Mostrando postagens com marcador Caetano Veloso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caetano Veloso. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Depois de assistir Tropicália



Caetano Veloso: Tropicália
Parece, em mim, o retrato da realização em fragmentos da impossibilidade. Um homem diluído em muitas linguagens acenando para a transformação. O jeito descontente no sorriso que ilumina. O que diferente não poderia ter sido, e incita a não ficar no lugar. Escritos boiando nos esconderijos da vida, tesouro distante no solo desconhecido do Recôncavo – formato baiano num diálogo com o mundo. Poeta de qualquer língua em qualquer cidade. Poemas que nos desfiguram e alteram nossas verdades. Coragem do ser, agonia do tempo, destempero pedagógico, libido, amanhecer.
Atropelo nos padrões quando a chegada do homem quase menino mulher negro santo demônio orixá ateu. Idílio da solidão e o filme narrando a sua grandeza. Valor da existência entre o nada e a música: morada da memória que o eterniza. Receitas comportamentais na dança certeira da sorte. Programa dos deuses. O menino nascido mito e lançado à verve das contradições. Sísifo. Domínio do Oráculo de Ifá. Teoremas e traços calculados. Cigana sem consorte. Desamparo no medo. Odé contra a morte. Mulato cartesiano.
Nitidez abrasiva num projeto coletivo. O que mais sabia e ardia; era dureza, agridoçura, sexualidade ambígua e acesa, vontade de causar e ficar no sempre do país que ajudou a reinventar. A palavra como arma a favor também da conservação. Transbordo da beleza mais vital que deu sentido existencial a quem carecia pensar diferente.
Ele é o ingresso nas maneiras do fazer profundo: mercado e academia, literato e repentista, ator e galã, cantor de cameratas e agitador de multidões. Homem de batom rosa na boca. Os olhos tristes de Londres. Desenho seu que faço na face secante das águas do Abaeté ouvindo It’s a Long Way, esperando mais palavras e sons que recontem a sua história e impilam o exercício deste meu amor.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Caetano Veloso, 73 anos









O artista.

Lembro-me do meu esforço, com 10 anos, para entender o que me dizia aquela letra de Um índio, na voz daquele homem que todos achavam efeminado e eu achava o mais homem de todos. Lembro-me de suas contas de Odé e de Oxum, do azul claro que vestia ele e aquele chapéu na capa do LP Cores e Nomes. Lembro que ele me permitia ser. Sua poesia me fazia sonhar e desejar uma vida melhor, com a qual eu pudesse me expressar. Amava ter nascido na Bahia e, melhor ainda, ter nascido em Salvador. Queria saber escrever (e eu não sabia) para ser poeta tal qual aquele homem tão estranho e fora dos padrões, mas dono da rara beleza que só os artistas mais raros conseguiam ter. Sonhava com ele. Aceitava o candomblé na minha vida, com mais tranquilidade, por causa dele. Quem era Muhammad Ali? O que dizia a palavra impávido, a qual nunca mais esqueci? Cinema transcendental trilhos urbanos, Gal cantando Balancê. Quando esta preta começa a tratar do cabelo. Um filhote de leão raio da manhã. Amar dar tudo não ter medo. Bobagens, meu filho, criancices. Místico pôr do sol no mar da Bahia. Vivia aquelas canções e para ser menos pobre e me exibir inteligente, além de Gal. Baby, Clara Nunes,Novos Baianos, Fábio Júnior, Gonzaguinha, Kátia ( a cantora cega), Sidney Magal, entre outros, mais que tudo, desde os 7 ou 8 anos, eu gostava de Caetano Veloso.

O homem.

"Abrirmos a cabeça para que afinal floresça o mais que humano em nós". Aquele corpo famoso do gênio se divertindo no Porto da Barra. Os shows possíveis em santo Amaro. O susto da boca pintada de batom. A força na figura frágil. A fala infernal. As letras que mais amo. O caminhar nas ruas da Bahia. A coragem e o discurso. Os ensinamentos de alguém ao meio popular, que mais do que acadêmicos e intelectuais oficias, empurrou o Brasil para o melhor, o menos careta, o menos desumano e atrasado. Alguém que se sonhou grande, se fez grande, sem perder a dimensão do que se deveria fazer, através da canção popular, para que não fôssemos mergulhados na truculência de um tempo perverso, e que ele, muito ele, mais que tantos outros, tornou muito criativo.

Trem da Cores

A canção dele que, na voz dele, eu mais amo.
E esta é a mensagem da minha existência:
"E aquela num tom de Azul, quase inexistente Azul que não há, Azul que é pura memória de algum lugar."


73 anos,

Uma alegria imensa tê-lo vivo, atuante, criativo...Envelhecendo nessa verve juvenil que nunca lhe abandonará...Só lhe peço: nunca perca a sabedoria edificante que os anos nos trazem. Se lhe cobram muito é porque suas marcas são indeléveis nesta civilização negro-mestiça chamada Brasil.
Vocé é poesia - e eu, com muito esforço, tento aprender contigo.

Parabéns, mestre maior.

