terça-feira, 31 de março de 2009

Olhar etnográfico


Já disseram: o olhar inventa o mundo. Apreende o que vê se misturando naquilo que é visto. Capta as diferenças nos arredores do eu e demarca o horizonte do que sabemos como nós. O olhar se faz poesia vendo a poesia que compomos cotidianamente e de súbito: susto. Que coisa intrigante e maravilhosa é viver. No centro das diferenças; nas riquezas do que o outro deixa na gente e na era da "busca pelas compreensões", interpretar as culturas é um prazer etnográfico que só a ANTROPOLOGIA dá. Em fotos. Em filmes. Em desenhos. Em estampas. Em textos. Em danças. Em cultos. Em rostos. Em peles. No humano. Meu prazer antropológico.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Amada Amante

Esse amor demais antigo
Amor demais amigo
Que de tanto amor viveu
Que manteve acesa a chama
Da verdade de quem ama
Antes e depois do amor
E você amada amante
Faz da vida um instante
Ser demais para nós dois

Esse amor sem preconceito
Sem saber o que é direito
Faz as suas próprias leis
Que flutua no meu leito
Que explode no meu peito
E supera o que já fez
Neste mundo desamante
Só você amada amante
Faz o mundo de nós dois.
Roberto Carlos/Erasmo Carlos

Post scriptum:

Esta canção paira sobre a vontade maior dos amores. É a íntegra publicação daquilo que mais se quer: amor amigo amante. Um relato da alma dos Carlos que tão simples e verdadeiros cantam o amor em nosso imaginário. É uma canção invenção da cultura amorosa entre nós brasileiros e invade o peito atemporalmente. Uma louvação do encontro de dois segurando-se juntos ante o torpor da vida, da dureza da vida, o desgaste da vida...O amor única salvação nesses dias e noites de prejuízos e solidão. Amor- canção de um homen entregue à sua mulher.

Âmbar//Michelle Cirne

Para Michelle Cirne
Hoje tinha que ser assim: festejar com o absurdo da beleza para tocar no coração sutil de uma mulher feroz e me fazer vermelho. Me fazer barulho. Mas não esgotar o mistério. Tinham que ser a cantora e a canção que revelam encontro em mim. Emoção. Frases da paixão. Amor contínuo. Tocar o ventre da mulher que cuida e busca: em mim, eterna semente. Mi, Betha para você nesta canção Calcanhotto...Você sabe, melhor que ninguém, destes significados. Minha Maria em seu ouvido luminoso... Parabéns, viu? Ouça Âmbar por nós dois...Aquele Rio de Janeiro, que pode ser qualquer lugar. Beijos de amor:
Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
Como se eu fosse um morro iluminado
Por um âmbar elétrico
Que vazasse dos prédios
E banhasse a Lagoa até São Conrado
E ganhasse as Canoas
Aqui do outro lado
Tudo plugado
Tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos
Desde que sim eu vim
Morar nos seus olhos

Adriana Calcanhotto*

P.S.: Viva o Rio Grande, Tchê!!!


