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domingo, 4 de setembro de 2011

Iemanjá: minha reverência via Tiganá Santana


Iyá Ogunté:
O lugar da mãe guerreira
“A Dona do mundo faz do alcance o seu dizer
Ter água no corpo é merecer”
Tiganá Santana

Iemanjá é a senhora das águas do mundo. Abrigo e gerência de tudo que é vivo, sentido profundo das fragrâncias do feminino no que salta aos olhos e, também, no intraduzível. É a mãe belicosa que arrebenta as marés, debate-se em rochas, empunha o alfanje, socorre e mata, em nome do amor que a orienta. Energia aquática soberana de peixes e sereias, reflexo das donzelas querendo amar nas areias, símbolo da mulher-mãe que comanda seu lar.
Iemanjá é o mito que transborda a essência das águas, desperta a vida, cuida sem parar do infante humano em sua caminhada de abandonos. Ela habita as algas, transmuta-se em polvo, arraia, golfinho; às vezes, é a poderosa baleia; outras, sereia; do mar, no íntimo da água salgada, ela zela poeticamente pela existência potável do que mata a sede e dá vida ao que pode viver no território terrestre.
Ela é a dança do sossego. E a fúria intempestiva dos mares. Espalha oxigênio pelo mundo segurando as cabeças que compõem a humanidade. Qualidades da mulher que adolesce e da que envelhece em contrapartida. Equilíbrio entre beleza e segurança, ela toma conta de tudo que lhe afeta e se ilumina na força que a traduz: os elementos aquáticos.
Escorre dela também doçura.  Seus movimentos são lentos e oportunos, ela sabe chegar em sua majestade e marcar sua presença na luminosidade dos seus símbolos. Forte como a pedra do absoluto, translúcida e aderente como suas águas, delírio de pescador, uma senhora do cotidiano e quando mais perigo, ela é o mistério difuso que amedronta e afasta como os oceanos longínquos.
O negro feminino que pariu a Terra nascida da grandeza dos mares.  Iemanjá é puro encanto. O que se desliza e atinge; alcance e representação da esperança. Sua energia ocupa qualquer lugar e ela imprime proteção na alma de quem a entende. É quem aglutina gente e desintegra os desertos. Mulher que se abastece nos vestígios de fé que perfumam e enfeitam sua casa e se enfurece com o dessentido da poluição.
Iemanjá baixa nos terreiros no frescor da generosidade e da vaidade que a definem. Destacado alicerce da fé do povo do candomblé e musa sagrada inconteste das ressignificações que deram à sua personalidade divina. Ela é a dona do mundo.
Uma canção divina que nos embala para cuidar-nos. Segredos dos pescadores – Odô Iyá – frente a rios e mares, o pratear do xaréu nas manhãs baianas que alimentam a vida. Mulher de partilhas e abrigo no ventre. O feminino se ordenando – o comando político certeiro para que haja coexistência. A mulher ninando a cria com a mão de poesia na cabeça dos filhos sonhando. A mulher banhando cada sorte, cada caminho.
Iyá Ogunté nesses atalhos do Brasil. Deusa iorubana incrustada no Rio Ogum – avalanche de águas doces e salgadas nessa esfera mítica do humano viver. Deusa negra e original da afro-brasilidade. Seios fartos de leite e procura, divindade condutora da saúde dos pensamentos.
Iemanjá – serena representação no bairro do Rio Vermelho. Aquela mãe de todos nós que inspirou o poeta: “ter água no corpo é merecer”. Erú Iyá.
P.S. - Iyá de mim, Senhora que me ocupa, Mãe da minha proteção, Guardiã dos meus mistérios mais profundos, Dona das minhas sentenças, Voz maior na minha audição, Luminosidade na minha vida, Fonte inspiradora dos meus escritos, Baluarte que me conduz, Insígnia do meu princípio, Alfange que corta a favor de mim, Água que me purifica, Beleza que me anima, Útero que me dá paz, Nome que dobra em meu nome, Encanto das minhas certezas, Âmago da minha fé - Motriz absoluto da minha existência que é nada sem a energia aquática da Sua Presença.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Com a ajuda do mistério


