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sábado, 14 de julho de 2012

Carta de amor de Maria Bethânia




Em finais de março deste ano, a grande cantora santo-amarense lançou o seu mais recente trabalho intitulado Oásis de Bethânia, um disco que aponta para algumas reinvenções estéticas que a artista, do seu jeito, não deixa de operacionalizar. Trouxe compositores que se afinam com seu perfil de intérprete, destaque para o baiano Roque Ferreira, que logo terá Maria Bethânia como a voz principal da expressão do seu talento lítero-musical. 
Mais um trabalho precioso desta baiana incansável. Agora, o momento mais marcante e polêmico do disco remete a questões sócio-antropológicas, no universo das religiosidades e identidades das quais Bethânia nunca se distanciou. A canção Carta de amor, erguida a partir de um contundente texto poético de autoria da cantora, que foi musicado e acrescido de versos por Paulo César Pinheiro, representa genialmente uma resposta contra os detratores do blog “O mundo precisa de poesia”, e dos arroubos injustos e levianos que agrediram a artista mais importante da canção brasileira na atualidade.
Indo por “Não mexe comigo que eu não ando só”, passando por” A rainha do mar anda de mãos dadas comigo/ Me ensina o baile das ondas e canta, canta, canta para mim”, chegando a “Sou como a haste fina que qualquer brisa verga/Mas nenhuma espada corta”, para dizer ao Brasil de onde ela veio, de como aprendeu a sentir o mundo e que, com seu talento, transmite e louva os elementos que traduzem a sua fé de mulher nascida na Bahia.
Uma Carta de amor, sim. Que foi incompreendida por jornalistas, como Pedro Alexandre Sanches, afirmando que a artista destilou ódio num texto intitulado como amor. Na canção, Bethânia dói e recorre à proteção em que ela acredita; pontualmente magoada, ela subverte a dor com a força que lhe é peculiar e se abriga, como menina, à luz do amor que sua espiritualidade lhe entrega.
Uma carta de amor dirigida a Deus, Nossa Senhora, Orixás, Caboclos, Zumbi, Buda, Gandhi, ao divino que se permita...  E contra a intolerância que fez esta oração nascer

(Publicado em 04/07/2012, no Jornal A Tarde, página 03, Caderno Opinião, Coordenação Jary Cardoso)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Oásis de Bethânia


Oásis de Bethânia


POR MARLON MARCOS ( no blog Terra Magazine - 29/05/2012)


Para argumentar, inicialmente, este artigo sobre o novo trabalho fonográfico da cantora Maria Bethânia, Oásis de Bethânia, bastaria dizer que este nasceu da sua ação íntima como artista e pensadora e traduz a sua singularidade. É notável que toda obra da cantora baiana fundamenta-se naquilo que ela é para si mesma, ou seja, no que ela escolhe para dizer e para cantar e é fruto de um esteio estético orientado por sua consciência no mundo, viabilizado pela inteligência privilegiada, enriquecido pelas matrizes culturais das quais ela bebeu como criatura nascida no Recôncavo baiano.

Um disco que aponta uma leve reinvenção sem distanciar-se das principais características que deram vida a personagem Maria Bethânia no cancioneiro brasileiro. Ela canta dez canções escolhidas para comunicar lítero-musicalmente as transformações que ocorreram em sua vida desde os belos trabalhos Tua e Encanteria, lançados em 2009, pela gravadora Biscoito Fino. Para cada canção um arranjador e executor diferente, criando atmosferas mais diversas e acertando na ideia em alterar identidades sonoras antes mais homogêneas com as criações exclusivas do seu maestro (há quase 30 anos) Jaime Alem.

Numa primeira audição o disco pode parecer doído e noturno. Mergulhando mais um pouco, insurge-se contra isso, a luz solar do canto que, ao meio da dor, ainda assim, imprime esperança e bem estar auditivo. Um compósito do amadurecimento e da liberdade que definem os trabalhos feitos por Maria Bethânia, inclinando-se a novidades que não superam suas marcas expressivas e nem adulteram sua personalidade artística.

O violão e arranjos de Lenine, em Velho Francisco, de Chico Buarque, emolduram a força que a cantora deu a esta canção; surge a viola caipira em Fado, do baiano Roque Ferreira, arranjada e executada por Jaime Alem; Jorge Helder é co-criador geral da proposta estética do Oásis de Bethânia, junto com a cantora, e de novo com ela, cria os arranjos para um dos momentos mais líricos e delicados do disco, Casablanca, também de Roque Ferreira. Lágrima, de Cândido das Neves, é arranjada e executada com o primor de Hamilton de Holanda; tem Calmaria de Jota Velloso, adaptada por Bethânia e acompanhada nos berimbaus por Marcelo Costa e Marco Lobo.

