Hoje é um grande dia. Salvador recebe um entre
os mais importantes artistas que compõem a história da canção
brasileira. Ressoar de integridade, que fez do canto expressão de
singularidades e emoção em nome do amor que orienta.
Nascente da beleza que preciso em minha vida. Aquela vontade de ser. Formas da repetição que inova a inspiração e faz silêncio.
Poesia para o silêncio. E a paixão que melhora e nos faz humanos pela
simples presença morena. Presença negra. Avidez no sagrado.
Tranquilidade do profano. Entrecortes do sonho. Embriaguez que salva.
Sua voz, em nós, traduz alegria. É
uma espécie de acompanhamento para o prazer. Encenação da beleza que vibra dos
olhos, algum lugar sem explicação: a voz. A repetição no sonho quando te sinto:
minha musa.
Sua luz é o meu bem querer. Singra-me
até onde não sou e me é o amor que resguardo na força do olhar que me vem de
você. Singra-me esta força das manhãs tempestivas nessa doçura mítica da mulher
que sabe o que dizer. Eu sou a palavra na sua voz. A vontade que gera a beleza.
A pergunta no palco e saídas d’alma. O centro do que te gera é a foz da minha
morada. Serena rainha do que busco na fonte mágica da arte riscada na face
diversa deste país.
Sou-me na altivez da audição: o que
imprimo em mim, o de melhor, sangra da arte que nos refaz. Ouço por paixão.
Atravesso os dias. Desaprendo. Ali, naquele canto, o seu canto, revivo o que
não tive e represento todos os instantes da criação que me conduz; seu canto,
sua voz, aprimora o meu jeito de ser no mundo.
Sinto, do transfigurar, a vida
sendo mais nova, mais vívida, mais amorosa na qualidade do seu estar: Maria
Bethânia.
Eu quero a sua delicadeza para
alcançar a sua poesia. Meu amor lhe pede isso: apalavra na voz , o olhar de águia, a mãe no
abraço... E o som advindo do canto mais bonito do planeta Terra.
Em finais de março deste ano, a grande cantora
santo-amarense lançou o seu mais recente trabalho intitulado Oásis de
Bethânia, um disco que aponta para algumas reinvenções estéticas que a artista,
do seu jeito, não deixa de operacionalizar. Trouxe compositores que se afinam
com seu perfil de intérprete, destaque para o baiano Roque Ferreira, que logo
terá Maria Bethânia como a voz principal da expressão do seu talento
lítero-musical.
Mais um trabalho precioso desta baiana incansável. Agora, o
momento mais marcante e polêmico do disco remete a questões
sócio-antropológicas, no universo das religiosidades e identidades das quais
Bethânia nunca se distanciou. A canção Carta de amor, erguida a partir de um
contundente texto poético de autoria da cantora, que foi musicado e acrescido
de versos por Paulo César Pinheiro, representa genialmente uma resposta contra
os detratores do blog “O mundo precisa de poesia”, e dos arroubos injustos e levianos
que agrediram a artista mais importante da canção brasileira na atualidade.
Indo por “Não mexe
comigo que eu não ando só”, passando por” A rainha do mar anda de mãos dadas comigo/ Me ensina o baile das ondas
e canta, canta, canta para mim”, chegando a “Sou como a haste fina que qualquer brisa verga/Mas nenhuma espada corta”,
para dizer ao Brasil de onde ela veio, de como aprendeu a sentir o mundo e que,
com seu talento, transmite e louva os elementos que traduzem a sua fé de mulher
nascida na Bahia.
Uma Carta de amor, sim. Que foi incompreendida por jornalistas,
como Pedro Alexandre Sanches, afirmando que a artista destilou ódio num texto
intitulado como amor. Na canção, Bethânia dói e recorre à proteção em que ela
acredita; pontualmente magoada, ela subverte a dor com a força que lhe é
peculiar e se abriga, como menina, à luz do amor que sua espiritualidade lhe
entrega.
Uma carta de amor dirigida a Deus, Nossa
Senhora, Orixás, Caboclos, Zumbi, Buda, Gandhi, ao divino que se
permita...E contra a intolerância que
fez esta oração nascer
(Publicado em 04/07/2012, no Jornal A Tarde, página 03, Caderno Opinião, Coordenação Jary Cardoso)