Amanhã, 07 de abril, dia do jornalista, dia do nascimento de Billie Holiday... Símbolo do que nunca morre... Espécie do grude Diva Vieira Passos - duas mulheres com a cara igual de histórias desiguais e sendo no meu íntimo a mesma coisa... Billie, o canto supremo, a maior cantora de todos os tempos e essa minha desrazão, emoção sequencial Maria Bethânia, Gal Costa, Elis Regina, Jussara Silveira, Adriana Calcanhotto, Norah Jones... Tiganá Santana. Falta da desnecessária explicação... Minha noção melhor do silêncio na nítida sensação do amor que me norteia... Só sou saudade, homem repartido mas amei como menino - inocente vívido doce, querendo o mais doce dos olhos acima do mais doce que poderia ter. Era castanho. E Billie se nos faz assim ressuscitar. My love for sale... Vendas de mim mesmo, vãs vãs vãs...
terça-feira, 6 de abril de 2010
Maria Bethânia: Palavras
Ela deveria ser a cantora maior de qualquer escritor, já que nos delicia, em sua pronúncia rara, com a beleza maior que a palavra instaura. Mulher que ruge delicadezas em récitas da precisão. Eu a ouço como um aprendiz da fala e escrevo, humilde e imaginariamente, sobre o sublime que se rasga em sons da sua garganta. Quem se atreve a dizer poesias à frente de Bethânia se adianta para a anulação. A mulher oxigena as palavras e sua história de griô correlaciona-se com os feitos poéticos do feminino em Lesbos, esta Maria é legado humano greco-africano; naquela voz tudo é um drama inclinado a magnetizar seus ouvintes e a romper fronteiras: quando começa o literário e quando termina o musical? O que é teatro e o que é música e o que é poesia na voz desta cantora?
Maria Bethânia, artífice condutor do que um idioma pode guardar e traduzir desta gente luso-brasileira.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Billie Holiday: começo meio fim
Como se dentro do sereno, estivesse fazendo muito frio, a alma nada agasalhada, mas a beleza reinando e a vida, por causa disto, sendo salva. A beleza descrita na voz que faz inverno... Os lados desérticos num código de grandeza feminina à posse do mundo. O rosto maior que a dor. Trajetórias de invenção para o mito: aparentes derrotas no que tange navegar... O mundo. Dói em fingimento, em alegoria, em poesia, em busca, em tormento. E a mulher canta. Parindo destinos, o seu filho eternidade... Aquilo do olho em abandono mas sem saudade. E a dança das mãos à procura. Joelho no outro do outro e ventando. Trompete ou sax na garganta humana? Como cantar daquele jeito numa peformance insuperável? Debaixo do sol muito gelo. Neve esvaindo-se de canções. O olho de quem escreve lotando-se de saudade. Circulares da dor. O que está abaixo da tristeza e emerge pelo talento. Senhora dos dias em sua vida de duras noites. Glória mortífera notívaga do amor cessando. Frio que é bom. Frio que é mau. Alcance na eletrola acompanhada de álcool. Vinho da melhor safra. Chegada insuportável. Paisagens urbanas e ela tão acima, tão distinta, criatura dos sofreres, diva da legítima realeza; mulher prostituída sobre a mesa dos melhores paladares. O preço que não se paga. Algo que já se foi e para o continuum da música será sempre começo meio fim. Desfecho que nega lógicas e sabota as lições de erros e acertos. Ela é Billie Holiday.
domingo, 4 de abril de 2010
Ócio dos gênios: Clarice Lispector e Billie Holiday
Clarice
BillieTal vez foi descontração. Elas imprimindo-se em fotos. Com o peso da impossível normalidade. Vez do quase descuido inumano. Manhã de domingo refazendo sonhos apesar da dor. Escritos incisivos d'uma n'outra a voz do mais amplo sentido. Em ambas, manhã da total beleza. Vez outra chega nobreza, quando uma posa branca e a outra negra, fuma... Lindeza do que se encanta em voz e escritos e elas, mulheres queimando: fogo sagrado da sedução... A bela face feminina íntegra aos prazeres e dores.
"Não acho que estou cantando. Sinto-me como se estivesse tocando trompete. Procuro improvisar como Les Young, como Louis Armstrong ou alguém que admiro. O que vem é o que sinto. Na realidade, detesto cantar por cantar. Tenho de adaptar a melodia ao meu próprio modo de cantar. É tudo o que sei".
"Fique de vez em quando sozinho, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa".
"Maybe
I shall meet him Sunday
Maybe monday, maybe not
Still I'm sure
To meet him one day
Maybe Tuesday
Will be my good news day"
"Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma".
"Take me back, I love you
... I need you
I know it's wrong, it must be wrong
But right or wrong I can't get along
Without you".
