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terça-feira, 18 de junho de 2013

O delírio consciente em Maria Bethânia

( o mito faz 67 anos em vida!)



Ela é uma das mais importantes cantoras brasileiras de todos os tempos. Sua trajetória artística imprime continuidades e rupturas que lhe garantiram sucesso, mas mais que tudo, lhe garantiram prestígio em função da integridade e da vontade de marcar-se-nos em seu desenho estético e em sua vontade de dizer identidades em função da arte.

Maria Bethânia fez, nestes 18 de junho, 67 anos de vida; neste ano completou 48 anos de carreira dedicada ao canto e a expressões textuais que valorizam artística, social e educativamente a palavra como dispositivo cultural de aproximação, reflexiva e emocional, entre muitos humanos, brasileiros ou não, que amam a música popular feita no Brasil.

Nos últimos 10 anos seus CDs perfilaram conceitos que tematizam aspectos identitários expressados por um país fora dos eixos centrais ou das centralidades culturais erguidas tão somente pelos polos urbanos. Sua cantoria exprimiu-se entre violas e atabaques, pandeiros e berimbaus, agogôs e violinos; projetos como Brasileirinho (2003), Pirata (2006) e Encanteria (2009), recuperaram para o mainstream em nosso cancioneiro, retratos muitas vezes esquecidos de um povo que dá alma e inspira a inventividade nacional brasileira.

Uma cantora modelar, entre o ritmo da musicalidade e da palavra, inscrita em sua  forte personalidade artística, que reúne o melhor da canção nacional e da poesia em língua portuguesa, para exercer um ofício que remonta à beleza e altera as paisagens estagnadas e empoeiradas de um tempo nosso tão volátil e estressante, tão confuso e acelerado, tão indigestamente palatável.  

Os traços da singularidade em Maria Bethânia se deixam ver em suas atitudes profissionais, e mais ainda em seu domínio artístico frente ao microfone, em cima de um palco.  A marcação que se repete ao longo de décadas incide sobre o mito que ela construiu, e valoriza o seu caráter regional, alicerçado no Recôncavo da Bahia, que a torna talvez, a mais representativa cantora brasileira quando o quesito é universalidade.

Um breve olhar sobre os produtos fonográficos que trazem a assinatura desta artista constata os elementos socioeducativos que se espraiam ali; ressignifica o papel da arte para além dos meros motivos da fruição.  Um aparato antropológico e literário que ainda não foi devidamente considerado pela Academia Brasileira. Em sua expressão artística refletem-se saberes populares que dão sentido às religiões de matrizes africanas e ao catolicismo praticado no Brasil. Além do movimento a favor da pesquisa, da leitura e, principalmente, do fomento de práticas que destaquem a poesia.

Seu corpo também é seu palco e o que ela buscou ser se evidencia cotidianamente. Nas inseparáveis missangas religiosas, nas pulseiras, nas roupas brancas, no cabelo moldura, na fala e no canto rascantes;  sua concentração quando canta, a entrega quando no palco, a faz transmitir uma espécie de transe que não a tira da consciência e das suas motivações estéticas. Ela alcança o delírio de Platão, encanta-se com as musas sendo ela mesma uma, das mais potentes no cenário musical deste país, mas não se perde de si, ali, ela não deixa de ser Maria Bethânia.

Uma das grandes inovações da carreira de Bethânia foi o disco Brasileirinho que este ano completa 10 anos. Hoje, para ilustrar o aclive criativo dela, em seu mais recente trabalho Oásis de Bethânia (2012), um texto de sua autoria, uma espécie de poema disperso, evocativo e expressivo de seus valores religiosos, foi musicado por Paulo César Pinheiro, que acresceu alguns versos com funções sonoras, o Carta de amor, tornou-se um emblema do voo da águia, da materialização de uma força que transige as lógicas e os padrões e coaduna-se ao início de tudo na longeva vida da cantora: brutaliza-se contra a injustiça sem nunca deixar de ser beleza. E ser amor. E então: pega, mata e come! Transmutando-se em amor novamente.

A verve criacional de Maria Bethânia pode ser representada nas incontáveis vitórias que a cantora obteve em premiações como os antigos Prêmio Shell e Prêmio Tim, que respondem atualmente pelo título de Prêmio da Música Brasileira, que na sua 24ª edição, realizada na noite de 12 de junho, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, garantiu à cantora os troféus de melhor cantora de MPB do ano de 2012, e o inédito para ela, de melhor canção também na categoria MPB, por Carta de amor, confirmando a força expressiva desta senhora que o tempo só fez melhorar.


Marlon Marcos é jornalista e antropólogo  email: ogunte21@yahoo.com.br

(Publicado em 18 de junho de 2012, no Jornal A Tarde, Caderno Dois+, coordenação Simone Ribeiro)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Atlântida - Ná Ozetti



"Desde o Oiapoque
Até Nova York se sabe
Que o mundo é dos que sonham
Que toda lenda é pura verdade..."
Rita Lee

 





 

terça-feira, 27 de março de 2012

Homem, Menino, Deus


Ele sabia experimentar a vida negando os inevitáveis dissabores. Tinha coragem e aceitava desafios e rancores. Altivo como árvore frondosa, doce como água e chocolate, destemido como águia, astuto como tigre. Seu caminho rastreava novidades e seu corpo inferia os mistérios da sedução. Tudo lhe era paciência, quando não: resolução. Seus olhos espelhavam o azul do horizonte e abraçavam a alma de quem o enxergava.
Tão perto tão longe, ele era o que estava. E estando, ele era sendo o nome da afirmação. Sim – sem restrições. Longo e saboroso. Nome que se diz ao silêncio. Existência que se copia. Uma narrativa mítica em tempo presente. Corpo vivente a projetar imaginações daqueles que o queriam. Homem vivo requerente da própria imagem. De tão belo, era sonho inspirando palavras desenhos canções.
Da realidade carnal mais bruta: ele se tornara ficção. E vivia impregnado na alma dos mais desejosos. Beleza de expressão do eterno. Exemplo desértico em toda sua composição. Luz e mistério. Escuridão para ampliar os sentidos. Sorriso para fazer amanheceres. Lágrimas para enternecer. Carinho em qualquer lugar. Reinvenção do masculino. Menino de asas representando Deus. Toque de mágica: o tipo sublime que qualquer memória nunca esquece.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Maria Bethânia: o mito da estrela

"As estrelas existem para iluminar o caminho. E para avisar quando prenunciam alguma coisa boa. Desta vez, ela é o pássaro da manhã. O verão está aí. O sol já desponta mais cedo. Chega de escuridão. Eu sempre me lembro que a vida é mortal. Ela sabe do imortal da vida e da morte. E nos lembra disso com sua presença. Ela, como Fernanda Montenegro no teatro, como Nelson Gonçalves e Ângela Maria no disco, e como mais uns poucos outros, criou uma forma autônoma de existir."

FAUZI ARAP

(Retirado do FotoBlog do Rosa dos Ventos-Bahia)