segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

MB (2)

(Foto Karina Zambrana)



A ventania trouxe o corpo que tem a voz como asas. Entrecortes sonoros da orquestra ampliando a cena. O canto fundamental em prol da integridade feminina. A Bahia como espiral que vai, que vem, que gira, que muda, além, sendo a mesma. Espiral que sintetiza o lugar dos lugares: a mulher xamã.

Voo sobre as folhas na dinâmica democrática de Oyá... O tempo no espelho. A mão apontando a vida dentro do espaço. O dessentido. O nítido e o imprevisto na tempestade da miúda presença. Presença imperial. Saia noutras vestimentas. A reprise. A nova musicalidade arrancada da sublime paisagem tão velha de conhecida. Entrecortes do impossível – a mulher na folha, cavalgando-se búfalo. Puro movimento.

Rasgar-se no que não passa. Eterniza-se no arrepio da pele. O agora para sempre. A que finge artista para consorte do mito. A verdade mais leal. Palavra. Medida da profunda beleza. Língua portuguesa rastreada de bantos e iorubás. Presença índia. Mulher negra. Cabelos como história. Portal para muitos significados.

Olhos e bênção. Cena madura pós-muda no som orquestral. Orixá chegando. Aguidavis. Chão percussivo numa seresta ancestral. A leoa ora trânsito. Águia transcendental. Fogo e água. Raio. Rios. Auge. Silêncio.

Brisa no mar. Ferocidade esquiva.

Rascunhos.

Quando ela intervalar.

Para voltar, destemida, a mesma que sempre será múltiplas no ser único que perfila. 

domingo, 6 de dezembro de 2015

Marília Pêra



Marília,

É tão difícil ser neste nosso país. Aqui, mais que talentosos, temos que exercer a inumana perfeição. Tenho a clareza das noites de 1982 quando, após a voz de Nana cantando Se queres Saber, você entrava em cenas sobre amor e dor, ao lado de Claudio Marzo, na série global Quem ama não mata, e eu acessando ali o seu raro talento... Depois veio Pixote – a lei do mais fraco, para chegar a Brega e chique e confirmar, em mim, você como a maior atriz brasileira.

Tive a honra de assistir, no Teatro, Elas por Ela, Master Class, Mademoiselle Chanel e me maravilhar com o seu domínio cênico, a destreza da enorme atriz, a beleza da mulher, a mágica das invenções em cena. Foram muitas outras coisas e em tudo: Marília Pêra!

E assim, banhada em entrega e grandeza artística, você nos deixou e calou minha voz e bagunçou meus pensamentos. Metendo medo, em Pé na Cova, com a sua grandiosa Darlene, em tom de despedida, como Clarice Lispector nos deixando com a sua Macabéa.

Darlene e Macabéa, Macabéa e Darlene... Marília e Clarice, Clarice e Marília... Meus sonhos rodando no centro desta aproximação distante que a arte faz e eu choro a sua morte agradecendo a nossa vida. A sua vida!

Minha atriz, entre tantas outras maravilhosas como Cleyde Yáconis, Laura Cardoso, Louise Cardoso, Ruth de Souza, Dina Sfat, Débora Bloch, que me ensinou a gostar de teatro e cinema, já que televisão eu já adorava...Minha atriz que dançava e cantava com talento e elegância... A mulher visionária acendendo cenas e iluminando de possibilidades o breu contextual do Brasil.

Escrevo–lhe, entre lágrimas e carinho, mais silêncio do que palavras, sem aplausos para não macular seu descanso. Sua vida foi brilhantemente cumprida e nós calamos frente ao seu legado e ao que do feminino genial você marcou na história do Brasil. Pensar cultura, em sintonia com a arte, é eternizar o nome Marília Pêra.

Siga, mas fique, viu? Não quero que lhe esqueçam e nem quero a fragilidade das homenagens necrófilas... Quero você vibrante e amoral tocando no âmago da gente que ainda sobrevive. Quero falar da minha saudade que nunca será maior que a minha grande admiração, meu amor pela sua arte – Caetano Veloso, outro mestre, dizendo: “Marília é a maior atriz de cinema do mundo”.

