quinta-feira, 19 de junho de 2014

Para Chico, 70 anos!



Meu doce Chico,
um grande dia de aniversário para você
e a sua música e a sua poesia
ensolarando ainda mais os dias brasileiros
e às noites: a valsinha da emoção
encontrando o amor.

Maio - A perigosa Iara





.Ao cair de todas as tardes, a Yara, que mora no fundo das águas, surge de dentro delas, magnífica. Com flores aquáticas enfeita então os cabelos negros e brinca com os peixinhos de escapole-escapole. Mas no mês de maio ela aparece ao pôr-do-sol para arranjar noivo.

As mães se preocupam com seus filhos varões, sabedoras de que a Yara quer noivos. Mas para os filhos, Yara é a tentação da aventura, pois há rapazes que gostam de perigo.

À medida que a Yara canta, mais inquietos e atraídos ficam os moços, que, no entanto, não ousam se arriscar.

Sim, mas houve um dia um Tapuia sonhador e arrojado. Pensativamente estava pescando e esqueceu-se de que o dia estava acabando e que as águas já se amansavam. Foi quando pensou: acho que estou tendo uma ilusão. Porque a morena Yara, de olhos pretos e faiscantes, erguera-se das águas. O Tapuia teve o medo que todo o mundo tem das sereias arriscadas — largou a canoa e correu a abrigar-se na taba. Mas de que adiantava fugir, se o feitiço da Flor das Águas já o enovelara todo? Lembrava-se do fascínio de seu cantarolar e sofria de saudade. A mãe do Tapuia adivinhara o que acontecia com o filho: examinava-o e via nos seus olhos a marca da fingida sereia.

Enquanto isso, Yara, confiante no seu encanto, esperava que o índio tivesse coragem de casar-se com ela. Pois — ainda nesse mês de florido e perfumado maio — o índio fugiu da taba e de seu povo, entrou de canoa no rio. E ficou esperando de coração trêmulo.

Então — então a Yara veio vindo devagar, devagar, abriu os lábios úmidos e cantou suave a sua vitória, pois já sabia que arrastaria o Tapuia para o fundo do rio.

Os dois mergulharam e advinha-se que houve festa no profundo das águas.

As águas estavam de superfície tranqüila como se nada tivesse acontecido. De tardinha, aparecia a morena das águas a se enfeitar com rosas e jasmins.

Porque um só noivo, ao que parece, não lhe bastava.


Esta história não admite brincadeiras. Que se cuidem certos homens.

CLARICE LISPECTOR

terça-feira, 17 de junho de 2014

Maria Bethânia, 68 anos!



Ela se veste na elegância da sua própria caminhada. Desenha vigor e esperança quando canta e imprime possibilidades estéticas, às vezes, combatendo a ferocidade das críticas que se opõem às escolhas do que ela elege como expressão. É um mito em termos de coerência artística, uma voz para a pura fruição, mas que se qualifica a indicar caminhos culturais, educativos, humanos, que nos respeitam em nossas identificações como brasileiros.

Inventiva: uma senhora menina que faz hoje, dia 18 de junho, 68 anos, numa carreira de quase 50, marcando-se em reiterações e saudando o popular, o sublime escondido, a força negra e indígena que nos perfila como povo em diálogo com outros povos brancos ou quase brancos que chegaram a isso que temos e amamos como Brasil.

Nisso tudo: brota dela poesia, a busca por novas sonoridades, a alma cabocla brasileira, o sertão da lua ao som das violas, a palavra do português mais claro, a vontade de amar, a sede do amor, a paixão pelo palco, a missão de querer estar para simplesmente cantar o que advém do mistério das sereias, no nosso caso, do mistério das Iaras.

Tenho um sonho doce e edificante por ouvir Maria Bethânia nas duas últimas décadas - me pego a ler Sophia de Mello Breyner, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, impulsionado pela vazão literária que nunca escapa da verve expressiva da cantora - uma das maiores vozes do mundo contemporâneo - sem vergonha de ser brasileira nascida no interior da Bahia entre o agreste e às águas do Recôncavo.