domingo, 29 de março de 2009

Sob o signo desta cidade

(Foto retirada do site Klaus Tourismo)
A Cidade da Bahia faz hoje 460 anos. Lugar de muitos sonhos e de desgastantes ilusões. Primor de beleza alicerçada pela cor verde-azulada do seu mar e é isso, entre dois, o seu primeiro elemento de sedução. O segundo é sua gente. A gente criativa negro-mestiça de Fé e musicalidade, ritmo festeiro, de calmaria, de força e coragem; cidade de sobreviventes. Essa entrada poética da Baía de Todos os Santos. Cruelmente descuidada e apartada da realização de coisas elegantes que atingiriam todos os seus habitantes. Cidade inscrita na força das águas, no poder elemental da terra, luz feito fogo, brisa de constante Primavera e nada a tem feito vicejar.
Desencontros da política dos coronéis antigos e emergentes; saga de uma deseducação em nossas escolas públicas; destrato com a salvaguarda da nossa memória; a pobreza e a violência crescentes; o emburrecimento visto nas síncopes de intolerância religiosa; o trânsito caótico piorado pelo degradado sistema coletivo de transportes; o despreparo da segurança; a saúde pública centrada na lama; as poucas alternativas de políticas culturais; a ideia de ação cultural voltada para a mão única da Axé Music - detentora do que somos como carnaval; o elistismo grassante de intelectuais que resistem ao tombamento de patrimônios imateriais como o acarajé; o saudosismo paralisante e pior, os modernosos desmemoriados, como os da Facom- UFBA, que insistem por uma Salvador reflexo de São Paulo e Nova Iorque, onde o idioma oficial seria o inglês;uma TV local cheia de imundícies como Bocão, Na Mira e similares; uma cidade que cresce sem planejamento e sempre defende os interesses dos abastados; uma Academia - representada pela UFBA - distante da comunidade e reprodutora de saberes que vêm de fora; uma Academia colonizada e refratária, sustentada mais em posturas arrogantes do que em critiavidade e invenções.
Salvador - esta cidade desigual e racista e que fica cada vez mais dividida pelas leituras rasteiras de alguns movimentos sociais que se alimentam pelo espraiamento do ódio interracial; A Salvador dos homens que mijam nas ruas, em qualquer tempo e a qualquer hora; A Salvador que ainda não se esgostou e ainda tem seus encantos...
A poesia da sua arquitetura colonial que ainda resiste. Olhar de cá a ilha de Itaparica, antes da construção da ponte destruidora; ver os orixás dançando no Afonjá, na Casa Branca, no Gantois, no Bate Folha...Ler sem pressa e sem ideologismos a grandeza literária do maior cronista que a Bahia já teve: meu Jorge Amado. O pôr-do-sol no Porto da Barra. Um show - tipo Los Hermanos- na Concha Acústica. Maria Bethânia no Teatro Castro Alves. A voz de Lazzo, Márcia Short, Gerônimo, Luis Caldas, Stella Maris, Mariela Santiago,Carlos Barros, Juliana Ribeiro, Claudia Cunha, ecoando de nossas rádios. Tiganá Santana e Virginia Rodrigues em todas as cenas da Cidade da Bahia. A igreja do Bonfim lotada na sexta-feira com todos de branco; missa na igreja de Nossa Senhora da Conceição - manhã de sábado; cervejinha gelada na Pedra Furada; caminhar no calçadão de Itapoan. O mar da Cidade da Bahia - maior poesia não há neste lugar que não pode ser só o mar...
460 anos de um lugar tão inspirador e lindo, mas tão injusto e ingrato. Não quero pedir o tombamento da canjica, apenas peço que deixem o acarajé em paz. Sobre a construção da ponte Salvador - Itaparica, deixo que comente, com mais propriedade, o mestre João Ubaldo Ribeiro.
Enfim, nossos últimos aniversários de Salvador em Salvador tem sido mais que dessemelhantes. Cristo, ressuscite Gregório de Mattos, em nome de Nossa Senhora!

sábado, 28 de março de 2009

Sidney Santiago

Prestei atenção nele, quando ele fez o travesti do ótimo "O signo da cidade". A beleza dele é gritante e tudo fica mais especial com o talento que esbanja em sua trajetória de luz no teatro, cinema e televisão. Premiado, diplomado pela Escola de Arte Dramática da USP, membro da importante companhia teatral "Os crespos", o rapaz agora pagina as boas cenas da razoável "Caminhos das Índias", na pele de um esquizofrênico e tão bom ator quanto, o também belo, Bruno Gagliasso, que trama sofre da mesma doença. O filme que tem roteiro de Bruna Lombardi, O signo da cidade, me foi apresentado por meu amigo Carlos Barros e eu adorei. Gostei do roteiro e muito da música tema interpretada por ela, Maria Bethânia, e das cenas em que a personagem travesti de Sidney aparecia. Bom de ver pelo talento. E mais uma possibilidade de constatar a beleza humana negra dentro das telinhas, telonas e palcos: Sidney Santiago. Marca da grande revelação.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Sob o olhar de Maria Sampaio

( foto Maria Sampaio)

Mais um registro. Tantas coisas boas, edificantes para serem ditas aqui. Uma noite, um show, em que reencontrei minha amiga-irmã Paulinha Janaína, estive com Tiganá e Veridiana, vi Edu O. ao longe-perto cheio de beleza; revi Jana e Rejane e fui "com" Néo e Paulinho, encantados com a musa Jussara Silveira. Só há chance de continuação com essas paradas de saúde e alumbramento. E eu trago o olhar da grande fotógrafa para nos inspirar a sempre rever Jussara - que é uma espécie de controle de qualidade na música brasileira, ao qual eu sempre recorro. Maria Bethânia e Jussara Silveira me dão a dimensão do que é o talento coadunado com o exercício competente de um ofício.