Não sei se do mundo, mas você é a maior atriz de mim.


Beijos!

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Poemar: historinha da Mãe Negra Iemanjá





LANÇAMENTO DE POEMAR: HISTORINHA DA MÃE NEGRA IEMANJÁ, DE MARLON MARCOS, DIA 05 DE DEZEMBRO DE 2015, ÀS 15H, NO PALACETE DAS ARTES (IPAC/SECULT)

A poética narrativa infantojuvenil Poemar: historinha da Mãe Negra Iemanjá é um convite para as crianças de ontem, hoje e amanhã para um profundo mergulho nas águas que representam a beleza da bravura e singeleza da mãe-rainha Iemanjá, desde as origens do seu culto na África, em Abeokutá, até a sua chegada às águas das terras de cá, as brasileiras. A obra explora um universo literário que sendo da criança também é do adulto. Este elemento está associado à marcante inspiração da literatura clariciana na vida do poeta Marlon Marcos, já que para ele, Clarice Lispector representa em sua vida uma das principais fontes teóricas de escrita literária.
 

Marlon MArcos, como uma predestinação, nasceu às margens da Baía de Todos os Santos e foi batizado com um nome que guarda a multiplicação da morada da Mãe Negra, o Mar (Okún), já que é filho da Iyá Ogunté, juntamente com o Babá Oguian. Ele é graduado em História e Jornalismo, mestre em Estudos Étnicos e Africanos e está cursando bacharelado em Ciências Sociais e doutorado em Antropologia. O seu legado acadêmico e de produção artístico-literária demonstra o seu desejo em ressaltar as riquezas deixadas pelos nossos ancestrais africanos, principalmente, através da religiosidade, em específico, o Candomblé.
 

A obra aqui apresentada caracteriza um importante marco na literatura direcionado ao público infantojuvenil, ao passo que é um canto poético que apresenta um mundo de magia cercado por elementos religiosos e culturais que, muitas vezes, a sociedade brasileira buscou e busca afastar da formação sociocultural desde as nossas primeiras leituras, que ocorrem, normalmente, entre a infância e a adolescência. Momento que iniciamos uma abertura para novas possibilidades, as quais precisam ultrapassar o olhar eurocêntrico de padrões sociais ainda tão enraizados em nosso país. Poemar é uma reflexão acerca da importância da preservação do Ilê da Mãe Negra e de todos os elementos da natureza, os quais ela protege assim como seus filhos. Nessa obra, a poética é um canto que exprime Odô Iyá em verso e prosa.
 

A cantora Vércia, acompanhada de Marcus Santos ( percussão) e Zé Livrera ( violão), solta a voz e faz roda para a criançada de todas as idades.


SERVIÇO:

Evento: Lançamento de POEMAR: HISTORINHA DA MÃE NEGRA IEMANJÁ

Autor: Marlon Marcos

End. – Palacete das Artes (Rua da Graça, n. 289 – Graça, Salvador – BA) – Entrada gratuita.

Em 05 de dezembro de 2015, às 15h.

Participação especial: a cantora Vércia

Valor do Livro: 25 reais

Maiores informações:
Raphael Cloux ( editor): (71) 99232-1051

Marlon Marcos ( autor) : (71) 98749-5595

Release: Leice Costa

sábado, 7 de novembro de 2015

Nas deixas de uma arte



Para Pier Paolo Pasolini

Quanto dura uma existência?
E quantos são meus os sonhos
Que enxerguei nas deixas de uma arte?
Nas asas vermelhas do anjo apodrecido,
No fastio da sua imensa criatividade,
No afã do nosso desejo proibido,
Na névoa desumana da nossa raça?
Tudo bem esculpido à eternidade...
Morredouro mesmo só o corpo
Violado e apartado do que se é
Insistindo-se sobre a história das perversidades.
O que há de sonho em mim, heim?
Eu, desumanamente infeliz e saudade
Frente ao homem que nunca morreu,
Porque nunca esteve aqui.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Festa da Cultura em Cachoeira