Com amor,
Marlon Marcos

sábado, 30 de agosto de 2014

olho cego cheio de luz



todo tempo perto de mim
traços do que mais me vejo
na vontade profunda de mu -
dança a cantar
belezas que me elevam.

olho cego cheio de luz
nem o poeta me alcança
deveras samba sem efeito
o amor, este amor, aquele amor
tudo passageiro:

a menina sem trança
me olha e ri
panorama da falta
poética e solidão...

a menina dança
civilizações sobre mim

mas me sou todo selvagem,

segunda-feira, 31 de março de 2014

Salvador, 465 anos


Salvador é retratos de mim mesmo. Eu mergulhado numa insistência antropológica para me fazer entender nela e a amando de verdade. A cidade onde mais me sou, mas, às vezes, me dói estar e a vontade é abandoná-la sem retorno. Tem muita burrice e nos falta o real amor próprio; não isto da tal baianidade, perdida no ensimesmar-se, que estagna e prende à ideia do que uma dia ( talvez) fomos e já não sabemos mais.

Hoje amanheci lendo o "olhar estrangeiro" de Ruth Landes, que tantos depreciam, e me vi naquela cidade dos anos 30 indo a um terreiro de candomblé... Tanta coisa me significa aqui e tenho saudade no futuro. Vejo os ataques a Landes escrevendo um livro que é uma das coisas mais lindas que "nossa" antropologia já produziu, e muitos xingam de literatura, como se literatura fosse xingamento; e dizem que, no livro, as palmeiras da cidade a receberam, ela, Landes, batendo palmas. Talvez, no dia da chegada as palmeiras não tenham batido palmas, mas hoje elas e tantas outras espécies aplaudem o legado que Landes nos deixou em seu clássico "A cidade das mulheres".

E Salvador faz 465 anos hoje, e é em Landes que minha curiosidade antropológica e minha perspectiva poética repousam... Aliviam-se nessa minha forma doída de gritar para alguns que estão fora dos cercadinhos do poder: eu te amo!

Agora, as águas da Baía de Todos os Santos batem palmas para mim...Mergulhado no livro de Ruth Landes, que o machismo, a arrogância, os olhares enviesados, a inveja dos seus pares naquele tempo, e nos dias atuais também, quis invalidar.

Salvador em sua lotação feminina, dona deste mar e da população negro-mestiça mais bonita do mundo... Ora criativa como Caymmi, ora passada como Bell Marques, Claudia Leitte, Carlismos de antes e de agora...

Aciono o cantar de Gal Costa, ao violão de Gil, na poesia de Tiganá Santana e saio lendo Ruth Landes em suas fraturas de gênero, como bem disse Mariza Côrrea, enxergando a força da mulher no candomblé e a forte e decisiva presença homossexual no cotidiano destas práticas religiosas.

Nesses 465 anos vou evitar música, pois meu lado luz dormiu ouvindo Maria Bethânia, daí, o além, só no canto meu de Billie Holiday - e teria que ser ao vivo.

Salve Salvador e este texto vai para

Dorival Caymmi, Ruth Landes, entre os mortos e,

Miriam Rabelo, Bel Melo, Iuri Ramos, Michelle Cirne, Emili Almeida, entre os vivos.


Acima do bem e do mal, para Maria Bethânia e Caetano Veloso.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A grande beleza





Penso sobre o que seria a grande beleza. A única certeza é que ela reside no que a gente alcança de mais simples, não é erudito, relaciona-se com sentimento, e pousa na ideia de coração.

Pode ser o amor por outro. Mas não se faz só nisso: a grande beleza é ter algum sentido contínuo e saber vencer o tédio, e poder contar consigo...
A grande beleza é o coração batendo, você no centro da sua saúde, frente ao susto do envelhecimento, mas se vendo sábio e oportuno: ainda querendo o mistério da vida.

A grande beleza é saber receber e saber ofertar... Agradecer, no específico, o dom da criação ( todos têm) e ouvir a tal canção que lhe sustenta.

Ouvi Trem das Cores – azul que é pura memória de algum lugar. Ouvi a voz romana de Caetano Veloso – esse homem cinema.
Abraçado ao Rio, ao calor, ao mar... Bebendo e fazendo pose para brindar o esquecimento.

A grande beleza está aqui. Eu me escrevendo. Inscrito em adorações. Refrescado na boa ação de poder sair do meu lugar, do cotidiano, do sem transbordo.

A grande beleza é poder amar sem precisar amar, necessariamente, somente a quem nos ama. A grande beleza é este lugar que me embriaga e que me pertence sem eu saber por que...

A roda da voz do cantor outrora franzino, fazendo sonhos na minha maneira de desejar...

A grande beleza é azul e triste; mas é azul e alegre; é azul tão somente.
Venta com o cheiro de Iemanjá – a mãe está. A grande beleza é poema para a poesia a qual insisto encontrar.

Hoje é o Leme – antevejo a mão da escritora tocando o mar e louvando, sem saber, a energia que comanda o nosso ori, a nossa loucura... Esse nosso jeito de exercer a beleza que escapa, às vezes, muitas, a este mundo.


Rio, 30 de janeiro de 2014

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sem ver


Para o centro do que não vejo:
é só luz me secando 
os pensamentos...

Tateio-te então...

