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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Aila Menezes: um leque aberto para a vida




Ela, de fato, ainda é uma menina. Um amálgama de sentidos que nos convida a prestar atenção nela. Doce e aguerrida. Principiante e experiente. Decidida e assustada. Mas, no somatório de tudo, ela ratifica-se: é talentosa.

Aila Menezes, 25 anos, nasceu em Salvador da Bahia, temperada por uma mistura étnica que não a afastou da negritude que impera nesta cidade. Neta do patrimônio cultural baiano, o palhaço Pinduca, a menina (a quero assim) nasceu para singrar palcos e rodopiar possibilidades artísticas, numa capacidade ímpar, só vista em nomes como Daniela Mercury, Madonna, Carmem Miranda (citando as mais representativas), de juntar a dança ao canto, pousando, por vezes, na dramaturgia como pede o seu destino de cantriz.

Sua expressão artística agrega-se à abertura do leque: novelo de feminilidade, norte de iyabás, diversidade comunicativa; o leque é a marca registrada da menina que sabe cantar, dançar, representar, falar, convencer, atrair e nos representar.

Nada nela é inovador se um olhar diacrônico escrever sua história: os gestos lembram às vezes Daniela, outras Márcia Freire, algumas vezes Madonna; reverencia, no canto, as maiores cantoras brasileiras como Carmem Miranda, Emilinha Borba, Elis Regina, Clara Nunes, Alcione, Gal Costa e, claro, Maria Bethânia.

Algumas estridências são cometidas, quando à sua maneira, ela se esquece do ser cantora e vira animadora de trio, outra grande possibilidade sua no cenário cultural baiano.

Mas ela pode mais. Pode durar como artista se amansar a voz, ajustando-a à beleza que lhe é, à doçura que convida, e ao timbre claro alcançado por vozes límpidas como a de Ivete Sangalo, mesmo que por vezes desperdiçado.

Aila tem uma grande torcida e um vigor enorme para Pop Star: doa em quem doer, é mais talentosa que Cláudia Leitte e pode servir como produto-novidade para as políticas de reabastecimento da nossa indústria cultural. Para mim, este fato seria um crime contra as possibilidades artísticas para quem nasceu e foi educada e incentivada, familiarmente, para ser artista.

Uma delícia ver Aila no palco: ora brincando ora sendo aquilo que já é. Suas escolhas políticas a fizeram, como La Mercury, a levantar bandeiras a favor das diversidades, ao direito do amor livre e independente de marcas sexuais; uma postura avançada para quem, de verdade, tem a identidade sexual circunscrita no que chamaríamos de heterossexualidade. A menina enlouquece os gays pelo país afora.

Aila Menezes é baixinha, cheinha do tipo Madonna anos 80; desliza como tem que ser; promove estridências desnecessárias ( algumas de suas mestras não saem do trio); está assustada com o cenário de fama que se aproxima; posta nos redemoinhos das opiniões – ela só será se se guiar pela força do talento para o palco e, assim, ouvir a própria intuição e a voz das pessoas que a amam antes dela ser Aila Menezes aqui ou acolá.


Marlon Marcos é antropólogo e jornalista ( DRT- BA 2235)

domingo, 28 de julho de 2013

Nana Caymmi para a audição do mundo


Um deslumbramento Nana Caymmi. Aquela certeza dela de fazer tudo tão intenso e com a musicalidade impecável que aprendeu em casa. Aquele jeito da liberdade e de frente ao mundo: "eu digo mesmo".

O canto sem medo de diva não serenada, amada, marcada por suas histórias que se tornaram nossas histórias também; tudo pelas imagens de amor e paixão, de desenlace, de súplica, que ela traz na voz diamante.

O repertório intrigante, alusivo à dor, mas tão prazeroso, tão prazeroso, que se pode dizer: ouvir esta MPB é sofrer na alegria do êxito das canções. A presença de Nana é obrigatória para cenas musicais menos 'bundonas" e falsamente convencionais; ela incide no óbvio ( beber pra arrefecer ou argumentar) para combater o óbvio medo de amar. É de fogo, em vermelho, sangra, e espalha paixão.

Também é água, salgada, marítima...Venta como a divindade das tempestades e se assenta, umas vezes, no pior da gente, noutras, no melhor que se melhora...Assombro que é nosso, tão brasileiro, que se não houvesse a excelência de Maria Bethânia, eu não ouviria, por anos, mais nada, nem Billie Holiday - a maior do mundo de todos os tempos-, porque Nana é uma sede em continuação, a qual não se mata para que haja beleza deslizando sonoramente por nossas entranhas. Ela faz o rodopio da contradição estar bem/estar mal para desenhar com sua arte o enredo que melhor convence o ser humano: o de amar e ser amado, com os pés fora do chão, mesmo tendo que cantar depois, Contrato de separação.


