terça-feira, 12 de julho de 2011

Elza - sempre!


Ela é um monumento.Nosso grito se soltando. Luta e resistência. Mais que tudo: conquista. Ora pressa, ora paciência. A voz nos rasgando na canção hino do grande Lenine. Esta voz encerrando o triste Estamos Juntos naquela atuação sublime de Leandra Leal. Elza é patrimônio e está viva. E eu ainda aos prantos... Eu, pouca paciência frente à gigante Elza Soares. Espécie de mais é ali e ela arrancou da vida. Viva. A cantora do inexplicável. Voz que fere e ensina. Força. Luz. Elza dos temporais; no fundo, a amiga dos deuses. Por isso: ela pode.

Abrir a janela




Abrir a janela para seu sorriso
enfeitado de sol e mar
a desenhar a delicadeza
que é só sua...


Abrir a janela e te fazer
entrar...
brincar com esperança,
dançar de fantasia,
silenciar dentro dos seus
olhos... meus.

Abrir a janela e,
admirar seu voo,
sempre entrando
no profundo de mim.

Abrir a janela,
escancarar sem medo,
revelar segredos e dormir.

Dormir no conforto da sua presença
nós, agora, de janela fechada.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Perto dos elementos de minha Mãe


Iemanjá, muitas vezes, nada em mim. Visita meus sonhos e combate quem deseja me apartar Dela. Me lança ao sentido das Arraias, Tartarugas, Golfinhos e me faz irmão destes. Eu vivo sob o fascínio das águas, em especial, as do mar - morada de minha Mãe. Meu semblante discursa alegria quando estou perto do mar, dos rios, das fontes, dos lagos, das cachoeiras... Renasço, ali, com a certeza da proteção, sirvo meu Orixá, canto para o Universo, e revigoro a Fé que não sai de mim. Eru Iyá!

domingo, 10 de julho de 2011

O destino

"E estar à sua mão
Quando você vier"

Insuportável é a rotina de uma longa espera. Indesejável aquela luz no espelho acendendo a imagem do tempo passando. O colorido das perguntas vãs esvaziando-se frente ao desbotado das certezas e a vida indo para. Grave o sorriso doce do menino com mais de trinta; seus olhos pedintes... A vida. O lado mágico e o lado sombrio. Duas formas do medo. A gente acabando de singeleza e confusão. Retas do desatino. O estar esperando a mão ratificando o sim entre  a boca e os olhos. O barco navegando os desvios feitos pelo segredo que alimenta o destino.
E essa dança desencontro. Essa incongruência de querer no passado ou no futuro. O presente é a poesia com quase trinta que bate ao largo da esperança, mas é vívida e inspira pelo fato de ser a rota mais amada, o físico, o encontro de dois, o ser das palavras reificadas como a cara do amor.
A rotina de uma longa espera. Fora de hora na eletrola do desejo, ora Nana, ora Dori, amores subversivos e imaginação.
A composição do que se diria depois se tivesse existido durante. Amolação do destino: anseio anseio anseio anseio. Exatidão. Minha mão apertando alguma.

Black People


Domingo. Noite que na Bahia se toca para Ogum. Nossa beleza mais forte se afirma. E, para além da fé, outras sensações, outros encantamentos; uma África que se nos mistura e impele à imensa vontade de ver e tocar. Frente ao espelho.

sábado, 9 de julho de 2011

Seal - Crazy


Encerro meu sábado ouvindo Seal. Uma época em que vivia shows entre a Concha Acústica do TCA e o Pátio do Clube Bahiano de Tênis. Era, talvez, 1992, e Crazy me embalava depositando em mim a noção da delícia da beleza da África cantada em inglês... Eu sorria muito e acreditava muito e queria muito. Cheguei até aqui, tanta frustração e tanta realização também, como é a vida! E Seal ainda em minhas memórias, e sua canção Crazy. Eu dentro aí, nadando sobre a beleza, ávido de desejo, cantando num inglês macarrônico, meu sonho altaneiro de vida movida à arte, ao popular, minha centralidade negra, minha sexualidade, minha poética existencial. Deixo Seal e Crazy com vocês...

