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segunda-feira, 26 de março de 2012

Recorro


Recorro à alegria. Por ver nascendo e se lançando a poesia de um jovem pássaro. Por ver entrelinhas do que mais se diz em mim; ver aflorar a excelência da íntegra sensibilidade de um homem, humanamente universal. Sinto em intensidade e gozo, desconforto e luminosidade, grito e profundo silêncio, instantes descritos em palavras que me rejuvenescem.
Recorro à fantasia. E pairo sobre mim mesmo fruindo meus sonhos que se encontram na escrita de alguém. Alguém para fora de mim me sendo eu na confusão que busquei. Sinto e subo a ladeira dos esquecimentos tendo aquela poesia como minha alma, tatuada em meu coração, cobrindo a carne do meu corpo, me servindo como pele.
Recorro à sedução. Comovo-me com as imagens desenhadas e imaginadas na forma daqueles dizeres. Vejo-me no espelho descrito que são os olhos dele e peço indo ao fundo do que leio. Digo-lhe na imagem pé de ouvido: cessa não. Encurta essa distância dando-me o sentido de tê-lo nos textos que são seus.
Recorro à separação.  Para que o nunca o aparte de mim. Para que as intempéries da impossibilidade não desgastem nossa adoração. Para que o comando estabelecido seja menor que o impacto da sua escritura banhando-me de mim sob o norte do talento dele. Para que o tempo, enquanto houver escritos, não sentencie o fim da vida que tenho só quando dentro da literatura dele.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Clarice Lispector: textos onipresentes


"E se me achar esquisita,
respeite também.
Até eu fui obrigada a me respeitar."

O tempo nos avassala.
Corro atrás de dizeres alheios
que me toquem e se tornem meus;
corro para dentro do que leio sem pensar,
tenho febre e o que me cura são palavras.
Estou no rastro de uma escritura mistério,
minha bússola é a ânsia que tenho de comunicação.
E se não me expresso,
me obrigo a propalar escritos de uma mulher
que é a matéria que sustenta minha alma.