, em alguns aspectos, professoral nas suas altivez e reserva peculiares. Mais que tudo, segue cantora pedindo que se dê atenção prioritária à educação e vai ocupando um lugar entre nós, o qual nossas Universidades deveriam se espelhar.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Hemisfério Sul


Arrolam-se comentários sobre o excesso de contradições. É como o estabelecido do norte, mais rico e mais forte, e a fracassada condição existente do sul. É o centro das negações. Teor presencial da impossibilidade - o que assusta mas existe. Mãos dadas constantemente ao mistério. Rusgas na própria explicação. O movimento sensual no escuro contrário a tudo que exige as conhecidas elucidações. Está embaixo: boca pênis dentes bunda vulva pêlos dedos suspiros e, a alma feliz. Intempéries necessárias. Temporariamente feliz. Horas em minutos felizes. É assim: o corpo deseja canta realiza dança sensações. Sempre embaixo para não estar à superfície medíocre que não aceita. Ao sul dos segredos que vivificam o encontro humano com outro. Como o poeta, luz e mistério ao sul da vida que nunca espera.

domingo, 21 de novembro de 2010

Existir

"E quão diferente o começo de nossas vidas é do seu fim! O primeiro é feito de ilusões de esperança e divertimento sensual, enquanto o último é perseguido pela decadência corporal e odor de morte."
Schopenhauer

P.S.: é bom esquecermos disso.

Enquanto isso: domingo

De algum lugar virá a voz. As imagens aquáticas servirão de poemas a refrescar a quentura de uma procura que segue sem fim. Nada de termômetros ou ar-refrigerados. Tudo é medido ao natural e satisfaz breves instantes nessa patética investida do existir. Tudo brilha acima e se encena para despertar o querer continuar numa mussarela de vida autofágica. Tudo apaga-se ao centro, ao lado, pela frente, por trás, embaixo; tudo que é humano. E quase exterminado. Filosofia de Clarice Lispector para uma poesia de Arthur Schopenhauer: viver se alonga em um contínuo vazio. Só o absurdo salva porque assusta e consola e inibe o óbvio afugentando o tédio que prolifera dias de domingo.
Em algum lugar está a voz azul do poeta; voz secreta de uma quase felicidade envenenada pela falta de quem escreve. Em algum lugar a luz de cima: centelhas da beleza que significa a maior razão de se querer viver; em algum lugar cama feito palco ou o contrário para aquilo que mais agoniza e os pessimistas conceituaram amor.
Algum lugar sem a lentidão esmagadora deste dia: sem pronúncias descoloridas que afetam a comunicação.
Enquanto isso, tudo é ordinariamente normal para a vã ambição dos vitoriosos. Espúrios que normatizam os visionários.
Que não seja assim.

Descobertas

Como sexo

Era para serenar a visão: um corpo nu
nadando no horizonte da sede, da fome
da pele quente na ânsia de mais aquecer.

Era pra ser tão somente estesias
dizeres sem maturação; tudo ágil
lançado com o descontrole
de quem começa com pressa
entregue às arenas do viver.

Era pra ser aqui e já
a boca tocando o âmago
invadida pela realização
sem palavras precisas,
à alma pura satisfação.

Era na sujeira dos corpos
o tempo durando
o desejo sem cessar...

Duas vidas descritas
numa entrega à distância
erguida de presente
a qual só o futuro
efetivará.

sábado, 20 de novembro de 2010

Na minha negra consciência tem Clementina de Jesus

Dona Quelé

Hoje é 20 de novembro. Algum movimento para além da política me faz visualizar com a audição a poesia da voz de Clementina. Aí, tudo é maior que comemoração. É aprendizado na beleza senhorial negra valente desta mulher. Aí são meus traços brancos que me mutilam a memória nesse querer ser outro. Aí ventam homenagens de Caetano Veloso e ela, Dona Quelé, do tamanho de Abdias do Nascimento, transcende o sonho e canta o jongo, me faz me libertar.
Aí são todos os serões das vozes que compõem o melhor do Brasil. Espelho de mulher que discorda do óbvio; descoberta do mago Bello; circularidade Clara Nunes. Mulher que enfeitiça com a tradição e está dentro da qualidade infinda de Maria Bethânia que também aprendeu com ela.

A capoeira conjugada no Feminino

A presença feminina na capoeira é analisada por Marlon Marcos. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE

Este artigo foi construído especialmente para o blog Mundo Afro, de Cleidiana Ramos, festejando nossa Consciência Negra.

“Que gira e faz girar a roda
Da vida que gira…” (Martinho da Vila)

A presença da mulher na cultura afro-brasileira narra as mais significativas histórias que contam os incontáveis exemplos de superação do povo negro no Brasil, originário das mais diversas etnias africanas. Foi a mulher, em seus construtos culturais, a marca fundante para reelaboração das estruturas familiares dos humanos extraídos de suas terras natais; reelaboração essa nascida do sentido religioso, erguido de práticas litúrgicas que se convencionou chamar candomblé. Em áreas do Terreiro, a mulher negra quase hegemonicamente ditou regras e formalizou abrigos sócio-familiares que tiraram da esquizofrenia social grande parte deste povo que, aqui, escapou da escravidão.

