quinta-feira, 30 de abril de 2009

O mar Dorival Caymmi


Ele nasceu em 30 de abril de 1914 e nos deixou, em presença física, em 16 de agosto de 2008. Uma lenda baiana que narra a Bahia para o mundo. Canta o mar e suas atmosferas. Louva Iemanjá - fonte de inspiração aquática - rainha de todos nós... Caymmi é um sonho e uma constância da beleza, como Maria Bethânia... Seu nome nos imortaliza numa espécie de ideação, numa composição atípica de povo, de gente, que reitera a noção de que a Bahia é uma nação no Brasil. Caymmi, poesia marítima e inesquecível neste país do esquecimento. Vive na MPB!
O mar
O mar quando quebra na praia
B7 E C7
É bonito, é bonito
F C7 F
O mar... pescador quando sai
C7 F C7 F
Nunca sabe se volta, nem sabe se fica
C7 F C7 F
Quanta gente perdeu seus maridos seus filhos
C7 F B7
Nas ondas do mar
E B7 E
O mar quando quebra na praia
B7 E
É bonito, é bonito
Pedro vivia da pesca
Saia no barco
Seis horas da tarde
F#m
Só vinha na hora do sol raiá
Todos gostavam de Pedro
E mais do que todas
Rosinha de Chica
A mais bonitinha
E mais bem feitinha
B7 E
De todas as mocinha lá do arraiá
Pedro saiu no seu barco
Seis horas da tarde
Passou toda a noite
F#m
Não veio na hora do sol raiá
Deram com o corpo de Pedro
Jogado na praia
Roído de peixe
Sem barco sem nada
B7 E
Num canto bem longe lá do arraiá
Pobre Rosinha de Chica
Que era bonita
Agora pareceF#m
Que endoideceu
Vive na beira da praia
Olhando pras ondas
Andando rondando
Dizendo baixinho
B7 E
Morreu, morreu, morreu, oh...
E B7 E
O mar quando quebra na praia
B7 E
Caymmi

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Da água que envergonha a sujeira


Eu trago em mim a essência do que concentra a vida, transposta a morte, lava, limpa. A bebida da iluminação, teor da clarificação de dentro para fora; purificação; oxigenação contra o ar apodrecido das gentes matando-se-nos no afã das falsas conquistas...Trago o elemento que desliza rompendo com fúria e paciência e passando, batendo e furando rochas e signos da destruição incerta que nos torna desumanos e arquitetos da maldade.
Trago o refresco do mundo como espada e escudo - minha mãe, meu pai- e me faço o sentido que busco: uma certa paz criativa.
Quando o que me habita borbulha, a justiça divina prepara-se dentro da Natureza e renova o mistério da vida humana neste planeta: o divino sempre me salva. Este elemento que sou eu envergonha e pune com a doce água, vital para a vida, os degetos venenosos e as impurezas desmedidas na garganta dos meros ofensores...
Trago o translúcido verde-azulado rodeado do branco leitoso absoluto: sou-me água marinha e meu lugar não é aqui! Estou de passagem. Vivo de passagem a tremeluzir a luz que nasce Deus. Sou-me o pedaço terrestre do oceano e minha mãe é Iemanjá e meu pai é Oxalá e eu navego a sabedoria que me vem deles. Uma certa paz criativa. Um pouco de luz solar. Poesia.
Sou-me a água dessalinizada dentro do copo, rodeada de azul, e pronta para matar a sede de quem do mundo faz sevícia. Iyá Lodê Omin Epa Babá.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Mamãe Oxum por Maria Bethânia