País, não é para endeusar, é para respeitar com a alma e deixar cantar, pagar, mostrar a grandeza desta mulher, a enorme cantora que temos e podemos esfregar, com orgulho e fascínio, na audição do mundo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Esperando Maria Bethânia


Teatro Castro Alves, Salvador da Bahia, 02 de dezembro de 2012, quase 20h., e a emoção aguardando a maior cantora do mundo na contemporaneidade.
Este registro fotográfico foi do anjo Maria Olivia Soares.
Fica aqui para que eu saiba que a vida é bela e, do meu jeito, eu sei que sei aproveitar.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Marina Lima: 'O charme do mundo"


Uma das canções que eu mais amo, na voz de uma cantora que me marcou profundamente, deu sentido a muitos instantes da minha vida, me fez sonhar e embalar paixões aceleradas, do nosso jeito! Amo "O charme do muindo" - ouço como condenado e ainda estou em seus "Acontecimentos". Marina é outra eterna, irmã do poeta, que sem estar na cena maior, é responsável pelo melhor que já fizemos no Pop Brasil, ela tamanha MPB.
 
Saudades de tudo, até do que não vivi. Mas feliz por saber que agora caminho no centro do novo que tanto mobilizei... Marina no futuro.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tiganá Santana




Circunda esta sonoridade em minha alma como o canto de abrigo da Grande Mãe. Eu me permito. E visito cada instante que a grandeza deixa ali. Instante do encantamento que sacoleja o mistério. Ouço para ser e para sonhar em lugares do essencial vazio e me aparto de certezas e perguntas, sendo -me só o vazio por fazer parte sem nenhum tipo de limitação.

A música desagua e ilumina partículas que são de mim; põe-me no ventre da fé e me faz sentir para além das noções de sentido e saber. Aquela música é. Reverência referendo do que mais amo: a arte.


Música que é a voz do menino ninando o mundo, permitindo o sono que reelabora o viver do que pode ser humano e nos ensina a pousar no coração das divindades.


Cheguei a Iyá Ogunté...


E tenho a música de
Tiganá Santana no âmago de mim.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Agradecendo a Alaíde Costa



Ouvir, de perto, Alaíde Costa é um presente para quem acompanha a música popular do Brasil desde pequenininho.
E hoje foi assim: ela cantou para poucos baianos, no Centro Cultural dos Correios de Salvador, com sua voz de mezzo soprano, encantou-nos naquela afinação de Deus.
Uma senhora lindíssima, homenageando Johnny Alf, intensificando a onipresença de Jobim, adocicando nossa memória de Vinícius, e sendo estesia sonora para formar luz viva na gente.
E ainda, a capella, entoou  As bachianas no bis dela que sempre deixa saudade.
Eu posso falar de Alaíde. A ouço desde guri, e já a aproveitei ao vivo algumas vezes.
Obrigado aos delicados informantes: Carlos Barros e Claudio Pereira.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Gilberto Gil: imensurabilidade baiana



Hoje, às 21 horas, no centro do mais sagrado veículo artístico baiano, o palco do Teatro Castro Alves, pousa Concerto de Cordas e Máquina de Ritmos, show comemorativo do amadíssimo Gilberto Gil pelos seus 70 anos de existência, com a participação da Orquestra Sinfônica da Bahia.

Gilberto Gil fará em 26 de junho próximo, 70 anos, sendo que quase 50 dedicados à Música Popular Brasileira. Um dos mais importantes músicos vivos do mundo, responsável pela irradiação planetária de vários elementos da cultura baiana, da inventividade negra, dos compassos de velhas tradições em diálogo aberto e criativo com o mais novo, em matéria de som e tecnologia, que apareceu entre os humanos nas últimas quatro décadas.

E poeta. O canceriano pai de muitos filhos, avô de alguns netos, senhor de temperos que deram raro sabor e revolucionaram a canção neste país. O agnóstico inserido no universo estético e religioso do candomblé, dividido entre Xangô e Logum Edé, entremeio das iyás Stella de Oxóssi e Mãe Menininha, seguindo os caminhos deste seu povo da Bahia, que ele também ajudou a educar.

Gil é um aceno para a sabedoria. O super homem que adoçou nossos sonhos cantando o amor pela mulher, sem deixar de defender o amor entre os iguais; cantou budas e orixás, santos e desumanos, num acordo reflexivo entre ciência e empirismo para a vida melhorar. Fez- se encanto em sua mágica presença no palco, a voz oriente de tanta fruição e aprendizado que pincelou, naquela musicalidade, uma nação mais feliz.

Rebelou-se e transgrediu. Altivo e convincente, ele transpôs a burrice violenta em vários períodos no Brasil. Renovador de si mesmo, condutor de belezas e alegrias que deram sentido à vida de muitos brasileiros. A linha e o linho desenhando uma das mais delicadas declarações de amor em nosso cancioneiro. O escultor do mistério que sempre pinta por aqui refrescando nossa alma.

Patrimônio precioso nosso refletindo-se em Caetano Bethânia Gal, animando a memória em Caymmi e Luiz Gonzaga, em paz com Bob Marley, eterno com a régua e o compasso que a Bahia lhe deu.

