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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Esperando Maria Bethânia


Teatro Castro Alves, Salvador da Bahia, 02 de dezembro de 2012, quase 20h., e a emoção aguardando a maior cantora do mundo na contemporaneidade.
Este registro fotográfico foi do anjo Maria Olivia Soares.
Fica aqui para que eu saiba que a vida é bela e, do meu jeito, eu sei que sei aproveitar.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Marina Lima: 'O charme do mundo"


Uma das canções que eu mais amo, na voz de uma cantora que me marcou profundamente, deu sentido a muitos instantes da minha vida, me fez sonhar e embalar paixões aceleradas, do nosso jeito! Amo "O charme do muindo" - ouço como condenado e ainda estou em seus "Acontecimentos". Marina é outra eterna, irmã do poeta, que sem estar na cena maior, é responsável pelo melhor que já fizemos no Pop Brasil, ela tamanha MPB.
 
Saudades de tudo, até do que não vivi. Mas feliz por saber que agora caminho no centro do novo que tanto mobilizei... Marina no futuro.

sábado, 30 de junho de 2012

Maria Bethânia para poetar



Quando a beleza é tangível ao mesmo tempo que é vento.
A voz caminha nas ruas da nossa audição e anuncia:
Temporadas do profundo dizer que ensina,
Alimenta a vida de horizontes vernaculares
Sendo uma espécie de som de Deus.
Pessoa em mim renasce,
Na Bahia alvorece,
É devolvido a Lisboa, a Portugal;
A musa se cavalga como figura mítica
Em seus temporais e na avidez do fogo
Para plantar riquezas estéticas
No sonho de país que ela nos deu.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Agradecendo a Alaíde Costa



Ouvir, de perto, Alaíde Costa é um presente para quem acompanha a música popular do Brasil desde pequenininho.
E hoje foi assim: ela cantou para poucos baianos, no Centro Cultural dos Correios de Salvador, com sua voz de mezzo soprano, encantou-nos naquela afinação de Deus.
Uma senhora lindíssima, homenageando Johnny Alf, intensificando a onipresença de Jobim, adocicando nossa memória de Vinícius, e sendo estesia sonora para formar luz viva na gente.
E ainda, a capella, entoou  As bachianas no bis dela que sempre deixa saudade.
Eu posso falar de Alaíde. A ouço desde guri, e já a aproveitei ao vivo algumas vezes.
Obrigado aos delicados informantes: Carlos Barros e Claudio Pereira.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Oásis de Bethânia


Oásis de Bethânia


POR MARLON MARCOS ( no blog Terra Magazine - 29/05/2012)


Para argumentar, inicialmente, este artigo sobre o novo trabalho fonográfico da cantora Maria Bethânia, Oásis de Bethânia, bastaria dizer que este nasceu da sua ação íntima como artista e pensadora e traduz a sua singularidade. É notável que toda obra da cantora baiana fundamenta-se naquilo que ela é para si mesma, ou seja, no que ela escolhe para dizer e para cantar e é fruto de um esteio estético orientado por sua consciência no mundo, viabilizado pela inteligência privilegiada, enriquecido pelas matrizes culturais das quais ela bebeu como criatura nascida no Recôncavo baiano.

Um disco que aponta uma leve reinvenção sem distanciar-se das principais características que deram vida a personagem Maria Bethânia no cancioneiro brasileiro. Ela canta dez canções escolhidas para comunicar lítero-musicalmente as transformações que ocorreram em sua vida desde os belos trabalhos Tua e Encanteria, lançados em 2009, pela gravadora Biscoito Fino. Para cada canção um arranjador e executor diferente, criando atmosferas mais diversas e acertando na ideia em alterar identidades sonoras antes mais homogêneas com as criações exclusivas do seu maestro (há quase 30 anos) Jaime Alem.

Numa primeira audição o disco pode parecer doído e noturno. Mergulhando mais um pouco, insurge-se contra isso, a luz solar do canto que, ao meio da dor, ainda assim, imprime esperança e bem estar auditivo. Um compósito do amadurecimento e da liberdade que definem os trabalhos feitos por Maria Bethânia, inclinando-se a novidades que não superam suas marcas expressivas e nem adulteram sua personalidade artística.

O violão e arranjos de Lenine, em Velho Francisco, de Chico Buarque, emolduram a força que a cantora deu a esta canção; surge a viola caipira em Fado, do baiano Roque Ferreira, arranjada e executada por Jaime Alem; Jorge Helder é co-criador geral da proposta estética do Oásis de Bethânia, junto com a cantora, e de novo com ela, cria os arranjos para um dos momentos mais líricos e delicados do disco, Casablanca, também de Roque Ferreira. Lágrima, de Cândido das Neves, é arranjada e executada com o primor de Hamilton de Holanda; tem Calmaria de Jota Velloso, adaptada por Bethânia e acompanhada nos berimbaus por Marcelo Costa e Marco Lobo.

