domingo, 22 de junho de 2014

Quintais do Brasil de Maria Bethânia



É mês de junho no país que festeja Santo Antônio, São João e São Pedro. País onde nasceu Maria Bethânia, a cantora. Neste mesmo mês em que ela nasceu, e que completa 68 anos, Bethânia nos presenteia com seu mais novo trabalho: o CD Meus Quintais, saindo pela gravadora carioca Biscoito Fino.

Tem que se fazer 49 anos de carreira, não ter medo de ser o que se escolheu ser, manter a coerência artística sem evitar riscos, mas baseando-se nos caminhos estéticos eleitos pelo desejo de expressão, para poder oferecer ao país um CD que desenha a atmosfera da infância, os fundos da casa interiorana, louvando os caboclos, as tradições indígenas reinventadas nesse tempo, mas apagadas dos cenários midiáticos pelas cruéis demandas urbanas.

A mulher aprimorou o canto, à quase perfeição, para brincar com sons e palavras a favor de imagens que devassam a simplicidade, nos mostrando um Brasil positivo que insistimos, por burrice existencial, fingir esquecer porque recupera o indígena na construção desta civilização.

Meus Quintais é um primor em lítero-musicalidade, mas, melhor que isso, é um serviço ao índio, aos caboclos nortistas, com tempero da literatura (traz texto de Clarice Lispector), brincadeira e coragem da artista que se eterniza fazendo, nos últimos trabalhos, uma espécie de antropologia veiculada pela indústria do audiovisual.

A cantora tribaliza o Brasil, arregimenta talentos como Adriana Calcanhotto, Roque Ferreira, Dori Caymmi, Paulo César Pinheiro, para espalhar o que é mais simples e está contido no mais complexo, misturando aspectos de sua infância com a sua atual maturidade, compondo uma narrativa sonora, alicerçada na forma canção, onde o mito e o vivido remontam o sentido de se sentir saudade – a que, no caso da cantora, é a mais legítima: sua falecida mãe, dona Canô.

O disco é um reflexo no espelho: uma senhora de 68 anos, a noticiar os feitos do tempo e a redesenhar ontologias do brasileiro, a caminhar por uma discursiva trajetória que nos aquece de música, de poesia, sem deixar olhares históricos e socioantropológicos de fora.

Marlon Marcos é jornalista e antropólogo   email:  ogunte21@yahoo.com.br

(Publicado no Jornal A Tarde, em 21 de junho de 2014, Opinião, p. 3)

Um comentário:

Wesley Barbosa Correia disse...

Excelente texto! Traduziu o magnífico exercício artístico dessa Rainha que amamos.