Além do mais, estas mulheres subvertaram lógicas machistas assumindo a liderança de suas casas, e como sacerdotisas, quituteiras, fateiras, comerciantes, lavadeiras, operárias, prostitutas, muitas delas mães solteiras, redirecionaram o destino de suas crias, sustentando-as, educando-as, apoiando espiritualmente e oferecendo instrumentos culturais que as fizessem lutar contra as ferocidades do racismo e da pobreza para que hoje, 20 de novembro de 2010, pudéssemos parar o País para relembrar Zumbi e os desdobramentos históricos que pontuam avanços de todas as ordens e atentam para a longa caminhada que ainda devemos seguir para se erguer, se possível, uma sociedade brasileira alicerçada na ética da coexistência, instrumentalizada pelo respeito e não pela tolerância.

E a mulher na capoeira? Por que ainda fazemos essa pergunta se em tantas áreas de expressão social da cultura afro-brasileira ela sempre esteve e está presente sem feições de figuração?

Há quem diga que as mulheres foram ( e ainda são) secundarizadas nas rodas da capoeira por não terem compleição física para tanto. E outros, mais cuidadosos, dizem que por serem o sexo frágil, devem ser protegidas da violência e da destreza do homem em ação nessa luta-dança que é uma das grandes invenções da cultura negra do Brasil. Os mais crédulos afirmam que as mulheres são co-partícipes desta trajetória e nas rodas elas levam leveza beleza delicadeza e cantam, cantam a favor desta luta que ensina aos homens a mágica da auto-proteção, o talento do belo movimento, o domínio de estratégias espaciais, a sabedoria, o exercício da paciência e também, coragem e agressividade.

E como e por que ficar fora disso? Muitas mulheres não querem adornar rodas e tão somente cantar enquanto os homens se desenvolvem na prática do seu esporte luta dança cultura. Não querem se sentir réfens da violência gratuita de muitos homens quando jogam com mulheres. Antes disso, a mulher quer a inteireza do seu aceite no grupo, o direito real e legítimo de se tornarem mestras, de não serem obrigadas a jogar só entre si.

Conquistar a roda da capoeira tem sido um exercício de evolução política e ideológica para a mulher do mesmo jeito que foi ( e ainda é) para os homens conquistarem as rodas dos xirês nos candomblés tradicionais da Bahia e, fora do transe, dançarem para seus orixás.

O feminino anda em desconstrução tal igual ao masculino. E nessa conjugação de direitos iguais entre as diferenças, nada mais positivo que deixar a mulher girar na roda também como autora; elas, as mulheres, que são guardadoras de alguns mistérios da vida.


É carnaval

Uma bela e procedente análise-homenagem à nossa Daniela Mercury; feita pela cantor e sociólogo Carlos Barros, também fã inveterado da verdadeira rainha da Axé Music, é para conferir:

Calendário é uma invenção humana que sempre serviu para organizar o tempo em função das atividades necessárias à sobrevivência na vida social.

Eventos de calendário são acontecimentos que ocorrem regularmente e normalmente são considerados imperdíveis.

Na cultura brasileira, tal e qual o novo disco de Gilberto Gil, a nova peça de Fernanda Montenegro ou a récita mais recente de Bethânia, é de calendário saber qual a nova canção lançada por Daniela Mercury para o carnaval baiano de cada verão.

Daniela Mercury tem tido uma história de canções estampadas para o carnaval de fazer inveja a qualquer set list da folia contemporânea das terras de Caramuru.

De Rapunzel (Carlinhos Brown), passando por Quero a felicidade (Daniela Mercury / Manno Góes) e Olha o Gandhy (Tonho Matéria), além da eletrônica e inesquecível Maimbê Dandá (mais uma de Brown, alicerçado na tradição de Matheus Aleluia), a mais elétrica das baianas de hoje nos traz, SEMPRE, um misto de criatividade, inteligência frescor e competência difíceis de se perceber no reino da música produzida na Bahia, após os anos oitenta.

Digo, sempre em entrevistas e conversas sobre o meu trabalho musical que Daniela e Brown são ventos da melhor qualidade para a vela de meu barco da canção. Digo, repito e reafirmo!

Todo final de ano, é esperado pela mídia inteligente da cidade da Bahia, qual golpe de mestre será dado pela artista mercuriana no quesito canção do verão.

Este ano, uma muito bem sucedida versão do tema da Copa da África emerge com versos que demonstram, mais uma vez que o carnaval de Daniela nunca deixa de ser, entes de tudo, uma celebração à cultura brasileira, a partir do olhar da Bahia.

Acontece que a Bahia dela não é folclórica, preguiçosa ou somente brejeira: sua Bahia tem pulsação, beat, bit, batida, cérebro e eletrônica (que não faz tudo, mas quase tudo...).

É carnaval (Will Adams/Herry Clestin/Jerry Duplessis/Wyclef Jean/Roberto Martino/Daniela Mercury/Marcelo Quintanilha) vem com uma afirmação da Bahia como porto de chegada e reprocessamento das matrizes culturais do mundo inteiro, de Bilbao à Paris, como já sugere a própria letra.

A versão, que conta com participação de Wyclef Jean e Marcelo Quintanilha (que ano passado marcou ponto com Daniela na divisão da tarefa de compor da bela e forte Andarilho Encantado) tem tudo para conquistar as ruas e rádios de fevereiro e março, neste nosso carnaval tardio de 2011.

