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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Reticências

( Marlon Marcos)

alonguei-me de mim
entre respingos e ensaios
-  tudo sobre mim  -,
material dos meus segredos
publicado como jornal.

vida lenta e alongada,
coragem quase de estar só,
muita poeira no sapato,
desertos e imagens...

este amor
que ainda não acertou
em quem pousar.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O amor composto

Sorrindo pelos caminhos de mim, saltando as terríveis dificuldades. Encaro-me e vejo quanto me dói ser eu mesmo; mas não desisto desta construção. Quantos defeitos e sem porquê, quanta delicadeza em tanto sentir... Um dia de sol forte sobre mim, eu enxergando como nunca, o batuque da saudade no peito, o medo da perda e o silêncio, nenhum humano a velar por mim.

Sorrindo para os meus planos, tendo os sonhos como base de lançamento. Doendo segredos que não são; respirando o movimento de uma fala engraçada que perfila o menino: dentro do olho da festa. Revejo. Recorrências do mal que procuro. Assombração de verão que esfria a minha alma. Sucumbo à ventilação refeita no calabouço de uma espera. Imagens que tocam com as mãos o fundo.

Sorrindo não sei pra quem. Seguindo a ação cotidiana da vida. Um pouco de lamento. Ávida luz no coração. Olhares fugidios no medo de encontar. Vaga no pensamento arejado. Música como felicidade. Instantes do valor maior da vida. Em distração, o amor composto.

domingo, 18 de setembro de 2011

Cadafalso


Eu ando sem saber o que escrever, sem ter o que dizer e pior, sem ter o que perguntar. Perdido em imagens antigas que me leveram à frente. Nem sei se me falta coragem; a sensação real é que perdi muito tempo com tudo que me foi mais verdadeiro mas não aconteceu. Estou para dentro dos meus erros e se houve acertos não saberia descrevê-los aqui. Tenho feito silêncio e me inspirado em saudade. Muito repetido que escrevinho para me aliviar. Sonho com uma cidade como Londres, com luzes sobre o terrível cinza, a melancolia em seu frescor, atividades artísticas me ocupando, pensamentos econômicos, uma certa liberdade e a futilidade de assistir o estar de uma monarquia. Ninguém pertence a realezas; somos os dos calabouços lamacentos, alguns fitando estrelas, e todos à espera da condenação. Queria uma palvra de ordem mas minha febre física, hoje, vence a minha febre d'alma... Até cantigas esqueci. Até as divas silenciei. Hoje é um dia qualquer e eu em cima da cama - recuperação com um livro na mão; meu corpo me pedindo atenção e a voz do anjo nunca esquecida. Tenho a imagem de um quase beijo na área ampla da antiga casa. Depois deles: nunca mais soube o que é abrigo.

Não escrevo soube nada. Aqui é febre e silêncio. Suor  gerando imagens. Sentir sem verdade. Os olhos debaixo do travesseiro. Toque para o dia que vai passando em sua poesia de ter sol sobre o mar. Não sei o que será de mim? Nunca soube. Alcanço a palavra mais amada: cadafalso para ir no sentido da mais desejada: possibilidade. Eu armo armadilhas para mim. Em tudo que fiz, fiz na presença do perigo.

Sei da condenação do amor demais. Ainda mais quando eterno. Ainda mais quando o corpo não para de desejar. Ainda mais quando a memória não respeita a distância espacial. Ainda mais quando o caminho fica bem deserto e a única saída é imaginar o rosto gosto cheiro do que foi mais amado.

Podem cumprir a sentença.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Maria Bethânia: flâmulas da inspiração


"Asas que não possuo por muito peso que tenho"
Ana Basbaum/Roberto Mendes


Entre o vermelho que penso e o meu coração azul  no peso que sou - me obrigando a dizer sim. Essa noite de receios que tento apagar com músicas mas meus ouvidos são só palavras para além do sublime do violão que bate. Viajo pra dentro desta fuga, imagem. A mulher presente. O sorriso que canta na voz que sente a dor que me comunga. Meus pés saem do chão através do que ouço e vejo a minha falta de asas. O meu lugar é o não lugar que ocupo com palavras e música. Eu estou nos olhos dela. Um segredo me guia àquele silêncio. Eu nos olhos dela num instante de paz. Ela - amazonas da inspiração de um país que já não pertenço, fui expulso por inabilidade e incompetência. Ela - me redimi do pecado da não pertença. Choro nos olhos dela murmurando palavras quando ela canta. Eu - uma criança solta ao vento daquela inspiração.

A voz corta o ar e o negrume do céu. Estar à noite à porta da entrada da alma da artista. Guia e silêncio. Meu medo por dentro dos olhos dela. O peso de não saber existir. Essa sofreguidão que não cria nem transgride. Outro mundo dos olhos dela acima do palco. Um instante com asas.

Incidência de luz sobre meu corpo cansado naquele canto pra subir. Não quero espelho, quero por mim a imagem da cantora. Séria beleza dos lugares mais profundos: não me sei chegar ali e busco ardendo inutilmente. Essa noite começa para não terminar e a voz agora está no cantor.

Ela volta só com os olhos  para me intimidar e impelir a outras fugas. Ponho poemas no bico dos pássaros que dizem e voam por mim. Passarinhos quase águias de tão reverentes. Fujo em desbragado medo, na ânsia que compõe e modifica. Fujo levando segredos e fazendo encanteria. Ela volta na voz cantando pra mim. Cenas do meu desbunde existencial alimentado em flâmulas de um canto que brota dos mistérios de Deus.

domingo, 26 de junho de 2011

Do deserto de mim

Esse deserto parece sem fim,
Me caminha em arrependimentos
Me faz dizer sim
Para que eu mesmo
Me condene.


É o deserto sem noite
Sol escaldante na
Consciência que trago em mim.
Em tudo que me dói, eu sei...


Trato de me apartar
 Do centro daquele calor;
Vou pelas beiradas dizendo
Nada e não vivendo.


Deserto contínuo,
Mistério do que não quero,
E como não se é mistério?

Estou para fora de mim
Dançando medo sobre areias
Bem longe do mar.

Por que Deus não me deu asas?

quinta-feira, 31 de março de 2011

Restos do Carnaval

Tomo licença, para dedicar este conto, um dos mais lindos do artista que eu mais amo, Clarice Lispector, à minha amadíssima Michelle Cirne...
Nessa coisa de querer desejar sorte e proteger e fazer chorar um pouquinho; de mansinho dar o mundo melhor, sem esquecer da grande dor de todo dia: isso de sentir a vida para o bem e para o mal, insistindo numa tal felicidade, mas fácil se o amor está.
Clarice, nesse seu peso de beleza e sofrimento, a escrita mais nítida e leve que posso acompanhar... Ela, mesmo doendo criança, para festejar com arte a vida de minha amiga.

Restos do Carnaval

Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça - eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável - e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com os quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel - resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas - àidéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha - mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quando ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge - minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil - fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido, sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.