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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Sem Caio,



Não é tom de misericórdia
É a imensa alegria.

Esta descoberta que se renova
Nas linhas que me denunciam
O crime pesado pelo qual
Não posso pagar.

É o arranhar vocal de Billie
Na melancolia do escritor
Impregnado em mim.

Ele, Deus.
E eu?
Além do ponto
Batendo em sua porta
Que se abre sem formalismo
Sem cobranças.

O homem menino
Frente ao  menino Deus
Ambos forasteiros em tudo
Sem chão e cidade.

Ele transcrito no livro
Eterno à qualquer idade,
E eu embriagado dele
Um tipo de memória amorosa
Que nunca me deixa em falta:
Revivo.

Literariamente.

O meu bater à porta
Em gritos de aleluia.

Eu te percebi
Entre Clarice e Hilda,
E Caetano,
Você tão para mim
Feito a verdade
Que me asas a escrever.

Meu melhor silêncio
É saudade.


segunda-feira, 30 de março de 2015

Do temor



eis que temo.

e temo por acreditar demais.

barulho insuportável da esperança

que me acorda toda manhã

entre risos e dores, cores e

meu íntimo mais obscuro.


temo.

nesta vida que enceno

desconverso e confesso

ainda que pura solidão

adoro me saber vivo.


e entrever minha escrita

denúncia grito de socorro

oração ao mar

rasgo político aceno

anti-modelos, erro.

reverência ao que amo.


silêncio...


e esperança sem saber

no que como caminhar.

terça-feira, 7 de maio de 2013

***

E entre tudo que ele poderia ser pra mim, ele escolheu ser saudade.
CFA

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

sexta-feira, 2 de março de 2012

Abismos

Para CAIO FERNANDO ABREU

"Vórtice, coragem, vertigem: qualquer abismo nas estrelas do papel brilhante no teto".CFA


Escrevo. No jeito de cair, no querer dizer: abismos. No fazer-se abandono para mais ter o inesperado da vida. O teto brilhando. E a coragem dentro do peito. Esse frescor da ida, os lugares todos à frente e medonhos; o sabor da ida.
Ir-se todo até no pensamento. Vertigem acima do medo. As palavras todas escolhidas. Luminescência. Possibilidade. Asco. Esquecimento. Bondade. Força. Delicadeza. Fé. Amor. Verdade. Excelência.
Ir-se todo ao comando dos ventos e sem retrospectivas. Ida pelo sangue, o rio vermelho condutor das renascenças. Rodopiar no olho do furacão em vertiginosa subida e assentar-se em si mesmo como maior conquista.

Ir como morte, renascendo para além do mistério da vida. O teto brilhando como escrita do desenhista do amor, o gaúcho flor das pétalas brancas, destino universal em dilacerantes dificuldades.
Escrevo caindo no abismo que criei. Sei que nem digo nem vejo nem alcanço. O abismo é o mais seguro porque todo alegria e movimenta contra tédio e apatia e, assim, eu escrevo.

Escrevo o silêncio que não faço. Em nome de saudade, de vontade, de ternura, de amizade e salvação.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Meu Coração Teu


Sim, há veneno e uma doçura louca. Cobertura de maresia e palavras que guardei para impressionar. A afirmação do que nunca tivemos e nossa alma a singrar os destinos de um sentimento. Sim. Pintura expressa acima da mesa, longe das certezas, Van Gogh a nos guiar.
O clarão daquela solidão prometida como castigo e violência pelo crime dos que amam sem lei. Ainda assim, sim. Vento traz transformação. O que arde no peito é este carinho, esta vontade, este desejo. O peito abriga o melhor que tenho. Tudo bem acima das promessas, das violências, das ressalvas, dos desmandos. Nada é mais sutil e mais sereno e mais seguro e mais amor do que tenho guardado aí, no peito.
Esmeraldas e diamantes e turquesas; viagens, paisagens, conquistas... Tudo se aplica se de acordo com o que bate o meu coração... Cecílias, Sophias, Bethânias... Tem música e poesia lá e arde meu fogo, minha paixão.
"Meu coração teu".

Na terra do coração


Do livro Pequenas Epifanias, de Caio Fernando Abreu, a crônica Na terra do coração é minha tradução maior. Ali tem a dor de sempre em Caio, mas tem também a esperança dos amantes. E ele era um lindo amante. Posto aqui em homenagem ao que tenho sentido e alio o meu coração às suas marcas insolúveis  de mar areia sol chuva vento amor...


Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:

Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é o mendigo mais faminto da rua mais miserável.Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.

Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se p6os. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.

Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.

Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração teu.

terça-feira, 29 de março de 2011

Morangos mofados


Este livro.

Desenho de muitos enxovalhos que sofre a alma humana. Lugar de desespero, gente perdida, falta de filtro, queda-livre sem rede de segurança e, brilho de uma escrita. Receita para viver sem melhoramentos; nada, por horas, de se reescrever... Ali é dor que conduz, em diálogo e guerra, nossa própria solidão. Ali é-se e basta. Radicalidade artística e sectarismo sócio-existencial. O que mais demora, numa velocidade que dá tempo de morrer...

Um escritor delatando-se ao mundo que o oprime e preparando-se para sua vingança maior: a eternidade. Tudo que deveria ser mofado mas é a vida pulsando, nova em busca de novidade. Eternidade no aqui agora. Palavras em português tematizando a universalidade e essa vaga a ser ocupada pelo o amor que nunca chegou.

Aquele livro.

