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quarta-feira, 15 de maio de 2013

A Paulo Mendes Campos


"Desvairam" é um sentido que impulsiona a olhar pra cima e pros lados; apaga o autocontrole pesado e vivifica os movimentos físicos. O pensamento acompanha. Ventila o estar da gente querendo ser. Sensação quase loucura, visgo do prazer.

"Desvairam" é a leitura que mais gosto: mergulho nos olhos de mar de alguém em quem eu quero me perder.

"Desvairam" é uma prescrição na crônica do mineiro com jeito carioca de ser; me alisa com juventude... Irrompe-se. Tentativas. Caminhada pelas ruas noturnas do calor, do querer...Todos os erros que cometemos à luz da consciência tranquila porque nesse instante a mente está em desvario.

domingo, 29 de julho de 2012

Plágio



Está arranhando a minha imaginação o relevo áspero do seu poema. Áspero mas raro, feito pela peisagem selvagem entre águas e pássaros conduzidos pelo sorriso feliz de alguma criança. Tem êxito a escrita que leio, e me vejo, e lhe procuro. É seu mas sou eu - cavalgando as lonjuras onde não saberei encontrar; não saberei realizar o que lhe peço que faça por mim.

Arranha e acompanha minhas noites insones. Quanta água dessa escrita molhando o deserto de mim! Quantas paisagens sem a secura do que me proponho. Leio e é sonho o que sinto. Um tom azul na tez branca do lugar. Um tom verde em espiral como espuma a tocar nos pés da gente que enfrenta o deserto.

Um tom musical no precioso ritmo da sua escrita nos pondo no movimento cheiroso das marés. Sinto o cheiro destas palavras: amarílis vermelhos e rosas amarelas; salsa com gotas de limão; morango e ameixa; bacalhau coberto de felicidade.

Como cheira! E minha alma vibra e dói na beleza que está em cada palavra sua que se junta para delatar a minha impotência.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Transe




                                           "É doce morrer no mar
                                             Nas ondas verdes do mar"
                                                                  Caymmi

         Marulha-se o pensamento, rondando o espaço percebido pelo olhar, indo pelo vento esbarrar-se nas "ondas verdes do mar". Indo afogar-se na imensidão de uma procura, banhar-se na luz manhã de um sábado - entre rosas e preces - trazido do fundo fosco da duradoura esperança.
         
        Sobrevoa o instante o pensamento marcando imagens da realização. dominando a certeza, a emoção noutra forma invada-se numa saga onírica,e sobre pedras e sereias, os pés-asas sujos de areia alcançam às mãos do sonho em silêncio. Pensamento ao desejo, ventando manhãs numa manhã de praia; pensamento-olhares aos falares das conchas dos quizos dos búzios dos seixos dos ares, marca do segredo, para tudo que refaz a saudade e instaura o medo.
         
        Deserto aquático engrandecido pelo universo do pensamento, calado e colado nas asas dos pés,se indo,sem destino, na vaga estreita de uma incerteza, um surto emotivo, qualificado como distância. Na espessura amarga da água, a sensação da presença límpida da vida. Um tímido sol minimizando o transe.O tímido sol desenhando no horizonte que ultrapassa o olhar do pensamento.
          A órbita do silêncio atingindo todos os lugares.
          Uma paisagem verde-azul e branca, colorindo a fuga perfumada pela imaginação. A força do oculto: o que emana de fora para dentro d'água e respinga no corpo como resposta.
          O afogamento. A claridade azulada da água. O cheiro-alfazema do salitre na maresia às narinas do pensamento para possibilitar o consolo,
           A visita delgada da  Mãe-mulher, a irmandade com os peixes, a morosidade dos segundos devastando do peito a reserva das lágrimas...O carinho feito pela mão da Mãe-mulher no esparrame das águas sobre as pedras.
           A chegada do barulho para despertar o coração. A claridade rosa das águas aliviando pelos olhos a tensão deixada pela posse da consciência.
           Fragamentos da divina presença: toques sagrados à distância, danças ondulares, saudações iorubanas, músicas, verdades... A vontade atingida pela FÉ erigida para que se alcance o fruto-marulho no âmago do pensamento.
           A imagem da Mãe que se impregna no corpo do homem que sai louvando a  Mulher.