Marlon Marcos é jornalista e antropólogo  email: ogunte21@yahoo.com.br

sábado, 31 de março de 2012

Carlos Barros: acordo musical com a doçura


Marlon Marcos
De Salvador (BA)

Ele nasceu na cidade do Salvador, no ano que explodia o evento cultural Doces Bárbaros, reunindo Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil, 1976. Desde criancinha, formatou-se intenso para conhecer o mundo através da ciência e das artes. Tornou-se cantor. Ao meio de, também, confirmar-se para o mundo como historiador e sociólogo, estudando o acontecimento, a invasão cultural neo-baiana pelas terras brasileiras, programada pelos ídolos maiores da sua existência. Os ditos acima.

Seu nome é Carlos Barros, 36 anos, revelação masculina do canto na Bahia. Dono de inteligência profunda, grande conhecedor da obra de Gilberto Gil, e a voz - ah, a voz que desliza feito água doce e anima a audição - é a expressão mais vívida de que a Bahia ainda está viva cá. Nome dos entremeios da criação, Carlos Barros canta como mulher sem perder a masculinidade. Autentica em si a força dos grandes intérpretes, singrando aprendizados em Maria Bethânia e Ney Matogrosso; formulando emissões em sua musa maior: a voz doce dos ventos, a cantora Gal Costa.

Sua trajetória artística confunde-se com o seu crescimento como intelectual que , através do ensino, incrementa o conhecimento valorizando, nesse cenário acadêmico, a Música Popular Brasileira. Afinado e inspirado em projetos que traduzem o seu viés de artista, o cantor lançou, há mais ou menos três anos, o seu primeiro CD Cantiga Vem do Céu, uma relevante seleção de canções, quase todas inéditas, que agraciam o ouvinte com poesia e sonoridades, e a impreterível pesquisa que reprocessa antigas informações parindo as novidades que divertem a vida.

Uma alma sensível encantada pela cidade do Rio de Janeiro. Um sujeito inquieto e voraz, crítico das mesmices, à vontade com a reverência que faz a artistas como Daniela Mercury, buscando o lugar de expressão que permita ecoar a doçura do seu canto. Um baiano, muitas vezes, maltratado pelas restrições culturais da cidade natal, mergulhada na ditadura fonográfica do Carnaval. Ainda assim, uma voz já amada por boa parcela do público que gosta de música versada com qualidade.

Barros já cantou no Rio de Janeiro e, em 2011, fez algumas apresentações na Bélgica, em uma pequena turnê que agradou as difíceis plateias belgas. Um dos seus trunfos é o cuidado excessivo com o repertório e a escolha professoral dos músicos que o acompanham. A voz é seu alicerce comunicativo, o que viabiliza encantamentos em quem o ouve. A diversidade das canções, as temáticas afro-baianas, principalmente as que espelham a religiosidade dos orixás, o sentido das cidades, o amor e o desamor, o ritmo e a brasilidade, corporificam o estar deste talento que pode dizer belas coisas em música para o povo brasileiro.

Depois de gravar seu primeiro DVD - Cantiga Vem do Céu, com as participações de grandes artistas que vivem na Bahia, como Márcia Short e Cláudia Cunha, com previsão de lançamento para outubro deste ano, Barros se dedica a uma série de shows que orientam esteticamente seu novo projeto fonográfico, um CD que começará a ser gravado no segundo semestre de 2012, sob a direção de Sebastian Notini.

Antes da próxima estação é uma sequência de shows, que começa a ser apresentada no dia 13 de abril, às 18:30h., no Auditório Kátia Mattoso, na Biblioteca Púbica do Estado, em Salvador, experimentando novas sonoridades que gestarão o novo CD, todo concebido a partir do conceito de urbanidades.
Nessa nova empreitada, Carlos Barros se acompanha da guitarra de Gabriel Barros, do baixo de Zé Livera, da percussão de Sebastian Notini que também é o seu produtor e diretor musical.

Essa canção precisa ser conhecida. A canção em si que é a voz do cantor que fez um acordo musical com a doçura. E pontua, junto com outros nomes, esperança artística para o cotidiano auditivo em cidades do estado da Bahia. E no Brasil.
( Publicado no Terra Magazine em 30/03/2012)