Passo a palavra
na senda da tua imagem
e na coragem,

depois do cheiro nos cabelos,
dou um beijo língua
e registro a canção.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Caetano Veloso: Tropicália



Parece, em mim, o retrato da realização em fragmentos da impossibilidade. Um homem diluído em muitas linguagens acenando para a transformação. O jeito descontente no sorriso que ilumina. O que diferente não poderia ter sido, e incita a não ficar no lugar. Escritos boiando nos esconderijos da vida, tesouro distante no solo desconhecido do Recôncavo –formato baiano num diálogo com o mundo. Poeta de qualquer língua em qualquer cidade. Poemas que nos desfiguram e alteram nossas verdades. Coragem do ser, agonia do tempo, destempero pedagógico, libido, amanhecer.

Atropelo nos padrões quando a chegada do homem quase menino mulher negro santo demônio orixá ateu. Idílio da solidão e o filme narrando a sua grandeza. Valor da existência entre o nada e a música: morada da memória que o eterniza. Receitas comportamentais na dança certeira da sorte. Programa dos deuses. O menino nascido mito e lançado à verve das contradições. Sísifo. Domínio do Oráculo de Ifá. Teoremas e traços calculados. Cigana sem consorte. Desamparo no medo. Odé contra a morte. Mulato cartesiano.

Nitidez abrasiva num projeto coletivo. O que mais sabia e ardia; era dureza, agridoçura, sexualidade ambígua e acesa, vontade de causar e ficar no sempre do país que ajudou a reinventar. A palavra como arma a favor também da conservação. Transbordo da beleza mais vital que deu sentido existencial a quem carecia pensar diferente.

Ele é o ingresso nas maneiras do fazer profundo: mercado e academia, literato e repentista, ator e galã, cantor de cameratas e agitador de multidões. Homem de batom rosa na boca. Os olhos tristes de Londres. Desenho seu que faço na face secante das águas do Abaeté ouvindo It’s a Long Way, esperando mais palavras e sons que recontem a sua história e impilam o exercício deste meu amor.
 
P.S.  Depois de assistir Tropicália.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sorte por termos Caetano Veloso



Agosto, no Brasil, e três gênios nasceram: Jorge Amado (10), Nelson Rodrigues( 23), Caetano Veloso (07), compondo um quadro de muita sorte para este país. Os dois primeiros centenários, o último faz 70 anos dando movimento contínuo à cultura produzida entre nós nos últimos 40 anos. Três mestres da palavra, da iluminação, da transgressão, da denúncia, da reflexão.

Caetano é nosso grande poeta. Luz em comportamentos transformadores; comunicação com o profundo, beleza transexual, melodia, e a poesia que brotou vontade de arte, necessidade de beleza em mim. Há o inatingível ali e o prosaico, talvez risível também; mas, para além, há a inteligência e a palavra como método infernal de alterar, em positivo, a sua e a nossa história... Alma da palavra. Amor que me habita.

Nem sei como falar. Homenageio na forma do grito, rude, sem talento, por não ter coragem de ficar em silêncio... Homenageio com todos os meus discos e meu coração cantando, agradecido, sonhando, entendendo o artista que nos marca de amor. Homenageio à luz de Gilgal em Bethânia, soletrando Nelson Rodrigues, e vibrando na pungência de Jorge Amado.

Esse homem mora em mim e como tive sorte de encontrá-lo no meu caminho. Ao deus Destino, ao Infinito, a Tempo - O postulador, todas as preces para o mago das contradições nascido do ventre de D. Canô.

Homanegeio nas impressões raras e piegas do amor e beijo o seu rosto e a sua boca, calo as teorias que nunca quis, de alma quebrantada pela alegria alegria, lhe digo, meu preto: feliz aniversários!!!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Caetano Veloso em Zera a Reza, canção pura poesia!


Por ser quase 07 de agosto e ter o gosto de celebrar  os 70 anos do senhor das palavras na canção brasileira, poeta legítimo!!! Ouça e cante e dance, já que tudo é tão rápido.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Bembé do Mercado: a hora do Registro





Bembé do Mercado: a hora do Registro
Marlon Marcos

Jornalista e antropólogo

Email: ogunte21@gmail.com

São várias as assertivas que apontam o Bembé do Mercado, festa centenária que acontece todos os anos a 13 de maio, em Santo Amaro da Purificação, como Patrimônio Imaterial da Bahia. Tramita, no Conselho Estadual de Cultura do nosso estado, o Dossiê de Registro que deverá ser analisado e julgado procedente, já que o mesmo partiu de uma criteriosa pesquisa de campo sobre a festa, sob o comando de pesquisadores de várias áreas escolhidos pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, mais conhecido como IPAC.

A comunidade santo-amarense, principalmente o povo-de-santo, espera com avidez a patrimonialização desta celebração que acontece há mais de 100 anos, e é alusiva aos festejos dos ex-escravos da comarca de Santo Amaro, pelo controverso, mas importante 13 de maio de 1888, data que oficializou o fim da escravidão dos negros em terras brasileiras.

A festa começada desde 1889, sempre reuniu, primordialmente, os negros ligados às religiões de matrizes africanas. A palavra bembé é uma visível corruptela do termo quicongo candomblé, e passou a designar os festejos religiosos nesse dia 13, onde se tocava (e se toca para orixás, inquices, voduns) em agradecimento pela liberdade ( ainda que parcial) alcançada. É uma festa do povo negro daquela cidade que desbravou anos mantendo viva uma memória religiosa, social e cultural que já poderia ter sido completamente esquecida.