Lá roça a pele o vento da ancestralidade: monumento das razões lusitanas aprimorado pela natureza e pela beleza civilizatória do humano negro. O atabaque chama e a água faz renascer. É como se o harmonioso tivesse que ser e se fosse em nós todo inteiro. O chão pisado pela primordial presença indígena - cantigas das ninfas morenas do Paraguaçú em louvação à negra mãe Iemanjá. Um mundo incrustado de dor e sabor azeitado para além da escravidão. À mesa, a misteriosa maniçoba entre o índio diluído o negro reinventor e o branco que consome. A paisagem como elevação: sol brilhando no âmago do rio que segue; as chuvas que irritam o rio alimentando suas águas; uma gente com sede nos olhos e desejo no corpo; a sabedoria dos velhos e velhas que preservam caminhos para o encantamento; a poesia dos instantes; a Pedra da Baleia - otá maior da poderosa senhora de todas as águas...

O rastro da história que se deve. Expoente arquitetônico ligando para sempre passado e presente, tradição e contemporaneidade. Apesar de que lá o tempo parou nos ciclos mágicos da profunda beleza. Parou na voz de suas mulheres lavadeiras e na cerveja gelada em sua orla e em seus bares; parou na leitura de um livro da sacada de um sobrado com vista para o rio. A cidade é fomento para artistas e agora, encontro constante de intelectuais. Vívida promessa do que sempre foi concretização e ancoradouro dos sonhos mais festeiros. Aziri Tobossi à frente. Humpames Huntoloji e Seja Hundê. Capela de Nossa Senhora da Boa Morte. Nossas negras senhoras da mista mítica fé da saber viver e saber norrer.

Lá tem alívio em agosto e festejo sem par em novembro. Na Ajuda, miragens das primeiras iyaôs. O adjá toca constante; saias bem engomadas em barracões celestes na roda das mulheres comandando nossa religião. As ruas quietas metem medo. O som do sino arrepia e até frio mora lá também. O encantado misturado à dureza do dia a dia;o cotidiano de uma poética da beleza na inconstante possibilidade do sobreviver marcado ali pela força da pobreza. Mas é toda riqueza o estar da cidade na configuração do mundo.

Foi um tempo senhorial e hojé é cartão postal do nosso orgulho. O soteropolitano também nasce naquela cidade que nos arrebata sem nostirar do lugar. Ou melhor, sem nos tirar de lá - onde roça a pele a negra ancestralidade da gente.

Agora temos uma feira literária lá.

Depois de assistir Tropicália



Caetano Veloso: Tropicália
Parece, em mim, o retrato da realização em fragmentos da impossibilidade. Um homem diluído em muitas linguagens acenando para a transformação. O jeito descontente no sorriso que ilumina. O que diferente não poderia ter sido, e incita a não ficar no lugar. Escritos boiando nos esconderijos da vida, tesouro distante no solo desconhecido do Recôncavo – formato baiano num diálogo com o mundo. Poeta de qualquer língua em qualquer cidade. Poemas que nos desfiguram e alteram nossas verdades. Coragem do ser, agonia do tempo, destempero pedagógico, libido, amanhecer.
Atropelo nos padrões quando a chegada do homem quase menino mulher negro santo demônio orixá ateu. Idílio da solidão e o filme narrando a sua grandeza. Valor da existência entre o nada e a música: morada da memória que o eterniza. Receitas comportamentais na dança certeira da sorte. Programa dos deuses. O menino nascido mito e lançado à verve das contradições. Sísifo. Domínio do Oráculo de Ifá. Teoremas e traços calculados. Cigana sem consorte. Desamparo no medo. Odé contra a morte. Mulato cartesiano.
Nitidez abrasiva num projeto coletivo. O que mais sabia e ardia; era dureza, agridoçura, sexualidade ambígua e acesa, vontade de causar e ficar no sempre do país que ajudou a reinventar. A palavra como arma a favor também da conservação. Transbordo da beleza mais vital que deu sentido existencial a quem carecia pensar diferente.
Ele é o ingresso nas maneiras do fazer profundo: mercado e academia, literato e repentista, ator e galã, cantor de cameratas e agitador de multidões. Homem de batom rosa na boca. Os olhos tristes de Londres. Desenho seu que faço na face secante das águas do Abaeté ouvindo It’s a Long Way, esperando mais palavras e sons que recontem a sua história e impilam o exercício deste meu amor.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Maria Bethânia faz do Brasil canção

