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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Árvore da sede



São muitas as minhas sedes e nem as sei procurar. Tenho deixado a vida seguir, a correr feito água abrindo caminhos por mim. Cada relato é luz acesa e voz centelha me apontando como fluir. Estou sob o domínio alheio dos olhos outros à fresta de uma árvore, obtendo a coragem para dizer sim.

Nunca soube ter razão e é o quase o que mais me comove. Ouço música para estar aqui. E filmes vejo para me abandonar; a leitura é a grande emoção do sexo na alma como se na cama. Tenho visto coisas demais e abominado as notícias. Quero a calma dos sábios na brisa dos dias dos desapegados. O amor me tortura. Mas o que mais quero é amor. O silêncio é a escola mais eficaz. Tenho como passatempo, pássaros à luz da minha imaginação. Reinvento com a voz na cena alhures, pulando as dificuldades.

Digo absoluto para ser altivamente abstrato. Vivo desse construto que fala demais, é palavrório demais e nada sabe. Minhas repetições são inovações na tela da TV. Estou fora deste tempo para menos e para mais. Retrato-me na pele alva da música, tatuagem no braço do rapaz.

Digo: aproxima-te! Tenho o verde dos mares, o branco das nuvens ar e a camisa clara no azul de dentro de mim; tenho perguntas também, mas a boca calada à espera do beijo que você tem que dar. Tenho a delicadeza exata das mãos gerando prazer.

Aquele som me fascina. É o centro do seu segredo. Sombra e luz: batuque guiando sentido ao coração. Página alusiva às festas nas florestas quando suas mãos em fome. O som que me fascina no deserto instante que nos encontramos sem saber – e é você me tornando música pura.

Nós jogados nas águas ferventes desta sede.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Meta existência


 

Para Maria Prado de Oliveira

Porque me pergunto dentro do texto sumidouro, ancorado no pretexto de ter que negar quem eu sou. Alavanco essa falta de ciência para ter como chegar às 22:30h. Horário sem novela, sem conversa, sem amor.

Às 22:30 o mundo dorme para acordar o melhor de mim. Descrevo a dor de não saber fazer silêncio. Penso nas fotografias que emolduram a minha casa cafona, tão minha como nunca fui de mim mesmo. Corro, nessa horinha, à janela semiaberta para vir o que não deixei ir e marulham canções, ventam emoções; esvaio-me nas brochuras que serão eu – o texto.

Lacunas – nunca soube juntar direito. Nem palavras, nem sonhos, nem gestos, nem pessoas... Minha alma que se relata torna-se uma espécie de espelho: que outra imagem se verá em mim?

Partilho-me em palavras feito sangue que contamina. Quero a delicadeza. Quero a beleza que macula e faz pensar. Quero o instante que dá fome. Quero o abrupto que faz criar. Quero navalhar o estar da minha cidade e fazer do seu povo, pássaro da agressividade.

Não pergunto sobre o continuar, porque não investigo a morte. O tempo é este. E só sei do agora. Só sei do que me abriga e obriga a escrevinhar as entrelinhas do que mais sou. Retrato-me em cores escolhidas arduamente por mim. Retrato-me aludido à Frida. Justaposto ao menino bandido drogado no Largo em que habito.

Separo-me das sutilezas para ter-me no texto claro que tento ser, mesmo sem saber quem ou o que eu sou. Escrevo. Contamino. Viro espelho de ninguém e mesmo sozinho sei: multidões me acompanham.

Fecho-me em traços desta prosa rancorosa, mas aspirante. Um dia, se futuro houver, a poesia tomará conta deste meu rosto criado aqui.

Então – eu serei silêncio sem precisar saber de mim.

 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Do sorriso


Quando ele se junta ao brilho dos olhos, um espetáculo humano se anuncia. Ele cruza a dureza dos dias se fazendo a paisagem mais desejada. Triunfo nas histórias de amor; fogo alto abrasando as paixões correspondidas.

Ele escreve o passar dos anos simbolizando, com a leveza, a vida. Seu toque é o fulminante que não fulmina. Acorda para o prazer e para a vertiginosa vontade de abraçar quem dele se lança.

Uma pintura traduzida em manhãs ensolaradas, e com brisa, em  noites aquecidas por vinho música poesia: encontro de dentes.

Quanto frescor traz faz o sorriso. Ainda mais se misterioso e profundo, se límpido e inocente, se generoso e sensível... Carnaval que vai ao blue da existência, acelerando as ondas do mar. Ele age sem sofreguidão, mas é lânguido também. Ponte - o sorriso é a ponte que aproxima, aglutina, mistura, conflita, mas sempre salva. É amizade.

Aquela batida fazendo o corpo mexer. A torcida para que tudo dê certo. Aquele silêncio que ensina sem didáticas; a sensação do contido que se externa mas não barulha.

O sorriso é uma espécie de dança, com movimentos serenos, coreografia rara irreprodutível, instante fotográfico, dizer magnífico na ausência de palavras.

Amor sendo. Em todas as possibilidades relacionais. Desconserto e, às vezes, agressão. Melhoramento onírico, arquiteturas do sexo.

Solidamente aquático, dos olhos à boca: o sorriso é a tentação da qual ninguém escapa.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Só o que é

Se muito olhar para trás verei o quanto da minha loucura naquilo que se desfez. Ainda assim doendo, agradecerei. Inclinado a olhar para frente sem contar com amanhãs, nem com a ideia de tempo restante; seguir é o que está certo. Se me pergunto só o presente responde; se  me preocupo, só hoje é que me vale.
Sinto as agruras do agora e aí, sinto prazer também. Agora. Tudo que eu amo nunca teve fim e vive comigo no fundo do silêncio que não sei fazer. Tudo que eu amo comunga intenso com todos os instantes desse exato momento e se me revelam para que eu possa entender.

Tudo que eu amo é. E vibra pela ânsia dos meus olhos, o desajuste do meu toque, a excessiva confusão. Confusão amorosa. Dependuro a espera na beirada da janela para ser inteiramente hoje, agora, já. O que passou ou vai passar não é. E o que eu sou é puro amor amando. Já. Puro amor olhando a vida numa dança para a vida sem sonhos ou idealizações. Quando for ontem eu não serei mais. E amanhã, já estarei esquecido.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

tomo conta


tomo conta por um carinho sem fim; poesia música voz. tomo conta para guardar o melhor do meu país em mim. água que banha alma e fertiliza o chão das minhas caminhadas. as asas que me dá e voo para o lugar que transforma a minha recepção do que nasce nela. tomo conta para fazer tudo durar à lareira tropical daquela arte. tomo conta para ela esparramar poemas e literaturas e os símbolos nisso refrescar sentido na vida dos sensíveis.
tomo conta simplesmente por tomar e me banhar naquela força em dizer que a beleza existe. E o amor também.
tomo conta para pintá-la de palavras, sua essência mais profunda, e em dias sem graça como esse, ouvir Tua e me reelaborar na esperança que, ela sereias areias mares silêncio , me pulsiona a viajar nos mistérios de mim.

Ao alcance e tão distante


Bem ali - ao alcance e tão distante - o mundo sem. Treze perguntas, sendo a última sobre amor, para atiçar a sorte. Ali - os sonhos se encaixando , assustadoramente, da forma mais correta. Tantas noções de uma realidade dura, de uma realidade linda. Esse instante do (im) possível lançado para amanhã. O dizer que se calou. Medo do provável. A palavra tocando imprópria a audição que nos olha para a admiração que deveria ser desejo.