domingo, 25 de março de 2012

A raridade de Jussara Silveira

A raridade de Jussara Silveira
É inexplicável o fascínio que o canto o feminino desperta na maioria dos seres humanos. O Brasil, desde a aparição das primeiras gravações e das exibições musicais ao vivo, foi realçando a presença imprescindível das cantoras; o Brasil se tornou o país das cantoras de uma das musicalidades mais poderosas do mundo. E a Bahia foi generosa à nossa cultura nacional também nesse quesito.
De alguma forma, na espreita da ancestralidade, a Bahia deu ao Brasil o canto minimalista e sublime de Jussara Silveira. Quase uma presença etérea no cenário musical brasileiro ( e baiano) por não ser reconhecida à altura do que seu talento gera musicalmente e nos qualifica para ouvir canções fazendo silêncio.
A imprensa baiana se calou frente ao lançamento de Ame ou se Mande, CD de 2011, deixando de nos informar sobre a preciosidade de um trabalho, construído sob as digitais de Jussara, que conforma várias noções de identidades, e de tão particular, universaliza e nos educa a recepcionar a beleza que a arte mais amada pode nos proporcionar.
Ame ou se Mande nasceu de incursões ao vivo da grande cantora pelo mundo afora; a canção que tem este título ficou de fora do CD por questões de direitos autorais, já que se trata de uma versão feita por Ariston de Love or Leave Me, canção imortalizada pela maior cantora do mundo de todos os tempos: Billie Holiday.
O CD é uma reunião que imprime a raridade da cantora aqui em delação. Denuncio as sutilezas desta mulher de 50 anos, radicada no Rio de Janeiro, nascida em Minas Gerais, mas criada em Salvador com seus pais baianos. Uma cantora que junta o melhor de grandes artistas que corporificam o poder da MPB. Denuncio o seu excessivo lado cool nos empurrando ao silêncio para valorizar nada mais, nada menos que a canção.
Há uma Bahia em Jussara Silveira que é a razão que me fez escrever este artigo. A Bahia que me condena à exaltação, ao orgulho desvairado. Que alimenta meu sonho de socialização. A Bahia do Quilombo Rio dos Macacos até o insuperável em Caetano Veloso.  Para saber, ouçam Ame ou se Mande.
(Publicado no Opinião do Jormal A Tarde, no dia 17 de março de 2012, p.3)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Bethânia e o poeta Buarque


São muitas as razões para se considerar Maria Bethânia como a mais representativa intérprete de Chico Buarque. A principal, sua paixão pela obra do compositor carioca somada à compreensão estética da cantora baiana sob...re as canções buarquianas. O projeto Circuito Cultural Banco do Brasil levou a seis cidades brasileiras a voz de Bethânia cantando e recitando Chico Buarque. Com a curadoria artística de Monique Gardenberg, Maria Bethânia iluminou plateias ecoando a lítero-musicalidade de um dos artistas mais adorados do Brasil.

Salvador, cumprindo seu desgaste e rebaixamento nas esferas da cultura brasileira, infelizmente, ficou de fora. Para não perder a possibilidade de ver e ouvir a estupenda Bethânia neste espetáculo, fui à cidade de Olinda, no enorme Teatro Guararapes, conferir a entrega da cantora ao repertório do seu compositor favorito. Exemplar como sempre. Dona da cena em récitas musicais e em trechos de letras de Chico. Doce como Oxum em Valsinha, aguerrida, linda e feroz, em Baioque, como Iansã. O público pernambucano a recebeu em polvorosa; gritos e aplausos intermináveis confirmaram o êxito do projeto comandado por Gardenberg, que nesta edição contou, em outras apresentações, com os artistas Lulu Santos, cantando Roberto Carlos, e Sandy cantando Michael Jackson.

 Infernal é a palavra na boca de Bethânia. Sua voz, no palco, se abre como um livro a oferecer poesia ou qualquer outro prazer literário; ainda tem o som; tem o cenário expandindo sua coreografia e a banda competente a emoldurar um dos cantos mais bonitos no mundo contemporâneo. Ela cantou Chico não somente como um compositor, translucidamente, neste espetáculo, ela ratifica o seu “Buarque” como sujeito da sua inspiração e desfia as canções mais batidas e já tão conhecidas com a paixão que as transforma em novidade.

Os pés descalços, figurino alvo, voz no ápice e, imageticamente, alicerçada na Bahia efervescente e inigualável, a qual ela é uma das mais poderosas representantes. E abre para o Carnaval para quem possa e mereça lhe acompanhar.

 Maria Bethânia é, mais que artista, uma obra de arte.

Publicado hoje (03), na página A3 do jornal A Tarde.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Criolo e Ilê Aiyê, sem palavras!!!


Só muitas lágrimas! ( Obrigado, minha Adriana Cerqueira!)
"Sou filho de preto, sou brasileiro"

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Nana Caymmi bem aqui


Janeiro de 2012, na cidade solar mas tristinha do São Salvador da Bahia, a poesia sobrevivendo da translúcida força do mar sob os raios do sol que tudo anima. Esse misto de Exu, Iemanjá e Oxalá tomando conta mas deixando a gente se cuidar(?). A música sempre nos enfeitiça e quando surge a chance de sonhar ouvindo Nana Caymmi, comemorando 50 anos de carreira, do palco insigne do Teatro Castro Alves, a vontade é de gritar aos deuses, enterrar certa tristeza, e aguçar a emoção para receber o que vem daquela senhora  MPB.
Dia 13, uma sexta-feira pós Lavagem do Bonfim, às 21h, como tem que ser, Nana cantará para a Bahia. Fazendo jus a grandeza daquela Sala tão maltratada por animadoras como Claudia Leitte. Nana em diálogo corajoso com a dor, marcada de amor, em seu canto sublime, trazendo a música que dignifica a inventividade da nossa gente.
Nana bem aqui... Olho para o mar agradecido, sei do que tem me sido permitido e agradeço profundamente quando a graça é Música Popular Brasileira. Quando tem Nana Caymmi, mesmo que meu corpo pressinta medo, mesmo que o desejo me alucine, mesmo que eu beba sem limites, mesmo que Salvador e os desencontros nos façam tão tristes.
Com Nana, até a tristeza é puro prazer.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Marcelo Jeneci - Clipe Felicidade