As barreiras que deve romper são as mesmas enfrentadas nos outros anos, em que refrões fáceis (e só) se justificam como sendo típicos de "música de carnaval".

Ai que saudades de Onde está o dinheiro e Balancê, que, sendo de carnaval, ironizavam e satirizavam a brasilidade com humor e descontração populares e ao mesmo tempo cheias de graça musical (o que tem faltado a algumas peças mais recentes).

Gosto da picardia e da sexualidade na música, mas penso ser importante cantar que o carnaval é também:

PRETA FESTA SANTA
SANTA FÉ PAGÃ
ALEGRIA DANÇA
ATÉ DE MANHÃ
LUMINOSA ARTE
CRIA DE OLORUM
SE O AMOR
SE REPARTE
SOMOS TODOS UM


Em poucos momentos de letra, versos simples e reveladores do carro naval antigo, que remonta, na festa, Dioniso e Zeus; Olorum e o retraimento de Orixás e de Cristo, na quaresma de depois da quarta-feira (que, segundo Vinícius, celebra o fim da alegria do povo...)

É carnaval vem, mais uma vez, reforçar que o carnaval de Salvador não pode deixar de ter muita coisa: participação popular, alegria, democratização da brincadeira, menos apartheid social, etc.

E o que me salta os olhos, positivamente é que a canção É carnaval vem nos lembrar (como o fazem eventos de calendário) que carnaval da Bahia não pode deixar de ter, sem dúvida a energia e a certeza (como salientei nos agradecimentos de meu disco de estreia) de Daniela Mercury.

Assim, se É Carnaval, pelo menos na minha Bahia, isso significa que
É Daniela Mercury!

Vamos pra rua!

P.S.: Essa mulher é uma delícia. E este lindo texto foi publicado originalmente no Cantiga vem do céu, blog do autor.

domingo, 14 de novembro de 2010

Gente Linda



Olhar para vencer essa tarde fatídica de domingo,
Me acordando para mim no cerne da beleza acesa.
Do jeito da nobreza que sei ter
Igual a gente linda que olho
Lá dentro de mim...
Gente linda a sorrir
Nesse mistério que é a vida
Às vezes colorida de prazer.

sábado, 13 de novembro de 2010

Bethânia cantando Tua


De uma noite quase vazia mas que me faz me sentir vivo. Sou eu intranquilo em repetidas audições de uma única canção: Tua. Aceso na vontade de alcançar o outro e deixar aquilo, marcar com a força de um dizer o amor que não sai de mim. Marcar nas evocações que o grande canto traz. Sou eu me transfiguarando em sons para vencer minhas limitações; ardendo, sedento, sonhando acordado; preso à minha maior experiência de beleza artística: me sendo os olhos da águia que vira indio, que é cacique.
No centro da noite que me caminha me tira a roupa me lê em prosa e verso mas não faz silêncio. O retrato da voz me dá saudade dela no palco e sua emissão me deixa na órbita de um encontro sem corpo sem resposta. Tua - trilha perigosa para instantes da insônia de uma alma sem produção. Uma carta abortada, uma ligação interrompida, um email suspenso no rascunho. Na verdade, "só tua, tua, só tua". A voz me repete para eu me oferecer inteiro à imaginação do querer acontecendo, corpos gemendo atrasando o amanhecer. Um misto de masturbarção e miragens. A beleza é a foto da cantora em minha parade e o transporte é a sua voz que me incita de coragem e esperança para além desta noite quase vazia.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Juliana Ribeiro, da Bahia para o Brasil



Que o Brasil é o país das cantoras, todo mundo diz e insiste neste feliz clichê; que é a Bahia um dos mais inevitáveis mananciais de vozes reluzentes entre os brasileiros, sem delongas, basta citar Gal Costa. Mas nem sempre temos a cor da renovação, nem sempre elegem como musa a artista certa, correta, mais criativa.

A gente anda carente da diversão que preserve a memória das grandes invenções musicais feitas por nosso povo, que estabeleça diálogos entre o velho e o novo, que pesquise, que eleve o nosso sentir artístico sem ser professoral, que faça valer a nossa história e que faça do palco síntese de deleite e aprendizado, alegrando a alma por inteiro, por fazer balançar o corpo sem dilacerar a criticidade, sem menosprezar a inteligência.

E que como Gal, Bethânia, Jussara, Virginia Rodrigues, Diana Pequeno, Stella Maris, Márcia Short, Margareth, Daniela Mercury, entre outras, cante de verdade. Ando cansado de nossa estupidez mercadológica que secundariza o primeiro time de nossas melhores vozes em detrimento das musas fabricadas pela indústria do carnaval, principalmente as loiras. Há nessa cidade mulheres que cantam sem dever nada as grandes revelações nascidas entre Rio e São Paulo, e que são lançadas à grande mídia só por conta disso.

Entre nós, crescendo a cada dia, existe a cantora, compositora, pesquisadora e belíssima, Juliana Ribeiro. Mais que páginas de jornal, seria válido e educativo, ver esta artista se projetando em nossas TVs, rádios, magazines e sendo indicada para cantar em programas nacionais e em uma simples apresentação televisa em algum desses programas, se confirmaria a força artística da menina que canta tudo, mas usa o samba como bandeira expressiva de uma tradição da qual ela não pensa em se apartar.

