sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Caio Fernando Abreu

Ele trouxe um olhar masculino para as perguntas literárias iniciadas por Clarice Lispector: um jeito de introspecção numa soltura verbal criando imagens dilacerantes...Impactos ditos de dentro e de fora de uma das mais importantes escrituras desenhadas no urbano de nós, brasileiros. Um gaúcho universal, místico e cheio de fé. Reluzente e feroz. Conhecedor da ambiência dos orixás, adorador de Iemanjá e Oxum, amante da música popular do Brasil, um crítico inteiro das coisas que nos faziam e que nos desfaziam também. Ler Caio F. é chegar pra perto de nós mesmos e umas vezes gritar, outras chorar, algumas calar e muitas imaginar a vida pelo viés da realização. Mais uma epifania, em mim, tal como as marcas que Clarice me deixa, Caio é um dessassosego que me movimenta enquanto eu sujeito de mim mesmo. Um homem de olhares pós-gêneros... Introdutor resoluto dessas coisas de pluralidade, diversidade, identidades múltiplas - um tipo de Caetano Veloso em nossa literatura.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Cachoeira - lugar da paixão!

(Foto Maíra Caffé)
Trago no meu peito, a luz, a força, a beleza, a gente, as águas, a fé desta cidade:lugar da minha paixão. Minha Cachoeira.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sobre todas as coisas

Para um dia de memória e oração:

Pelo amor de Deus

Não vê que isso é pecado

desprezar quem lhe quer bem

Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém

Abandonado pelo amor de Deus

Ao Nosso Senhor

Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor

Se tudo foi criado - o macho, a fêmea, o bicho, a flor

Criado pra adorar o Criador

E se o Criador

Inventou a criatura por favor

Se do barro fez alguém com tanto amor

Para amar Nosso Senhor

Não, Nosso Senhor

Não há de ter lançado em movimento terra e céu

Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel

Pra circular em torno ao Criador

Ou será que o deus

Que criou nosso desejo é tão cruel

Mostra os vales onde jorra o leite e o mel

E esses vales são de Deus

Pelo amor de Deus

Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem

Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém

Abandonado pelo amor de Deus

(Edu Lobo e Chico Buarque)

Virgínia cantando Chico

Mais uma prova da existência dos deuses: Virgínia Rodrigues cantando Todo Sentimento em seu novo CD Recomeço, pela linda e cara Biscoito Fino:

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.
(Chico Buarque e Cristovão Bastos)

Chico Buarque


Amanheci com sede de mar, com vontade de escrever sobre o melhor da vida: as coisas mais simples ditas de dentro da poesia, como o canto de Buarque traduzindo acima de tudo: o amor acontecendo. Acordei amarrado em muitas palavras, emaranhado em doces lembranças, mobilizado pela cor dos olhos deste nosso mestre de sempre: ardósia. A ardósia também é de Iemanjá. Iemanjá nos olhos cariocas de Chico e hoje eu tão baiano. Pensando no que a Bahia poderia ter sido pra mim. A voz pequena buarquiana tradutora da sua grandeza imensurável e eu ouvindo Valsinha... Chico sangrando Tatuagem para remarcar minha alma com o nome que me é indelével... Eu seguindo em Todo Sentimento, no centro da natureza desta canção que ensina o passar do amor que fica. Encantado. Eu em mim e em alguém que hoje compõe meu pensamento acompanhado pela música de Chico Buarque de Hollanda. Eu em cheque-mate.
Na linha do absoluto, ouvindo:
Futuros Amantes
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
(Chico Buarque)
P.S.: Aqui é o lugar da água, tudo é memória, tudo se molha, tudo se afoga, mas, às vezes , se salva.

domingo, 26 de outubro de 2008

O ciúme

Agora, definitivamente, gravado ao vivo, em Omara Portuondo e Maria Bethânia - DVD - Biscoito Fino, 2008. Na voz , dela, minha Maricotinha:

O ciúme
Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme
O ciúme lançou sua flecha preta
E acertou no meio exato da garganta
Quem nem alegre nem triste nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta
Velho Chico vens de Minas
De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti, não me ensinas
E eu sou só, eu só, eu só, eu
Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas, na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê
Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme.
Caetano Veloso

Clara e Gal

Para D. Diva Vieira Passos
Essas duas não saíam das eletrolas da minha casa. Era a alegria dos nossos domingos e motivo de congregação. Clara, bela em todos os níveis louvando a cultura religiosa afro-brasileira. Gal, voz mais linda, sossego e esperança. Ambas nos faziam sonhar e dançar. Dançar de verdade e ter coragem para enfrentar outros dias. Bem difíceis, às vezes, bem sem graça...Mas elas, e minha mãe, lá estavam e eu aos sete anos era todo música popular brasileira.
Aprendi que podia muitas coisas ouvindo essa gente- Clara, Gal, Caetano- e tive muita vontade de estudar e fazer e crescer e mais que tudo, tive vontade de ser sendo. Amém, pra todos nós.

