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terça-feira, 10 de abril de 2012

Eu disse tanto, amei tanto, exagerei

Foi porque eu disse tanto, amei tanto, exagerei. Talvez alinhasse minha ãnsia com a sua decisão se eu fosse o que nunca seria... Falasse menos e faltasse mais. O tempo está desértico e todos cada vez mais perversos e a dor , deveras, sem explicação. Tenho aleluias e um conjunto de palavras em inglês: It's up to you e eu boiando na beira do abismo. Faltam-me delicadeza e certezas de que alguma coisa tem. Rabisco o que vivo em maior silêncio e pressinto o fim, de verdade, da fundura que plantei em mim e chamam amor. Toda cor é rubra. Não tenho estoques de palavras que me expressem mais livre e mais serenado. O absoluto me economiza e daí, evito buscas infindas antes... Disse tanto, amei tanto, exagerei.

No mais, não sei se me borro de sangue ou especulo lamentos ou espero amanhcer ou ligo ou grito ou mato de vez ou transformo em nada subo a escada calo o pensamento ou insisto nesta deflagração que sempre faço só em palavras. O corpo já foi.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Acontece

Ela disse:
- Ouço vozes.
Ele respondeu:
-Acontece.
Ela exasperou-se:
-Mas é sempre.
Calmo, ele falou:
-Acontece.
Ela odiosamente:
-Ouço vozes e estou ficando maluca.
Ele:
- Acontece, existem remédios, tratamentos, terapia...
Ela:
-Ouço vozes, sou maluca, sofro muito, sou sozinha e te amo...
Ele interrogativamente:
-Como?
Ela:
- Eu sou maluca e te amo.
Ele:
- Como? Você é maluca porque me ama? Se cure disso então.
Ela:
- Ouço vozes do além porque daqui sua indiferança se fez o silêncio que me enlouqueceu...
Ele:
- Sabia que sobraria pra mim...
Ela:
- Não mais; agora desligo-me do além e desse erro que foi você pra mim.
Ele:
- Acontece, né? Até, então...
Ela:
-Adeus.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ex possível (II)

"Vai me ver com outros olhos
Ou com os olhos dos outros?"

Ela olhou assim:

Meu lugar era ali por detrás desta dor de agora. Era mais que fantasia ou misericórdia: era eu existo. Percorria luminosa esse cotidiano de peso e inabilidades. Tinha a sofisticação dos sonhadores. Eu me via na frente do espelho. Minha imagem sorria para o que melhor em mim pululuva: esperança. Acreditava em santas, em gnomos, em paisagens. O verde me secava as lágrimas; o verde me levava às lágrimas. Uma flor no cabelo, muitas outras arranjadas num vaso, o corpo perfumando a alma. Tocava minhas estrelas imaginadas, inventava canções e escrevia bilhetes; adorava escrevê-los a um nome de homem amado. Catava pedras à beira do rio. Encenava meu casamento, filhos chegando, poesia esparramando-se por sobre o meu silêncio. Toda minha força vinha deste silêncio que me alojava no centro das pessoas misteriosas. O mundo era possível e eu acreditava.

 Ela falou assim:

O que vejo é nada. Viver é nada quando olho-me ao espelho. As flores apodrecem, as pessoas morrem e ninguém me ama. Isolo-me dos que sorriem  dementes. Incomodo-me com os silenciosos. Brado e brigo e amo o negro do meu vestido que me leva aos bares. Tudo que desenhei é o lugar do meu ex possível. Sou a aparência de uma personagem literária que morreu atropelada. Eu sou mais uma mulher atropelada pela vida. Eu sou essa vaga com a boca pintada frente ao espelho esperando fevereiro.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Ao toque

No delicado, só podia assim...
Arrumou-se ao espelho e zarpou para o lado alheio. Viu-se na ânsia inteira e queria tocar. Não só com as mãos e sim, com  tudo que fosse corpo e também alma. Pretendia o destino. O espelho não mais prometia.Queria tocar, sem medo sem ressalvas, tocar a parte quente e viscosa da coisa e senti-la.
O mundo sempre lhe fora vibração mas as sensações, metade. Tocar era luxo: era acarinhar o carinho, entender a flor, promover amor, imaginar.
Tocar era mais forte que ser tocada; o exercício mais vibrante do delicado da vida. Sentido solar no algo que não pupulava - mera denúncia.
Ex-estática à procura do toque. Caminho a favor do vento. Intranquilidade promotora. Olhos nos olhos do quase. Coragem. Subida das sensações.
À sua frente: a coisa, entre alegria e rigidez, despudoradamente entregue a qualquer toque.

domingo, 12 de junho de 2011

A desistente

Sempre que amanhecia, ela se vestia de espera. Aquela espera silenciada na alma, que gera olhares à caça, que exercita, sem esforços, o corpo. Sem maiores ardores ou sonhos: ela era aquela espera.
Singrar dias, vencer as noites; o sol lhe trazia a alegria da pronta recepção e lhe invadia com promessas que só ela sabia entender. Uma quase sacerdotisa das luzes, que esperava tanto...