Ainda nas canções: Barulho ( Roque ferreira), Calúnia ( Marino Pinto e Paulo Soledane), Salmo ( Rafael Rabelo e Paulo César Pinheiro) trazem respectivamente como arranjadores Maria Bethânia e Jorge Helder, Maurício Carrilho e André Mehmari. E costuram a paixão comum na interpretação da cantora e, ainda, alude a uma das suas inspirações, Dalva de Oliveira, marcada pela canção Calúnia.

A terceira canção do CD, Vive, com uma levada pop, é acompanhada pelo timbre do violão de Djavan, que a escreveu e a arranjou, e mostra ao Brasil, que se é possível tocar no Rádio algo de qualidade, leve, bem cantado e cheio de nuances que revigoram a noção do amor romântico e pode ser chamado de lindo.

Fernando Pessoa, no heterônimo Bernardo Soares, como indicação de Fauzi Arap, aparece em Não sei quantas almas tenho, numa récita que intercala Calmaria e Fado e desenha a inventividade da cantora, sua primorosa lição de intertextualidade, ligando a Bahia a Portugal, tocando fado à luz da viola caipira, juntando a poesia do sobrinho Jota Velloso à do mestre maior lisboeta.

É em Carta de amor, canção de número 9, que Maria Bethânia desfia, com intensidade, a sua grandeza comunicativa na cultura brasileira. De um texto escrito por ela com impressões sobre a sua vida, somando-se a trechos musicais criados brilhantemente por Paulo César Pinheiro, a cantora exorta a sua religiosidade, entre ensinamentos do catolicismo e das religiões de matrizes africanas, singularizando a sua presença no mainstream do nosso cancioneiro, com aspectos fundantes da sua condição sócio-existencial erguida pela junção do lusitano, africano e indígena, num diálogo de universalidade justaposto a isso, no CD Oásis de Bethânia. A canção fala de amor porque exprime fé e certezas que a cantora adquiriu em sua “territorialidade” de mulher pontualmente baiana.

Marlon Marcos é jornalista e antropólogo email: ogunte21@yahoo.com.br

sábado, 31 de março de 2012

Maria Bethânia em seu Oásis: "Amar já é um protesto"


Marlon Marcos
Especial do Rio de Janeiro

Prestes a lançar no mercado fonográfico brasileiro o seu mais recente trabalho, o CD Oásis de Bethânia, a cantora santo-amarense, em entrevista coletiva na sede de sua gravadora, a Biscoito Fino, no Rio de Janeiro, descontraidamente, falou sobre suas novas incursões musicais, e sobre a sua constante tentativa de imprimir maneiras inéditas de expressar o canto que a consagra como uma das mais importantes cantoras brasileiras e  como a artista mais inventiva em atividade em nosso cancioneiro.

Motivada a falar sobre criação artística e as novidades estéticas que compõem o novo disco, a cantora desfiou: "Eu sempre busco novas sonoridades, me intrigo, me mobilizo; o resultado com Oásis me lembra a sonoridade que alcancei com Ciclo (1983), e é isso que me dá sentido para entrar em estúdio e depois lançar um novo trabalho".

Oásis de Bethânia foi construído a partir da intervenção musical de vários músicos arranjadores. São 10 canções guiadas por nomes como Djavan, Lenine, Hamilton de Holanda, Marcelo Costa, André Mehmari, Mauricio Carrilho, Jorge Helder e o fiel escudeiro, o maestro Jaime Alem; cada qual cuidou dos arranjos sob a orientação e o desejo de expressão da cantora, o resultado em si já inova a forma pela qual, em décadas, orientou a elaboração musical de Bethânia, sempre contando com as exclusivas intervenções de Jaime Alem.

Com a desenvoltura de sempre, a cantora passeou por vários aspectos da cultura brasileira, de poesia até o novo disco de Gal Costa: " Não é um disco pra se ouvir todo dia, nem toda hora. Adorei a primeira música ( Recanto Escuro). É um disco de Caetano Veloso, o qual ele escolheu Gal como intérprete".