Para lá das centenas de explicações acadêmicas dos senhores da razão sobre o tema; sempre à frente de assertivas, um tipo de novelo desfiando intrigação. Prosa que retrovisa Poesia. Histórias erguidas à sensação. Voz de quem ouve diz e dói. O peso de Caio F. A leveza do gênio forjado na vida. Leitura curta duração. Aprendizado forever voando sobre as cidades de todo mundo.

Leitura de maior e melhor duração: Morangos mofados.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Carta em resposta a Caio Fernando Abreu

"Eu queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que escrevi" CFA

A gente ama, Caio. Com desespero e deslumbre. Ama suas palavras e converge para o centro maior daquela busca: amor... Ama a força dos seus escritos, assistindo suas intimidades, quando sem coincidências, são nossas intimidades também. A gente ama a paixão descrita e esvaída da sua obra imprescindível. Este é o termo real para configurar sua escrita, ora faca ora carne, acompanhando a solidão de muitos, até a dos que não procuram o amor.
A gente ama o que você escreveu. Sonhamos serenos a partir da sua intensidade. Vivemos da arte geral que compôs o seu mundo, somos os fadados ao coletivo em solidão, viajando por dentro e por fora, e, como dissera Bernardo Soares, " nunca desembarcamos de nós".
Tenho suas marcas em minha vida. Amo suas notícias de fé. Ainda creio no "amor até o fim", e espero, como você. Norteio literatura por Clarice e seu Caio F., vivo a Música Popular Brasileira, onde confesso, aprendi muito do pouco que sei. Foi seu texto falando sobre a mítica quase divinal em Bethânia que me levou a querer estudar ela, e me fez buscar sua literatura. Nele, o texto da Coleção Personalidade, tinha Caetano também. E tinha Billie.
Eu, infelizmente, só lhe amo pelo que você escreveu... Mas sei da sua humanidade transgressora, do romantismo oitocentista, o homem cultíssimo, ventando arte e saberes... Queria ter lhe conhecido e convivido contigo; este sujeito que, antes de morrer, pediu que se jogasse rosas brancas e amarelas, para Iemanjá e Oxum, daqui das águas do mar da Bahia.
Queria ter lhe escrito uma carta e receber sua resposta.
Amo seus escritos e, às vezes, orbito na tristeza dos seus olhos quando me perco olhando suas fotos.
Hoje, leio você, à noite, olhando um pouco para a Baía de Todos os Santos. É esse o meu poder.
Com amor, seu Marlon Marcos.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Morte dos Dias



"A lua já se foi. As Plêiades, como dizia Safo, já foram se deitar. E eu vim-me embora, meu Deus, eu vim-me embora. "
A dor de existir não me quer deixar e todo tempo nessas horas me tem sido crepúsculo, a morte dos dias. Evito pensar em coisas que eliminem o que sinto para não correr o risco de aumentá-la... Eu sou o estar da dor que me acompanha e me tira a noite, a manhã e aquelas tardezinhas em que fazia promessas em sonhar da janela de casa frente ao mar e à inspiração.
Palavrear, agora, nesse instante, é um duplo movimento em direção de caio fernando e clarice. Tenho que ir para dentro daquilo para aprender a ser acima da dor... Sei que deveria imitar os cavalos jovens, mas não, a borboleta se apossou de mim. Uma única vantagem: liberdade. O maior medo: pouco tempo numa pressa imensa de viver. Será que já devo ir embora? Não.
A dor de existir marca em mim os desígnios do destino: tenho que escrever. E beijar a brisa que me chama em minha janela e leva em sua face-vento as cores do meu amor para uns versos alheios... E se vivo, só é por conta disso...

Dizendo Caio Fernando Abreu


“E me dá uma saudade irracional de você. Uma vontade de chegar perto, de só chegar perto, te olhar sem dizer nada, talvez recitar livros, quem sabe só olhar estrelas… dizer que te considero - pode ser por mais um mês, por mais um ano, ou quem sabe por uma vida - e que hoje, só por hoje ou a partir de hoje (de ontem, de sempre e de nunca), é sincero.”
Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Noites sem você

"E de repente, não mais que, uma tarde quase quebrando de tão clara, você chegou na minha saudade."

E tudo já era sem tempo nesse meu peito morto: só saudade. Eu solto no vácuo das minhas ilusões contemplando a paisagem. Nada que fascinasse mais que o desejo de amar em segredo a poesia dos dias em que o vazio se preenchia. Folhas e folhas em branco abismando o sonho de poder escrever, de querer dizer.
Luz acesa na sala da vida amarga: goles de cerveja e o olho perdido entre livros, sem telefone, sem compromisso, sem responsabilidade... O olho absorto na vaga que a solidão deixa. Um poema sobre a mesa recém chegada incitando o morador a ir sem retorno para fora da morada. Uma tarde clara e quente sem caminho para esperança de voltar a ver. Aquele poema sobre a mesa pesando dor e paixão, assimilando confusão, nisso de enlouquecer em cartas a querer trazer o que vela minhas noites de melancolia: sem sono, sem café, sem poesia. Noites sem você.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Caio F. : destino

Caio Fernando Abreu

‎"E se eu mudasse meu destino num passe de mágica? (...) Estranho, mas é sempre como se houvesse por trás do livre-arbítrio um roteiro fixo, pré-determinado, que não pode ser violado."

Isso me acalma me desespera. Mas o que tiver de ser será. Me abraço num livro de Caio e docemente luto, não espero... O que tiver de ser será.