É lindo assistir a um show que mescla os jongos de Clementina de Jesus, faz alusões deliciosas a Carmem Miranda, louva o nosso mestre Batatinha, passeia por Zeca Pagodinho e Leci Brandão, canta Caymmi, Noel, Xisto Bahia e ainda, homenageia os melhores compositores baianos vivos levando-os para o palco.

Juliana é a nova voz da Bahia que o Brasil precisa conhecer. Para amar.

(Publicado no Opinião do A Tarde em 12/11/2010).

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Candomblé da Bahia , belo livro de José de Jesus Barreto

Zé de Jesus Barreto

Muitos falarão de que se trata de uma temática desgastada, já trabalhada por grandes antropólogos, e quem investe hoje nesta seara anseia por questões oportunistas e de mercado. Tudo isso está bem longe do belo livro de Barreto: Candomblés da Bahia, resistência e identidade de um povo de fé, esta obra exemplifica a rara escritura do autor, um amante conhecedor das sutilezas da cultura e da religiosidade do nosso povo negro. O livro, que faz falta quando acaba, nos apresenta, elegantemente, aos meandros do candomblé, no sentido do esclarecimento e da profunda respeitabilidade que o importante jornalista dedica à religião da qual ele também faz parte.
É raro porque junta sabedoria com simplicidade e fala das religiões de matriz africana com a poesia presente na escrita de um grande escrevinhador.

Terreiros realizam caminhada


Como já tem muita gente perguntando o povo de santo do Engenho Velho da Federação pede para informar: não só está confirmada a 6ª edição da Caminhada contra a violência, a intolerância religiosa e pela paz como os preparativos já indicam que será animadíssima.

A caminhada será no dia 15, proxima segunda-feira, e a concentação começa às 14 horas no final de linha do Engenho Velho da Federação onde fica o busto em homenagem a Doné Ruinhó. O traje tem que ser branco.

A caminhada começou há seis anos diante do aumento de agressões a terreiros de candomblé por representantes de igrejas neo pentescotais. O Engenho Velho da Federação é conhecido pela alta concentração de templos religiosos das várias vertentes das religiões afro-brasileiras.

Além diso, a marcha pelas principais ruas do bairro faz um chamado a que toda a comunidade participe da construção de uma cultura de paz.

( Retirado do Mundo Afro, de Cleidiana Ramos)


Três bons lançamentos

Calunga feito de terra

Caminhos pelos rincões da terra que é minha. Lugar que espelha dor, que espelha luta e transformação. Pedaços dos sonhos que me corporificaram e se projetam e me educam em minhas aulas de antropologia. Misto de rejeição agonia alegria vicejar: a poesia em uma velha negra em uma casa feita de barro num mar transmutado em terra. Lições aprendidas para serem gritadas. Ou cantadas na mestria espalhada do sertão-água só visto na antropóloga Maria Bethânia. Luzes de histórias que inspiram lágrimas e orgulho. Exemplos de quem vive sem ter por quêpor quem. E eu leio aqueles símbolos aprendendo a desconsiderar minha solidão. Como me acompanho com outros neste mundo! O valor descrito na arte que me ocupa é o visto nos olhos da mulher que me olha daquela janela. Janela - abertura para um mundo que está em qualquer lugar convidando qualquer um.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Maria Bethânia: minha receita de felicidade

Maria
Remover formatação da seleção
"É chave de ouro do meu jogo
É fósforo que acende o fogo
Da minha mais alta razão
E na seqüência de diferentes naipes
Quem fala de mim tem paixão."


Calor natural em dias difíceis. Muita coisa desencontrada acumulando meus pontos de resolução. Muito susto e medo e palavras e barulho. Trabalho num País que não se respeita; que não respeita a maioria que anonimamente trabalha e cria, sobrevive a porradas da podridão travestida de elite...

***

A voz modifica meus pensamentos. Eleição de canções que nos fazem sentir poder amor paixão revolta felicidade. A voz que é arte e me revela a poesia latente nas insvestigações antropológicas; a cantora é uma versão melhorada das cientistas. Ouço pura sedução de alguém que cria e encaminha música e poesia à mãe.

***
Novo CD em minha eletrola: ao meio de repetições existenciais minhas, as investidas musicais de Maria me são receitas sensoriais da profunda felicidade.


terça-feira, 9 de novembro de 2010

" Bethânia lança pelo selo Quitanda disco de Pinheiro que celebra Besouro "

A Musa e o Poeta

"Compositor cada vez mais frequente nas fichas técnicas dos discos de Maria Bethânia, Paulo César Pinheiro lança pelo selo da cantora - Quitanda, vinculado à gravadora Biscoito Fino - o CD Capoeira de Besouro, homenagem de Pinheiro a Manoel Henrique Pereira (1895 ou 1897 - 1924), o Besouro Mangangá, mestre da capoeira, nascido em Santo Amaro da Purificação, cidade natal da intérprete baiana. Capoeira de Besouro apresenta, na voz de Pinheiro, os 14 toques de capoeira criados pelo compositor para a trilha sonora do musical Besouro Cordão-de-Ouro, apresentado em palcos brasileiros desde 2006.