Viajar

Talvez me seja uma grande decepção que me devolva com força à cidade em que eu nasci. Talvez, menor que a beleza, Paris me seja a grande confusão. Eu sonho com ela nesse meu lugar comum de ser. Sonho ganhando ela e até aprendendo francês e vivendo sem mar azul, sem terreiros, sem o cheiro do azeite que me faz sentir em casa e bem nascido. Eu quero conhecê-la, é o meu sentido de viagem: Paris. A cidade que guardo e aguardo desde criança e que, junto com Salvador e Rio de Janeiro, forma a tríade sagrada das cidades em que eu moraria. Ah! Também tem Cachoeira da Bahia - poesia que não sai de mim.
Quero viajar. Quero ir a Paris. O mais rápido possível!

Meu coração só

(Foto de Ana Oliveira)

Existem coisas intraduzíveis em minha vida. Continuam porque me alimentam de mistério. Porque me tornam eu mesmo na obra e na arte de outro sem minha aparência. Coisas à beleza. E acontecem na realização de um show musical num teatro. Dão sabor emergencial à vida de quem ama arte com o corpo e dela precisa para respirar...Ontem, Jussara provou, sem precisar, que é uma das nossas cantoras mais firmes e criativas; linda, naquele canto de sereia, moça de jeitinho mineiro, dominou a plateia da sua Bahia. Ela e Luís Brasil me levaram, com Morena do Mar, para o colo de minha mãe Iemanjá e muitos minutos de música me fizeram estupidamente feliz!
Eu queria, e peço a ela sempre, ouvir a voz de Ju cantando um CD com o repertório de Adriana Calcanhotto - seria um acontecimento na vida das duas artistas e a gente lucraria a beleza em seu desenho de perfeição.
Para mostrar isso, minha canção favorita do CD "Entre o amor e o mar", "Meu coração só":
Meu coração não quer acreditar
Não quer me ouvir
Não quer saber
Quer só querer
Quer só lembrar
Quer só você
E para onde quer que eu vá ?
Meu coração só quer voltar
Pra aquilo que fomos
Você e eu
E para tudo o que o amor nos deu
Meu coração só não quer ser só meu
Só quer sonhar
Só quer gostar
Só quer fazer
Com que as noites voltem a passar
Quer disparar em marcha ré
Meu coração só não perde a fé
Meu coração não quer saber o que sabe
Meu coração da escuridão
Quer milagres
Meu coração não quer saber
O que sabe
Adriana Calcanhotto

quinta-feira, 26 de março de 2009

Música e Poesia: Jussara Silveira

( Foto retirada do blog oficial da cantora)
Hoje é dia de música e poesia na Cidade da Bahia, cidade imaginária de Dorival Caymmi. Pela "Semana da Água", pela preservação da água, e pela força vital que a água tem, canta no TCA, às 21h, uma das mais importantes cantoras brasileiras, a voz afinadíssima, nossa sereia Jussara SIlveira.
De verdade, quando ela canta meu coração fica em festa na ânsia dos meus ouvidos e meus olhos preparam-se para ver a beleza de uma mulher que gesta poesia! Hoje é dia. Algumas coisas ficam melhores diante do tema : "Entre o amor e amar". Há melhor lugar? O repertório belíssimo do último CD de carreira da cantora, sua voz de navegação, e a gente entre o amor e o mar. O mar da Bahia... A poesia de Jussara...E minha mente pronta pra se firmar no centro momentâneo do alívio e do prazer que só essa tal música popular do Brasil me pode trazer. E hoje vem com Jussara. Iemanjá minha mãe: Odô Iyá!

quarta-feira, 25 de março de 2009

Do invisível


Para o que era além mas sempre esteve aqui. Pertinho. Gotejava seus odores frente à minha respiração e me olhava de dentro do mais real dos carinhos. Segurava-me com as mãos em cremes e eu assustado, deslizava. Vestia-se de cinza rosa azul - era flores no nome da rosa. Amarela. Dançava comigo. Sorria por sobre minhas lágrimas, enquanto me abraçava. Eu sorria de alegria naquela tristeza que brilhava sementes de inspiração. Dos olhos castanhos mais belos na ternura que olha absurda para o lado interno da gente: o amor é assim. Dali me vinham as palavras mais doces, os desenhos mais belos, pouca música; uma,que me é secreta, foi a mais longa das sinfonias embalando o sutil maravilhoso dos encontros. O corpo era o aperto do delicado e me impelia a singrar o desejo, que eu tocava e me encaixava inteiro na fome que a paixão, de noitinha, a dois, sempre traz. Tudo esteve ali, descrito no tempo que acontece, era invisível e assim, eu não via. O além de mim que me acompanhará eternamente.

Uma poesia:

"No céu dessa tarde quente,
as estrelas existem. Presente.
Mas ninguém vê.
No fundo do meu peito quente,
o amor existe. Presente.
Mas ninguém vê"
Do invisível, Karina Rabinovitz