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domingo, 17 de novembro de 2013

A tal liberdade


Eu tenho escapado do deserto daqui
de tudo que é fala
tudo que é silêncio.

Me sobra a maneira
desajeitada desta fuga
desavisada por não saber de mim.

Outro dia limpei minhas mãos
e evitei os sonhos...

Outro dia me disse
versos insanos ao espelho
para ser segredo
e seguir sem identidade.

Rasguei a roupa limpa
e vesti a imunda,

sequei os olhos de sabores
ingênuos e inconclusos
para a medida do que
me é mais certo:
perder-me por aí
sem ter onde ir
seguindo os rastros 
da tal liberdade.

SSA, madrugada de 17/11/2013

quarta-feira, 17 de julho de 2013

E digo

Troco os pés pelas mãos 
se for 
por minha liberdade

terça-feira, 28 de maio de 2013

O silêncio da lua



Algo me asfalta até a entrada do sertão,
O certeiro feitiço da lua,
Ou o possível frio desta confusão.

Ventila do transporte à chegada,
Entre buscas e esquecimentos,
A ternura desejada.

Algo me deságua para fora das entradas
E me perco sob o silêncio da lua
No centro de um lugar desconhecido.

Mordo a carne suja da maçã
Malsão em mim mesmo
Querendo fugir do sertão
Louco na vontade mais escusa
Indo de encontro à razão
Apartado de Deus e outros ensinamentos
Descuidado alvissareiro magoado...

Negando lua caatinga lugares
Abortado do espaço
Sem ternura, sem vontade
Sem liberdade por não lhe ver.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Quando sou outro

E quase me liberto do barulho do lado de fora. Quase não penso em passado nem em futuro. É tudo presente sem vacilo, mesmo em conflito, não há vacilo na força do desejo que está. Um vento artificial incomodando o meu olhar sobre as colinas, sorrisos alheios que não me tocam, corpos dançantes que não me convidam, o desconforto das multidões na sanha da alegria desmedida.
O meu olhar me ensina a viajar dentro deste instante, a ir para fora das lembranças e a deixar de esperar momentos vindouros. É agora o que mais queria, quis, quero: agora. E vejo borboletas em azul e vermelho, em cinza e amarelo, sob o sol escaldante da cidade. Não sei se é mais paz ou se é dor apaziguada, mas o meu pensamento impede o barulho que outros fazem.
Uma festa se me extermina e já não sei do que em mim seria se a vida desta vez me dissesse sim.
Navego no centro da noção do agora e se ainda há tempo – o cais não se desfaz -, que eu me sinta descansando a boca na boca desejada e, se houver palavras que sejam: preto, te amo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Esperança Zé Celso

Zé Celso

Um país não pode ter fim. Não um que tenha José Celso Martinez Corrêa embrenhado nos movimentos do seu Teatro Oficina, sacolejando a caretice, desafiando moralismos, inspirando-se no caos, acendendo luzes e reflexões, alimentando a criatividade e, ao mesmo tempo, se divertindo.
Um dos nomes mais importantes da dramaturgia brasileira, poeta da libertação, José Celso Martinez Corrêa tem um pouco do seu trabalho e vida contados no documentário Evoé – Retrato de um Antropófago, de Tadeu Jungle e Elaine Cesar, da bela série Iconoclássicos, projeto do Itaú Cultural, e ali, fragmentos de uma poética da antropofagia ancestral tupinambá, depois de suas ressignificâncias oswaldianas e tropicalistas, ganham forma no corpo e no discurso do setentão Zé Celso, eterno e jovem encenador, em trânsitos da sua vontade de fazer reinar no Brasil a força do legado mítico dionisíaco amalgamado ao “canibalismo cultural” dos mais conhecidos índios brasileiros, os da família tupiniquim.
Expressiva beleza a nudez transgressora deste controverso artista amante das artes, um típico greco-africano inserido numa narrativa, onde ele é o narrador, que conta parte da história do teatro no Brasil do século XX, desenhando as resistências e as lutas que o Teatro Oficina, criado por Zé Celso, enfrentou para a sua permanência, na cidade de São Paulo, até os tempos atuais.
O documentário é uma ode à imaginação artística e centralizando-se em Zé Celso, centraliza-se no fazer artístico brasileiro, destacando a importância das artes para o livre pensar de um país e de quanto é revolucionário se ter humanos vivendo e fazendo aquilo que amam. Contemplação e arte, em Zé Celso, são puro trabalho.
A antropofagia, o seu sentido de transformação, que tocou na antropologia de nomes como Viveiros de Castro, e que pode ser sentida na canção Um índio, de Caetano Veloso, é o texto fundamental para se compreender as propostas estéticas do Teatro Oficina, ainda comandado por Martinez Corrêa.
O filme é uma pedagogia sobre realização. Reorienta a política, envergonhando os pesadões das economias e a burocracia.
(Publicado no Opinião, Jornal A Tarde, em 27/12/2011)