- Vai pesar menos; pesa muito menos com doçura, criatividade, música, cinema, poesia, beijo na boca, amor e Fé... Claro que pesa muito porque muito disso anda faltando. Então, 2012 à luz desta canção linda do lindo Jeneci. E já ouvindo estou achando tudo mais levinho. A Fé não posso perder. Eu amo você. Até.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Maria Bethânia - Vida Real



Para Sérginho Guerra

Entre notícias, cenas, poemas, escritos, historiografias, dilemas... Eis que grita a vida pedindo ainda mais a ilusão. O amor batendo à porta, a dança dos sonhos, o azul do céu nos lençóis, a voz de Bethânia na música de Caetano Veloso; o desencontro no parapeito do tempo e a maresia como conforto.

Bravos os homens que amam na irrealidade de todos os dias sob a romântica inspiração.
O som que desalinha. Os recortes do coração. O fazer da fantasia como prosseguimento.
Eis a vida sem tormento: o tiro certeiro que brota da garganta da mulher cantora e fala melhor tudo que não podemos dizer. E é maior  que a Vida Real.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Uma porção do Brasil torce pelo fracasso de João Gilberto


Um texto de craque a favor da sensatez e do nosso maior cancionista: João Gilberto

Claudio Leal ( Terra Magazine, 15/12/2011)


A crônica dos ingressos "encalhados" da turnê 80 Anos, Uma Vida Bossa Nova, de João Gilberto, revela uma estranha incompatibilidade do maior artista popular brasileiro com seu País. Bem explicado, com uma porção cavalgadura do Brasil. Sabe-se que, por conta de uma gripe e de transtornos na produção, seus espetáculos foram adiados até o cancelamento final.

Como comprovam pencas de reportagens e comentários nas redes sociais, João Gilberto precisava fracassar. O confinamento, o desprezo à ordem das celebridades, a essencialização de uma arte e o radical sacerdócio, em mais de 50 anos de carreira, tornaram-no um inimigo da previsibilidade do show business e dos fervores justiceiros do jornalismo. João Gilberto precisa fracassar para que prevaleça alguma lógica, por vezes chamada de "respeito ao público". O que não parece faltar em suas criações rítmicas.

Em setembro, dois dias depois do início da vendagem dos ingressos da turnê (iam de R$ 500 a R$1.400), em quatro capitais brasileiras, trovejaram as primeiras reportagens sobre o "encalhe" e a "frustração" dos produtores.

Não se conhece, na imprensa brasileira, semelhante preocupação com o desempenho da bilheteria de qualquer outro artista popular vivo. E o fluxo de suspeitas sobre a viabilidade dos shows não cessou, seguindo a antiga tendência de folclorização, agora verificada no escárnio à sua gripe; meses antes, na torcida por seu despejo de um apartamento no Leblon, onde se negava a receber os operários de Madame Proprietária. Nem Roberto Carlos, hen-hen-hen, resistiria a tamanha urucubaca.

O próprio ato de falar de João Gilberto, sem apelar para o folclore, virou uma ofensa a certa nacionalidade ferida por sua recusa minimalista ao convencional. Acredita-se que, além de uma forma nova de tocar violão, ele inventou a excentricidade. O irascível Frank Sinatra, a quem se permitia ficar gripado, ao menos literariamente, não era dos mais dispostos a afagar a vizinhança. Fosse brasileiro, mereceria uma permanente avacalhação.

No lançamento do seu último disco, Chico Buarque ridicularizou a contento o ódio dos comentários anônimos na internet. Algumas mensagens ofensivas a João Gilberto, dirigidas a esta redação, não deixam de impressionar pelo tom dos relinchos:

1. "Não sei porque idolatram tanto esse cidadão, uma voz irritante, cheio de chiliques, se acha o ser supremo da MPB e nem é, realmente lamentável que esse pais de ignorantes ainda pague rios de dinheiro para alguém desse tipo, para mim ele nunca contribuiu em nada nessa vida, não faz a menor falta para ninguém, e agora mais um titulo para ele: CALOTEIRO. Não paga aluguel e não quer deixar o imóvel, um lixo esse homem".

2. "Esse João Gilberto é o maior enganador que eu já vi na vida... não canta nada, não toca nada, é um chato de galocha e ainda fica todo mundo endeusando ele... Ahhh...vai te catar!".