(Foto: Olivia Soares)



Marlon Marcos
Jornalista e antropólogo
ogunte21@yahoo.com.br
A Tarde/BA 29/08/2015

É um perigo para um país ressentido como o nosso completar 50 anos de carreira sob os holofotes e as trombetas do devido reconhecimento. É um perigo se fazer sucesso sem apelos comerciais e movendo-se pela vontade de desenhar cenas que são consonâncias da verdade estética escolhida para si. É um perigo ter o que dizer com frescor de novidade, o que se disse há cinco décadas em nome da MPB e do desejo de expressão que orienta os mais marcantes artistas.

Chegou a Salvador, cidade capital da Bahia, a turnê Abraçar e Agradecer, que comemora os 50 anos da carreira emblemática da cantora santo-amarense Maria Bethânia. Ao meio de muita confusão, desorganização do Teatro Castro Alves e poucos dias (dois) para uma cidade ávida por assistir à sua artista mais prestigiada na contemporaneidade. Bethânia e sua produção precisam reconhecer o amor que sentimos por ela e a necessidade que temos de conviver mais vezes com a brisa que advém da sua arte, do seu canto, da sua presença de dramas e poesia. Talvez – uma turnê de quatro dias serviria para alcançar um número maior dos muitos apaixonados por esta mulher que é a maior cantora do mundo contemporâneo. E é da Bahia!

Bethânia é um artista de enfrentamentos. O outro lado deste país que, como bem disse Tom Jobim, não é para principiantes, vive à caça de deslizes que minimizem o brilho solar da cantora, feliz com tanto reconhecimento acerca de sua trajetória artística. Até culpá-la pela venda recorde dos ingressos no TCA fizeram. Este é um momento de Bethânia que também é nosso, baianos e brasileiros. Sua voz desenhou e desenha o Brasil que pode e deve se expressar como ela. Nosso povo e variantes culturais são a matéria prima da sua inventividade, encontrada nos compositores que escolhe cantar e nos autores de textos que insiste em dizer.

Em Bethânia, o Brasil é a sua melhor canção. E nós a ouvimos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Por que não seria?






Por que não seria?

Da presença toda sã aos descaminhos que acometem a vida de todo mundo.

Da grandeza que se marca do jeito que se é.

Do quadro das maiores certezas ao medo escondido no escuro do quarto.

Da velhice impressa numa eterna juventude.

Da voz da mulher das águas - olhos na Baía de Todos os Santos.

Do sentido da vida que emana coragem.

Do choro menina que se abriga em quintais da memória.

Da pele quase negra.

Dos poemas clariceanos.

Do ventre da mãe que não morre.

Das canções que eterniza.

Os olhos da menina do fogo vestida de Oyá.

Da paixão que procuro.

E este sonho que realiza o prazer profundo,

quando ela canta na Bahia,

na casa do nosso poeta...

Entre sons e poesia,

em mim

a vida é mais bonita,

na presença negro-morena de Maria.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Caetano Veloso, 73 anos









O artista.