Hoje, felizmente, muitos olhares se voltaram para o Bembé do Mercado, muitos com o intuito de fortalecer o caráter turístico da celebração; outros, preocupados com nossa história e preservação sócio-antropológica de expressões que nos traduzem coletivamente, como é o caso da historiadora Ana Rita Araújo Machado que fez até então, a mais importante pesquisa acadêmica sobre este evento santo-amarense. Temos artistas que emprestam sua grandeza à visibilidade do Bembé, o maior é Caetano Veloso que fez a canção 13 de maio, que entende a festa como uma homenagem inicial à princesa Izabel.

Mas, mais importantes que todos são os religiosos, membros de muitos terreiros e de várias nações de candomblé, que lutam para organizar a festa, tocar para os orixás e culminar com o concorrido Presente a Iemanjá, Rainha de todas as águas, pedindo proteção e continuidade da vida e destas celebrações.
Registrar o Bembé do Mercado como Patrimônio Intangível da Bahia (e do Brasil), é valorizar os feitos do nosso povo, o que foi erguido pela base civilizatória nossa e ajudar, do ponto de vista das políticas públicas culturais, a manutenção de um evento que versa a beleza negra e religiosa dessa gente do aluá, da maniçoba, do foguete no ar como poetiza Caetano Veloso.

Publicado no Jornal A Tarde ( dia 11/07/2012), Caderno Dois+, Coordenação Simone Ribeiro



quarta-feira, 20 de junho de 2012

Masina



Sonoras da vida, memória.
Lugares que se descrevem
Feito outras peles sobre a
Pele em nós.

Ela - uma lua qualquer
Entre a rua da excelência
E o mistério de ser mulher:
A artista.

Ela - um princípio à frente
O que não entendo, mas
É toda linda!

Passa como trilha
No cinema vocal de
Caetano Veloso,
Roteiriza a genialidade,
Ensina dramaticidade,
Casa-se com Fellini.

Esboço do que vem de dentro
Assinala novos tempos
Não sabe ser passado.

Pálpebras de neblina, pele d'alma.

Sobrenome feminina
Cabíria que faz soluçar
No mais escuro que deserto
Cara que virou canção,
Alma que se forjou filme.

domingo, 27 de maio de 2012

Gal em Recanto



DESBUNDEI:

Ele, Caetano Veloso, sobre ela, Gal Costa:


O que mais surpreende no show “Recanto” é a adequação de Gal ao novo repertório. Surpreende os outros, digo. Não a mim. Ouvindo o disco, não faltou quem achasse que Gal simplesmente cantava as canções que fiz para sua voz sem se comprometer muito com elas. A opção por estilo sóbrio, mais próximo do cool dos nossos começos do que do barulho do final dos anos 1960 ou (principalmente) do sentimental-dramático de anos posteriores, deu espaço para quem tenderia para esse equívoco. Claro que houve quem, de cara, ficasse tomado pela conexão imediata entre a cantora e o repertório, principalmente por se deixarem levar pela densidade de “Recanto escuro”, a faixa de abertura do disco. Mas muitos permaneceram desconfiados, sem saber como entender. Li manchete de jornal que dizia que ela era “mera vocalista” num disco de criações minhas e, pior, que ela “confundia ideias”. O show na Miranda desfez, num golpe, toda e qualquer ilusão a respeito do que de fato se dá no caso “Recanto”. E ontem (quinta-feira) à noite, aqui em São Paulo, os conteúdos que o definem se mostraram de forma exuberante, intensa demais, quase violenta, mesmo para mim.

Vim, por decisão própria (a produção não me requisitou ou convidou), ver a estreia do show numa casa de grandes proporções, procurando chegar a tempo de assistir à passagem de som. Na verdade, quase não consegui isso, embora tenha tomado um avião para chegar a Sampa em tempo hábil. É que os engarrafamentos na Pauliceia estão tomando dimensões de pesadelo. A cidade, vista do avião perto do fim da tarde, me pareceu tão bonita e vívida que me comoveu. Os prédios, sob a luz oblíqua e já amarelada da tarde, vinda de um sol que varava nuvens escuras, pareciam conversar, como observou John Cage quando esteve aqui (Cage é uma das pessoas que melhor viram São Paulo de primeira: a sensação de que os prédios conversam entre si — por estarem, à diferença dos de Nova York, onde eles aparecem enfileirados, como que se voltando, por caprichos individuais, para onde cada um vê sua atenção atraída; a presença das flores de cores variadas que surgem entre massas de concreto e tufos verdes, numa frequência surpreendente para quem tem tempo interno de atentar para isso, já que a maioria parece não imaginar que haja flores aqui e, por isso, apaga da mente as tantas que vê, abafando-as com as paredes duras que guardam na memória; a beleza única do vão livre do Masp; enfim, tudo o que há de bonito nesta cidade para ser visto ao primeiro olhar, sem falar nos mistérios, segredos e tesouros discretos desta terra tão difícil de aprender mas tão recompensadora para quem decide pagar o preço).
O trânsito não me impediu de ver algo da passagem de som e de ter uma ideia de como o show poderia ficar num palco grande. Gal estava saindo, ou começando a sair, de uma faringite- laringite que deixava sua voz muito vulnerável. O som do local, tratado do modo fino como Vavá Furquim o faz, resulta límpido. Como a banda de Domenico Lancellotti, Pedro Baby e Bruno Di Lullo é um milagre de economia e inspiração, tudo parecia excelente, e a voz de Gal se sentia quase em dívida com ela própria e com a oportunidade. Mas ela acreditava que a garganta ia aguentar. Na passagem, apenas três canções foram executadas.