3. "Galera, não sei pq acham esse cara um artista... Sério, sempre que o vejo cantar me dá vontade de arrancar o violão da mão dele e arrebentá-lo na cabeça".

4. "Quem disse para o João Gilberto que ele canta e compõe? Acho que ele paga para ser gravado e visto".

5. "A bossa nova foi criada para aqueles que não sabiam cantar. Enchem muito a bola desse individuo que se acha um Deus."

Afinal, que mal João Gilberto faz ao Brasil?

Somente em 2011, recebeu propostas de shows em oito países, da Rússia à Argentina. Chato. Na última
turnê brasileira, o guitarrista inglês Eric Clapton revelou que sonhava em tocar com... João Gilberto. "Ele é fantástico. Mas também sei o quanto é difícil de ser encontrado", tietou. Que chato. Dúzias de artistas internacionais, como Frank Sinatra, já pediram para encontrá-lo. Ciceroneados no Brasil pelo romancista Jorge Amado, em 1960, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir não tiveram a sorte de ouvi-lo na primeira encarnação. João não foi. E não deve ter havido outra chance, pois o casal não dava pelota para a vida póstuma.

Madonna, que costuma cobrar ingressos baratos, transmitiu o recado de que desejaria cantar "Garota de Ipanema" acompanhada do violão daquele brasileiro chato. Ela ficou vidrada em um disco: "João". Em 1994, no Rio de Janeiro, o cantor norte-americano Tony Bennett, certamente desavisado do refinamento da hidrofobia anti-João Gilberto, confessou: "Adoraria que ele participasse do meu show". "O comportamento intimista de João Gilberto foi fundamental para a divulgação da Bossa Nova no mundo", acrescentou Bennett.

Em 2008, no Carnegie Hall, em Nova Iorque, um público de 2.800 pessoas o aplaudiu de pé, antes do início do show e de ouvir sequer um "boa noite". Bem chato. Em 2004, João Gilberto não parou de reclamar das falhas técnicas do som desse mesmo templo da música americana, onde houve o histórico concerto da Bossa Nova, quatro décadas antes. "Somebody come for help!", implorava o cantor. Milhares de chatos aplaudiram o profissionalismo do chato-rei. Onde eles estavam com a peruca?

Falando na lendária sessão bossanovista de 1962, no Carnegie Hall, um trecho de "Chega de Saudade", de Ruy Castro, demonstra o quanto o baiano de Juazeiro chateava alguns dos maiores talentos do jazz: "O encerramento em grande estilo estaria a cargo - que dúvida! - de João Gilberto. Afinal, era para ouvi-lo que estavam na plateia nomes ilustres como Tony Bennett, Peggy Lee, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Gerry Mulligan, Erroll Garner e Herbie Mann".

Ainda hoje, fora do Brasil, os Estados Unidos são a maior fonte de rendimento dos direitos autorais de João Gilberto. Em todo o planeta, dos elevadores aos restaurantes, da trilha do filme "Prenda-me Se For Capaz" (de Steven Spielberg) à da série "Sex and the City", suas canções são ouvidas por quem possui sensibilidade e alguma medida de poesia. Produtor musical do álbum "João, voz e violão", Caetano Veloso - e muitos de seus pares - o estima como "o maior artista da música popular brasileira de todos os tempos".

Para matar você aí de raiva, ou de amor, Miles Davis definiu: "Ele pode até ler jornal que soa bem."
Estranhamente, esse gênio celebrado por bípedes do mundo inteiro não frequenta as listas dos músicos mais tocados nas rádios brasileiras. O mundo deve estar errado - e o Brasil, certíssimo. Os espectadores do Credicard Hall, em São Paulo, que o vaiaram em 1999 pelas mesmas queixas técnicas, devem achar o Carnegie Hall um reduto de implicantes.

Por mais que seja atraente falar do "suicídio" do gato de João Gilberto (e não se deve perder o humor), não faltam perspectivas menos folclóricas para abordar a sua obra. Esta semana, depois de uma refrega judicial de 14 anos, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) acolheu, por maioria, o pedido de indenização de João Gilberto contra a gravadora britânica EMI, reconhecendo os danos morais provocados pelos erros na remasterização de seus discos.

Os álbuns clássicos "Chega de Saudade" (1959), "O Amor, o Sorriso e a Flor" (1960) e "João Gilberto" (1961) continuam fora do mercado fonográfico. Alguém aí falou em "respeito ao público"? Em 1992, à revelia do autor, a EMI reuniu os três bolachões e o EP "Orfeu da Conceição" num único CD, "O Mito". Apesar de sua relevância para a música brasileira, o julgamento do STJ ganhou uma repercussão discreta. A briga ainda deve durar, mas já percorreu boa parte do percurso jurídico.

João Gilberto nunca deixou de traduzir o Brasil, de modernizá-lo em suas recriações musicais, solitariamente entregue a um projeto irrealizado de País. Que não abra a porta, é outra história. Maravilhosa história.

