sábado, 8 de setembro de 2012

Violeta Parra: tamanha é a minha dor



 
Não seria só para constatar: a pobreza desaloja a gente. E a vida é mais forte que um poema, uma pintura, um desenho. A vida, às vezes, nos arranca do que nunca fomos, sangra nossos sonhos, e nos deixa até sem vontade. E a imagem é uma índia chilena cantando. Solta como um rio em vermelho pelas ruas do mundo. Imundo. O mundo. Rio lavando as desigualdades, mas silenciando. O tiro que dispara desde o nascimento, mas só se sabe após a criação. A arte quase salva até mesmo do sucesso.

A falta da palavra na pesquisa que faz o som. A vida minha que é dos outros. O outro entremeio da dilaceração – espúrio capitalismo -; confuso socialismo dos revolucionários enricando. O poder martelo esmigalhando o direito de ser. A voz da índia se matando. O corte em nome do povo. A lírica da pobreza vencendo a genialidade. Genialidade como negação. O risível que se alonga virando eternidade. A música paisagem da história latina na América. Índios, negros, mestiços e animais. Árvores e crianças. Galinhas e gaviões. Mordaça no silêncio gritando a transformação.

O amor. Esse esteio que tanto falta. Essa couraça da imprecisão. O amor por todos, pelo mundo. Imundo. O amor cerração. Frio andino. Mundo imundo sem lados em ampla descrença. Sujeitos-capital, sujeitos alaranjados e vermelhos: o feio que não possui significação.

Amor na voz de dor da índia eternizada. Sons e palavras. Sem nada a constatar.

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