Na hora do show, tudo o que me pareceu elogiável no teste se confirmou para um público grande (na Miranda, no Rio, tudo era sempre perfeito, mas é uma casa pequena, o que representa outro mundo para um show). Mas ao cantar “Divino, maravilhoso” a voz de Gal deu mostras de enfrentar grandes (possivelmente insuperáveis) problemas. E ela, ao fim do número, falou à plateia. Com firmeza e inteligência, até mesmo com humor doce, mas com uma ponta de incerteza de que seria capaz de ir até o fim. E até o fim, o que se viu foi uma Gal vencendo batalha após batalha. O que serviu, de modo arrebatador, para que todo o entendimento rico que ela tem do material com que trabalha se evidenciasse.
Às vezes ela não atingia com nitidez as notas que buscava, mas o jeito como encarava as palavras e as melodias revelava, mais do que em qualquer das noites na Miranda, os conteúdos que o show potencialmente sugere. Sua linguagem corporal se fez mais eloquente do que nunca. Toda uma história, toda uma tradição cênica que não deveríamos jamais deixar de associar à sua persona pública revivia com força tremenda . E , quando ela cantou “Autotune autoerótico”, a plateia inteira se pôs de pé para aplaudi-la ainda no meio da canção. Todas as caras e todos os gestos de mãos e quadris que lhe ocorriam vinham impregnados da cultura acumulada desde 1967, quando ela pela primeira vez buscou um estilo extrovertido para substituir a quietude cool de seus inícios. Muitas figuras do mundo do rock eram evocadas, mais ou menos conscientemente, em cada virada de corpo, em cada olhar ígneo. E sua sensualidade de juventude, tão fascinante nos anos 1970, voltava em comentários de mulher madura e dona de seu corpo.

Uma das coisas que mais me comoviam era que isso estivesse se dando exatamente em São Paulo. Onde tudo começou a ser o que é para nós, os baianos do tropicalismo. “Baby” soou como um tratado histórico vivido na carne por ela e pelas pessoas que a estavam vendo atuar. Eu próprio entendi melhor o que buscava quando quis produzir repertório novo para Gal cantar. Nossa vida recuperou grande parte de seu sentido. Como “Recanto” voltará à cidade do “Vapor barato”?

P.S.: Retirado do site Conteúdo Livre. 27/05/2012.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Gal Costa: "De amor eu morrerei"


Hoje, 25 de maio, acabando o mês em que nasci, posto aqui a voz intercontinental da grande Gal Costa em "De amor eu morrerei", pra mim, a forma mais legítima de. Aqui para pedir que tragam o show da diva para Salvador, que seu canto eterno reverbere-se pelo espaço sagrado do Teatro Castro Alves, e a gente frua Recanto, nas imaginações de Caetano na tela expressiva da voz mais doce que nossa música produziu. Venha Gal, para que seus discípulos de talento, como Claudia Cunha e Carlos Barros, renovem- se esteticamente e a Bahia, sua terra, tenha mais prazer.

Essa música me confunde e me funde a mim mesmo. Minha psicologia. Gal também é trilha do meu querer.

domingo, 25 de março de 2012

A raridade de Jussara Silveira

A raridade de Jussara Silveira
É inexplicável o fascínio que o canto o feminino desperta na maioria dos seres humanos. O Brasil, desde a aparição das primeiras gravações e das exibições musicais ao vivo, foi realçando a presença imprescindível das cantoras; o Brasil se tornou o país das cantoras de uma das musicalidades mais poderosas do mundo. E a Bahia foi generosa à nossa cultura nacional também nesse quesito.
De alguma forma, na espreita da ancestralidade, a Bahia deu ao Brasil o canto minimalista e sublime de Jussara Silveira. Quase uma presença etérea no cenário musical brasileiro ( e baiano) por não ser reconhecida à altura do que seu talento gera musicalmente e nos qualifica para ouvir canções fazendo silêncio.
A imprensa baiana se calou frente ao lançamento de Ame ou se Mande, CD de 2011, deixando de nos informar sobre a preciosidade de um trabalho, construído sob as digitais de Jussara, que conforma várias noções de identidades, e de tão particular, universaliza e nos educa a recepcionar a beleza que a arte mais amada pode nos proporcionar.
Ame ou se Mande nasceu de incursões ao vivo da grande cantora pelo mundo afora; a canção que tem este título ficou de fora do CD por questões de direitos autorais, já que se trata de uma versão feita por Ariston de Love or Leave Me, canção imortalizada pela maior cantora do mundo de todos os tempos: Billie Holiday.
O CD é uma reunião que imprime a raridade da cantora aqui em delação. Denuncio as sutilezas desta mulher de 50 anos, radicada no Rio de Janeiro, nascida em Minas Gerais, mas criada em Salvador com seus pais baianos. Uma cantora que junta o melhor de grandes artistas que corporificam o poder da MPB. Denuncio o seu excessivo lado cool nos empurrando ao silêncio para valorizar nada mais, nada menos que a canção.
Há uma Bahia em Jussara Silveira que é a razão que me fez escrever este artigo. A Bahia que me condena à exaltação, ao orgulho desvairado. Que alimenta meu sonho de socialização. A Bahia do Quilombo Rio dos Macacos até o insuperável em Caetano Veloso.  Para saber, ouçam Ame ou se Mande.
(Publicado no Opinião do Jormal A Tarde, no dia 17 de março de 2012, p.3)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Disco de Gal Costa aprofunda ciclo poético de Caetano Veloso




