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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Caetano Veloso: 70 anos entre cores e nomes


Caetano Veloso: 70 anos entre cores e nomes

Marlon Marcos

Jornalista e antropólogo




Eu cresci apreendendo o Brasil a partir da obra lítero-musical dele. Respirava suas radicalizações comportamentais mudando esteticamente este país; navegava as possibilidades coexistenciais das diferenças apontadas por ele; assistia a beleza do negro que ele exprimia das suas canções, cantando, às vezes, com a boca pintada de batom rosa, de camiseta dourada à moda feminina, ora uma conta de Odé, ora uma de Oxum; a poesia que vinha da Bahia revitalizava-se ali: na voz do cantor.

Toda vez que precisava de uma epígrafe para uma prova, ou para reforçar um pensamento, ou falar de amor, mostrar profundidade, alcançava: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, “Botei todos os meus fracassos nas paradas do sucesso”, “Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer”. E era esperança o que eu mais via na música do santo-amarense Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso, nascido à luz do signo de Leão, no dia 07 de agosto de 1942.

O Brasil deve muito à inquietação e à criatividade deste homem. Eu devo meu fascínio pela Música Popular Brasileira, pela força da palavra como poesia, pela perda ( ainda que relativa) do medo de ser o que eu tinha que ser nesta vida. O gênio deste homem aflorou em mim o desejo de conhecer, já que suas canções me eram aulas sobre arte, sócio-antropologias, história, literatura, sobre sexo e prazer. Sua voz me adormecia e despertava, eu me sabia inteligente porque desde os 8 ou 10 anos eu gostava de Caetano Veloso.

Uma trajetória artística que sempre arejou e entregou coragem ao povo brasileiro. Traços do absoluto na palavra como domínio da linguagem poética inclinada a canções. O homem mensageiro do novo, insatisfeito, delicado, paradoxal, imerso ou emerso das infinitas possibilidades comunicacionais que marcam sua presença entre os séculos XX e XXI no mundo, singrando a própria angústia que muitas vezes fez o gênio fortemente derrapar.

Mas ele está a salvo do alto dos seus 70 anos, jovialíssimo, apesar de triste, alicerçado num conjunto criativo frente ao qual eu me deslumbro. Não é só o compositor que faz dele inexcedível poeta, é também o cantor, em sua voz burilada pelo tempo que tornou o canto dele, entre os homens, o mais bonito do Brasil.

Às vezes, ele parece em desespero e desarrumado, desarruma existencialmente aqueles que prestam atenção em sua arte; compõe Recanto escuro e põe na voz sublime de Gal. Machuca a audição de um país que dói na beleza, mas avisa: estamos vivos aqui e lá. Ama Salvador do epicentro dos artistas endinheirados do Brasil: o Leblon, no Rio de Janeiro. Rompe com a crença no divino; patrulha as normas cultas nas quais ele acredita como baluarte da língua e chama metade dos brasileiros de analfabeta e burra. Insiste numa iconoclastia que não traduz o cidadão que valida a arte do Psirico, e segue jovem cantando ao lado de Maria Gadú, sem conhecer o canto de Claudia Cunha, Stella Maris, Ana Paula Albuquerque, Carlos Barros; sem fazer referência ao talento múltiplo e universal de Tiganá Santana. Este é o mano Caetano que, em profunda verdade, eu amo.

Amo entoando a melodia de Trem das cores, sendo-me na intensa doçura daquela canção instaurando o tempo irreal da felicidade e que, nela, a gente obtém chorando. Amo nas cenas de Fellini que ele me convidou a assistir, no impacto de O estrangeiro sobre mim, em muitos escritos nos jornais, na representação do baiano universal. Nas canções (minhas melhores lições) também iluminadas na voz da enorme Maria Bethânia, sua irmã.

Entre tantas cores, ligado a tantos nomes, Caetano que é verbo como grafou Djavan, faz 70 anos para a Bahia lhe agradecer e pedir aos Orixás que tome conta deste filho que é deles e sempre será um dos maiores mestres da verve cultural deste país. Em todos os tempos.
(Publicado no blog do Terra Magazine - Portal Terra - em 07/08/2012)

domingo, 24 de julho de 2011

Para além da morte de Amy

Marlon Marcos
Para o Terra Magazine ( em 24 de julho de 2011)