Lembro-me do meu esforço, com 10 anos, para entender o que me dizia aquela letra de Um índio, na voz daquele homem que todos achavam efeminado e eu achava o mais homem de todos. Lembro-me de suas contas de Odé e de Oxum, do azul claro que vestia ele e aquele chapéu na capa do LP Cores e Nomes. Lembro que ele me permitia ser. Sua poesia me fazia sonhar e desejar uma vida melhor, com a qual eu pudesse me expressar. Amava ter nascido na Bahia e, melhor ainda, ter nascido em Salvador. Queria saber escrever (e eu não sabia) para ser poeta tal qual aquele homem tão estranho e fora dos padrões, mas dono da rara beleza que só os artistas mais raros conseguiam ter. Sonhava com ele. Aceitava o candomblé na minha vida, com mais tranquilidade, por causa dele. Quem era Muhammad Ali? O que dizia a palavra impávido, a qual nunca mais esqueci? Cinema transcendental trilhos urbanos, Gal cantando Balancê. Quando esta preta começa a tratar do cabelo. Um filhote de leão raio da manhã. Amar dar tudo não ter medo. Bobagens, meu filho, criancices. Místico pôr do sol no mar da Bahia. Vivia aquelas canções e para ser menos pobre e me exibir inteligente, além de Gal. Baby, Clara Nunes,Novos Baianos, Fábio Júnior, Gonzaguinha, Kátia ( a cantora cega), Sidney Magal, entre outros, mais que tudo, desde os 7 ou 8 anos, eu gostava de Caetano Veloso.

O homem.

"Abrirmos a cabeça para que afinal floresça o mais que humano em nós". Aquele corpo famoso do gênio se divertindo no Porto da Barra. Os shows possíveis em santo Amaro. O susto da boca pintada de batom. A força na figura frágil. A fala infernal. As letras que mais amo. O caminhar nas ruas da Bahia. A coragem e o discurso. Os ensinamentos de alguém ao meio popular, que mais do que acadêmicos e intelectuais oficias, empurrou o Brasil para o melhor, o menos careta, o menos desumano e atrasado. Alguém que se sonhou grande, se fez grande, sem perder a dimensão do que se deveria fazer, através da canção popular, para que não fôssemos mergulhados na truculência de um tempo perverso, e que ele, muito ele, mais que tantos outros, tornou muito criativo.

Trem da Cores

A canção dele que, na voz dele, eu mais amo.
E esta é a mensagem da minha existência:
"E aquela num tom de Azul, quase inexistente Azul que não há, Azul que é pura memória de algum lugar."


73 anos,

Uma alegria imensa tê-lo vivo, atuante, criativo...Envelhecendo nessa verve juvenil que nunca lhe abandonará...Só lhe peço: nunca perca a sabedoria edificante que os anos nos trazem. Se lhe cobram muito é porque suas marcas são indeléveis nesta civilização negro-mestiça chamada Brasil.
Vocé é poesia - e eu, com muito esforço, tento aprender contigo.

Parabéns, mestre maior.

Com amor,
Marlon Marcos

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Exposição Maria de Todos Nós




Parece que a gente está em outro tempo no Brasil. Num dia de brincadeira, festa da memória, pura alegria em festejar a trajetória de alguém que nos é diversão, nos é beleza, nos é reflexão, nos é verdade, nos é fantasia, nos é poesia. E mais: nos é escola.

No Rio de Janeiro, no Paço Imperial, de terça a domingo, sempre das 12 às 18 horas, gratuito, até dia 13 de setembro de 2015, exposição mais que linda: Maria de Todos Nós, em homenagem aos 50 anos do maior artista vivo do Brasil: Maria Bethânia.

Tenho um texto lá celebrando este momento. Honrado. Chamando Motriz para minha audição. Esta Maria é de todos nós, sim!

Obrigado a Ana Basbaum! Bravo , Bia Lessa.

Te  amo, Maria!

terça-feira, 14 de julho de 2015

Tese

O quanto de quentura
é a temperatura do meu estar
sob a neblina da nova cidade?

Por onde não me vejo
deve ser esse o instante
a me revelar.

As manhãs e as noites,
as tardes também,
têm me sido não.

Por esse intuito
eu não escrevo,
pergunto:

Para além do que não posso,
que tipo de poder me faz realizar?

em algum lugar

de algum lugar há de vir
o que realiza em mim
esta fome de sonhar.

***

que alguém me pergunte
e que eu seja rude
ao ponto de não respostar
o que aquele queria ouvir.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Maria Bethânia, 69 anos!



Eu sei que é junho!



Sob o brilho do dia 18

Friozinho do Recôncavo

Numa manhã vermelha

Branca acesa do coração...

