sábado, 31 de outubro de 2009

Angela Ro Ro: Fogueira

Para ilustrar este espaço de paixão transgressiva e dar mais vigor às nossas ações amorosas, ela:

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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Uma coisa legal assim


Das suas asas azuis tornando-se vermelhas e desta sua beleza que nunca se subtrai. Tempo não perdido porque é eternidade. Luzes filosóficas, investida dos livros para a saudade. Vontade sem busca para negar qualquer movimento. O cheiro dos seus olhos. Leveza das mãos num corpo resolvido. Gotas de navegação. Quadro imaginativo: a sua boca beijando a minha. Cenas de carinho. Meu sorriso entapetando a sua chegada. Doce risada dali. Estridente gargalhada, após. Sua alma voando sobre o jardim que eu cuidei. Nossas borboletas encontrando-se...

- Eu sou a sua ausência de loucura.
- Você é o motivo certeiro da minha.

As borboletas dançam: saem de mim rosas, brancas e azuis.

Tudo ficou para além daqui e o que não foi, é. Uma coisa legal assim. Memórias em Gabriel.

Uma história de borboletas( fragmento)

Caio F.
Atíria

"Quando acordei, André me olhava dum jeito totalmente novo. Quase como o jeito antigo, mas muito mais intenso e calmo. Como se agora partilhássemos o mesmo reino. André sorriu. Depois estendeu a mão direita em direção aos meus cabelos, uniu o polegar ao indicador e, gentilmente, apanhou uma borboleta. Era das verdes.Depois baixou a cabeça, eu estendi os dedos para seus cabelos e apanhei outra borboleta. Era das amarelas. Como não havia telhados próximos, esvoaçavam pelo pátio enquanto falávamos juntos aquelas mesmas coisas - eu para as borboletas dele, ele para as minhas. Ficamos assim por muito tempo até que, sem querer, apanhei uma das negras e começamos a brigar. Mordi-o muitas vezes, tirando sangue da carne, enquanto ele cravava a unhas no meu rosto. então vieram os homens, quatro desta vez. Dois deles puseram os joelhos sobre os nossos peitos, enquanto os outros dois enfiavam agulhas em nossas veias. Antes de cairmos outra vez no poço acolchoado de branco, ainda conseguimos sorrir um para o outro, estender os dedos para nossos cabelos e, com os indicadores e polegares unidos, ao mesmo tempo, com muito cuidado, apanhar cada um uma borboleta. Esssa era tão vermelha que parecia sangrar".
C.F.A. ( sempre aqui!)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

CD Cantiga Vem do Céu: grande lançamento!

Carlos Barros e Márcia Short

Ontem, 27 de outubro de 2009, às 20h, no Tom do Sabor, nasceu para o mercado o CD Cantiga Vem do Céu, do cantor Carlos Barros e Banda do Céu, com direito a autógrafos e belíssimo pocket show. O cantor, mais que emocionado, fez um show inesquecível que contou com as participações especiais de Márcia Short, Juliana Ribeiro e Déia Ribeiro. Uma platéia de atentos ouvintes tornou a noite mais que agradável e ratificou o talento musical dos meninos. Nela, a platéia, estavam também, além de muitos amigos, a família dos músicos e nomes como Iyá Odalice de Oxóssi, Cláudia Cunha, Marilda Santana, Milton Moura, Daniel Meneses, a grande cantora Stella Maris, sempre iluminada de azul e água, e Tiganá Santana. Tudo à altura deste jovem de 33 anos, prontíssimo para se firmar no cenário musical brasileiro. Axé para Carlos Barros e Banda do Céu. Os CD's estão sendo vendidos na livraria Tom do Saber ( Rio Vermelho) e na Pérola Negra (Canela). A produtora executiva deste projeto é Dil Guimarães, que pode ser contactada pelo celular 8835-0884.

domingo, 25 de outubro de 2009

Tua - a canção

Maria
Calcanhotto


Dentro da noite voraz
Detrás do avesso do véu
Atravessa este verso
A vontade nua
Tua, tua
Tua e só tua
Dentro da noite feroz
No breu das noites brancas de hotel
No clarão, no vasto, no vago
No vão, no não, na multidão
Tua, tuaTua e só tua
Dentro da noite fulgás
Estrelas a se consumir
Arde o gás que faz esta canção
Será que você vai me ouvir?
Tua, tua
Tua e só tua
Na areia, na neve marinha
No dentro do dia, tua
Na areia, na neve marinha
No motor do dia, tua
Tua, tua
Tua e só tua
Adriana Calcanhotto
- Uma compõe, a outra canta numa dimensão autoral; nos chega a luminosidade romântica através da canção, do CD, a obra madura de duas gerações; uma é mestra-voz maestra absoluta enquanto a outra dói em sua poesia, na leveza de suas sonoridades, na inteligência que faz sentir e seguir: Tua. Mais encontro entre Maria Bethânia e Adriana Calcanhotto. E nós, no ardor das lembranças, no frescor experiente da MPB( leia-se Bethânia), viajamos para dentro do desconhecido que sempre nos foi conhecido. Uma paisagem de delicadeza movida por som ambiente num mundo cada vez mais barulhento e desgastante. A lembrança acordada e feliz. Dor de sonho e felicidade; tristeza bendita; palavra que arranha e acarinha; voz que conduz e ilumina. Só Tua.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Arthur Rimbaud: estrela supernova