          Iyá Ogunté mi Odô Iyá!

                                         Marlon Marcos.

     P.S: Depois de contemplar o "mar" de Cachoeira em seu rio de tanta saudade...Que chegue Setembro.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

De relance

A cabeça relembrando cenas  em um quarto de hotel numa cidade do interior. No ano de 1989. O peso de ser jovem discordando e negando o que mais se quer hoje. Idade em avanço é um tormento. Tempo quando nega não para, não cessa. Um copo d'água, meia luz, canção. Ventando essas imagens no antigo desejo e não se sabia que se queria tanto ali. De frente à piscina e à sede. Lugar quente do corpo sonhando.Grande. Quente. A vida pulsando na íntegra rapidez. Cenas de atração e não, o espelho, a manhã, o cobertor. Grosso. Passeio calmo da memória naquilo que veio como destino. O desespero. Um filme sendo rodado. Coragem. Brilho. Suco. Falta do outro líquido. O sumo no sumiço da entrega. Não. O olho de olho na inteireza sob o impacto do medo. O disfarce. A saga calada do impossível. Canção dos Beatles. A língua só no inglês. Outrora. Agora. Não foi. Mas é.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Félafétan

Estava no abrigo de si e nada diria de dentro da sua eternidade. Olhava das alturas, com o doce sorriso de sempre, e se divertia sem outras coragens; um pouco de lamento guiava seu barco nas águas de um mar mais salgado.

Havia ali ebulições de cenas novas e já vistas, marcas repetidas, dores estacionadas, um pouco de morte e, a vida em desenlaces sem curas para o amor maior.

Havia ali: o nascer do sol. A dança da tranqüilidade ansiada e a segurança perseguida. Mas ali, às escondidas, tinha o marulho amalgâmico e secreto que transformava a beleza no canto da sereia, também.

Tinha os ouvidos em silêncio em canções esculpidas na audição; o coração em emes, o medo da solidão. Ali tudo era infância rosa e azul, branco e destino, vermelho sem ação e o violão tocando-se, em duas notas, músicas da Legião.

Perfumes no ar, respingos do banho na memória como chuveiro quebrado. Nada prosseguiria sem as réstias, fendas, vestígios de uma história sem lugar sem nome sem pronúncia.

Havia o amor inventado que implodiu culturas. Passeio da sensação recôndita que obriga escrever delicadezas para depois dizer não.

Era o não na parede do teatro e a última encenação servia de cavalgadas em áreas urbanas de uma cidade fora dos mapas. Cidade inumana, enraizada no couro da cabeça, no ori, de um amar profundo que o tempo, no giro da precocidade, abortou.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Festa da cultura em Cachoeira-BA


Lá roça a pele o vento da ancestralidade: monumento das razões lusitanas aprimorado pela natureza e pela beleza civilizatória do humano negro. O atabaque chama e a água faz renascer. É como se o harmonioso tivesse que ser e se fosse em nós todo inteiro. O chão pisado pela primordial presença indígena - cantigas das ninfas morenas do Paraguaçú em louvação à negra mãe Iemanjá. Um mundo incrustado de dor e sabor azeitado para além da escravidão. À mesa, a misteriosa maniçoba entre o índio diluído o negro reinventor e o branco que consome. A paisagem como elevação: sol brilhando no âmago do rio que segue; as chuvas que irritam o rio alimentando suas águas; uma gente com sede nos olhos e desejo no corpo; a sabedoria dos velhos e velhas que preservam caminhos para o encantamento; a poesia dos instantes; a Pedra da Baleia - otá maior da poderosa senhora de todas as águas...

O rastro da história que se deve. Expoente arquitetônico ligando para sempre passado e presente, tradição e contemporaneidade. Apesar de que lá o tempo parou nos ciclos mágicos da profunda beleza. Parou na voz de suas mulheres lavadeiras e na cerveja gelada em sua orla e em seus bares; parou na leitura de um livro da sacada de um sobrado com vista para o rio. A cidade é fomento para artistas e agora, encontro constante de intelectuais. Vívida promessa do que sempre foi concretização e ancoradouro dos sonhos mais festeiros. Aziri Tobossi à frente. Humpames Huntoloji e Seja Hundê. Capela de Nossa Senhora da Boa Morte. Nossas negras senhoras da mista mítica fé da saber viver e saber norrer.