Do não secreto. Do invisível que a pele vê. Sente. Daqueles caminhos desconhecidos mas azuis. Da verdade alta do amor dito sem culpa, sem medo. Do invasivo sentimento que lhe  rouba a paz mas lhe faz sentir vivo. Dos repetidos mais gostosos de ouvir dizer fazer. Da força da paixão que lhe arranca do sono para lhe colocar em sonhos acordados, às vezes. Noutras, o pesadelo da falta. O azul é assim: uma linda cor vida cobrindo sua cabeça, lhe dando imensidão, espaço desmedido, beleza, sofreguidão, tristeza, sofrimento.
Deste não secreto de fazer tudo girar e instaurar a mudança: é assim também. Muda como força a favor do destino. Pode ter carinho. Desenho de giz na calçada. Dizeres em camisas. Um rosa marcando um livro, uma página, o poema. Pode ter lágrimas e beijo na boca. Dança de criança, olhos nus. Corpos nus se entregando. Pode ter não. E nada mais a escrever. E se ter sim. Mais colibris, jardins, músicas, roupa nova, cabelos cortados, tardes febris e ensaios fotográficos com vista para o mar.
O não secreto do humano ávido por amar e ter do sexo, para além do prazer, a geografia do secreto que o outro nos permite intuir.
Azul é um pouco mistério. Delicada expressão que define alguém que está vivo. Entre o céu e o mar navegando esperanças. Nave soberana. Azul celeste e todos mais, o que se bebe no tinto do vinho e se celebra caminhos e talvez, quem saberá?, (re)nasçam (re) encontros.
Do não secreto pode vir deliciosas mudanças. E o mistério deve ajudar.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Ousadia

Deslizando, sem avisos ou cuidados, sobre meus desejos.
Eu sei dos tombos. Mas só o risco me salvará.
E deslizo segurando um poema na mão.
Entrego-nos ao Tempo e sigo sem tremedeira.
A clareira trará o beijo, o disco, o livro
E alívio ao meu coração sagrando.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Saluba


Senhora dos lamaçais geradora da vida
Autoridade misteriosa da morte
Dona dos meus caminhos atuais
Eu te saúdo Oh, Mãe!
E te agradeço da alma
Por esse ano de 2010.
Toma-me em sua graça
E me acompanha o Destino,
Cuida de todos nós no Tumbenci
E encha Tua flha maior de luz e sabedoria
De saúde, de alegria e bem viver.
Oh! Saluba - Nanã Jaoci -
Obrigado, Rainha!
Que em 2011 Prosperidade
Nos chegue também.
Axé.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Maria Bethânia: tesouro e luz


Eu te diria sobre outros países e escreveria sobre as nascentes que brotam do fruto de tua existência artística. Diria louvando a língua portuguesa preservada no teu canto, cuidada em tua fala. Te diria que amo teu silêncio mas é o teu canto que me ilumina; teu personagem dramático que cada vez mais serena sem deixar de ser o que o teu ser nos quer mostrar. Vejo tua dança sobre estrelas e busco avidamente cada palavra que pode elevar o meu cotidiano me lançando a sensações e artes e quando insisto, só desisto se não controlo em ti. Tua luz é a qualidade almejada e projeto mil tentativas de voar feito águia, de ser livre, ter excelência... Acordar e fazer meu trabalho com o prazer que estampas dos teus discos e sorrisos, experimentando a realização exitosa de quem ama o que faz e se expressa ao mundo assim: inteiro, certeiro, inquieto, veloz, sereno, inventivo... Pronto para a guerra e para paz de quem traz encantamentos para os outros. Tu és, no fundo, escritos de um tempo que eu leio e preservo como a um tesouro. Tu és tesouro e luz nas minhas incertezas.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Fora das regras


Acendi a vela sob o sopro do vento

Que a apagou...

Nada houve de inusitado em minha

Intenção mas,

A vida sempre me jogou para

Fora das regras,

Me retirou das formas para

Eu ser um selvagem conteúdo

Motriz da minha própria iluminação.