Junho rascante como trovoada

Paisagem aquática para os pés

Que flutuam...

Junho ensolarado tropical

Ao silêncio noturno de 69 luas

Ruas da melhor canção brasileira.

Dia da musa

Embalada pelo colo da Purificação.

Maria Bethânia, a voz de uma pessoa vitoriosa




"Quando ela aparece cantando gloriosa"

domingo, 24 de maio de 2015

O frescor




Eis a minha modernidade. O frescor exato entre a minha audição e a minha sensibilidade. Passos à frente na direção do que preciso e sonho encontrar. Eis o timbre que me afoga numa história, para qual eu emerjo a fim de contá-la em rabiscos emocionais.

Para ouvir. Da ousadia radical, uma pseudo repetência, aliada a ensinar O brasil a olhar para o Brasil - com o requinte da cantora que transborda sem perder o eixo e o sentido do que ela quer falar. Ou melhor, cantar.

Meus quintais - Maria Bethania

E amanhã farei poesia,



segunda-feira, 18 de maio de 2015

...

experimentei:
maior que o amor
é a lisa alegria.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Laís



Não é pelo lance absurdo
Que guarda a beleza na face.

Mais seria pela poesia do olhar
Ou o sorriso que revela a alma.

No fundo ela é matéria da delicadeza
Burilada com a palavra sob a pena
De Manuel Bandeira...

E traz em si manhãs solares
Tardinhas Rosa chuvosas
E noites sensuais...

Toda acesa a sua cabeleira
Tigresa, mulher...

Corpo nu na mata
Que habita o sono
De quem sonha com ela!
Habita o sonho de quem
Acorda com ela.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Para silenciar





neste dia qualquer
me abrigo em casa
nas raias da lembrança...

pouso na mãe
como sentido
que vigora meu
caminhar...

abro os braços
cidade no tempo
cantarolo fundamentos
para silenciar.

sou um baú de
saudades e esquecimentos
viajo neste templo
que faz de mim oração.

e o amor é a fresta que ilumina.

domingo, 3 de maio de 2015

teu



não me arrancam desta estesia

do meu estado de poesia

quando grudo meus ouvidos

nos mistérios da sua voz.


não me arrancam da canção Tua

do seu lado índia erudita encenação...


deste fingir artístico Pessoa

que me encolhe frente ao palco

me põe em paixões e eu vou.


suditamente fã à luz

nascida da mulher que me rasga

nesse meu farejar

o som da sua garganta.


Iyá Stella, 90 anos!



Todo caçador é senhor da astúcia. Ele penetra o mundo externo pelo olhar, sua maior habilidade é a observação. E como grande observador, o caçador é agressivamente desconfiado. Mas é doce também. E sábio. Provedor elegante dos lares e da comunidade. Nasce para reinar. Tem a beleza como domínio. É azul-turquesa. Ou todo verdinho como o lugar que ele habita. Na Bahia, nosso maior caçador é uma mulher. Uma senhora. Uma iyalorixá.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O pássaro



tudo intervala

pra ouvi-la

ou pra vê-la.


e ela segue livre

alvissareira distante

dona do seu nome,


pássaro matinal

num voo eterno.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Billie Holiday: maior que a lenda é o canto