Lá tem alívio em agosto e festejo sem par em novembro. Na Ajuda, miragens das primeiras iyaôs. O adjá toca constante; saias bem engomadas em barracões celestes na roda das mulheres comandando nossa religião. As ruas quietas metem medo. O som do sino arrepia e até frio mora lá também. O encantado misturado à dureza do dia a dia;o cotidiano de uma poética da beleza na inconstante possibilidade do sobreviver marcado ali pela força da pobreza. Mas é toda riqueza o estar da cidade na configuração do mundo.

Foi um tempo senhorial e hojé é cartão postal do nosso orgulho. O soteropolitano também nasce naquela cidade que nos arrebata sem nostirar do lugar. Ou melhor, sem nos tirar de lá - onde roça a pele a negra ancestralidade da gente.

Agora temos uma feira literária lá.

sábado, 1 de outubro de 2011

Pela beleza da vida

"Pois juro que a vida é bonita" Clarice Lispector

Só de chegada, antes mesmo de sonhar, a vida é bonita. Dá medo mas dá desejo também. E a gente segue ansiando segurança, e lá por dentro, imaginando transgressões. Tudo é tão rápido. A festa mal começa e acaba. A vida em sua beleza nascente, correnteza cortante, sorriso de criança e minhas lágrimas que correm rezando... A vida. Maior que o tempo que silencia e que faz esquecer; a vida é uma espécie de poema potável que se pode poluir mas nunca perde a beleza. É sempre mistério. Dança como calma no palco do dessassosego. Areia movediça do amor que escolhi pra mim; alumbramentos no porto solidão e a rampa da fé feito subida em nossa alma. Bom saber que a vida ainda está aqui e posso andar de vontade, aspirar, ver fotos, aprender, me banhar, ter-me naquele abraço, projetar, escrever...

Ouvir e ler. Ainda me quero aqui nessa força que me fermenta. Ter sonhos impossíveis e realizar. Ter coragem. Alçar-me com saúde acima deste instante daninho e ser. Quero ser como se escrevinhando a alguém mais que amado e obter mágicas respostas gerando novas perguntas e suando. Viver. Quero estar em mim saboreando o meu você. Retas imagens do que aconteceu. Fragmentos da eternidade que é o nosso encontro. Esta palavra inventada. Este conto de amor proscrito aludido no delicado daqueles olhos que fazem valer a vida. Fonte da poesia de mim. Beleza incontida.

sábado, 24 de setembro de 2011

Dias nublados no sábado de Salvador


O céu de Salvador, nesta manhã, está nublado com muitas possibilidades de chuva. O mar da Baía aparenta calma. As ruas do Centro sujas, os prédios insatisfeitos; falta coragem aos transeuntes; um lugar piorado quando não se pode reunir para beber e conversar com amigos. A cidade está ameaçada também por muitas doenças. Falta dinheiro no sorriso amarelo dos governantes? Venta na cidade que ainda é um sonho de felicidade. Apesar da dor, há um gosto de liberdade no ar sem purificação. A cidade. Paisagem linda que nos faz, talvez, pouco exigir. E a gente vota errado, tendo só errados para votar. Êta tempo nada porrêta: mergulho em Capitães da Areia, o livro, para ensaiar o filme. Preciso de sorte, terei que descer o Elevador Lacerda. Meu Deus, o Senhor há, um prefeito com o signo da morte. Minha vida em coletividade só pode ser definida pelos Mandos do deus Futebol; meu esporte favorito é o Vólei e nasci sem valer nada.

Mas hoje é sábado que tem a cor da Fé. Insisto assim. Presumo assim e saio para a vida como num filtro de gente. Eu escolhi. Ouço música, rasgo retratos, apago poemas, recito, rezo e danço para os Orixás. Leio. E prazer. Encontro também. Cinema. Festa das Iyabás.

