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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Maria Bethânia, o sublime em continuação

( Foto de Daniel Menezes)
Ontem,  no Teatro Castro Alves, às 20 h., Salvador assistiu a sua grande estrela cantando o seu compositor favorito, Chico Buarque, especialmente para sua mãe, D. Canô, quase 105 anos, na plateia tietando a filha. Uma noite que assinala o canto de Maria Bethânia como um dos mais bonitos do mundo contemporâneo. Uma noite que a tornou tão nossa pela intensidade amorosa do público que lotou a Sala Principal para assistir a poesia inteira que é a presença desta artista em cima de um palco.
As vestes brancas combinando com a serenidade, a doçura esvaindo-se da tranquilidade dos gestos, o domínio musical, a beleza de diva, a pronúncia autoral, o vigor artístico, a banda como moldura e ela bailando ao som da sua própria e rara voz. Um presente para qualquer espectador em qualquer lugar do mundo. E como é universal essa baiana!
O repertório irretocável localizando a genialidade de Chico Buarque, e mais que tudo, fazendo a gente arder na ideia de amor que as letras trazem.
Cada cena, cada execução, e eu entre o orgulho e o fascínio, me perguntando por que é assim, meu Deus? A síntese dela, como profissional e artista, é a qualidade. Como se faz para além do "bonita" e ali, no auge da nossa emoção, nos mergulha na sensação de eternidade. Linda!
Isso de melhor intérprete é verdade. Como também é verdade o título de melhor cantora das composições de Chico Buarque. Melhor cantora das audições que  recebem noções culturais deste país. Melhor cantora na voz que ocupa o espaço  e nos atinge como se um deus nos tomando. A mais importante cantora num país que tem Gal Costa  e  Nana Caymmi.
O show me pareceu uma espécie de sonho: eu vi, entre estrelas, o formato de sempre me impulsionando a sentir, a experenciar Maria Bethânia como o sublime em continuação. Aprendo e amo a assertiva de que nela, daquele jeito, o "velho" é uma engenhosa ( deliciosa) novidade.



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Bethânia e o poeta Buarque


São muitas as razões para se considerar Maria Bethânia como a mais representativa intérprete de Chico Buarque. A principal, sua paixão pela obra do compositor carioca somada à compreensão estética da cantora baiana sob...re as canções buarquianas. O projeto Circuito Cultural Banco do Brasil levou a seis cidades brasileiras a voz de Bethânia cantando e recitando Chico Buarque. Com a curadoria artística de Monique Gardenberg, Maria Bethânia iluminou plateias ecoando a lítero-musicalidade de um dos artistas mais adorados do Brasil.

Salvador, cumprindo seu desgaste e rebaixamento nas esferas da cultura brasileira, infelizmente, ficou de fora. Para não perder a possibilidade de ver e ouvir a estupenda Bethânia neste espetáculo, fui à cidade de Olinda, no enorme Teatro Guararapes, conferir a entrega da cantora ao repertório do seu compositor favorito. Exemplar como sempre. Dona da cena em récitas musicais e em trechos de letras de Chico. Doce como Oxum em Valsinha, aguerrida, linda e feroz, em Baioque, como Iansã. O público pernambucano a recebeu em polvorosa; gritos e aplausos intermináveis confirmaram o êxito do projeto comandado por Gardenberg, que nesta edição contou, em outras apresentações, com os artistas Lulu Santos, cantando Roberto Carlos, e Sandy cantando Michael Jackson.

 Infernal é a palavra na boca de Bethânia. Sua voz, no palco, se abre como um livro a oferecer poesia ou qualquer outro prazer literário; ainda tem o som; tem o cenário expandindo sua coreografia e a banda competente a emoldurar um dos cantos mais bonitos no mundo contemporâneo. Ela cantou Chico não somente como um compositor, translucidamente, neste espetáculo, ela ratifica o seu “Buarque” como sujeito da sua inspiração e desfia as canções mais batidas e já tão conhecidas com a paixão que as transforma em novidade.

Os pés descalços, figurino alvo, voz no ápice e, imageticamente, alicerçada na Bahia efervescente e inigualável, a qual ela é uma das mais poderosas representantes. E abre para o Carnaval para quem possa e mereça lhe acompanhar.

 Maria Bethânia é, mais que artista, uma obra de arte.

Publicado hoje (03), na página A3 do jornal A Tarde.