Oxum
Maria



Mamãe Oxum


Yá Lodê,
Olô Mi Mã,
Olô Mi Má Yó.
Yá Lodê,Yá Lodê Yá.Yá Lodê,
Olô Mi Mã,Olô Mi Má Yó.
Yá Lodê.Mamãe Oxum!
Pode acontecer pra qualquer um
A cabeça tonta,a sedução...
E não dou conta nunca mais do coração!
Meu coração...
Yá Lodê,
Olô Mi Mã,Olô Mi Má Yó.
Yá Lodê,Yá Lodê Yá.Yá Lodê,
Olô Mi Mã,Olô Mi Má Yó.
Yá Lodê,Mamãe Oxum!
Não vá me dizer, que isso é tão comum!
Não existe amor que alucine assim!
Oh! Minha Oxum...Não deixa de cuidar de mim!
Momento algum!
Yá Lodê,
Olô Mi Mã,Olô Mi Má Yó.
Yá Lodê,Yá Lodê Yá.Yá Lodê,
Olô Mi Mã,Olô Mi Má Yó.
Yá Lodê,Um olhar de mulher!
Num instante sequer!
Pode cegar, mas na noite escura,vem me guiar!
Vai dourando a Lagoa
E mergulha no fundo
Já sabe o segredo que mora no medo do meu olhar!
Um olhar de mulher!
Yá Lodê, Olô Mi Mã,Olô Mi Má Yó.
Yá Lodê,Yá Lodê Yá.Yá Lodê,
Olô Mi Mã,
Olô Mi Má Yó.
Yá Lodê,
André Luiz Oliveira/ Costa Netto
P.S.: Mais uma canção que na voz de Bethânia é como se fosse uma oração saindo de mim. As paisagens estão difíceis e só Oxum para abrandar esses movimentos para baixo... Quero este canto de subida, azul amarelo vermelho em minha vida, esta voz veiculando as benções de Mamãe Oxum... Nunca deixe de cuidar de mim. Axé!

domingo, 26 de abril de 2009

Do lugar da Fé


Oração ao Tempo
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...
O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...
Caetano Veloso

Alice Ruiz na minha tardinha

Foto retirada do blog Porta do Vento

e

eu

que não sou

Alice

vou aprendendo

que

com poucas

Letras

se ganha

o mundo
é

só fazer

do olhar

duto

pra poesia

que

o mundo

veste

e

verte.

Vitor Carmezim

P.S.: Pra verter a melhor poesia... Este poema foi retirado do blog Inéditos e Dispersos, de Vitor Carmezim. Alice me encorajou a não me despir da poesia de hoje e o mundo taí , na minha frente.

Todo menino é um rei


Todo menino é um rei
Eu também já fui rei
Mas quá...despertei
Por cima do mar (da ilusão)
Eu naveguei (só em vão)
Não encontrei
O amor que eu eu sonhei
Nos meus tempos de menino
Porém menino sonha de mais
Menino sonha com coisas
Que a gente cresce e não vê jamais
Todo menino é um rei
Eu também já fui rei
Mas quá...despertei
Avida que eu sonhei
No tempo que eu era só
Nada mais do que menino
Menino pensando só
No reino do amanhã
Na deusa do amor maior
Nas caminhadas sem pedras
No rumo sem ter um nó.
Nelson Rufino/Zé Luiz

Roberto Ribeiro


Toda vez que é domingo a minha memória se atiça buscando saídas. A de hoje finca-se na voz belíssima do saudoso Roberto Ribeiro. Aquele que era a versão masculina da grande Clara Nunes e que nos acalentou ao som de "Todo menino é um rei", do baianíssimo e talentoso Nelson Rufino, que botou na voz de Roberto outras canções ( e sucessos) como "Vazio" e "Tempo Ê". Impressionante como este país esquece rápido, até mesmo vozes que não paravam de tocar em nossas rádios e nos colocavam na roda da alegria, ouvindo o samba inteiro da gente.
Roberto Ribeiro foi consolidação para aquilo que o mestre Jamelão queria: ser chamado de intérprete e não "puxador de samba". E Roberto foi um primoroso cantor e elegante representante da MPB. Era da ala de canto da Império Serrano, e durante anos foi o seu principal intérprete. Cantou composições da companheira de escola de samba, Dona Ivone Lara, "Acreditar" foi um grande sucesso em sua voz. Também acompanhou a nossa Clementina de Jesus, Ivan Lins, o nosso Buarque de Holanda e a eterna Elza Soares, e a sua igual, é claro, Clara Nunes.
Morreu precocemente vitimado por atropelamento em 1996. Roberto faz falta.
Para matar a saudade, a EMI lançou, em 2008, o CD duplo Meu Drama, ali a memória do artista pode ser preservada e a gente pode dimensionar o seu talento e o vazio que sua partida deixou na música brasileira. Ave Roberto!