Para 2011, Bethânia planeja a reedição pelo selo Quitanda de Santo e Orixá. Disco gravado pela cantora e mãe-de-santo Gloria Bomfim, cozinheira de Pinheiro desde 1987, Santo e Orixá foi lançado originalmente em 2007, sem repercussão comercial, pela gravadora Acari Records. É no CD de Bomfim que está a gravação original de Encanteria, tema de Pinheiro que daria título a um dos dois ótimos álbuns lançados por Bethânia em 2009."

(RETIRADO DO BLOG PROGRAMA CENSURA LIVRE)

Cinema Paradiso


Devo ter assistido a Cinema Paradiso no início de 1990. Eu, cheio de sonhos ilusões projetos, cursando História (UCSAL), Ciências Sociais (UFBA) e Pedagogia (UNEB), querando abraçar o mundo pelo estudo, melhorar economicamente, mas mais que tudo me sentir gente. Este filme foi um alento estético na minha alma; passei amar Cinema integralmente e ali, confirmei o que já sabia: não poderia ficar muitos dias sem filmes e perdi a vergonha em dizer que amo mais a sétima arte do que o Teatro ( que também gosto muito).
Aquele menino, Totó, era eu descobrindo o mundo. E todo sentido de ter um mestre e cumprir promessas com a verdade da alma estava escrito ali e e lia numa visão-audição que só o Cinema pode ofertar.
Estou longe da minha Salvador e, ao lembrar deste filme e tentar postar aqui algo sobre ele, me comove pois me devolve a muitos sonhos que não conseguir fazer. Sinto saudade de mãe amor mestre e eu era de uma tensão tão grande fazendo história - aquele curso que me tornou a pessoa que sou hoje, o mais importante da minha vida que me escolheu para ser antropólogo.
Cinema Paradiso é um curso de arte e se eterniza na gente como filme, como narrativa. O algo que indica na gente que é preciso querer fazer criar e, às vezes, obedecer.
Nunca deixei, do meu modo, de ser aquele menino. Perdão por eu ser pretensioso. Sim.

Juca Ferreira, Secretário de Cultura do Estado da Bahia

Voo Certeiro ( Capoeira)

"- Quem sabe que se o Juca Ferreira, que é uma pessoa ética, voltando à Bahia, vira secretário de Cultura com a propriedade que lhe é peculiar."
Aposta Emanoel Araújo, em entrevista no Terra Magazine

Frida Kahlo, pra inspirar

Talvez diminuir a dor seja se autotematizar. E encontrar em desenhos não narcisistas formas de continuar vivendo e criando. O autorretrato é um instrumento de autoconhecimento e crítica contra o descaso que a vida, na forma do outro, faz da gente. E também, método de realização de melhoras em si mesmo. Pintar escrever desenhar dançar cantar representar construir esculpir silenciar ... A arte nos traz para dentro da gente e nos faz comunicar com o que está fora.
Manhã: Frida Kahlo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Quem será?


James Franco ou James Dean?

Qual é o lugar do negro no Brasil?

"- Quem sabe que se o Juca Ferreira, que é uma pessoa ética, voltando à Bahia, vira secretário de Cultura com a propriedade que lhe é peculiar."

Emanoel Araújo, umbilicalmente, responde a Claudio Leal no Terra Magazine:

"Ainda não existe esse lugar. Não importa o que o negro africano ou afro-brasileiro contribuiu para a formação da nossa nacionalidade. Pense na importância dos negros. Machado de Assis, Pelé, Lima Barreto, Aleijadinho... São todos negros! E onde estão os negros no Brasil? Aí você pensa: e Juliano Moreira, o primeiro psiquiatra brasileiro? E Teodoro Sampaio, que planejou o que de esgoto existe nesta cidade (São Paulo), que fez o levantamento geológico do Paranapanema e que escreveu tantos livros sobre a história paulista? No século 19 inteiro, em plena vigência da escravidão, você tinha sujeitos saindo dessa instituição miserável que foi a escravidão, como Paula Brito, o primeiro editor brasileiro, André Rebouças (engenheiro), o poeta Cruz e Souza. É um retrocesso, cara. É um retrocesso de tudo: de atitude, de invenção, de inventividade, de criação. É lastimável que ainda, no século 21, se use todos os jargões preconceituosos contra o negro, não só na vida pública como nos meios de comunicação. Meus 70 anos não são pra se comemorar. Sinto muito, mas é pra chorar, sobretudo eu, depois de um assalto de três sujeitos em minha casa, no dia 31 de outubro, no dia da eleição para presidente da República."

Ilê Axé Oyá Tolá: Festa das Iyabás

Emanoel Araújo: "Na Bahia, Rodin virou vendedor de acarajé"

Emanoel Araújo ( Foto Claudio Leal)

Claudio Leal ( Especial do Terra Magazine)

Na segunda parte da entrevista especial, Emanoel Araújo relata sua experiência à frente da Pinacoteca de São Paulo, na década de 1990, e as reações "absolutamente racistas" à sua presença na instituição cultural.

- Na época, o governador Fleury recebeu montes de pedidos para revogar a nomeação e até foi publicado um abaixo-assinado com a assinatura de muitas pessoas conhecidas e ditas amigas.

A gestão de Emanoel Araújo se tornou histórica, por recuperar e modernizar o prédio da Pinacoteca, transformando-a num dos principais destinos culturais da capital paulista.

