quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Afirmação étnico sócio-cultural


O programa de pós-graduação multidisciplinar em estudos étnicos e africanos do Ceao/Ufba, que passou a funcionar desde agosto de 2005, com o intuito de formar especialistas em discussões sobre etnicidade, teorias das relações inter-raciais, fundamentos históricos da África em suas mais diversas etapas, dinâmica da cultura religiosa afro-brasileira, histórico sócio-antropológico dos movimentos sociais e das minorias étnico-culturais em nosso País, completa três anos de existência.
Aniversaria cumprindo o gratificante papel de lançar ao mercado científico e educacional brasileiros 15 mestres em estudos étnicos africanos que, como pioneiros, carregam a árdua tarefa de consolidá-lo como instrumento de investigação multidisciplinar em torno de questões que recontem a história de negros, índios, mestiços e que pensem, da maneira acadêmica, caminhos para que se exterminem racismos e outras formas de injustiças étnico-culturais.
Da primeira turma, a última a defender sua dissertação, temos Paloma Vanderlei da Silva, historiadora graduada pela Uefs (BA), que abordou a relevante temática sobre as negras ganhadeiras das ruas da Cidade da Bahia, na Primeira República, lendo as perspectivas sociais daquelas mulheres que seguraram famílias com o ganho de seus tabuleiros.
Da fateira à mítica baiana, símbolo desta Bahia amadiana, imortalizada nos versos da canção A preta do acarajé, do nosso patriarca Dorival Caymmi, que Gal Costa realçou a beleza, o trabalho Mamãe-bote, ganhadeiras e quituteiras: sociabilidades, identidades e representações nas ruas de Salvador (1900-1930) traz emblemas da força negro-feminina ultrapassando os desgastes e as injustiças geradas por nossa escravidão e pelas limitações da Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, que libertou sem garantir a sobrevida da população negra escravizada no Brasil.
Pousar os olhos nesta pesquisa, que deverá ser ampliada e melhorada para se tornar um livro, é selar um encontro com nossa imaginação: mulheres negras e mestiças, ocupando as ruas centrais de uma cidade majoritariamente negra, vendendo, aos cânticos, as guloseimas e os quitutes que desenharam diacriticamente a idéia que se tem de baiano. E mais ainda, sendo o mais importante, narrando, através de aportes historiográficos, as maneiras de luta e resistência à pobreza, ao abandono social, ao racismo, ao sexismo, à intolerância religiosa, que estas nossas mães ancestrais construíram na terra de Dorival Caymmi.
Uma saga que se conta. E em mim uma abelha zunindo por quase quatro anos. Lembro da mulher que pesquisa sobre ganhadeiras. Um ganho. E o zunido da abelha insistindo: será que na Bahia vai se mapear terreiros e depois mandar derrubá-los? Será que candomblé sempre estará ligado a assuntos de saúde pública e à mercê de caridosos assistencialismos? Será que esta minha religião só será reconhecida como tal com uma outorga da Câmara Municipal de Salvador? Ave o pós-afro e as minhas, as suas, as nossas ganhadeiras.
(Publicado no Opinião do A Tarde em 31/08/2008)

Um comentário:

Paloma disse...

Realmente só agora que a ficha me cai
e relamente tomo pé das "coisa" ou seja vc bem me conhece ,meu tempo é agora!!!
Ver um pouco do meu meu trabalho e um pouco de mim traduzido nas suas palavras,é mais que esfuziante ,é a certeza de um caminho qaundo as pessoas mandaram emais (que detalhe só abri depois de uma semana!) não imaginei meu nome estampado daquela forma....
Chegar até aqui vc sabe como foi doloroso,mas os olhos de meu pai e meus amigos forma mais recompensantes que qualquer título ou avaliação.
Percorrer a trajetoria dessas mulheres só me fez acreditar que realmente é possivel ,doa em quem doer ou incomodando a muita gente
Torna-las visível é de uma responsabilidade e ao mesmo tempo tão prazeroso, que fecho os olhos e me lembro quando garimpava um pouco das suas histórias no APEBa ,e suspiro e sorrio, pois assim como elas resitiram e impregnaram a cidade de identidade,eu continuarei não resistindo a continuar com essa história!!e contribuir para que de uma forma ou de outra a história se torne mais negra,mais identitária...mais mulher....porque no frigir dos ovos "todo mundo gosta de acarajé!"
Muito obrigado por ter efito parte dessa história