A voz é sem tempo. Entrecortes da dor, beleza, nome, amor. É cor e silêncio. Ruídos que invadem para negar indiferenças e instalam-se, violentamente, em harmonias que desagregam e espalham-se do ouvido para o todo do corpo que reage feito sexo. Em síntese: é um assombro. E corriqueira genialidade de um canto prostibular, mas sagrado.
Uma história inteira no feminino de uma mulher que se camuflava de homem para ser músico e reinventou a canção em sibilos ruídos tons meio saxofone meio trompete muito ar e muitas drogas na voz sem igual do jazz norte-americano.
Eleanora  Fagan nasceu negra e pobre no centro do racismo dos Estados Unidos, na Filadélfia, a 7 de abril de 1915. Eternizou-se como Billie Holiday: a mais representativa cantora do século XX em todo mundo e hoje, em sonora presença, faz 100 anos.
O músico Billie mergulhou em canções que traduziam a sua força criativa como reflexo da dor que sentia ou inventava para cantar daquele jeito. Aliás, deste jeito, pois ela continua vivíssima ainda a embalar os amantes das grandes vozes que fizeram o século XX e persistem no XXI.
Uma história de desvelo narrada como elemento fundante da ordem segregacionista estadunidense, e piorada pelo tormento de quem se sabia um gênio, mas bem no fundo, não se achava merecedora do talento que carregou até a morte, no ano de 1959, com apenas 44 anos de idade.
Um século da voz que nunca precisou de extensão, que foi pura sutileza sonora em desafios sentimentais, que imprimiu seu gênio frente a desgastante vida que a tragou e se consagrou com o humano instrumento que deve ser considerado a voz do século XX.
Seus discos, até os mais inferiores tecnicamente, são preciosas peças que contam a história do negro criando e vivendo para além do legado da escravidão. Billie é o grande exemplo de que a melhor música popular do mundo é negra. E a diáspora africana serviu para espraiar os múltiplos tons da civilidade erguida pela parte negra daquele continente.
Ela, Billie Holiday, a Lady Day do mago Lester Young, músico parceiro monstruoso, é o advento canção em misturas de possibilidades estéticas sem perder o esteio dado pelo jazz dos músicos negros estadunidenses. Ela é a contradição. Negada e adorada por todos os lados – fazedora de imagens históricas gritantes, como a da sua execução de Strange Fruit -, Billie morreu em profunda desgraça para depois, através da história e do seu legado artístico, se eternizar como mito e como a dona do melhor canto popular em todo mundo. Em todos os tempos.
A presença marcante da linda mulher, ora melancolia ora baixa languidez ora rara sedução… A voz que prenunciou o domínio musical dos negros em seu país, que bagunçou o racismo, que fez protesto sem querer, que quebrou regras internas do seu convívio entre os negros, que namorou negros e brancos, homens e mulheres, se drogou até a destruição numa dor maior que qualquer invenção.
A diva mítica foi um gênio atormentado, espezinhado pelas duras narrativas de sua vida. Mas, para fora de toda mítica, toda narrativa é vã sem a audição do canto intenso desta cantora.
Celebrá-la, mais que tudo, é simplesmente ouvi-la e imaginá-la estática, dura, de preto num palco sem luz, álcool perfumando o ar, e sua voz dramática desenhando os sentimentos mais perversos que fazem doer a humanidade.
Billie se emite aqui neste poema:
entrecortes de luz e sombra,
canto que amanhace
de noites insones…

a voz de um século
num canto atemporal…

beleza sem precedentes
numa fresta rude memória

o desenho sonoro do sax.

mulher negríssima
perante toda a criatividade.

transcurso excepcional
do talento desalento
explodindo melancolia no mundo.

o canto navalha de muitos cortes
na voz de músico dela:

o jazz Billie Holiday.

Billie em Crazy He Calls Me


terça-feira, 7 de abril de 2015

Billie Holiday faz 100 anos!





entrecortes de luz e sombra,
canto que amanhace
de noites insones...

a voz de um século
num canto atemporal...

beleza sem precedentes
numa fresta rude memória

o desenho sonoro do sax.

mulher negríssima
perante toda a criatividade.

transcurso excepcional
do talento desalento
explodindo melancolia no mundo.

o canto navalha de muitos cortes
na voz de músico dela:

o jazz Billie Holiday.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Do temor



eis que temo.

e temo por acreditar demais.

barulho insuportável da esperança

que me acorda toda manhã

entre risos e dores, cores e

meu íntimo mais obscuro.


temo.

nesta vida que enceno

desconverso e confesso

ainda que pura solidão

adoro me saber vivo.


e entrever minha escrita

denúncia grito de socorro

oração ao mar

rasgo político aceno

anti-modelos, erro.

reverência ao que amo.


silêncio...


e esperança sem saber

no que como caminhar.