Idealizador do Museu Rodin Bahia, o artista plástico critica a condução do projeto. "Na Bahia, Rodin virou vendedor de acarajé", ironiza. Segundo o diretor-curador do Museu Afro-Brasil, as obras do escultor francês não foram bem expostas e a curadoria "avacalhou" Rodin. Emanoel abortou uma exposição individual no museu, depois de enfrentar funcionários do Estado por ele qualificados como "magarefes fantasiados de bons moços".

- Foram momentos muito desagradáveis daquele bando de incompetentes que cerca Sua Excelência incompetente também.

Ele defende:

- Quem sabe que se o Juca Ferreira, que é uma pessoa ética, voltando à Bahia, vira secretário de Cultura com a propriedade que lhe é peculiar.

Terra Magazine - Como você avalia as políticas públicas para a cultura, no Brasil? Houve algum avanço?
Emanoel Araújo - Olha a docidez... Doçura com acidez. Olha, meu caro, as coisas não são autóctones, elas formam um grande halo. Um país que não tem educação, não tem saúde, não pode ter cultura. Não é pela cultura que esse país ingressará em algum lugar nesse mundo. Na realidade, a fórmula usada por todos os países, de que a cultura é um patamar natural para entrar na hegemonia do mundo, aqui não serve. Eles não acreditam nisso. Não acreditam na educação, quanto mais na cultura.

E nem ligam a educação à cultura?
A cultura sofre, como sofrem todas as instituições. A cultura sofre mais porque é tida, assim, como uma coisa de diletante, de grã-fino, de homossexuais, de gays que não têm o que fazer e são culturebas (risos). Os culturebas excêntricos do Brasil. Então, esse culturebas são levados ao deboche, porque não é através disso que o Brasil vai se afirmar. Não é impondo seus criadores e suas criaturas que o Brasil vai chegar a algum lugar. Estranhamente, os artistas brasileiros são os menos conhecidos e os menos valorizados da América do Sul. No Chile, por exemplo, um artista como Roberto Matta vale muitos milhões de dólares. Ou melhor, sempre valeu muitos milhões de dólares. E outros artistas latino-americanos, da Argentina, da Venezuela, da Colômbia e até do Uruguai valem mais no mercado internacional do que a nossa pobre Tarsila do Amaral.

Há uma crise da gestão pública da cultura?
Creio que não. Por exemplo, só agora, na gestão do Serra, é que se criou as organizações sociais para administrar os museus do Estado. Uma batalha pendente de muitos anos e ainda, talvez, não totalmente resolvida. Contudo, esta foi a melhor forma para a administração das entidades culturais. Claro que isso se estende a São Paulo. Falta, de fato, uma política nacional agressiva para esse fim. Ainda não resolvida, mesmo tendo importantes ações do Ministério da Cultura. Mesmo assim, sente-se que, num País do tamanho que se tem, muitos Estados ainda sofrem pelo total abandono da cultura, do patrimônio e dos órgãos de preservação.

É um país do ressentimento?
É, do ressentimento. O sucesso faz muito mal ao brasileiro. O brasileiro não pode ver o sucesso do outro. É aquela coisa que Octávio Mangabeira dizia: "o baiano dá mil para o outro não ganhar cem".

E Mangabeira tem a imagem do coqueiro, que é ótima...
E também, qual símbolo seria pra Bahia? Um neguinho subindo no coqueiro e dez puxando pra baixo! (risos) Essa é a história. Não é só a Bahia. Pense no maior absurdo e o Brasil terá precedente. Sempre tem um precedente. Um precedente pra baixo. Houve até um tempo onde homens, pensadores da cultura, como Gustavo Capanema, Rodrigo de Mello Franco, José Mariano, Mário de Andrade e outros intelectuais brasileiros, estiveram à frente de um grande projeto cultural para o Brasil. É dessa lavra a construção do Palácio Capanema, antigo Ministério da Educação e Cultura, com arroubo de arquitetura moderna (no Rio de Janeiro), de Niemeyer, Lúcio Costa e Le Corbusier. Mas, também, é desse tempo o fracasso de Lúcio Costa quando diretor da Escola de Belas Artes e fez o salão de 1931. Era muito avançado para os conservadores daquele tempo. E assim é que vai o Brasil desde sempre, com avanços e recuos, talvez mais recuos do que avanços.

Dá pra lembrar também da demissão de Mário de Andrade no Departamento de Cultura de São Paulo. Ele teve que se mudar para o Rio.
É mesmo. Você vê: todo sujeito que pensa a modernidade e o avanço é ceifado no Brasil. Porque o Brasil tem que significar o fracasso. Isso é o que importa. Nós somos a República do fracasso. Não adianta. Não sei de onde vem essa lógica perversa. Alguns dizem que é da colonização, outros dizem que é da oligarquia, outros dizem que é da burguesia, outros dizem que é da esquerda, outros dizem que é da direita... E eu não sei do que é.