Oxum e Iemanjá e Nanã dançam hoje! Agradeço está vivo ainda que entre as durezas deste tempo na Cidade da Bahia. Sei que se tem de morrer. Já morri várias vezes mas a derradeira também vai doer.
Cidade de sábado, minha Bahia. Queria perfumá-la, reimaginá-la com palavras do poeta da delicadeza, transformá-la sem danificar a essência, tê-la mais negra com a cara da miss Angola 2011, trazer antigas festas e querer dentro dela e realizar nela e ser por ela... Bahia que não sai de mim. Força que orienta a palavra que faço em mim para a arte.

As águas desse meu mar em todos os santos. Axé e Amém.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Clarice Lispector: leituras de mim mesmo


Eu tenho muitas leituras sobre ela, sobre a obra dela, que são leituras de mim mesmo. Meu estado de querência; vontade de me reinventar nas palavras de alguém que subverteu linguagens para criar uma que fosse só sua e se espalhasse por entre seus leitores.
Clarice, eu não queria ser ela. Isso me tiraria do prazer de vê-la por fora e sentir por dentro a graça das revelações que ela fez ao Brasil. Clarice é o espelho do qual não afasto meu rosto e a sigo em repetidas leituras de vários livros, vivendo dias sobre o efeito, às vezes, de uma única frase, de um breve parágrafo.
Ela é a mulher superando terríveis tragédias, intensificando seu estado de "estrangeira" no mundo, dominando línguas, para através do português e de sua literatura, instaurar um tipo de salvação entre nós: os que a lêem.
É misterioso em mim a origem do amor avassalador que tenho por sua obra, por sua história, pela pessoa comum que é a senhora Lispector. Escritora posta em raridades, a tecer histórias advindas da profundeza humana: misto de dor e alegria; o sacerdócio da escrita como fórmula de sobrevivência. Lições de alguém que quis a vida mesmo quando a vida não parecia querê-la.
Faço mergulhos diários em livros de Clarice, a levo para minha sala de aula, conto a história do Brasil à luz da biografia dela; a exalto, a examino... Nada me comove tanto, me anima tanto, me faz amar a arte tanto, quanto a escritura de Clarice. Pago o preço do peso. É isso, eu peso tanto quanto Lispector, mas também como ela, sou cheio de esperança, de silêncio, de fantasias e de espera.
Minha alma, apesar de afro-brasileira, é integralmente clariceana. E eu sou estrangeiro neste mundo também. Repito-me também. e tenho um repertório viciado. O que me qualifica na vida é ser leitor constante de Clarice Lispector.
Reconheço: é um mito pra mim. Eu a idolatro. Fotografo seu rastro, contemplo sua imagem. Vivo o destino de querer escrever e quando frente à Clarice: desisto, quero só ler...
A dor dela me ensinou a doer menos. E me trouxe sonhos e alumbramentos. E me ensinou a contemplar minhas difíceis paisagens internas. Ela só não me ensinou o desapego e nem me ensinou a esquecer.
Hoje mesmo, à mesa da minha casa, comi misturadas partes de O lustre e Água viva, aliás, este último eu nunca evito e quando largo ele, morro de saudade como se me fosse um grande amor.
Leiam Clarice; eu sei que ela já é eterna, e é a escritora mais estudada pelos acadêmicos do Brasil, mas... O maior desejo de um escritor, sem dimensões de sucesso, é ser simplesmente lido.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Para o pensamento