DVD - Omara Portuondo e Maria Bethânia


Ali o mundo é pura felicidade. O canto de matriz cubana, negro, inteiro, simples de uma senhora que canta sublimemente: Omara Portuondo. A serena presença da cantora que enche de beleza nossos olhos e de alegria nossos ouvidos. Um dos projetos fonográficos mais expressivos para a cultura no mundo dos últimos anos. Suave resgaste da nossa latinidade reinventada na América, mais por índios e negros. Música é perfume e não sai da memória: Lacho - maganetiza com a dramaticidade de avó de D. Omara, cantando pra Iemanjá Iyá Lodê, também Rainha de Cuba.

Do outro lado, ela, aos 62 anos cantando daquele jeito, longeva, cantora projetista, ativista cultural do Brasil que ela acredita e defende. Um marco da canção popular brasileira, soltando a voz com os ares de diva dos quais ela não abre mão. Reverente a D. Omara, tratando-a com a delicadeza merecida.Linda mulher. Aquela leveza de corpo num canto precioso de sereia nordestina - água e terra e seca e frescor- que abre nossos olhos para nós mesmos sem que evitemos os outros. Ela, D. Maria. A filha de D. Canô, que faz no DVD a interpretação definitiva de "O Ciúme", do mestre Caetano. Nessa canção ela se entrega atriz sem se perder da cantora - sob medida e linda. Que mulher linda é Maria Bethânia.

Duas imperdíveis. O Brasil, Cuba, a América, o mundo, agradecem.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Seu Pensamento

pra o'cê

"A uma hora dessas

por onde estará seu pensamento

Terá os pés na terra

ou vento no cabelo?"

Estará o seu pensamento no sumidouro do espelho em que me vejo ouvindo essa canção? Estará próximo da dor que sinto por sentir e querer me perguntar tudo isso? Estará no cheiro do meu cabelo penteando-se sozinho e eu lembrando de quando você sabia do cheiro dele?Às oito e meia da manhã meu pensamento ouve a canção de Adriana e eu posto a minha saudade...

"A uma hora dessas

por onde andará seu pensamento

Dará voltas na Terra

ou no estacionamento?"

Estará no intervalo entre o que foi e o que deveria ter sido, e como poema vagabundo expressando um sentimento profundo, seu pensamento dá voltas em algum estacionamento e o meu estaciona em você.

"Onde longe Londres Lisboa

ou na minha cama?"

Seguramente - sua imagem entre meu pensamento e a palma da minha mão. Quiloa, Montevidéu, Cachoeira, Rio, Abeokutá... Golfinhos, horizontes, esperança, olhares, vontade em colibris... Aqui, da minha cama.

"A uma hora dessas

por onde vagará seu pensamento

Terá os pés na areia

em pleno apartamento?"

Caminhando, inusitadamente, sobre a fortuna material da minha presença em sua vida - as cartas estúpidas, as linhas, os mapas, as fitas... ? Ou estará na rota exata do esquecimento? Ou terá palavras guardadas para o nada de um futuro exterminado? Onde deslizará seu pensamento voltando-se para a escrita - quais os nomes dos motes, que verde-azulado te inspira? Aonde é seu apartamento nas minhas doze tentativas?

"A uma hora dessas

por onde passará seu pensamento

Por dentro da minha saia

ou pelo firmamento?"

Na correria das estradas dos objetivos... No desenho de equilibrio sem canções internas...Na desértica esfera da mão única da segurança? Na delícia da felicidade?

"Onde longe Leme Luanda

ou na minha cama?"

A distância do seu pensamento se desfaz no romantismo do meu... A paisagem desta cidade, o mar destes instantes, a cor castanha dos seus olhos, a poesia me lendo, releases à toa, nosso silêncio, a cor do som, São Paulo, Fernando Pessoa, Lisboa, Paris, Billie cantando, lembrança do Senhor do Bonfim, uma conta vermelha quebrada, a Legião Urbana, notas em um violão, píncaros da saudade escaldada, uma camisa branca, outra amarela, perfume na janela, a lua rodando, meu coração à entrega, um poema de Hilst na minha parede e tudo pode acontecer enquanto, agora, Calcanhotto lembra cantando: por onde vagará seu pensamento? Longe de mim.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Sorte

( Acessos da minha sorte)

Tudo de bom que você me fizer
Faz minha rima ficar mais rara
O que você faz me ajuda a cantar
Põe um sorriso na minha cara, meu amor
Você me dá sorte, meu amor
Você me dá sorte, meu amor
Você me dá sorte na vida!
Quando te vejo não saio do tom
Mas meu desejo já se repara
Me dá um beijo com tudo de bom
E acende a noite na Guanabara, meu amor
Você me dá sorte, meu amor
Você me dá sorte, meu amor
Você me dá sorte de cara!
(Celso Fonseca/ Ronaldo Bastos)