O golpe de 1964 desmontou um movimento cultural de vanguarda?
Por um lado, sim. Por outro lado, não. O golpe militar, de uma certa forma, cortou a questão da educação do Paulo Freire. Mas todos esses projetos eram embrionários, como os de Anísio Teixeira, até retomado por Darcy Ribeiro quando se construiu os muitos CIEPs. Você tem visto os CIEPs nas reportagens policiais da televisão? Sofrem de bala perdida, servem como esconderijo de droga, etc. etc. Em 1964, surgia uma juventude sequiosa de coisas e de fatos, mas que foi ceifada. Chico, Caetano, Gil, Opinião, Francisco de Assis, Capinam, Vianinha, Leon Hirszman, um monte de gente teve sua trajetória interrompida. Havia, portanto, em 1964, um projeto de País que foi interrompido e proposto um outro cheio de serviços para um classe média. E o povo, esquecido. Daí a proliferação das favelas, das inchaços das cidades, do aumento da pobreza e da miséria.

O que você enfrentou para desenvolver projetos hoje considerados inovadores, como o da Pinacoteca de São Paulo e o do Museu Afro-Brasil? Em Salvador, você dirigiu também o Museu de Arte da Bahia. O que você identifica em comum, de enfrentamento, em todos eles?
Nós temos o péssimo hábito de que as coisas acontecem sempre em nome de alguém e não de um processo continuado que seja abraçado conscientemente por todos, seja da direita ou da esquerda, branco ou preto, azul ou amarelo. Fui uma pessoa que, num dado momento, encontrei Antonio Carlos Magalhães e com ele foi possível renovar, restaurar e mudar o Museu de Arte da Bahia, que vivia achincalhado numa pequena casa do bairro de Nazaré. Muitas peças do seu acervo foram desviadas, até para o Museu de Petrópolis. Os quadros de Pancetti, que estavam expostos no palácio do governador, tinham desaparecido. Até o Museu de Sergipe recebeu uma grande tela do seu filho mais ilustre, mandado pelo secretário da Educação da época.

Anos depois, me vi na Pinacoteca com Adilson Monteiro Alves, Ricardo Ohtake e Marcos Mendonça. Começamos um projeto da sua reforma e foram fundamentais os recursos do ministro Francisco Weffort e do governador Mário Covas. Agora, o Museu Afro-Brasil, criado no final da gestão de Marta Suplicy, mas, por sorte, o governador José Serra o trouxe para a Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo. São fatos com uma direção e um respaldo específicos. Isso não vale pra todo mundo. Isso não transbordou. Pelo contrário, teve ponta de ciúme, ponta de inveja de gente que se sentiu ameaçada por um neguinho baiano.

Havia essa conotação racial?
Claro. Absolutamente racista. Quando eu fui nomeado por Adilson Monteiro Alves, o jornal Estado de S. Paulo publicou: "Foi nomeado diretor da Pinacoteca Emanoel Alves (sic), em lugar da professora e doutora Maria Alice Milliet". Eu vivia em São Paulo tinha muito tempo, mas era como se eu estivesse chegando naquele momento. Muita gente chegou na Pinacoteca e me disse: "Mas, como um baiano vai dirigir a Pinacoteca?". Na época, o governador Fleury recebeu montes de pedidos para revogar a nomeação e até foi publicado um abaixo-assinado com a assinatura de muitas pessoas conhecidas e ditas amigas.

Havia o quê antes disso? Um parasitismo?
(imita vozes arrastadas) As coisas são assim... Letárgicas... Ai... Arma-se um altar... Ficavam lá se incensando uns aos outros e não faziam nada. Então, o Fleury recebeu um monte de queixas. Ele chamou Adilson Monteiro Alves e reclamou da nomeação. Adilson, por sua vez, pediu o apoio de todas as associações de negros de São Paulo e mais de 300 telegramas de apoio a minha nomeação foram dirigidos ao governador Fleury. Foi assim que eu recebi a grande loa da minha vida, o graaaaaaande mimo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

E qual era o estado da Pinacoteca?
Na segunda noite do começo da minha gestão, choveu, como sempre chove em São Paulo, de maneira absurda. No meio da noite, o vigilante me liga e avisa dos estragos das águas. Cheguei por volta de quinze minutos depois. Tudo estava inundado. O andar térreo parecia Veneza, a água era um espelho que refletia toda a arquitetura. Havia um pequeno muro de um palmo de tijolo, que isolava a reserva técnica. A desgraça poderia ter sido pior. Aí, eu fiquei pensando: "Este é o grande mimo que eu recebia sob protesto de muitos dos paulistanos?". Era mesmo esse mimo que serviu a todos que usaram o prédio da Pinacoteca? Que assistiram a sua derrocada, sua decadência, sua depredação, suas paredes violadas por pichações imbecis, seu mezanino que cortava as portas de pinho-de-riga e seu telhado apodrecido? E muitos deles achavam mesmo que era importante demais para esse pobre marquês!

O que você pensou quando viu a reação dessa mesma sociedade, cheia de elogios, no momento da entrega da nova Pinacoteca?
Eu? Vi aquele sorriso de calango... (risos) Vocês estão recebendo o que vocês não merecem, mas estão recebendo o trabalho de dez anos de um brasileiro que acreditava e acredita na cultura como fator de desenvolvimento humano, não só de São Paulo, mas do Brasil.