Há um colorido lá fora que não me faz bem. Prefiro fechar portas e janelas, acender todas as luzes, desligar telefones, TV, rádios, microfones, escolher pensamentos e me perder. Me abandonar pensando. Uma noite de silêncio. Aprendizado profundo com o pessimismo que não me habita. Mas o escolhi para seguir minha interioridade exposta:"  a mentira é a alma da vida social".
O colorido é esse social que marca meus desencontros e me impele a falar de mim. E como gosto de falar de mim, das minhas sensações frente ao mundo. Como gosto do batuque simbólico da minha emoção. Sentir é o meu destino de homem comum. Comum na unicidade e na trincheira da guerra que travo comigo mesmo.
Gosto de gostar querendo desgostar de tudo. E vou à subida. Ao centro daquela força que é a posse de si mesmo. Legarei infortúnios e receitas de feitiçaria. Meu pacto noturno com as chuvas de junho e essa insatisfação maior que meu desejo. Tédio somando-se à insônia é caminho para o suicídio. Não sou de matar nem de morrer. Mas o tédio corrompe as ilusões salvadoras. O tédio danifica até o silêncio.
Anoto uma imagem para deixá-la definitivamente para trás - onde a memória não possa alcançar. Apago. Um tempo em desalinhos me ensinando a barganhar com a angústia. Eu que me engano tanto para melhor enganar. Eu. Repetidas idas e floreios obtusos: quanto mais digo, não compreendo, e nem o outro.
Sou-me nessa face existencialista. Um projeto inconcluso. Escolhas semi-corajosas. O quase do poeta morto. O tempo urge dentro ócio que tanto busco e não consigo.
Eu queria um encontro. A dois. Um dia. Longe de todos. Dois, fora dos mapas, deitados numa cama a ermo, vestidos, conversando sobre os sonhos, poetando pelos olhos... Calma,  é o otimismo voltando.
Nesta noite só há tempo para a desilusão. Não vou mitigar nenhum romance; especular nenhuma paixão. Volto ao tédio ao silêncio para ter só a mim. É o que está certo.

domingo, 12 de junho de 2011

A desistente

Sempre que amanhecia, ela se vestia de espera. Aquela espera silenciada na alma, que gera olhares à caça, que exercita, sem esforços, o corpo. Sem maiores ardores ou sonhos: ela era aquela espera.
Singrar dias, vencer as noites; o sol lhe trazia a alegria da pronta recepção e lhe invadia com promessas que só ela sabia entender. Uma quase sacerdotisa das luzes, que esperava tanto...

Até que um dia, manhã reluzente, com a camisola mais velha, mais discreta que antes, olhou pro espelho: basta! Se desapegou de tudo, não lembrou dos parcos familiares; de lá, do quarto mais escuro imitando a noite, envenenou-se com o intuito de fazer a primeira e derradeira viagem.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O bobo

"É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo."

Aprendi rindo por dentro: bobo foi Chagall. Nada de enfeiar-se. A loucura combina com o riso que tenho pra dar. Em noites de lua em evidência costumava rezar pedindo sorte. E eu tinha toda saúde de ver a lua entre as estrelas fazendo minha delicadeza fluir. Eu tinha um cansaço na alma mas a beleza nos olhos. Sempre melhorava se pudesse rir. Eu era uma vaca sobrevoando as casas ou uma borboleta invadindo o banho da pessoa dos meus sonhos sem ela ter pudores de mim. Era um bobo poder que eu nem desconfiava que tinha. Noites nessa claridade nordestina, o sol do Brasil. E eu rezando sorrindo e chorando pra lua. Espécie de feitiço, sim! Controlava o tempo e amanhecia sem aquele cansaço. Tudo fome de poesia que o silêncio noturno, refletido na lua, me trazia. O tempero era saber pedir e vinha mas eu não sabia e deixava fugir.
Não era muito sereno não. Excessivo como querer sobrevoar casas ou espiar o banho de alguém - eu vestido de borboleta. Excesso e segredo. Aquele zumbido em ouvido vindo do peito para que o amor se apresente. Eu dançava com a lua que me ensinava algum dos seus mistérios e perdoava os meus excessos - todos alusivos às minhas historinhas de amor. O amor era meu guia tal qual o riso. Faltava-me sorte. Será? Perguntava-me a lua. Eu ria.
Um bobo clariceano, às vezes triste, mas todo amor como Florentino Ariza. Flutuante, pedinte, paciente, obcessivo, carente a vagar de espera de ideias de amor. Tendo a lua como oriente.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Com a ajuda do mistério