Vaia de bêbado não vale.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Claudia Cunha, puro prazer


Sob encantamento o ouvido tira perfume da música.
Uma voz de mulher narrando as sonoridades da doçura.
O que chega embriaga para o amor.
Mais que dança ela canta os sonhos que moram em mim.
A lindeza conjugada no feminino,
A seta musical atingindo a emoção.
Enquanto os olhos se perdem no que veem
Saindo do corpo artístico da fêmea,
Ela canta afinando a alma de quem a ouve;
Canta como risco e prazer,
Secreta evidência em notas precisas
Naquele sorriso que melhora o mundo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Angela Ro Ro - Gota de Sangue


Houve. Nas controvérsias da entrega adolescente, mas houve. Revejo-me no corte apaixonado da voz de Angela e sangro também. Hoje, de beleza e paz. Revendo-me na ferida aberta do desejo. Nos olhos Maysa de Angela. Na presença do canto de Bethânia. Mas, na imprecisão e no absoluto terror ou dor que esta interpretação desenha. E houve. Agora, ouve comigo esta canção e mata a saudade de mim. Não, mata a saudade de nós.

domingo, 21 de agosto de 2011

Maria Bethânia, Tigresa


Era aqui a ideia da invenção dos lugares. Aqui: meu susto por numa única canção redescobrir o mundo. Aqui esta canção aberta com um poema de Fernando Pessoa. Tigresa que ouvia na voz de Bethânia, de Gal e de Caetano. Tigresa associada a Sônia Braga, que eu entendia como Gabriela. Aqui o mundo governado pelas mulheres.

Dando tempo para passar agosto. Tomara chegar logo setembro, flores e iyabás, águas de meu Pai Oxalá! Ouvir Bethânia, para em mim, afastar este cansaço. Força, ouvir para ter força e alcançar qualidade.

Juliana Ribeiro: artista da Bahia


Ate o sol comungou, neste dia 21 de agosto, no Parque da Cidade, no anfiteatro Dorival Caymmi, presença maciça do povo baiano, com a estética reluzente do CD Amarelo, da cantora Juliana Ribeiro. Às 11 horas, manhã epifânica, se confirmou esta menina como um grande talento consolidado na Bahia, prontíssima para navegar os mares do Brasil e do mundo.


O canto envolvente, o repertório mesclando inovação e pesquisa para trazer o melhor samba feito no Brasil. E ainda teve samba reggae, semba, lundu, maxixe, jongo e Ilê Aiyê. Tudo para expressar a festa musical que a cantora pesquisadora e compositora traz para atestar sua qualidade e orgulhar a Bahia com sua trajetória de luz.

Um novo tempo. Tem que ser. Sandra Simões, Claudia Cunha, Manuela Rodrigues, Stella Maris, Carlos Barros e tantos outros, reacendendo possibilidades musicais lindíssimas em nosso território.

Um novo tempo para se marcar a continuidade da voz Márcia Short, show de experiência, cantora brasileira, luz e pedagogia em tudo que for canto no estado da Bahia.

Juliana me arrepiou a pele. Linda em dois figurinos lindíssimos. Louvando em respeito os orixás, como o meu controle de qualidade Maria Bethânia. Marcando o samba com elegância, em consonância com Mariene de Castro, a gente dançou o que a Bahia também tem.

Agora, é navegar outros mares e seguir em sintonia com a alma da gente. Sabendo grande Juliana: ainda não é o tempo da posse da diva. Por enquanto, é a cantora criativa que deve espelhar uma terra, uma gente que tem na arte musical popular a sua mais forte expressão com a vida. Seja inteira, faça música, sonhe com a gente que precisa desse novo tempo. Amo seu trabalho e espero poder lhe cumprimentar sempre!

Meus dias, nesse final de agosto, será todinho Amarelo, graças a Oxum se permitindo na garganta de Juliana Ribeiro.


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Márcia Short: quando a grandeza é ofuscada pelo racismo

Marlon Marcos
De  Salvador (BA)


De fato, existem várias teorias da comunicação, além dos movimentadores cotidianos que fazem isso que chamamos mídia, que analisam e ratificam o estar ou não de vozes no cenário do show business, atuando como artistas e, ao mesmo tempo, como produtos vendáveis comercialmente.

Muito se fala que a Bahia é um celeiro produtor e exportador de talentos musicais, desde ícones eternos como Dorival Caymmi e João Gilberto, até fenômenos de massa como Ivete Sangalo, a Bahia pautou e ainda pauta produtos comercializáveis em todo o Brasil.

Assim como existem critérios de noticiabilidade para a prática jornalística, que nem sempre estão coadunados com os princípios desta profissão, existem também, às vezes de modo ainda mais perverso e dissonante com o estar co-existencial dos indivíduos, os critérios que agendam vozes, rostos, corpos, os possíveis "talentos" que nos são vendidos cotidianamente.