Uma presença que nos dignifica e humaniza pelos conceitos que opera em nome da sua verdade artística. Uma senhora sem medo da sua imagem de senhora. Simbolizando fé e otimismo em defesa da vida, da água, da folha, da sabedoria, da educação de todos aqui, e mais, como profunda diversão, da inserção da poesia como alimento diário dos corpos e das almas de qualquer brasileiro.

Controle de qualidade - doutora notório saber em teatro, literatura, música popular, antropologia, história e veracidade. Grande!

Um ente que a Bahia deu ao Rio de Janeiro e que, como brasileira, nos orgulha em qualquer lugar deste mundo.

Deus salve Maria Bethânia e mais luz à sua Oyá!

sexta-feira, 6 de junho de 2014

meus quintais (2)



"Ainda está muito longe de eu desvendar o mistério do canto. Acho lindo uma 

pessoa emitir. Um dessa maneira, outro daquela, essa individualidade que Deus 

determina. A voz traduz isso. E é o ar, sem o qual você não vive, que é o 

elemento do meu orixá. Fica uma casa boa para mim. Meu quintal."

Maria Bethânia!

- Eu amo esta mulher!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

meus quintais



Tudo tão simples que dá muito gosto em viver. Cada palavra voltada a dizer sobre o cotidiano de coisas tão brasileiras quanto esquecidas, e vem como música no canto da velha índia: só consigo me enxergar nesta antropologia com a pureza da minha condição frente a ela, a cantora: eterno aprendiz.

Gosto de ouvir Bethânia cantar, gosto de ouvir Bethânia falar - o som da sua voz se faz pajelança em mim e eu assisto a sua auto-cura e a cura de todos nós...

Meus Quintais, novo CD. Mais ainda a força da saudade mais legítima...Meu prazer de ter essa possibilidade auditiva - de eu envelhecer vendo esta mulher envelhecida como a mais nova das novidades dentro da sua capacidade inesgotável de se fazer Senhora da Beleza!

Este disco me dá guarida, se faz casa minha como a casa que tenho dentro do meu peito e chamo amor.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Maio



É maio,

noitinha de 12 de 2014

há vento, há flores, há frio...

serenado estou como deve ser Outono,

sem festa, sem discurso, sem personagem...

eu doendo um pouco

fazendo silêncio para orquestrar o salto

movimentado à beira da lua,

extasiado com o que renasce

sob o nome de poesia.

escrevendo feito missão

ao Tempo.

sábado, 10 de maio de 2014

Da humana poesia



p/maria bethânia
ela é superfície e profundidade,
amálgamas míticos e humanos
em um ser raro, único;

ela se faz forma e conteúdo
contrariando classificações
ao se rasgar de paixão no palco
ao se recolher à solidão da casa;

ela é a dita ponte
entremeio de porta e escada,
acima de tudo, nela
há caminho;

uma voz que me orienta
em sentimentos que me confundem:
o canto;

todo ardor está ali,
todo frescor também;

o abraço é tangível
o olhar solturas no espaço:
e a fala!
domínio das palavras
na sanha do encanto;

ela,
flutuante sobre os comércios,
superfície e profundidade,
enfeita mundos
nos tons sérios fortes seus
da beleza...

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Maio é o feminino em mim



O feminino vive a me rondar e a me encher de inspiração proteção estesias: eu tinha que ter nascido em maio, outono nos trópicos, colado à imagem de Maria, sendo, em muitos sentidos, mariano, seguindo em águas incolores verdes azuis branco-leitosas, alma perfume, cheio de fé.

Maio é o feminino que me põe de pé. Como setembro!

sábado, 3 de maio de 2014

no quase

tá tudo quase
quase é uma perversão em mim
é uma perversidade.

Sob o peso

O barulho nos veste
ao invés de nos deixar
nus.