Ecos da liberdade

Haveria de existir a teletransportação, o que em muito dimunuíria esta sensação de vazio... Imaginar e alcançar os Alpes Suíços, o litoral italiano, o antigo Egito, o atual Níger, Abeokutá, as ruas de Paris, o Paraguaçu em Cachoeira, o azul de Istambul e a diversidade de Nova York. Deveria. Viajar pelo tempo e espaço e bater um papo amargurado com Fernando Pessoa e sentir medo e adoração frente a Clarice Lispector. Dar um Iká aos pés de Mãe Aninha de Afonjá e assistir Elis Regina em Falso Brilhante. Ouvir vendo Maria Callas. Muito mais perto: os Doces Bárbaros e os Novos Baianos; beijar Marlon Brando e viver ao lado de Billie Holiday. Caminhar ao lado de Jorge Amado sentindo a sua Bahia e pedir a Caymmi uma canção para minha Iemanjá.
Haveria, em nós, de existir o alcance maior e a gente ver o mundo dias após nossa própria morte e voltar ao tempo presente compreendendo mais.
Gritaria em cada canto do mundo: mais poesia mais poesia mais poesia. Beleza em nossos dias e o peito humano rindo de doçura e sem tantas lacunas que enfurecem a vida e dilaceram bons instantes, as tais horinhas descuidadas fazedoras de alegria.
Haveria de ser pura mágica na noção de cotidiano... Todo dia se salvar em palavras sons imagens amizades amor culto fé... Poetar do Olimpo conversando com Zeus e ele me permitindo gritar liberdades. Eu trovejar, atiçar os mares, ventar contra a violência e a insatisfação gratuita; liquefazer instantes dando e tendo prazer no que pode o corpo e a palavra. Muitos poemas refrescantes neste calor escaldante gerado por nossa genérica infelicidade. Poemas para árvores mares idosos crianças mulheres alguns homens sem as marcas das raças mas idílicos na saga ideal do que poderia ser isso ser humano...
Queria a teletransportação para dentro do amor profundo, entrega inteira e o susto da intensa felicidade.
sábado, 3 de abril de 2010
Minha desgraça


Minha desgraça não é ser poeta
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como se trata um boneco...
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... o mundo é um lodaçal perdido
Cujo o sol ( quem mo dera!) é o dinheiro...
Minha desgraça, ô cândida donzela,
O que faz que o meu peito blasfema
É ter para escrever todo um poema
E não ter nenhum vintém para uma vela.
Álvares de Azevedo
Domingo de Páscoa
Tenho cá dentro de mim centenas de perguntas dilacerantes e algumas certezas que me tiram o sabor da vida. Queima-me , aqui e agora, a fagulha impura dos mais infelizes; os desinfelizes que se cobrem todos de projetos de vingança e, terroristas da própria sorte, subvertem o encontro, aceleram, em conflitos banais, a morte e não calam mesmo sem ter o que falar.
Propagadores do quase-caos porque neles nada pode ser inteiro e a metade é lida por eles, quase trogloditas, em todos que escapam de suas migalhas explicativas nascidas dos seus insucessos sócio-existenciais. Difundidores do acertado maltrato e criadores de buracos na alma de quem ainda enxerga e gera poesia.
Inspiradores dos escritos malditos - os melhores, é claro! - e fazedores de estúpidos barulhos que violentam a fé silenciosa de quem espera da vida, e do mundo, mais fruição intuição sensibilidade coragem clareza e coletivas realizações.
Esse é o retrato do que será o Domingo de Páscoa sob a chuva e a vã diversidade na Cidade da Bahia!
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Tristeza
"Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais..."
V M
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais..."
V M
E a pior dor é a de ter novelos de palavras e não ter a quem dedicá-las inteiramente. É fazer silêncio e fazer barulho e ser pessoa alheia à atenção de alguém: a pior dor é deserto cheio de gente quando todos seguem indo-se. Um vento danado sem refrescar e há a fala brotando palavra sendo água na quentura que ao invés de salvar, toda palavra água, afoga meio morte quase vida e tudo dói como música na fita que não soube alcançar. Esses dias do assim sem sim - o mundo descritivo, meros palavreados para aquilo que há porque não há sentido. Vaga na retórica: imensa distância fazendo doer demais... Agora não há por quem sentir saudades, por quem idealizar verdades, riscar o chão das ruas abaixo da lua pedindo pra voltar; agora o peito está seco da ânsia que era amor e se vestia de azul, tocava violão, escrevia, desenhava, sorria, cantava, vivia espelindo luz castanha e... Nem há lembrança mais. O tempo venceu dilacerando a cidade submetida às águas de uma canção que deveria ser eterna. Restou a árida seca que norteia a noite desta tristeza lenta e em paz... O pensamento sem ter em quem pensar e nem perfume, nem música, nem palavra poética retorna o brio desesperado de um amor que todo dia se fazia Primavera. Uma trilha magistral na voz de Maria.
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