Não é tolerável que se fale bem de Amy Winehouse, que se descrevam as características do seu talento, que se compreenda agora a dureza da vida frente às dificuldades de convivência, às vezes esta, insuportável aos mais sensíveis e criativos; e com candura hipócrita: minimizem, agora, as drogas perante o que a cantora, de vida breve, fez no cenário da música popular ocidental, igualzinho a outros ícones que morreram (ou foram mortos?) pela força da normalidade que configura este mundo asfixiante em que vivemos como prisioneiros moralistas.
A questão não é a droga pela droga, nem o desvario pelo desvario que alguns artistas apresentam. A questão não é elaborar um tratado psicológico ou sócio-antropológico, do ponto de vista acadêmico, para revelar as fragilidades da grande Amy; fragilidades que todos têm e se salvam pelo ordenamento, coisas que os inquietos e criativos, os de temperamento questionador, muitas vezes genial, não conseguem e nem querem se submeter.
A questão, se existe uma, é entender que nós criamos os drogados e precisamos dos transgressores. E esse tipo de morte expurga nossa culpa covarde de querer gozar a normalidade e combater letalmente os que tentam se destruir como forma de denúncia, de desabafo, de escracho inocente e suicida; os que se lançam à morte buscando uma vida mais luminosa, que entre nós, nem o grande talento consegue trazer.
Lamento a morte de Amy como se lamentasse a perda da minha vida. Ela alimentou, com seu escárnio autodestrutivo, a indústria midiática dos escândalos e das fofocas que dão densidade à existência tacanha de milhões de pessoas espalhadas por este mundo. Não sei se ela tinha coragem; tenho certeza que tinha um grande talento e estava entre as vozes mais agradáveis e especiais das cantoras planetárias na contemporaneidade.
Era toda ela um jeito surreal de ser: a forma idealizada que se tem do verdadeiro artista, aquele que representa o que não saberíamos ser: por pequenez, inabilidade, covardia, incompetência, falta de talento, de vocação, enfim, a tal da normalidade que emprega os medíocres.
Tomara que esta morte tenha um efeito contrário e não sirva para acariciar a pele rude da necrofilia do Ocidente; tomara que não só se façam discursos contra as drogas e nem mitifiquem Amy, santificada agora porque calada, castigada pela morte, por conta das suas transgressões, da sua rebeldia, da "fúria marginal", do seu encanto selvagem bem acima das possibilidades do humano em sua normalidade.
Back to Black acendendo-se em nossos ouvidos em uníssono para registrar uma despedida que é encontro. A gente sempre foi Amy no recôndito dos nossos sonhos, em nossas lamentações profundas, em nossa ânsia de fórmulas anestésicas, em nosso grito esmagado em busca de uma liberdade que nunca será...
Mas ela tentou, se desesperou, se aliviou, se maltratou; se errou integralmente não sei; sua voz ficará na galeria dessa imortalidade daninha que conferimos aos mitos; seu canto está em muitos antes e depois dela e continua até repousar em outro que tenha de morrer em nome da harmonia deste mundo que adoece os sensíveis, os proponentes, os que rejeitam: a alegria pipoca e macaco, poltrona TV domingo, neuroses bancárias, carro apartamento status... O poder que mata para que haja esta civilizada sociedade dos homens e mulheres bolsonaros.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

James Franco em entrevista: 'Talvez eu seja gay mesmo'

Para evitar polêmicas idiotas, fala meu herói:


"Boatos sobre a sexualidade dos astros de Hollywood não são novidade, mas enquanto muitos atores desconversam ou negam veementemente as alegações, James Franco é mais "desencanado". Em entrevista à revista Entertainment Weekly, o ator que interpretou personagens gays com o escritor Allen Ginsberg, em Howl, o ativista Scott Smith em Milk e o poeta Hart Crane no novo The Broken Tower, brincou com os rumores e criticou a definição "preto e branco" da sexualidade. Para constar: ele namora há muitos anos a atriz Ahna O'Reilly.
"O engraçado é que do jeito que essas coisas são faladas em blogs tudo é tão preto e branco. É uma política de identidade de corte seco. 'Ele é hétero ou é gay?' Ou, 'esse é seu terceiro filme gay - sai do armário logo!' E tudo baseado em 'gay ou hétero', baseado na ideia de que seu objeto de afeição decide sua sexualidade", afirmou.
"Há muitas outras razões para se interessar por personagens gays do que eu querer sair e fazer sexo com outros caras. E também há muitos outros aspectos destes personagens que me interessam, além da sexualidade. Então, de algumas maneiras é coincidência, de outras, não. Quero dizer, eu interpretei um homem gay que vivia no anos 60 e 70, um gay dos anos 50, e outros nos anos 20. Todos foram períodos quando ser gay, ao menos em público, era muito mais difícil. Parte do que me interessa é como essas pessoas que viviam estilos de vida não convencionais lidavam com a oposição. Ou, quer saber, talvez eu seja gay mesmo", conclui Franco. "
Retirado do Portal Terra ( Gente)