Leitura obrigatória:

Claudio Leal ( Terra Magazine)

"Nascemos escuro."
(Drummond, "O medo")
Cantar era um destino quando Maria da Graça implorou ao colunista social Sylvio Lamenha para conhecer João Gilberto, no início da década de 60, em Salvador. "Me leva. É o meu ídolo!", exigiu Gracinha - ou Gal, apelido de fornada baiana. "Já ouvi falar de você. Tem um violão?", indagou o cantor, depois da apresentação feita por Lamenha, ave corpulenta e extraordinário imitador dos erres de Dalva de Oliveira. Liberada pela mãe, a menina da Barra Avenida correu para o encontro, instrumento à mão, e gramou a noite a acompanhá-lo. "Gracinha, você é a maior cantora do Brasil!". O mestre parecia ver no ifá.

Esse destino artístico se cumpriria nas quatro décadas seguintes. Mesmo nos períodos de silêncio. Ou de acomodamentos. Na história da canção brasileira, Gal Costa se afirmou tão reluzente que suas ausências fonográficas instilam um sentimento aflitivo, uma angústia com seus intervalos criativos. O longo recato de seis anos, iniciado após o disco "Hoje" (2005), é agora desfeito com "Recanto" (Universal Music). Reinvenção não apenas dela, mas de Caetano Veloso, que aprofunda um ciclo poético despontado no LP "Domingo" (1967) e construído permanentemente sem definições formais, nem unidade, pois a inquietação já se converteu em um programa estético.

Em 1992, na crônica "O poeta do encontro", o escritor Otto Lara Resende expôs a impossibilidade de reduzir Caetano ao nicho da música, e conclui por considerá-lo "legítimo poeta do Brasil": "Indiferente à palha seca da controvérsia, a arte segue o seu caminho. A vertente é uma só e é nela que se dá o encontro das águas. Pouco importam as fontes de onde procedem. Purificadoras e purificadas, seu caráter lustral as universaliza. Caetano Veloso, por exemplo, quem ousaria classificá-lo?".

No álbum "Recanto", a influência da poesia de João Cabral de Melo Neto, reiterada pelo compositor desde a Tropicália, na aspereza e no rijo ofício dos versos ("sem perfumar sua flor,/ sem poetizar seu poema", como ensinava o pernambucano), conflui para o legado de Carlos Drummond de Andrade. O conjunto de letras consolida as subversões antiestilísticas de Caetano - soturno, impuro, atômico - e se vincula a nossa tradição poética como raras vezes acontece, com essa presteza, na música brasileira. E registre-se: em boa parte das revoluções anteriores, lá estava o mesmo trovador.

"Madre Deus", composta originalmente para o balé Onqotô, do Grupo Corpo, é de aberta intertextualidade, por dialogar com o poema "Memória", do Drummond de "Claro enigma": "E as coisas findas/ Muito mais que lindas/ Essas ficarão/ Dizia/ A poesia/ E agora nada/ Não mais nada, não". Esse complemento cético à poesia original esbarra na promessa de "uma certa felicidade" sustentada pela música popular, como definiu Drummond numa conversa com o compositor, no final dos anos 70. Ironicamente, a justificativa para a descrença talvez esteja em outro comentário do poeta de Itabira, desta vez sobre a tranquilidade de Caymmi: "E nós, Caetano, que só pensamos em coisas ruins?".

"Recanto escuro" resulta quase num desespero drummondiano de definir-se enquanto se confronta o mundo. Caetano funde a voz poética aos lampejos biográficos de Gal Costa, num desnudamento que não ignora a força da grana: "O chão da prisão militar/ Meu coração um fogareiro/ Foi só fazer pose e cantar/ Presa ao dinheiro". Com pulsante programação eletrônica de Kassin, conferindo arranhões e temporalidade à voz de Gal, a canção ilumina os dois artistas interligados na origem; e cúmplices no desvio. O fluxo autoral de Caetano não "carrega" sua maior intérprete. O canto é a síntese: "Espírito é o que enfim resulta/ De corpo, alma, feitos: cantar".

Em 1964, estavam irmanados nos shows "Nós, por exemplo" e, passados três anos, no LP "Domingo". Durante o exílio de Gil e Caetano, no pós-AI-5, a baiana segura o projeto tropicalista, radicaliza as experimentações musicais e valoriza compositores da linhagem de Jards Macalé, Waly Salomão e Luiz Melodia. Em 1974, reencontram-se em "Cantar", essencial para ressaltar a força de Gal em sons mais pacíficos. Distanciam-se na fase "Tropical", mas permanecem alinhados a um objeto não-identificado, como comprovará "Minha voz, minha vida" (1982) em sua íntima harmonia: "Vida que não é menos minha que da canção". De novo umbilicais em "Recanto".

