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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O homem


Nunca saberia deixá-lo para fora do visível. Nem o desacataria a favor do esquecimento. Ele era a luz matutina que brotava com a brisa numa cidade litorânea qualquer. Sua boca era fruto da universalidade e a falta de voz expressão do seu mistério. Ele escrevia delicadezas, tinha medo da dor. Um corpo que dançava com estrelas, cavalos, peixes, mulheres, pássaros e solidão. Altaneiro em sua magreza elegante e viril. Poeta a declamar Mallarmé, Rimbaud, Baudelaire, a me ensinar sobre mim. Uma chegada como bons presságios; morada da rara beleza como em Maria Bethânia; criador como os anônimos escultores africanos. Fazedor das incompletudes deixadas nos sonhos. Água fresca deslizando pelo tórax ao calor baiano. E ainda assim: ausência.

Sua ausência era minha falta de nome. Estar ali no desenho da pedra esperando. Ter o sol menor que a força do desejo e a sede do encontro. Minha falta de nome nesses dias de profunda escuridão ao sol das ruas da Bahia. Trechos de sua fisionomia na memória dos meus olhos. Trechos da alegria que se esboçava em escritos dispersos no papel. A cor o jeito o tempero a verdade da delicadeza no nascedouro poético de um homem e ele era: o homem.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Bom dia

Amanheci, instantes da risível ficção, mas de verdade, sob o frio de Salvador. Gosto de choro na boca, lembranças de um sonho com carinho, a precisão de Mahler ao fundo sem elencar tristeza, vento na cara e na alma, o peito vazio para dar espaço à alegria. Asas desenhando encontro, flores sobre a mesa, rabiscos feito anotações para se ter o que cumprir: amanheci esbanjando energia.

Tocando-me no rosto, penteando o cabelo,  banhando-me com dengo, perfumando corpo e alma, vestindo a roupa mais agradável, tendo paciência e cuidado comigo mesmo. Amanheci querendo e exigindo saúde. À frente o mar de mim. O cinza que dói e enfeitiça de beleza. Um texto de Baudelaire para aprender escrever, a foto de uma amiga, oração a Santo Antonio. É junho e eu adoro isto. Correr para agasalhos e tirá-los com euforia. Beber vinho e viajar para São Paulo.

O dia hoje é de uma delicada poesia como outrora eu buscava nos versos de um jovem. O tempo não sorria e ainda assim eu voava de alumbramento. O hoje é um convite a me contar por dentro, sem tormentos, é rememorar o que me pode fazer ler e escrever e chorar de alegria.

Entrego-me  a este cinza, aplaudo a beleza deste dia de sutil tristeza, enveredo por minha rotina agradecendo ao sono e aos sonhos que tive na noite que passou, seguro à mão da esperança, centrado na fé que me ocupa e vou, artisticamente, sentindo a alegria que só eu sei sentir.