Até que um dia, manhã reluzente, com a camisola mais velha, mais discreta que antes, olhou pro espelho: basta! Se desapegou de tudo, não lembrou dos parcos familiares; de lá, do quarto mais escuro imitando a noite, envenenou-se com o intuito de fazer a primeira e derradeira viagem.

domingo, 29 de maio de 2011

Sem respostas

Esteve ali. Implícita trajetória de quem busca o amor. A pedir a rogar a clamar no seguimento da estrada, velando cantando assistindo ao próprio abandono. Ali entre cortes e cores, sem nome noutro endereço, desfiando tormentos no pensamento e os olhos, numa insistência clínica, sem querer chorar.
Homem não pode mas ele podia. Isso de seguir sem companhia e aguardar no infinito. Achar-se dono do tempo, notar-se eterno pela força daquela procura. Ele vinha  e se entregava ao barulho da auto-estrada, aos seus perigos e velocidade, a ideia do rápido e do efêmero concluindo seu destino. Ávido de dor e esperança, apesar de consorte da solidão. Ainda ria; humanamente ria em sua impossibilidade de chorar. Ria imaginando encontrá-la um dia disposta a aceitar. Sua rude procura, quase inepta, traduzia sua rude e reles postura ao ofertar aquele amor. Há anos não a via e ia para perto do mar; longe das agruras do sertão e do dessentido de viver todo assim: morrendo de falta.
Cada dia ele mais longe de si mesmo. Sem notar o seu desespero estava a cada dia mais perto do mar, e indo nessa afirmativa: o mar. Nadava de ilusão sobre o muito quente dos asfaltos, era verão no Nordeste do Brasil... Ele se fez todo seca por isso achava que o amor, que ela, perversa, só poderia querer viver em lugar de muitas águas.
E se ia, noite e dia, sem se exasperar. Convicto que sua sina era essa busca, que sua alma era esse caminho da bruta aridez à mercê de encontrar horinhas felizes com aquela que escolheu o mar para morar.
Ele não sabia, mas como nunca antes, iria se desencontrar.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ao alcance e tão distante


Bem ali - ao alcance e tão distante - o mundo sem. Treze perguntas, sendo a última sobre amor, para atiçar a sorte. Ali - os sonhos se encaixando , assustadoramente, da forma mais correta. Tantas noções de uma realidade dura, de uma realidade linda. Esse instante do (im) possível lançado para amanhã. O dizer que se calou. Medo do provável. A palavra tocando imprópria a audição que nos olha para a admiração que deveria ser desejo.

sábado, 16 de abril de 2011

Da paixão


Porque não estava escrito em lugar nenhum, ninguém acreditava e nem ao menos supunham; era a zebra dos domingos na TV, era o aceno do mendigo debaixo da janela pedindo pão, era a mulher sem útero querendo engravidar, era o corpo morto tentando respirar mas... Ali existia. Do jeito que se queria - existia. Vidas entremeando desejo receio paciência em nome do mistério que trazia amor. A violência era o tempero do tempo desacelerando. O encontro cheirava a rosas amarelas e tinha tonalidades de cinza na espacialidade discreta que abrigou dois corpos vertendo líquidos e excertos literários, poemas de Hilst Rimbaud Pessoa.
Eram dois olhos se comunicando. O resto era volúpia. A boca recepcionando a vida que em outros dias custou demorou acontecer.
E um, abraçando as costas do outro, falava, ao ouvido, letras de canções indecentes para piorar a inexistência de pudor entre os dois... O mundo fervia e produzia cenas que alimentam a ideia do melhor viver: gozo.
Nunca antes escrito ou dito entre humanos.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O célere

Ele disse:
- Eu quero chegar. Me liga?!
Foi ótimo pra nós dois.

sábado, 15 de janeiro de 2011

do prazer ali

Foi bem devagar. E eu estava com preguiça. Preguiça de tocar, de sentir, até de respirar. A vida só é vida se se movimenta de alguma maneira. E eu era pura letargia. Mas o devagar daquilo era fogo em poesia e me fazia melhorar. E isso era acreditar em caminhos. Me ver no sentido das possibilidades. Querer, o simples ato de querer me impelia a muitos movimentos. Eu frente aquilo me chamando para o fogo e que eu me houvesse em abandonos e coragem para possuir tudo. Bem devagar com mais tempo e qualidade. De dentro pra fora, de fora pra dentro: tudo.
Seria só animal se aquilo não fosse devagar me revelando ao prazer de existir.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Para não desaquecer

... Era dele a chance do reencontro. Dela, o perfume esvaído da última rosa recebida e amassada, de romance e adeus, entre páginas de um livro. Ele tinha passado, em absoluto silêncio, pelo cotidiano idealizado em frente à casa. Ela se instruía de esquecimentos. Ele ouvia Legião Urbana. Ela entre Nana Caymmi, Lou Reed, Billie Holiday, Maria Callas, Elis Regina e Sebastian Bach, se cansava da existência. Mas persistia estudando e trabalhando e tendo a alegria como inimiga. Ele sorria com os amigos, jogava bola, estudava o suficiente, beijava outras, trabalhava para cinema e cervejinhas, vívido no masculino, parecia feliz mas, não esquecia.
O tempo foi fustigando ambos, desenhando o improvável desencontro que, no fundo, nenhum deles queria. O tempo acelerando para que definitivo fosse mesmo o adeus; fossem tórridas lembranças de um amor mais que possível desacontecendo; fossem cartas e fotografias queimadas, discos quebrados, pragas desmedidas, promessas de vingança; pelúcias sobre camas e peças íntimas nas gavetas; cheiro de amor incomodando. Vinho para ela. Cerveja para ele. O óbvio instalando-se.
Outras histórias a distância. Ela meio entregue a uma namorada e ele, se indo, a trabalho, para um país distante tentando a tal felicidade que nunca mais sentiu por dentro.