Maria Bethânia faz 47 anos de carreira (oficialmente) e, segundo foi informada, atingindo o exato número de 50 discos lançados ao longo de mais de quatro décadas. Uma carreira marcada, como ela insiste, pelo prazer de cantar e de se relacionar com o palco, com a arte. Nesse quesito recita Ferreira Gullar: "A arte existe porque a vida não basta".   Intrépida em sua caminhada a favor da poesia de todo dia, ela reúne neste trabalho, o melhor de uma lítero-musicalidade que convida o público brasileiro a olhar, reiteradamente, para o sertão do Brasil, este que representa o paraíso estético que tanto comove a Maria nascida na região Nordeste.

O disco fala de amor como rebeldia, para tanto, ela confirma: "amar já é um protesto", e assim rebate, com a elegância que lhe construiu, as críticas sofridas sobre a criação do blog O mundo Precisa de Poesia, projeto oferecido a ela pelo antropólogo Hermano Vianna, que em "desagravo pesado e soturno" parte da opinião pública deste país negou a efetivação.

Mas como ela mesma diz, parafraseando seu amado Chico Buarque: "Mas eu não quebro não, porque eu sou macia". E segue serenando entre amor e protesto, sons e poesia, preparando o show que apresentará ao país o Oásis de Bethânia que todos já conhecem desde 1965. 

(Publicado no Terra Magazine em 28/03/2012)

domingo, 25 de março de 2012

A raridade de Jussara Silveira

A raridade de Jussara Silveira
É inexplicável o fascínio que o canto o feminino desperta na maioria dos seres humanos. O Brasil, desde a aparição das primeiras gravações e das exibições musicais ao vivo, foi realçando a presença imprescindível das cantoras; o Brasil se tornou o país das cantoras de uma das musicalidades mais poderosas do mundo. E a Bahia foi generosa à nossa cultura nacional também nesse quesito.
De alguma forma, na espreita da ancestralidade, a Bahia deu ao Brasil o canto minimalista e sublime de Jussara Silveira. Quase uma presença etérea no cenário musical brasileiro ( e baiano) por não ser reconhecida à altura do que seu talento gera musicalmente e nos qualifica para ouvir canções fazendo silêncio.
A imprensa baiana se calou frente ao lançamento de Ame ou se Mande, CD de 2011, deixando de nos informar sobre a preciosidade de um trabalho, construído sob as digitais de Jussara, que conforma várias noções de identidades, e de tão particular, universaliza e nos educa a recepcionar a beleza que a arte mais amada pode nos proporcionar.
Ame ou se Mande nasceu de incursões ao vivo da grande cantora pelo mundo afora; a canção que tem este título ficou de fora do CD por questões de direitos autorais, já que se trata de uma versão feita por Ariston de Love or Leave Me, canção imortalizada pela maior cantora do mundo de todos os tempos: Billie Holiday.
O CD é uma reunião que imprime a raridade da cantora aqui em delação. Denuncio as sutilezas desta mulher de 50 anos, radicada no Rio de Janeiro, nascida em Minas Gerais, mas criada em Salvador com seus pais baianos. Uma cantora que junta o melhor de grandes artistas que corporificam o poder da MPB. Denuncio o seu excessivo lado cool nos empurrando ao silêncio para valorizar nada mais, nada menos que a canção.
Há uma Bahia em Jussara Silveira que é a razão que me fez escrever este artigo. A Bahia que me condena à exaltação, ao orgulho desvairado. Que alimenta meu sonho de socialização. A Bahia do Quilombo Rio dos Macacos até o insuperável em Caetano Veloso.  Para saber, ouçam Ame ou se Mande.
(Publicado no Opinião do Jormal A Tarde, no dia 17 de março de 2012, p.3)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Gal Costa - Pérola Negra


Ela se confunde com tudo que me é musical. Sou muito por este som, na infância, acordando-me em manhãs de domingo. O som mais doce que o canto humano produziu e estes meus ouvidos alcançaram... Aprendi a imaginar e a querer mais pela qualidade deste canto. Tenho pensado tanto nela e nos projetos meus. Ali, em qualquer lugar, a eternidade desta musa.

Pérola negra, a pintura musical dos sonhos mais intensos e amorosos. A sensualidade baiana numa pose de diva. A história de um país num quadro sonoro. Estou derretido e como tenho pensado nela. Assim:
"Voz grudada na minha alma - por séculos a minha noção do que será a doçura na emissão do canto humano."