O músico Paquito encontrou o diabo no meio do redemoinho. "Gal e Caetano se reconhecem, transformam-se no que cantam, se amalgamam: cara de um, focinho de outro, máscaras do mundo. Em comparação com a perspectiva mais individual do Cê, o olhar em torno", decifra. Apesar de ousado, o predomínio dos sons eletrônicos não é novidadeiro para Gal, uma das personalidades instauradoras da diversidade do Tropicalismo. "Recanto" a devolve à grande arte e ao plano merecido de artista fundamental para ler e reler o Brasil. Até os méritos do álbum anterior, "Hoje", aberto a compositores jovens, não disfarçavam essa necessidade de recriar-se.

O desassossego de "Recanto" provoca estranhamentos, bem verdade. E não saímos deles, a não ser pelas janelas de "Cara do Mundo" e de "Mansidão", as canções mais solares. "Autotune Autoerótico", referência ao recurso que corrige deslizes na voz, o qual "não basta para fazer o canto andar", exerce a crítica dentro da experimentação. Os produtores Caetano e Moreno Veloso adequaram a base eletrônica de Kassin aos graves da cantora de 66 anos. "Neguinho", com sintetizadores de Zeca Lavigne Veloso, ressoa como a mais provocativa.

O Caetano discursivo, afeito a polêmicas públicas, manifesta-se na representação do consumismo sem lastro moral; sim, rejeita mas se reconhece no Brasil que emerge nos anos dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. O indefinido "neguinho" somos nós: "Se o nego acha que é difícil, fácil, tocar bem esse país/ Só pensa em se dar bem - neguinho também se acha/ Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz/ Neguinho também só quer saber de filme em shopping". O contraponto aparece na faixa "Sexo e dinheiro", num arranjo religioso, capaz de preencher catedrais: "Dinheiro é uma abstração/ Sexo é uma concreção: luz".

Não haverá danos maiores se ajustarmos a busca por instabilidade de "Recanto" ao trecho de uma velha crônica de Caetano, publicada no "Pasquim", em 1970, a respeito da sede de transição dos músicos inovadores nos anos 60: "ninguém está à vontade no papel de figura definitiva de uma bela história". Na última década, a obra de Caetano aparenta uma insurgência contra si própria, relutante em assumir o papel confortável que a história já lhe confere. Gal Costa não serve de puro instrumento. Protagoniza. A Caetanave é errância, mas a poesia e o recanto, claridade.



***

Show "Recanto"
Datas: 23, 24, 29, 30 e 31 de março
Horário: 22h
Casa Miranda (http://mirandabrasil.com.br)
Avenida Borges de Medeiros, 1424 - Piso 2 - Lagoa - Rio de Janeiro


quarta-feira, 14 de março de 2012

14 de março: Dia Nacional da Poesia



Falam-me de dia da poesia e eu tenho a poesia todo dia em mim. Todo dia ela me acompanha, alimenta minhas manhãs, me faz sorrir, às vezes, muito chorar, mas sempre me ocupa com esperança e vontade de caminhar. Meus sonhos acordados são quase sempre poemas para o encontro. Sinto saudade na poesia; se odeio, quando odeio, é nela que me expresso. Mas sou todo amor frente a esta arte. Rabisco papéis querendo o mínimo do feitiço que sinto ali.
A poesia compõe o quadro mais bonito do que não fui. E se sou alguma coisa, sou-me lendo escrevendo vivendo horas diárias de poesia. Reflexo do mais profundo, sendo meus olhos tristes ou meu sorriso ao mundo, a poesia é a minha alma. Por isso me desnudo e me engano ao pensar em fingimentos. Eu me reinvento para o bem e para mal na companhia do que não me escapa, não me abandona, não se aparta de mim.
Minha noção de eterno pousa nos versos que leio e amo com a força da vida brotando. Ilumino-me em palavras tal qual imagem cinematográfica e revivo o que mais desejei sem nunca ter conseguido. E vibro poesia em conquistas também.
Tenho essa sede e essa fome intensas. Meu hábito diurno de sonhar. Minha maneira rara de pensar cheirar ouvir ver saborear sentir, nascendo da forja da palavra que os humanos deram em arte. Quem me toca em desejo, me toca antes na delicadeza do mistério emerso dos escritos poéticos que me fazem permanecer aqui.



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Caetano Veloso e Chico Buarque


O que dizer,heim?

- Ah, bruta flor do querer. Desisti.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Gente

Homenagem do jeito dele. Mais que merecida. Dia 19 ela completa trinta anos longe da gente. Viva. Muito viva numa obra deslumbrantemente marcada em todos nós. E ele, genial e amoroso - numa crônica que exprime o poeta que a GENTE tanto ama. Beba Caetano e Elis, amo.

Ouvi Elis pela primeira vez vendo-a na televisão. Foi em Salvador — e nós, os baianos que chegaram ao eixão na esteira da estreia de Bethânia no Opinião, já tínhamos um esboço de visão da música popular numa perspectiva brasileira. Tive reação semelhante à que muitos tiveram: finalmente uma cantora moderna, em pleno domínio de seus recursos aparecia na cena profissional — e já embalad para alcançar massas de ouvintes. Era indubitavelmente um largo passo dado. Éramos todos, Elis e nós, esforços de criação dentro do universo exigente que foi o imediato pós-bossa nova.