Ainda nas canções: Barulho ( Roque ferreira), Calúnia ( Marino Pinto e Paulo Soledane), Salmo ( Rafael Rabelo e Paulo César Pinheiro) trazem respectivamente como arranjadores Maria Bethânia e Jorge Helder, Maurício Carrilho e André Mehmari. E costuram a paixão comum na interpretação da cantora e, ainda, alude a uma das suas inspirações, Dalva de Oliveira, marcada pela canção Calúnia.

A terceira canção do CD, Vive, com uma levada pop, é acompanhada pelo timbre do violão de Djavan, que a escreveu e a arranjou, e mostra ao Brasil, que se é possível tocar no Rádio algo de qualidade, leve, bem cantado e cheio de nuances que revigoram a noção do amor romântico e pode ser chamado de lindo.

Fernando Pessoa, no heterônimo Bernardo Soares, como indicação de Fauzi Arap, aparece em Não sei quantas almas tenho, numa récita que intercala Calmaria e Fado e desenha a inventividade da cantora, sua primorosa lição de intertextualidade, ligando a Bahia a Portugal, tocando fado à luz da viola caipira, juntando a poesia do sobrinho Jota Velloso à do mestre maior lisboeta.

É em Carta de amor, canção de número 9, que Maria Bethânia desfia, com intensidade, a sua grandeza comunicativa na cultura brasileira. De um texto escrito por ela com impressões sobre a sua vida, somando-se a trechos musicais criados brilhantemente por Paulo César Pinheiro, a cantora exorta a sua religiosidade, entre ensinamentos do catolicismo e das religiões de matrizes africanas, singularizando a sua presença no mainstream do nosso cancioneiro, com aspectos fundantes da sua condição sócio-existencial erguida pela junção do lusitano, africano e indígena, num diálogo de universalidade justaposto a isso, no CD Oásis de Bethânia. A canção fala de amor porque exprime fé e certezas que a cantora adquiriu em sua “territorialidade” de mulher pontualmente baiana.

Marlon Marcos é jornalista e antropólogo email: ogunte21@yahoo.com.br

sábado, 31 de março de 2012

Maria Bethânia em seu Oásis: "Amar já é um protesto"


Marlon Marcos
Especial do Rio de Janeiro

Prestes a lançar no mercado fonográfico brasileiro o seu mais recente trabalho, o CD Oásis de Bethânia, a cantora santo-amarense, em entrevista coletiva na sede de sua gravadora, a Biscoito Fino, no Rio de Janeiro, descontraidamente, falou sobre suas novas incursões musicais, e sobre a sua constante tentativa de imprimir maneiras inéditas de expressar o canto que a consagra como uma das mais importantes cantoras brasileiras e  como a artista mais inventiva em atividade em nosso cancioneiro.

Motivada a falar sobre criação artística e as novidades estéticas que compõem o novo disco, a cantora desfiou: "Eu sempre busco novas sonoridades, me intrigo, me mobilizo; o resultado com Oásis me lembra a sonoridade que alcancei com Ciclo (1983), e é isso que me dá sentido para entrar em estúdio e depois lançar um novo trabalho".

Oásis de Bethânia foi construído a partir da intervenção musical de vários músicos arranjadores. São 10 canções guiadas por nomes como Djavan, Lenine, Hamilton de Holanda, Marcelo Costa, André Mehmari, Mauricio Carrilho, Jorge Helder e o fiel escudeiro, o maestro Jaime Alem; cada qual cuidou dos arranjos sob a orientação e o desejo de expressão da cantora, o resultado em si já inova a forma pela qual, em décadas, orientou a elaboração musical de Bethânia, sempre contando com as exclusivas intervenções de Jaime Alem.

Com a desenvoltura de sempre, a cantora passeou por vários aspectos da cultura brasileira, de poesia até o novo disco de Gal Costa: " Não é um disco pra se ouvir todo dia, nem toda hora. Adorei a primeira música ( Recanto Escuro). É um disco de Caetano Veloso, o qual ele escolheu Gal como intérprete".