Do não secreto. Do invisível que a pele vê. Sente. Daqueles caminhos desconhecidos mas azuis. Da verdade alta do amor dito sem culpa, sem medo. Do invasivo sentimento que lhe  rouba a paz mas lhe faz sentir vivo. Dos repetidos mais gostosos de ouvir dizer fazer. Da força da paixão que lhe arranca do sono para lhe colocar em sonhos acordados, às vezes. Noutras, o pesadelo da falta. O azul é assim: uma linda cor vida cobrindo sua cabeça, lhe dando imensidão, espaço desmedido, beleza, sofreguidão, tristeza, sofrimento.
Deste não secreto de fazer tudo girar e instaurar a mudança: é assim também. Muda como força a favor do destino. Pode ter carinho. Desenho de giz na calçada. Dizeres em camisas. Um rosa marcando um livro, uma página, o poema. Pode ter lágrimas e beijo na boca. Dança de criança, olhos nus. Corpos nus se entregando. Pode ter não. E nada mais a escrever. E se ter sim. Mais colibris, jardins, músicas, roupa nova, cabelos cortados, tardes febris e ensaios fotográficos com vista para o mar.
O não secreto do humano ávido por amar e ter do sexo, para além do prazer, a geografia do secreto que o outro nos permite intuir.
Azul é um pouco mistério. Delicada expressão que define alguém que está vivo. Entre o céu e o mar navegando esperanças. Nave soberana. Azul celeste e todos mais, o que se bebe no tinto do vinho e se celebra caminhos e talvez, quem saberá?, (re)nasçam (re) encontros.
Do não secreto pode vir deliciosas mudanças. E o mistério deve ajudar.

Na terra do coração


Do livro Pequenas Epifanias, de Caio Fernando Abreu, a crônica Na terra do coração é minha tradução maior. Ali tem a dor de sempre em Caio, mas tem também a esperança dos amantes. E ele era um lindo amante. Posto aqui em homenagem ao que tenho sentido e alio o meu coração às suas marcas insolúveis  de mar areia sol chuva vento amor...


Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:

Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é o mendigo mais faminto da rua mais miserável.Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.

Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se p6os. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.

Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.

Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração teu.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ruínas


Continua a ventar aqui na janela. Chove um pouco, mas nada de frio. Quero me aquecer de frio e esquecimentos. Descendo a ladeira vejo nitidamente a burrice que comanda a minha afetividade. Há dias desço ladeira e ela não acaba; ela não tem fim e assim, aumenta a febre e a minha fome de poesia. Enlarguece o olhar que vê o que eu nunca veria. Um dia, em Salvador, fez 18 graus e naquela noite eu tinha um amor também pra esquecer. Sopra o vento a espalhar uma espécie de medo: é como se antes nunca tivesse existido solidão. Sopra o medo no vento: domínio de tudo aqui.
A chuva aborrece a cidade e molha os pés da gente. Paralisa e prende em casa. Uma casa sem boca sem olhos sem respiração. Embalada pelo adagieto da Sinfonia nº 5 de Mahler. Embalada por Plata Quemada negando o futebol que passa na TV. Um homem se afogando na banheira. O descontrole da emoção que quer mas não deixa... O rol das daninhas repetições.
Minha boca beija a chuva e sorve o vento. Minhas mãos escrevem sem pensar e dançam a valsa que me inscreve ainda na esfera dos vivos.
Tem uma epígrafe esta noite: " É só de mim que ando delirante/ Manhã tão forte que me anoiteceu". A janela bate forte, ah, queria assim a alegria, rir em intensidade. Cada dia em sua epifania de confusão. Tiro a roupa para ser possuído pelo frio, antes de dormir, tantos livros, escritos; arre, como tenho que ser o bom que só seria permitindo alumbramentos.
Nada de frio, nada de salvação. Finda uma quarta-feira de Iansã. A chuva branda, o banho morno, leituras obscuras para o amor que passou. Registro o imprevisto como improviso de uma música que não tocou. Jazz. Esperança aterrada também. Não sei por que o número 11 não me traz sorte.
Vastíssima sedução sem pista - escrevo aqui silêncio para trazer morte - que foi para adiante da felicidade que começava.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Cenas do amor

Bem depois. Uma musiquinha, um casaquinho, vinho, lágrimas, espera para fazer a solidão maior. Algum desvario - a procura no erro, a falta de lugar para amar -, vozes outras, lamentos. Arre, o tempo parou. Vaga vastíssima. Nana eletrolando o sentido. Tudo que muito dói. O corpo tremendo. A vida dançando. Pintura de água. Inspiração alcoólica. Deserto. Neve na Bahia. Fogo no Paraná. Sede tanta. Naufrágio em mim mesmo.
Cenas do amor num mergulho sem mar. A pedra faltando. A coragem cessando. O eu sem saber encontrar.

