segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Resposta a Fernando


"Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar - ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspecto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas."

- Fernando, melhor rodar no vazio que é menos indiferente que a indiferença. Eu nos aconselho: é tempo de calar...

Eterno


 
Eu só consigo sentir o mundo à maneira dos românticos. Meu tempo se guia numa constante adolescência que azuleja noites e dias. Tenho a tristeza que cria buscando a alegria vital. Sorrio para o mundo e traço admirações por gente, e no mais: idolatro o mar.

Longe do carnaval. Quero o panorama do silêncio me vendo em outro olhar. Minha procura é infinita. Finda-se quando não há em quem pensar. E penso noite e dia quase sem dormir; se durmo, penso ao sonhar... Meu tempo é vácuo vazio, o significado são poemas alheios marcando a pele da dicção que não tenho.
Liberto-me  na palavra. Vou até a inutilidade da palavra para me sentir preciso. Quero a precisão dos que creem; quero o impasse dos que creem. Também quero a atitude dos descrentes, já que a esperança também me dói. O amor é o compasso que me restou. E escrevo de amor, respiro amor, sobro por amor...
Ao vento.
Ouço a música dos gênios. Existem vozes de mulheres que sou eu ecoando: a arte compensa esse meu instante  à vida de tanto pesar. Existem vozes de mulheres que são a minha leveza. Apesar de tanto desconforto – eu sei onde a beleza está. Contamino sua nascente com perguntas. Na beleza não há certezas, só possibilidades.

Sem mais esperar, toco estrelas na oração que nasce e como síntese de tudo que fui: me guardo à memória  aquática de um blog que ninguém lê.

Mas já aprendi a ser eterno.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

do seu olhar

Deixarei morando em mim o cheiro que colhi, em tardinhas de frio, do seu olhar.

Poemática

E quase que não sei dizer
do desalento da minha fala.
Reparo no barulho da
minha porta fechando.
O que ansiava dizer
me escapa disforme,
sorrateiro,
sem nome.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Ouvindo Maria Bethânia



Um dia ensolarado, eu em círculos pela ruas sujas da cidade, silêncio obrigatório, puxando para fora a voz de Maria; dali, uma presença morena rodando na vitrola da minha espera, nessas vias da tristeza, no estado da paixão.

Mirando-me



Tem que ser e ter gente. Por mais difícil que seja: gente para outra transcendência, outra desobediência, outro encontro, consolo, seguimento, permanência. Gente para aceitar na roda a ideia de amor que me compõe.

Gente em sombra e luz. Alegria ou agonia, gente para abraçar, comover, sonhar... Todos  loucos, perdidos, sozinhos, mas como agora aqui, precisando se sentir feliz.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Do gostar

Não há nada mais intenso, mais legítimo,mais vibrante, mais sereno, mais gratificante, mais ilusório, mais real, mais invulgar, do que inteiramente gostar de alguém.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Pela delicadeza que há



De alguma delicadeza  preciso, mesmo aparando arestas, expurgando sentimentos, sofrendo fome e sede, calando verdades, mentindo... Alguma delicadeza somada à libido, ao desejo desconcertante, à volúpia desimpedida e, ainda em alta temperatura, ao silêncio.

A delicadeza refrescando feridas, guiando no escuro, convidando esperança, inspirando... A delicadeza maior que os sentidos movendo para o encontro. Esse alinhamento da transgressão e da beleza é a delicadeza em projeção.

Preciso tocar-me com palavras e com as mãos para acessar o abraço mais sonhado.  Ver nascer e morrer o sol; ter chuva no amanhecer. Rastrear marcas do amor pulsando em livros, discos, filmes, camisetas, esportes, consultórios, facebook...

Rastrear sem por que, só coragem... Sem ter o que saber: rastrear para ver as superfícies da imagem amada diluída em tudo que é, mas que não é seu, não está em você.

E assim, até na mais doída das faltas: eu careço desta delicadeza vertendo poesia.

Das janelas

Sentir dor nas costas e temer a morte. Lançar-se a loucuras, correr riscos bobos e infantis para perceber-se vivo, se amedrontar como criança com um pouco mais de quarenta, sentir febre num calor de 32 graus, tontura como charme, esvaziando à força o peito gritando sentimento, sombrear-se, sobrar, vagar e ir, pela reta da solidão.

Preferir o vazio do não sentir para ter a paz que derruba ao chão. Descaminhar o desenho sem sentido, externando a história de uma vida. Ser pura entrega frente ao constante e contínuo não promulgado pelo mundo; pura entrega e perguntas para respostas em não. O estar neste mundo.

Cena de cinema. O olhar profundo arquejando um coração. Boca agressiva a outra boca do não; procuras dentro do silêncio empurrado ao romantismo ou fanatismo ou insatisfação. Cores crepusculares. Invulgares no dizer do querer que vive aqui. Romântico para um amor que ainda dorme noutro país, à luz da lua, rodando no espaço da querência, incerto; soturno, amor amedrontado, dormindo o profundo sono da grande confusão.

E os olhos o assistindo do lado de fora da janela.




quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Gato que brincas na rua


Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.


FERNANDO PESSOA