Maria Bethânia faz 47 anos de carreira (oficialmente) e, segundo foi informada, atingindo o exato número de 50 discos lançados ao longo de mais de quatro décadas. Uma carreira marcada, como ela insiste, pelo prazer de cantar e de se relacionar com o palco, com a arte. Nesse quesito recita Ferreira Gullar: "A arte existe porque a vida não basta".   Intrépida em sua caminhada a favor da poesia de todo dia, ela reúne neste trabalho, o melhor de uma lítero-musicalidade que convida o público brasileiro a olhar, reiteradamente, para o sertão do Brasil, este que representa o paraíso estético que tanto comove a Maria nascida na região Nordeste.

O disco fala de amor como rebeldia, para tanto, ela confirma: "amar já é um protesto", e assim rebate, com a elegância que lhe construiu, as críticas sofridas sobre a criação do blog O mundo Precisa de Poesia, projeto oferecido a ela pelo antropólogo Hermano Vianna, que em "desagravo pesado e soturno" parte da opinião pública deste país negou a efetivação.

Mas como ela mesma diz, parafraseando seu amado Chico Buarque: "Mas eu não quebro não, porque eu sou macia". E segue serenando entre amor e protesto, sons e poesia, preparando o show que apresentará ao país o Oásis de Bethânia que todos já conhecem desde 1965. 

(Publicado no Terra Magazine em 28/03/2012)

Maria Bethânia: "A estupidez faz mais barulho que a poesia"

Claudio Leal
Do Rio de Janeiro

No lançamento do disco "Oásis de Bethânia", na sede gravadora Biscoito Fino, no Rio de Janeiro, a cantora Maria Bethânia comentou, pela primeira vez, os ataques ao projeto de divulgação de poemas em língua portuguesa na internet, através do blog "O mundo precisa de poesia", coordenado pelo cineasta Andrucha Waddington e pelo antropólogo Hermano Vianna. Os produtores foram autorizados a captar até R$ 1,3 milhão na Lei Rouanet. Bombardeado por críticas, o projeto terminou arquivado. Na conversa com jornalistas, Bethânia abordou de forma indireta e, por um momento, sem sutilezas, sobre a polêmica.
"O blog, eu não abortei. Primeiro que eu nem engravidei dele (sorri). Depois, o blog é do Hermano (Vianna) e do Andrucha, meus dois amigos amados. A ideia, a sugestão, tudo deles. Eles assistiram a uma leitura minha, na Casa dos Saberes, e ficaram encantados, me passaram a ideia. Foram me convidar para ser a intérprete desses projetos, dizendo os textos. Fiquei honradíssima e falei: se me chamarem, eu vou correndo", relatou a cantora baiana. "Mas aí teve aquele desagravo tão pesado, soturno. Hermano se zangou muito e escreveu: afinal o Brasil não merecia, não precisava de poesia. E cancelou o projeto, com toda razão. Mas o projeto é dos dois. Espero que um dia eles possam fazer. Porque era útil. É bonito. (...) O meu nome ficou assim, entre o Hermano e o Andrucha, o nome que podia mais causar um frisson. E aproveitaram. Como há muito tempo, desde que eu me entendo por gente, sou muito séria, faço meu trabalho, faço minha vida sossegada, não sou de turma, não me dou, minha praia é minha praia... Isso, há muitos anos, vem causando muita reverência, muito respeito, muito reconhecimento... Chega uma hora que incomoda".
Com pequenas pausas, ela relatou o que sentiu após os ataques, citando um trecho da música "Querido diário", presente no disco recém-lançado de Chico Buarque: "Aí aproveitaram essa coisa pra me bater. Me bateram. Mas eu andei. E eu sou como Chico Buarque: não quebro, não, porque sou macia."
Antes desse comentário, Bethânia afirmou que "o mundo está grosseiro, está sem classe, sem delicadeza".  

Terra Magazine questionou se, a partir dessa percepção, ela considera que o interesse por poesia diminuiu no País. "Não diminuiu nada. É uma fome que você não imagina. Mas é assim alucinante. Não só poesia, mas literatura de um modo geral", defendeu a artista. "Você vê a bienal infantil, a loucura que é. Vi ontem que o Brasil bateu recorde mundial de visita a uma exposição. Isso é maravilhoso. A vontade, a sede, a fome de cultura é cada vez maior. Cresce no mesmo volume da estupidez. Agora, a estupidez faz mais barulho. A poesia... A Neide Archanjo repete o Baudelaire, se não me engano: a poesia é uma pétala que cai sobre o abismo... A cavalaria vem e explode sobre ela. Mas a fome existe", comparou.
  