Bem antes. Tudo em silêncio, nada revelado, amor em mistério. Nada do tempo obrigando; nada do corpo ansiando. Nada em face do tudo que se guardava numa tessitura de amor e admiração.

O que nunca deveria ser era essa paixão.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Âmago da história

Eis o sol dentro de mim. Acordando fazeres e doces expectativas. Devolvendo flores reais  a vasos e jardins. O sol dentro de mim marulha. Cantam, ao longe, cantam vozes da nascente. Minhas roupas são brancas e meus olhos se veem nos olhos de um homem de pele preta. Carinho da ancestralidade e afago de um povo que sou eu. É manhã. Borboletas se apresentam e colibris me visitam e incitam lembranças do já. Cores, muitas cores a vibrar espera e realização. A vibrar beleza num todo que se faz dia... E à noite? A noite virá para, se possível, desalinhos esperados desde Aristóteles até ali: o âmago da minha história.

terça-feira, 3 de maio de 2011

"Eu faço versos como quem morre"

Desenho o mal dentro de mim. Apago o brilho triste dos olhos além para não ter o que e como buscar. Exponho-me ao poema rasgado em centelhas e preste a chorar. Eu, o incauto. Aludindo minhas ilusões. Quase chorando por dentro da chuva. Esse molhado da incômoda solidão. Esse livro rasgando-se e levando meus sonhos vãos. Doendo num ritual de luz a favor da morte. O poema ocupando um lugar na cama. A memória, como a cama, servindo de abrigo ao poema e a ausência que me molha mais ainda. Ah memória! Histórias que não sei contar.

Desenho o indizível que todos sabem e o mal mora dentro de mim. Tenho perguntas sem respostas e repito; repito muito. Repito mesmo. Eu quero como quis outrora e ao avesso. As flores do jardim na casa do vizinho morreram todas. Mas o que eu quero, quero pra mim com a dor da morte e os desalinhos da vida. Pra mim. Defronte e dentro. Sangue e perfume. Tempero. Temperamento e taras. Quero sim. Roupa íntima branca molhada. Um pouco de Carnaval. Leveza para enfrentar a dureza de um tempo sem igual, mas eu estou aqui - feito versos do poeta morrendo; a puta ardendo de querer; e prazer de uma escrita bendita num desenho do mal interno de mim.

Eu tenho sede. Tenho falta. Tenho ânsia, tenho fastio. Tenho asia de gente.Tenho febre. Tenho dente. Quero morder. Quero viver apesar deste mal. Desenho que ninguém vê mas crê como um sinal amaldiçoado em mim. Sinal sagrado. Fúria tridimensional. Escapulidas da sala. excesso de trabalho sem dinheiro. Eu sem ter. O telefone sem respostas. O dia no sol que traz chuva. A música do dizer. Nada traz. Tudo resiste a ficar ali. Corpos separados. A mágoa afirmando a separação.

Os versos de quem morre. Sem testamento. Um corpo iludido. Uma alma à procura. E escritos bailando sobre a cama. Lugar sem pertencer. Rastros do estrangeiro. Abandono. Calor. Vespeiro. Tudo dito contra si. Vazio imenso. Um acorde ao vento para devastar a cruel lembrança de um amor que não veio. E no peso disso: fé.