P.S.: Pintura no meu corpo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Nana Caymmi bem aqui


Janeiro de 2012, na cidade solar mas tristinha do São Salvador da Bahia, a poesia sobrevivendo da translúcida força do mar sob os raios do sol que tudo anima. Esse misto de Exu, Iemanjá e Oxalá tomando conta mas deixando a gente se cuidar(?). A música sempre nos enfeitiça e quando surge a chance de sonhar ouvindo Nana Caymmi, comemorando 50 anos de carreira, do palco insigne do Teatro Castro Alves, a vontade é de gritar aos deuses, enterrar certa tristeza, e aguçar a emoção para receber o que vem daquela senhora  MPB.
Dia 13, uma sexta-feira pós Lavagem do Bonfim, às 21h, como tem que ser, Nana cantará para a Bahia. Fazendo jus a grandeza daquela Sala tão maltratada por animadoras como Claudia Leitte. Nana em diálogo corajoso com a dor, marcada de amor, em seu canto sublime, trazendo a música que dignifica a inventividade da nossa gente.
Nana bem aqui... Olho para o mar agradecido, sei do que tem me sido permitido e agradeço profundamente quando a graça é Música Popular Brasileira. Quando tem Nana Caymmi, mesmo que meu corpo pressinta medo, mesmo que o desejo me alucine, mesmo que eu beba sem limites, mesmo que Salvador e os desencontros nos façam tão tristes.
Com Nana, até a tristeza é puro prazer.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Angela Ro Ro - Gota de Sangue


Houve. Nas controvérsias da entrega adolescente, mas houve. Revejo-me no corte apaixonado da voz de Angela e sangro também. Hoje, de beleza e paz. Revendo-me na ferida aberta do desejo. Nos olhos Maysa de Angela. Na presença do canto de Bethânia. Mas, na imprecisão e no absoluto terror ou dor que esta interpretação desenha. E houve. Agora, ouve comigo esta canção e mata a saudade de mim. Não, mata a saudade de nós.

sábado, 12 de novembro de 2011

Maria,

Você encena recomeços e flutua luz entre o céu e a terra; brinca de se reinventar a partir do seu projeto artístico, comanda suas singularidades e se eterniza por puro encantamento. É um mistério humano. Uma lógica estranha que se faz para trazer beleza. Hoje, uma senhora que sublinha a cultura brasileira para dar destaque ao que sua alma perfila. Artista das verdades e personagem de si mesma. Rainha de multidões e, no entanto, menina longamente sozinha.
Do seu olhar mil histórias que me fascinam e aprendo no intuito de re-criar; dos seus gestos imito o silêncio; da sua voz rezo pedindo amor, me alegrando, sonhando, chorando, sofrendo, mas sentindo paz. Seu corpo é seu palco extensivo onde você se narra e se nos atinge. Reflexo da ideia de vitória, de nobreza, de inventividade.
Quero ir para além do mito munido de palavras que roubo do seu repertório; quero dizer com o dizer de seus poetas para não ser invasivo nem menor demais; quero o querer da sonoridade sua que rasga nossa imaginação e, ali, livremente, entre aquelas palavras e este som, te fazer carinho.
Comovo-me com a imagem no jornal da mulher chorando. E choro solidariedade e esvazio-me através do pranto, rezando, de longe, te fazendo carinho.
Nós – encontros e despedidas... Ouço Pele para ter coragem de amar. Fagulhas da sua presença em mim – minha musa arredia, “fazedora de distâncias”, ciranda que insisto em dançar.
Ouço seu canto que me anima e atiça e fascina e faz continuar. Canto que me inspira a pensar antropologicamente este país. Canto que queima e ventila; signos das estações, ligação secreta entre a natureza e a cultura e nisso tudo: sua dor sozinha.
Ouço sem poder de apagar. Para finalizar o que é impossível agora. Para amainar a força das perdas. Ouço-lhe para saber dos seus antídotos e dar eles a você – tão intensamente humana.
Não fui eu quem inventou o amor que os artistas inspiram na gente; este amor que intimamente me faz, agora, sofrer contigo e lutar contra isso e pedir, mais uma vez, sua reinvenção.
Brava senhora dos tantíssimos exemplos: Deus é conosco!E tudo que lhe foi e é alicerce lhe continuará sendo. Tudo está intacto pelo privilégio do que foi vivido. Brava senhora dos tantíssimos exemplos: Maria filha de Maria – sua poesia lhe deve retroalimentar.
Tempo lhe ensina, por conta do seu merecimento, a perder sem perder de fato.
Guerreira Guerrilha do Brasil, voz que chama o carcará, precisamos da sua arte e amamos a sua humanidade. Sinta, mas sobreviva por amor e missão. Pois,
“Eu te sinto tão em mim
mas dói tanto a tua ausência”.
Reynaldo Jardim

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Iyá Omi


Iyá Omi,
Protetora dos amores,
Aquela que guarda a Cidade da Bahia,
Traz a palavra arte pra mim,
Me faz cantá-la como Gerônimo o fez,
Me faz chamar meu amor como a Senhora faz...