Para além da necessidade de uma constante novidade no mercado, da exigida descartabilidade, do facilmente digerível e do que "acontece" como fenômeno e espontaneidade, existem substratos históricos e sociais que conduzem o mercado a oprimir e alijar membros, por vezes talentosíssimos, por não representarem o padrão hegemônico e não possuírem poder de barganha com as forças que instituem as leis e criam as brechas que trazem à luz algumas exceções desta terrível regra brasileira.

Este artigo fala fundamentalmente da experiência baiana. A Bahia da "Axé Music", que sistematiza uma poderosa indústria cultural local que ressoa por todo o continente brasileiro. A Axé Music de suma importância para grandes feitos que os baianos, bebedores do que se conhece como culturas luso-africanas, geraram e produziram carnavalescamente em nosso estado. Axé Music que vem dos negros, que exalta os negros, mas grande parte da lucratividade repousa, quase num sentido de eternidade, nas mãos dos brancos classe média que deram continuidade à máquina do trio elétrico.

Por mais que não queiram ver, o que se tornou um dos melhores carnavais do Brasil, dito por muitos como o melhor, é um carnaval sustentado pela exclusão. E o ponto máximo desta exclusão é deixar de fora os negros que deram alma a quase todos os projetos que configuram o carnaval de Salvador, desde os entrudos até as feições deste carnaval na atualidade.

Paira no ar a pergunta sobre a perenidade de alguns artistas entre nós. O Chiclete com Banana, por exemplo, sem qualidade musical, é um fenômeno de décadas. Ivete Sangalo, dona de um carisma poderoso e ótima cantora, vai pelo mesmo caminho da eternização. Daniela Mercury é a mais completa artista na música carnavalesca da Bahia, a que se renova com talento, passeia com categoria por outros estilos mas também se beneficia com o fato de ser uma mulher branca. Claudia Leitte é a síntese da força do discurso racial na produção de estrelas: loira, bonita no padrão, jovem, mas bem longe de ser cantora. Temos outros nomes que oscilam entre as reflexões apresentadas, que vingam por conta do esquemão empresarial de seus blocos lhes dando segurança e continuidade.

Ora por dentro, ora por fora, temos uma das divas mais importantes desta história: Margareth Menezes que, muitas vezes, foi excluída da "beleza" da folia baiana, sem ter o espaço merecido, acusada de desafinar, de não cuidar bem da carreira e, claro!, de não corresponder a estética de "feminilidade" que a política do trio exige. Hoje, ela compõe bem o personagem, ainda com dificuldades, se marca como uma das três vozes do carnaval baiano se sustentando comercialmente.

E Márcia Short? A menina da extinta Banda Mel tem que ser extinta também? Será que não se ouve a especialidade do seu timbre, a limpidez do seu canto, sua experiência como cantora de verdade que poderia estar no time das melhores cantoras disto que chamam de "MPB"? Será que não se alcança a beleza marcante daquela mulher mãe de dois filhos? Não cabem no carnaval da Bahia as legítimas filhas das nossas culturas negras?

O que é uma cantora? A nova gestão cultural do Pelourinho, a cargo do Centro de Culturas Populares e Identitárias da Bahia, deu a chance de Márcia Short fazer uma prévia do que ela é capaz, num palco ou num trio elétrico, e a mesma, nos dias de quinta-feira, reúne uma platéia grande e qualificada, para cantar um repertório reluzente que conta a história da Axé Music. Ressaltando: reúne para cantar. Ela tem domínio de voz, conteúdo estético que faz a gente sentir sons e palavras e dançar ao mesmo tempo. Não é o tal do "pula aí", "levanta as mãozinhas", e tome a sacudir os cabelos e a dar com as mãos em excessivos acenos para evitar os desafios do microfone.

Márcia Short tem 45 anos, uma carreira com quase 25, referendada por nomes como Lenine, Chico César, Elba Ramalho, Saul Barbosa, Caetano Veloso, Daniela Mercury. Ela traz uma tradição de vozes negras da Bahia que suingam e embelezam nossa produção local e nacional. É uma presença ausente que envergonha a nós que conhecemos o seu talento e os motivos locais do seu "afastamento". Talvez ela nem queira mais fazer "carnaval"; mas cantar é a alma desta mulher que vaga de projeto em projeto enquanto as animadoras ganham rios de dinheiro com o status de cantora.

Por trás dos impedimentos a Márcia Short, para além da fatalidade de que ela já teve seu tempo, existe o gosmento racismo brasileiro pautando nossos desígnios artísticos e festivos. Deveria existir na Bahia, dentro dos planos de Políticas Culturais, projetos que alimentassem não uma cena alternativa e sim, o que de fato há, uma cena co-existente com a Axé Music, que permitisse a gente ser mais que o "auê" do carnaval.

Quanto ao racismo, ele não acabará por decreto e nem ao meio de novas Políticas Culturais. Mas, precisamos dar ao talento o que é do talento e situar artistas, como Márcia Short, nos lugares que são seus e nós precisamos deles na ativa.

Publicado no TERRA MAGAZINE (16/08/2011)