A divindade é assim.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Incongruências



Em dia de rabiscos e mitos desenhados em fotografias. Dia de plurais. O disco Tua - Maria na canção - me devolvendo esperança. Olho para trás Ana Cristina César que já esteve à frente. O mundo é um moinho. Hilst sorvetando meus instantes em nascentes da infância, curando feridas e eu querendo o impossível carinho... Esse dia numa canção de Renato Russo. Além de todos os outros, o medo da morte. Por que ? A vida assusta mais. E é preciso viver. Billie chega para definir o tom do que me leva a escrever. Vejo os ensinamentos realistas de Herta Müller - a pobreza é universal. Sentado em meu próprio cansaço que só enxerga distância. Nada de alvorecer. Um rosto de sintaxe transcendental: lindo de tanta tristeza. Ana C. Me apego ao vulto do modelo que não sei. Escrevo incongruência. É sombra e entrelinhas. Clarice sentencia o que deveria mas não sei. Rabisco um corpo masculino, um sorriso feminino, e um carro na contramão. O mundo adulto é um saco e eu só sobrevivo por fantasia. Brincadeirinha na rota do ser. Filosofia praiana num balneário qualquer. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Eu lhe diria poesias sem muito a fazer. O tempo parou. A noite virou dia. E é preciso viver. Bate outra vez com esperanças o meu coração. Há muito não há verão e nada tem sabido começar. Ouço meus atrevimentos. E bebo-me ao som hipócrita do mundo. Vejo florestas que foram exterminadas. E crianças libertadas das drogas, do abandono, da fome. Não tenho esperança.

Rabisco "O mundo precisa de poesia" e destempero a arrogância dos inertes. Rabisco o colorido da voz de Luiz Melodia e sonho com antigos carnavais. A coruja virou peixe. E ela dança. Caio Fernando canta os escritos de Virginia Woolf. Os clássicos já não são. Os brutos não perdoam.

Revejo A teus pés a foto dela na escrita dele. Caminho no barulho violento da minha cidade. Quero silêncio. Abaixo o tormento. Não sei trabalhar. O que seria ontem me espreita amanhã. Hoje é vazio e rabiscos que batem e rebatem o meu coração.

Eu peço silêncio e deixem Maria Bethânia criar.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O amor

Eu quero dizer redondeza... E calar qualquer outra palavra que não seja redondeza. Em várias entonações e eu fluindo rio abaixo, correnteza acima; ventando carinho e investigando redondeza. Aonde moram os outros? Qual a cor daqueles olhos castanhos? E o espasmo entre as ruelas são naturais? Não - estou pacífico demais e nenhum lugar me habitará. Sou-me escravo dos desejos encontrados na redondeza que, concretamente, não existe.
Mas ele. Mora lá. Eu o vejo caminhando no sentido da construção que postula aquele lugar. Mora em todas as travessas, ruas, avenidas, casas, relentos, calçadas, marquises... Mora também, o seu tormento. Mas, onde mora melhor é em mim...
Minha luz vive acesa para tentar a mais vil das seduções. Mas qualquer encontro é puro carinho. Vai até a deixa dos melhores poetas e nós, juntos, dançamos esse exercício sem clareza: uma quase arte refletindo seus olhos que calam nossas bocas. Girando girando girando. Pairando pairando pairando. Entre nós, a confusa necessidade de muita gente. Girando girando girando. A redondeza também traz amigos. Nos vestimos de preto para a moderna forma de ser. Não tenho casa. E minha luz vem do sol. Meu mundo é de mar. Meu tempo é desespero. Anda recortando e relembrando todas as redondezas onde estive. Sangro como o mais dramático; me salvo como o mais pragmático; respiro nesssa tentiva de tê-lo através da escrita. Poesia? Nele a certeira poesia e eu sou menor.
O que contarei para alimentá-lo no quadrante de mim? Para viabilizá-lo entre as florestas do meu sonho. Isso que tenho de maior desejo. Não sou daí mas o busco aí e meu semblante amadurece sem companhia.
Naquela rua da concreta poesia que desafia a imaginação, subverte a proteção, esvai composições de vida; tudo numa pergunta indevida: em que redondeza eu ei de encontrá-lo? Girando girando girando. Motores na falta de silêncio, asas em sua configuração... Nascentes da infância. Mora, também, felicidade ali. Muito conflito. Pairando pairando pairando. Ele morando em mim. Meus erros de português e meu charme raro vernacular. Buscando cama e sentido num espaço que dentro em breve, para mim, não mais existirá.