Com doze músicas, o disco "Oásis de Bethânia" inclui uma canção que não deixa de pesar como uma resposta aos detratores: "Calúnia" (Marino Pinto/Paulo Soledade), consagrada pela voz de Dalva de Oliveira, uma das principais referências da cantora - "Quiseste ofuscar minha fama/ E até jogar-me na lama/ Só porque vivo a brilhar/ Sim, mostraste ser invejoso/ Viraste até mentiroso/ Só para caluniar". Brincou com os jornalistas: quem quiser que vista a carapuça. O disco traz ainda um texto escrito pela cantora em 2010: "Carta de amor", que dialoga com os versos do auge das farpas públicas trocadas por Dalva e Herivelto Martins. "Eu escrevi esse texto, entre milhares, no ano passado, nem lembro quando, e foi bom escrever. Eu precisava escrever essas palavras. Escrevi e eu precisava dizer depois essas palavras. Disse. Não sei se é bom, se é mau, se é bonito, se é feio... Certo ou errado."

Mais adiante, Bethânia procurou não limitar o alcance da junção de letras, mas reconheceu que pode favorecer a interpretação de que representa uma resposta às críticas ao projeto de poesia. "Na verdade, primeiro que eu não escrevo pra quem eu acho que não possa compreender. Eu escrevo pra mim. Acho que eu posso me compreender um pouquinho. Pro meu analista, mostro muitas coisas pra ele, pros meus amigos, atores, diretores, Fauzi Arap, Elias (Andreato)... Pessoas de dentro da minha vida e do meu coração. Pra essas pessoas, eu escrevo. Eu acho que serviu... A escolha de 'Calúnia'. Eu sempre passo no repertório de Dalva, em qualquer trabalho. Me veio 'Calúnia' e eu disse: pronto, é um bom prólogo pra esse texto", contou Bethânia. E sugeriu: "Dentro desse contexto e de todos os outros contextos que funciona. É como roteirista de show. Tá nítido ali. Na dramaturgia, eu acho que está claro. Então, escolhi assim. Mas eu não posso dedicar: fiz isso pensando... Porque fica pequeno. Eu faço. Atinge... A brincadeira de 'Carta de amor' é porque é, sinceramente, uma carta de amor para mim. Eu escrevendo pra me livrar de demônios, angústias, dores, mágoas ".

Segundo a cantora, o disco "se dirige para uma mudança cênica". Mas não quis adiantar detalhes do show que nascerá do seu "Oásis", cuja capa traz uma foto de Gringo Cardia do sertão de Alagoas. "O sertão é o silêncio, a resignação e a dignidade", disse. Ela também analisou, na entrevista, os trabalhos recentes de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gal Costa. "Chico fez um dos discos mais bonitos do mundo".

"Caetano que me deu ("Recanto"), no dia de Natal. Passamos na casa de minha mãe. Me deu de presente: 'Eu dediquei a você e ao Gil'. Eu disse: 'É o quê? Gilberto, tudo bem, músico e compositor da vida de Gal. Mas, eu?'... Ouvi o disco inteiro, lógico. É um disco que não é para ouvir toda hora, nem todo dia. Caetano é exuberante, cruel, dorido demais. Fiquei apaixonada pela primeira faixa", declarou Bethânia. Na análise do disco da companheira geracional, ela destacou a marca da autoria de Caetano. "Achei muito bem cantado. Não é um disco simples, não é um disco comum, não é um disco qualquer. Primeiro de tudo, eu acho que o Brasil, que tem no mesmo ano um disco inédito de Caetano Veloso e de Chico Buarque, isso é privilégio dos maiores. Caetano chamou a Gal para interpretar o seu ineditismo. Chico fez ele e os parceiros de música, João (Bosco) tocando... Tudo lindo. Eu acho dois trabalhos lindos, completamente diferentes, apaixonantes... Acho que é merecido, é um reconhecimento à cantora que sustentou o movimento que ele e Gil criaram. Por isso eu não entendi ser dedicado (a mim)... Ele, Gil e Gal foram o centro do Tropicalismo. E Gal sempre foi a intérprete disso. Nada mais justo do que reconhecê-la, homenageá-la e reverenciá-la fazendo o disco. Não é um disco qualquer. É o Caetano".

No final da coletiva, a filha de Iansã correu para a frente da casa da Biscoito Fino e fez uma saudação ao orixá: "Vou pegar um pouco de chuva!". 
( Publicado pelo Terra Magazine em 28/03/2012)

terça-feira, 20 de março de 2012

Oásis de Bethânia


Vendo tudo azulzinho. À espera da voz desta mulher para ter mais prazer. Repouso do meu encantamento... Musicalmente, no Brasil, o meu mais profundo. Venha.