Recentemente, você teve um enfrentamento com Museu Rodin Bahia. Deveu-se também a problemas de gestão?
Sabe o que aconteceu? O secretário de Cultura da Bahia (Márcio Meirelles) me convidou para fazer uma exposição, à guisa de me prestar uma homenagem por ter idealizado o projeto do Museu Rodin, no dia em que as obras do escultor francês inauguravam definitivamente o Rodin na Bahia. Então, me esqueci de como as coisas são na Bahia e comecei a tratar dos trâmites para levar a minha exposição retrospectiva de 50 anos para aquele espaço. Tinha conseguido substanciais descontos de embalagem, transporte ida e volta, montagem, cenografia. Faltava, portanto, R$ 200 mil reais para custeio dos folders, catálogos, transporte de pessoal e iluminação. Aí começou a grande lenga-lenga de como pagar essa mixórdia para a exposição de um artista da minha envergadura e do meu prestígio nacional, voltando a sua terra natal. Foram momentos muito desagradáveis daquele bando de incompetentes que cerca Sua Excelência incompetente também.

Por fim, o resultado: não foi possível executar o projeto diante das prerrogativas para tal projeto. Lamentável a falta de brio e sensibilidade da coisa pública na Bahia. Nisso, ela se perdeu na mão desses incompetentes e incorretos sujeitos que até hoje lá estão. Assim, a cultura brasileira vive a reboque desses magarefes fantasiados de bons moços. Aliás, o Diário Oficial da Bahia publica sempre fatos estapafúrdios e exorbitantes verbas para exposições e remanejamentos de acervos de museus. De estarrecer. Quem sabe que se o Juca Ferreira, que é uma pessoa ética, voltando à Bahia, vira secretário de Cultura com a propriedade que lhe é peculiar.

Mas houve críticas suas à primeira exposição do museu Rodin, não? Quais foram?
Sim. Quando propus ao Jacques Villain a criação do Museu Rodin da Bahia, era com a intenção de transformar e, de uma certa forma, desengessar a arte baiana daqueles mesmos senões de sempre. Havia também no projeto uma parceria com a Fundação Coubertin, para levar jovens artistas da Bahia para a França e torná-los conhecedores do processo de fundição das obras escultóricas de muitos artistas antigos e contemporâneos da França. Havia também uma proposta de um museu educativo, voltado para a escultura brasileira, sua história, seus fundamentos, seus criadores. Mas dez anos se passaram sem que o antigo secretário resolvesse de fato sua infra-estrutura e seu funcionamento. Dez anos se passaram e os trâmites da vinda das obras, afinal, chegavam na época para sua inauguração.

Foi lamentável ver as obras originais em gesso do Rodin jogadas a reboque nos espaços da velha casa (Palacete Bernardo Marthins Catarino) sem o mínimo cuidado, sem o mínimo respeito às suas proporções e às suas instalações, sem o mínimo respeito museográfico ao grande mestre Rodin, que na Bahia virou vendedor de acarajé. Até uma sala suja de gesso, salpicado por todos os lados, do chão até o teto, à guisa de um atelier de um escultor. Ora, qualquer pessoa de bom senso sabe que o gesso não é matéria para se esculpir, porque ela é pastosa e não se levanta para o gesto escultórico. O gesso é a substância que fará permanecer a obra esculpida anteriormente em barro. Ele é o condutor da obra para cera perdida e, posteriormente, para a fundição. Portanto, o equívoco daquela sala é um desserviço. Enfim, conseguiram avacalhar com a grande escultura de um dos maiores escultores do mundo. Isso é pra dizer que Mangabeira tinha mesmo razão: pense num absurdo e a Bahia terá precedente.

O projeto Pinacoteca, como você idealizou, foi preservado?
O que falta às instituições é a sua definição tipológica. A tipologia da Pinacoteca é uma, a do Masp é outra... Agora, aqui no Brasil, se instituiu a chamada arte contemporânea como a idéia nacionalista do up to date. Só aqui, porque os museus do mundo continuam expondo seus acervos dentro do que, tipologicamente, se propõem. E ai de quem não estiver enquadrado dentro dos dogmas contemporâneos! Acabou, morreu, mataram para sempre os chamados "movimentos defasados" da arte brasileira. Tudo aqui agora é arte contemporânea. É lamentável, agora mesmo, ver a fachada do Museu de Arte de São Paulo, que faria sair do túmulo Lina Bo Bardi e o próprio (Pietro Maria) Bardi, coberta com uma plotagem decorativa de alguma proposta contemporânea. (risos) Outro dia mesmo, o jornal Estado de S. Paulo publicou o curador Ivo Mesquita de corpo inteiro, saindo da maquete da Pinacoteca do Estado, segundo idealizada pela Unicamp, com braços cruzados e seu sorriso de pura zombaria. Alguém disse alguma coisa? Não acredito que essa seja a postura para um curador de uma instituição dita centenária de São Paulo.

Aos 70 anos, sua tolerância está próxima de zero?
Hein? A minha tolerância é zero! (gargalhadas) Zero nos setenta.

domingo, 7 de novembro de 2010

Um sonho feliz de cidade


Da beleza sobreposta aos demandos governamentais.
A beleza sem a qual eu não posso viver.
Do fundo deste lugar que habita em mim
E me inscreve nas searas do amor.
É um tipo de sonho feliz
Mas eu acordo para sentir dor
Aqui, nessa minha quimera de felicidade.
Traços de uma cidade grandeza
Porque ladeada com o mais lindo mar.