Mãe Oxum,
No horizonte dos meus olhos nesse instante...
Mãe Oxum,
Presente dentro de mim...
Mãe Oxum,
Meu mimo que me faz enfeitiçar...

Traz pra mim
E cuida com zelo de ouro e doçura
Meu coração que é todo amor.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Gal Costa: 66 anos


Para Vera Rocha, que também aniversaria hoje

Sou sem palavras e todo audição.
Quero ouvir seu canto de sorte
E me banhar no inexplicável que sai dessa garganta.
Quero ouvir sua voz até o fim de mim
E saber que meu País tem seus mistérios divinos
E humanos.
Canta Gal  - uma nação caminha à sua Voz.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Claudia Cunha como Gabriela

Foi uma noite amadiana, entre muitas cores, reflexões sócio-antropológicas pairavam no ar... O palco do TCA esperava Mia Couto para fazer uma palestra memorável, elegante, erudita, centrada, poética, reverente, simples e doce: apaixonante o escritor de O último voo do flamingo...
Antes, atores relembravam, sem brilho, personagens de Jorge... De repente, uma voz cantando se passou por Gabriela; voz afinadíssima pertencente a uma mulher vestida de vermelho, arranjo florido na cabeça, esguia e leve como um pássaro, tomou de assalto os olhos e a audição da platéia e foi a grande revelação da noite.
Uma platéia fria ou assombrada com que via e ouvia naquele célere instante? Perguntei-me um pouquinho, só um pouquinho, porque não poderia perder o que senti, ali, ouvindo Gabriela cantando. Gal estava ali também, no palco, como herança da grande e jovem cantora... Meus Deus, uma mulher como epifania e eu sentindo a beleza do mundo, da minha negra Bahia, a falar do meu amado Jorge e esperando dois mestres que chegariam, Mia já foi falado, o outro: Mateus Aleluia!
Noite exitosa encerrando o excelente Conlab que a Bahia proporcionou. Parabéns a Jamile Borges, Adriana, Fernandinha, Luiza Reis: meu povo lá do Posafro.
E mais que tudo: parabéns àquele transbordamento em minutos! Claudia Cunha, eu te amo!

terça-feira, 28 de junho de 2011

Maria Bethânia faz 65 anos



O que aconteceu no cenário cultural brasileiro nos anos 60 revolucionou o nosso fazer artístico e legou para eternidade nomes que souberam sintetizar todo um processo histórico de evolução lítero-musical. Jovens, como Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Elis Regina, Tom Zé, Nana Caymmi, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Gal Costa, Chico Buarque, Dori Caymmi, Nelson Motta, Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré, Wilson Simonal, José Carlos Capinan, Nara Leão, e outros, renovaram continuamente a chamada MPB.

E ela, a menina de Santo Amaro da Purificação. A moça dos gestos fortes, do nariz adunco, dos cabelos crespos, da voz grave, da androginia sertaneja, da beleza agreste, da rebeldia sem par, da dramaticidade luso-africana, da impecável pronúncia, dos desatinos; a menina-mulher nova expressão do feminino, ora água, ora terra; ora fogo, ora ar, gritando aos quatro ventos: "Carcará, pega mata e come; Carcará não vai morrer de fome”, irradiando-se do show Opinião, no Rio de Janeiro, em 1965, para o estrelato maior que já dura 46 anos em todo Brasil.

Neste 18 de junho, Maria Bethânia completa 65 anos. No mesmo ano que o mestre dos mestres, João Gilberto, completou 80. Os nomes mais caros dos artistas que venderam a Bahia ao mundo estão amadurecendo. É bom se registrar a grandeza e a importância de uma mulher perfilada de negritude, nordestina, inventiva, que traduz o que a Bahia inventou ter. Uma diva em que nada deixa dever a outras no planeta.

A celebridade que porta contas, patuás, crucifixos, relicários; veste-se de branco às sextas-feiras, mesmo morando no Rio de Janeiro; enfeita santos católicos, louva e agrada orixás; canta a sua fé que se coaduna com a fé do povo negro brasileiro. Preserva o catolicismo; pratica o candomblé de ketu.

Ali, na voz de 65 anos, a poesia dança e exclama sua presença na contemporaneidade. Ali, desenhos sócio-antropológicos ensinam o Brasil a ser Brasil. E a mulher que ama ser mito, entra em cena, como uma professora, com elegância e criatividade, impulsionando parte do nosso povo a ter amor por livros e pela arte.

(Publicado no Opinião do A Tarde, edição de Jary Cardoso, em 18 de junho de 2011)