sábado, 25 de abril de 2009

A moça do sonho

Maria

Súbito me encantou
A moça em contra luz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó
E corri contra luz para ver de olhos fechados com a força de quem tenta abrir o sorriso alheio. Eu vi a dama do mistério me dizendo que a vida não acaba aqui. Olhei para dentro dela com o poder das adorações e fui poeta flutuando sobre a imagem que não me tinha e nem eu pertencia a ela. O lado de fora fazia silêncio para que a mensagem ultrapassasse a fronteira do sonho. E escorri...
Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez
Para dentro do centro da morada da musa: espirais vertigens azuis sons medo repetições melhoras buscas sílfides cruz contas rendas seda flores sol harpa luva chuva mão águia água terra fogo nada céu vermelho branco corpo sexo rio alma palavras mar voz. Lá estava ela se olhando perdida em criações. Asas violentas era a minha imaginação: eu nela sem tocá-la; notas de sua nova emissão, pessoa desintegrada, pura canção...
Por encanto voltou
Cantando à meia voz
Súbito perguntei: quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu
Límpida forma da plateia que espreita o seu. Ali, contudo, o eu mergulhado na voz em ressonância, espécie de dança sem corpo em movimento; era o eu na espreita sonora da musa cantando a concórdia do som e da palavra - e o que ele via era seu num tempo que ninguém sabia... A musa respingando rostos compartilhando beleza. Tráfego do mistério, o chão daquela natureza de fogo. Semente aquática configurada na inspiração. Míticos contrapontos, oquidão minha uma linha no sonho...
Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais
E a vida girando em torno de um nome que a voz do rosto da moça no sonho não faz esquecer... E batalhões de sentidos descritos no signo das canções. Ela me repetindo o que eu vivo a dizer. Meu sonho labiríntico; colunas que não sustentam; mapas que se rasgam; bússolas que escapam; o desejo de não ficar; o vazio do se não for; o silêncio do que nunca foi; uma vida só não basta; a quentura da cama; o medo do sim. O drama da moça desenhando meu sonho; o meu pedido na voz daquela musa, a moça, dentro do meu sonho.
Minha outra certeza: não quero nunca despertar dela. Ela que é a minha inspiração e marca de paixão o nome do qual não sei me perder.
P.S.: A moça do sonho, de Chico Buarque e Edu Lobo; encenada em música e letra , por ela, Maria Bethânia - manancial dos meus melhores sonhos.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Tempero da imaginação

Maria e eles
Para que seja feita hoje mais uma reiteração. Sobre o que me alimenta me enfeitiça por entre as curvas sinuosas da verdadeira beleza. E digo assim: beleza maior ao redor de outras tantas. Uma voz sagrada comunicando-me a presença santa de São Jorge. Presença de Jorge. Cavaleiro de Jorge. Traços de Maria. Ela, tempero raro da minha imaginação - poesia sonora e visual nos dizendo assim:
"Eu sou muito do lado da interpretação, a minha linha é diferente daquela coisa melódica e esmiuçada de outras cantoras. Eu sou o teatro, a ópera, o drama grego. Quando eu cito alguns compositores é porque me sinto próxima e, como já disse, posso acrescentar com a minha criação alguma coisa".
E quando ela cria abrem-se em mim as portas da inspiração. Ou serão da percepção como acende Blake?

Para ver o sol sobre mar e gente

Foto de Luís Américo Bonfim

Meu peito pede o jeito do sol pelos caminhos. Hoje, nada da circularidade de guarda-chuvas, de poças d'água espalhadas, de chuva molhando, de roupa encharcada, de cinza no céu, cabelo pesando, sonho faltando, cheiro de medo no ar...
Hoje tem que ser um dia de dentro: os olhos querendo o sol sobre o mar e a gente negra da Bahia, para ter permissão à beleza que a poesia dá. Hoje quero escrevinhar num papel sem razão literária a palavra do coração...Do que me basta: encontro, carinho e contínua sedução...Quero ver o mundo pelos olhos brilhantes e fazedor de milagres do fotógrafo e assim, escorrer vontades nas palavras que escrevo para vencer alagaduras que me trazem securas de uma vida sem "cais".
Quero o mais comum: vê sem ser visto e esquecer.Calor. Eu quero o calor de uma paisagem solar diante do mar desta terrinha. Lavar uma conta azul translúcida na beira-mar e desejar que o Universo me renove forte e saudável para novas conquistas. Para caminhar outras línguas. Para sonhar no movimento da impulsão retesando-me a outros lugares. Minha camisa branca não pede paz; pede sentimento. Pede o toque do movimento e o nascer de novas canções...
Poesia na imagem, no papel, no blog, na parede, no grafite, no sorriso, no dorso nu,no silêncio, na imaginação e na coragem.
Eu quero o que vejo na foto acima e convido você a ver comigo:" meu coração da escuridão quer milagres"," meu coração não quer saber o que sabe". Ver o sol a brilhar o mar e a gente da Bahia. Sem tempo nem saudade. Vem.