segunda-feira, 11 de abril de 2016

...

Chove por dentro.

Mas tudo se faz vazio

Meio quente quase frio.

Desenlaçam-se encontros

Para esta noite que não

Mais importa se longa ou

Indesejavelmente curta.

domingo, 10 de abril de 2016

mb: pássaro matinal



tudo intervala
pra ouvi-la
ou pra vê-la.

e ela segue livre
alvissareira distante
dona do seu nome,

pássaro matinal
num voo eterno.

terça-feira, 29 de março de 2016

Outonal

minha alma é outonal
alonga- se em pingos 
de chuva e sal...
águas marítimas
lágrimas matinais
alas camadas
entre o azul de mim
e o nascedouro cinza
do mês em que existi.

terça-feira, 22 de março de 2016

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Sem Caio,



Não é tom de misericórdia
É a imensa alegria.

Esta descoberta que se renova
Nas linhas que me denunciam
O crime pesado pelo qual
Não posso pagar.

É o arranhar vocal de Billie
Na melancolia do escritor
Impregnado em mim.

Ele, Deus.
E eu?
Além do ponto
Batendo em sua porta
Que se abre sem formalismo
Sem cobranças.

O homem menino
Frente ao  menino Deus
Ambos forasteiros em tudo
Sem chão e cidade.

Ele transcrito no livro
Eterno à qualquer idade,
E eu embriagado dele
Um tipo de memória amorosa
Que nunca me deixa em falta:
Revivo.

Literariamente.

O meu bater à porta
Em gritos de aleluia.

Eu te percebi
Entre Clarice e Hilda,
E Caetano,
Você tão para mim
Feito a verdade
Que me asas a escrever.

Meu melhor silêncio
É saudade.


domingo, 21 de fevereiro de 2016

Bethânia: a realeza como destino


A trajetória dela marcou o Carnaval brasileiro deste ano. Ali, na Estação Primeira de Mangueira, idiossincrasias, especificidades, narrativas míticas, literárias e pessoais desfilaram a Bahia que Maria Bethânia reinventou à luz do poderosa enredo A menina dos olhos de Oyá, do carnavalesco Leandro Vieira.
E Oyá, o orixá iorubano do movimento e da transformação, ratificou sua predileção por esta filha, menina nascida na pobre Santo Amaro da Bahia, para ocupar o centro da grandeza criativa que nos caracteriza como brasileiros. A Mangueira acelerou a respiração de um país ao desenrolar, de modo artístico, histórico e socioantropológico, aspectos da vida de uma mulher marcada por talento e fé. A voz sem igual que queima feito fogo e abranda como água; musa de muitos mistérios, sabedora do que veio fazer em nome da arte que perfila o melhor que temos como Brasil.
Oyá, entre vermelho, branco e rosa somando-se ao verde, destacou uma escola de samba carioca que é toda a Bahia e ratificou a tese de que a cantora baiana é muito maior do que  seu ofício: ela é veículo para vários signos e sistemas que dão complexidade ao ser brasileiro, entre esferas sagradas e profanas, sua filha dileta é tradutora dialética dessa coisa inesgotável da Bahia, mesmo que amassada por tanto desgoverno, servir de manancial da beleza que tantos, no planeta, precisamos.
Cinquenta e um anos numa trajetória artística invejável. Linda para abusar dos padrões de beleza dos demais. Sagrada para mexer com a racionalidade dos cientistas. Campeã no dia do aniversário da saudosa Mãe Menininha, voltando a desfilar na Sapucaí, sob o seu destino de rainha, no dia 13 de fevereiro – data oficial do seu começo como artista nacional, no Rio de Janeiro, em 1965.
Rascante e enigmática, uma senhora de quase 70 anos, em tessituras antropológicas, Oyá-Bethânia é rainha porque é a dona da simplicidade. 

 (Publicado no Opinião do Jornal A Tarde, p.03, dia 20 de fevereiro de 2016)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Lindeza de mim



bem estar da fala
todo canto abriga
e sigo mudo
flanando sob
a cena assistida
enxuta do sangue.

O sem lugar

(Ponta de Areia - Itaparica)



P/ Beto Heráclito


O vento arrasta as ondas para dentro do meu pensamento, o mundo imenso que me engole torna-se, neste instante, marulhos noturnos e a lógica de existir serena frente ao ato delicado de sentir a vida em silêncio. Eu de onda em ondas salinas do mar que me assiste sentir...

Parece que busquei outra forma de poder. O Tempo que me ensina também me esvazia de tudo que aprendi. Minhas mãos vazias, o peito calado, falta de medo e de sonhos... Marulho dentro e fora: meu pensamento como a mais real das realidades em que tombo sobre o mar.

Estou molhado numa noite de vento sem frio – cato seres celestes no horizonte sem luz. Meia noite do dia da festa do Natal e nada me é nascimento. O mar marulhando minha cabeça sem sonhos, portanto, sem pedidos. Aperto-me para a escrita e tudo que me liberta é grito... Eu em silêncio. Notívago. Vivo na paisagem mais linda frente ao lugar mais límpido porque o lugar do meu nascimento.

Então houve aqui um nascimento: o meu na cidade que me aborta, fecha a porta, delimita e a chamam de salvador. Limiar da minha história de conquistas e dor... O arranque que me expulsa para o “não sei aonde ir” e o “ como falarei com os meus superiores estrangeiros?”.

Não tenho perguntas. Tenho noite, vento, ondas e silêncio. Meu não pensamento é estar pensando na falta de luz que me fascina mesmo que ela esconda o mar. 

Vejo o mar com a audição: ele ali, intenso, em movimento, me aguardando para uma manhãzinha em que saberei, talvez, nadar.
Tantos livros para duas pequenas mãos, dois olhos e uma única vida. Eu sem libertação. Arrependido, mas com coragem para terminar. O vento me inclina. 

O mundo menor dorme e o maior vigia... Por onde anda a sorte?

Qual o portal de Deus? Bate bate bate bate bate... Tantas batidas de águas em pedra : o furo da imprecisão e da resistência do nada. Minha língua sartreana e a aura católica...

Eu sou um sem lugar.


Itaparica, 24 de dezembro de 2015 ( 00: 45)

Salvador - 2016


queria para além desta imagem,

onde fosse melhor que linda,

um lugar mais humano e equânime,

menos segregador e perverso,

menos racista e menos voltado

para o insucesso

de tudo que é o outro.

minha cidade preferida

não é o lugar dos meus sonhos.


[ 2016 - eu que me movimente]

Mar profundo




O mar quando profano
É ainda mais perigoso
E proibido.