É noite. Uma crudelíssima noite de sábado me empurrando para o-não-sei-o-quê, aquele silêncio que evita perguntas e respostas para que a gente transcenda sem enlouquecer. É noite e um corvo na minha janela, o Cão-Cão da infância, bicando a dor no pensamento. Deveras, com calma, a gente precisa morrer. É noite em minhas vestes brancas e os sonhos escapuliram para dentro da cristaleira. Meu sorriso reflete a solidão dos bêbados, a agonia dos apaixonados, o desespero dos não talentosos, os indecisos, os ávidos por tudo, o vivo sem sentido...
Hoje é noite e confusão, e essa vasta onda de sobreviventes, e minha pergunta sobre tratados trabalhos sucesso? Onde ir que não seja bar? O corvo bicando minha dor no corpo e o talento morto da cantora pra sempre. Hoje é pra sempre num disco que toca a favor do meu amor e o tempo chora. Soa o inaudível. O querer nos olhos que escrevem por mim. A alma que não há na mulher no lugar de Deus. Soa, como perto do mar, um sax. É Deus falando pra mim. É o abismo do anseio em busca do sucesso. A linha rompida da eterna união. O disco rodando e esse fastio, essa resseca, essa praga, esse castigo. Quase experiência de morte. A morte como salvação.
É hoje mais um afinado desalinho: o peso desmedido da vida e a gente, sem ter como, continuando... Uma canção para ter meu amor aqui; para de lá, fora do meu alcance poético, mais idêntico desespero e vontade de transgressão, cantar a despedida que é encontro.
Pego flores, e daqui do pensamento, as lanço ao mar. Nado sobre elas para ter beleza leveza esperança... nunca poderá ser diferente, eu sei... nunca ocorrerá o alívio contínuo... nunca só sol brisa mar azul amor abraço sorriso... nunca a dádiva sempre e o presente dos céus todo dia...
Mas em mim, sempre haverá amor e fé! E suportarei, até o fim, os vitoriosos da acusação.