terça-feira, 5 de julho de 2011

Eu - o estrangeiro

Guilherme Leme ( O estrangeiro de Camus)

"Vou ver quem devora quem "- Clarice Lispector

Eu.
Começo a desenhar a pertença que não tenho. Me seguro na imprecisão de um horizonte que não vejo. Caminho por debaixo de pontes. E sigo. Sozinho. Eu. Navio singrando mares castanhos dos olhos que me refletem. Nada está perto. Ao longe, mais que deserto, escrevo meu amor no dorso dele que não me pertence. Escrevo rascunhos por cima da obra final dele, tão somente, só assim aprendo esperar.

Eu.
Enfeito-me daquela poesia e respiro esperança. Me lanço em calmarias. Negocio com o tédio, pois no que vejo tem a tal  poesia... Seguro-me na mão do mistério para entender esta duração. Sem roupas e sem certezas caminho a falta de pertença que traduz minha solidão. E beijo o dorso dele. E me faço carinho. E com ternura invado um mundo que não sei habitar. Invado com a delicadeza deste amor. Vazio - escapo para o virtual do que sinto e nisso, há a presença dele. E nisso, minha falta de pertença é maior.

Eu.
O estrangeiro. O sem lugar. O que se recolhe ao som do carinho. O que escreve como terapia. O para além. Aquele que nada nos olhos do anjo. Que cura suas asas. Que o traz para dentro. Que o transforma em menino e deus. O que desmorona na configuração do adeus. O que segue seus versos estrelares. Eu,  em sofreguidão resgatado pelo vento. O esmagado pelo tempo. O poeta sem solução.

Fora de hora - Dori Caymmi


Fora de hora o meu coração


Pega a pensar no seu

Será que ele também

De mim não se esqueceu

Será que embora um bom coração

Deseja mal ao meu

Será que diz que nem

Sequer me conheceu



Quando é tempo de serenar

Quando é hora de recolher

Por que vai e vem

Na gente um bem querer

Quando já nem balança o mar

Quando nem uma luz se vê

Nem um dia além da noite sem você



Agora mora o meu coração

Sozinho como quer

Sem outra dor senão

A dor de ser mulher

E estar à sua mão

Quando você vier

Chico Buarque/ Dori Caymmi


segunda-feira, 4 de julho de 2011

A ternura delirante

"Abandona-se toda, ansiosa pelo mar"

Hoje eu senti o assovio da ternura delirante, me chegando de um lugar desconhecido e me ofertando horizontes que me fizeram dar carinho a mim. Era imagem, som, voz, palavra escrita - feições de uma delicadeza tal igual a das rosas,  e num meio sorriso, segurei a vida nas mãos.

Em pausa. O tempo gera descaminhos. A alma se inspira com o que não há. Ou não está. Meu símbolo de saudade perfila versos desenhados no céu cibernético. Não têm pistas mas têm sentido. Viajo para lá sem saber encontrar. Ali, faço carinho em mim, repenso a esperança e, feito criança, danço uma rara ciranda de palavras. Ali, águas pássaros gentes mães espelhos terras cercas mulheres, tudo me acende comoção; vivo-me dentro de noites e dias mergulhado naquela linguagem.

Em pausa, eu sonho. E vibro. E leio imaginando um beijo, um toque, uma lágrima, a risada, a chegada, um abraço, o assovio daquela linguagem dona da delicadeza que mais se aconchega em mim. E por vezes, que pena!, só me é pela arte navegando universos virtuais.

Dentro da noite


Dentro da noite a vida canta
E esgarça névoas ao luar...
Fosco minguante o vale encanta.
Morreu pecando alguma santa...
       A água não para de chorar.

Há um amavio esparso no ar...
Donde virá ternura tanta?...
Paira um sossego singular
       Dentro da noite...

Sinto no meu violão vibrar
A alma penada de uma infanta
Que definhou do mal de amar...
Ouve... Dir-se-ia uma garganta
Súplice, triste, a soluçar
         Dentro da noite...
Manuel Bandeira