Sempre conto que, na minha imaginação, Bethânia, Gal, Gil e eu faríamos algo marcante. Dos quatro, Gal e eu éramos os mais radicalmente joãogilbertianos. E eu talvez mais do que Gal. Bethânia tinha um temperamento e um talento que a levavam para além das marcas estilísticas do supercool de João. Gil, por ser o que mais era capaz de apreender os acordes e as levadas de violão do mestre, sentia-se livre para cruzar a fronteira. Gal desejava entrar cada vez mais fundo no mundo desdramatizado da bossa pura. Eu, que me julgava um observador útil, capaz apenas de contribuir com acompanhamento crítico e conversas teóricas (o que não me impedia de fazer umas musiquinhas), tinha João como paradigma e, por isso, interessava-me pelo desvelamento do ser da canção como forma. Assim, o canto e violão dele se opunham, dentro de mim, ao samba-jazz dos grupos instrumentais (ou voco-instrumentais) que se desenvolveram no Beco das Garrafas. Elis, cantando na TV, num videotape dos que chegavam de avião às províncias (ainda não havia televisão em rede), era a realização brilhante do estilo que me parecia oposto ao de João.

Mas a evidência de competência, talento e desenvoltura era mais forte do que meus esquemas críticos. O fato bruto de que alguém estivesse dominando divisões complicadas das frases rítmicas e exibindo com espontânea segurança o entendimento de cada notacantada (o modo como ela instintivamente cuidava daafinação) era em si mesmo um acontecimento na cena brasileira, um acontecimento que me obrigava a pôr tudo em novo patamar. Bem, tudo o que eu imaginava par meus três amigos era algo que tivesse esse poder — mas por outras vias, a partir de outros elementos, sempre nascidos da atenção a João. Assim, vi uma tensão natural entre nosso projeto e o acontecimento Elis. Tive quase um sentimento de ciúme. Sobretudo me senti com maiores responsabilidades e excitadopor desafios mais altos.

Nada disso nunca se desmentiu. Depois de Elis, teríamos que fazer algo mais radical. Bethânia esteve sempre fora da questão, já que ela tinha um estilo assombrosamente desenvolvido e totalmente independente da estética da bossa nova. Mas ela mal tinha se decidido pela música: havia sonhado em ser atriz, escrevia e fazia joias de metal. Sua voz e sua intensidade pessoal é que a puxaram para o canto, através do interesse despertado em quem a ouvia. O modo extrovertido, o tom expressionista, que contrastava com a sobriedade da bossa nova, tudo isso ela tinha em comum com Elis. Mas eram figuras opostas. Pôr as duas em comparação, dentro da cabeça, era como contrapor Sarah Vaughan a Edith Piaf. Mas o que acontecia era que, com Elis, eu era levado a pensar assim, em termos mundiais, considerando figuras nascentes de nossa canção com divas do grande mundo.

Bem, o ambiente de criação de música popular no Brasil estava se diversificando. Era a época de Edu — e Nara tinha aberto o leque do repertório, saindo das salas sofisticadas e indo ao morro e ao sertão. Mas, fosse Edu, Nara ou nós, todos parecíamos treinados em ambientes de teatro, cineclubes e diretórios acadêmicos. Elis era uma menina que gostava de Ângela Maria e se tornara um fenômeno infantojuvenil em Porto Alegre. A evidência de seu talento chamou a atenção de produtores que sonharam em fazer dela uma nova versão de Celly Campello, o que resultou em quatro LPs que, depois do estouro de “Arrastão”, foram banidos de sua discografia oficial — não tão diferente assim do que aconteceu com o 78 RPM de João, gravado no início dos anos 50. Seja como for, Elis vinha do mundo da música comercial, enquanto Nara , Edu e nós vínhamos dos ambientes intelectualizados.

O Beco das Garrafas e Armando Pittigliani compuseram a Elis genial que, logo formatada por Solano Ribeiro, veio a ser aquela espantos a explosão de musicianship que eu vi na TV.
 
Todos os encontros e desencontros que tive com Elis tiveram esse histórico como pano de fundo. Rogério, seu irmão, me deu de presente os quatro LPs pré-“Arrastão”, numa época em que eu, deslumbrado pelo prazer que dava assistir aos shows dessa cantora que nunca estava fora de sintonia com a música, via mais de uma vez seus espetáculos. Desde que voltei de Londres (coincidindo, em parte, com o período em que ela mostrou sua versão do cool), eu via Elis cantar exclusivamente para me sentir bem. Ela influenciou gerações de cantores, lançou multidões de autores, briguei com a “Veja” por causa do modo com essa revista publicou a notícia da sua morte (briga que nunca mais achei jeito de desfazer), e hoje a gente sabe que Björk a admira, que quem entende de música no mundo sabe que ela é uma das maiores que já houve. Ela me escreveu um bilhete pedindo perdão pelo que fez com “Gente”. E saúdo sua memória com um amor muito pessoal, particular e cheio de conteúdos peculiares.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Prece

Caetano Veloso

"A mim bastava que o prefeito desse um jeito na Cidade da Bahia"

Mexicano

Meu coração que é negro
se reveste do azul de caetano veloso
camufla chagas amorosas do impossível
e se traça como o perdido,
elo entre o belo e o desprezível
meu coração é feito de mel
mexicano e fictício.