Arthur Rimbaud, grande paixão de Verlaine, segue sendo o poeta francês mais lido. Entenda por quê:
Por Thereza Pires ( Retirado do site MixBrasil)
Em dezembro de 2008, ao visitar um antiquário para buscar material para documentário sobre a vida do poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891), o jovem cineasta francês Patrick Taliercio fez uma importante constatação. Ficou comprovado que Rimbaud foi também jornalista, tendo enviado vários artigos a um jornal, quando adolescente.Os especialistas e biógrafos sabiam desse material jornalístico e da colaboração para um outro jornal, “O Parnaso Contemporâneo”, mas acreditavam que nenhum documento tinha resistido ao tempo.O exemplar estava guardado no cofre do antiquário e existem ainda cerca de quinze cópias de artigos publicados, na biblioteca da cidade natal do poeta.O pequeno texto "Le Rêve de Bismarck" (O sonho de Bismarck, 25 de novembro de 1870) saiu no jornal "Le Progrès des Ardennes", na cidade natal Charleville-Mézières, sob o pseudônimo Jean Baudry, bem conhecido dos estudiosos. Rimbaud tinha 16 anos e iniciava sua meteórica carreira literária."Le Rêve de Bismarck" é um texto sobre a guerra entre a França de Napoleão III e a Prússia de Bismarck.
A vitória alemã e o Tratado de Frankfurt, resultaram na anexação das províncias de Alsácia e Lorena, que, mais tarde, voltariam para a França.Menino prodígioJean-Nicolas Arthur Rimbaud nasceu a 20 de outubro de 1854, em Charleville - nordeste da França - filho de camponeses humildes. Foi um aluno extraordinário. Supriu as deficiências do meio ambiente com talento incomum. Começou a escrever muito cedo, em latim. Somente em 1869, produziu o primeiro poema em francês. Seu professor e mentor Georges Izambard animou-o a escrever 22 poemas. Rimbaud conheceu Paris em 1870, a convite de Verlaine, depois de uma troca de correspondências. Suas primeiras experiências sexuais aconteceram nas tendas de soldados que lutavam na Comuna de Paris contra os jacobinos e socialistas.O poema “O coração roubado” costuma ser interpretado como descrição de uma iniciação sexual. Entre os quinze e dezenove anos (quando abandonou a literatura) escreveu a obra que o imortalizou, regada a absinto e outras drogas.
Protagonizou um caso rumoroso com o também poeta Paul Verlaine, que abandonou mulher e filhos para seguir seu amor bandido .Amor Bandido Verlaine, muito respeitado em sua roda literária, era sempre procurado por jovens poetas para avaliação de manuscritos.Cartas chegaram com as primeiras produções do jovem Rimbaud (17 anos), considerado o caso mais fantástico de talento juvenil na literatura francesa. A atração entre os dois poetas foi imediata. A esposa de Verlaine, Mathilde, adolescente e grávida, perdeu lugar para ao belo efebo que pretendia “descobrir o desconhecido através da desordem em todos os sentidos”.EscândaloA união de Verlaine e Rimbaud escandalizou a sociedade, o círculo literário e os pais de Mathilde.O casamento começa a se desagregar com os maus tratos, os espancamentos e nem mesmo o bebê George escapou das ressacas e das bad trips do pai.Os dois formaram e lideraram o grupo “Les Vilains Bonhommes” (Jovens Cafajestes). Os poemas escatológicos ali criados são reunidos no Album Zutique. Um poema escrito a quatro mãos - Verlaine se encarregou dos quartetos e Rimbaud dos tercetos - "Le sonnet du trou du cul", faz a elegia do ânus.Em um primeiro momento, Verlaine tenta uma reconciliação com Mathilde, em encontro amoroso em um hotel belga e um acerto de retomada da relação conjugal não concretizada.Tempos depois, na mesma Bruxelas, Verlaine perde o controle e atinge Rimbaud com dois tiros - é condenado a dois anos de prisão.Durante o processo, Mathilde pede o divórcio, alegando conduta sexual imprópria e Verlaine é declarado culpado, depois de submetido a um humilhante exame proctológico na presença de juízes.Após cumprir a sentença, Verlaine morou na Inglaterra até 1877. Voltou à vida desregrada da bebida e das drogas.“Je est un autre” (eu é um outro)A obra poética de Rimbaud, um ícone da poesia gay, foi produzida praticamente durante o período de seu tumultuado romance com Verlaine.Criador de um mundo de símbolos, alucinações e visões, escreveu duas “Cartas-Manifesto” em que define cada poeta como clarividente, mágico e artista.Rimbaud poderia ter sido um ator premiado. Atuando como artista em sua obra literária, assume diversas personalidades, masculinas e femininas.Em sua carta para o mentor Izambard (13/5/1871) declara “Je est un autre” [ eu é um outro (sic)] e continua a criar suas “Iluminações” – na forma de autobiografia em prosa e verso, entrelaçando sonhos adolescentes com alquimia, história com ficção, coração e razão, idéias com objetos, humano e sobrenatural.MochileiroDepois da separação, Rimbaud vaga durante seis anos sem destino pela Europa. Cruza países com uma mochila nas costas, para realizar seu sonho de andarilho. Chega a se alistar no exército holandês, mas logo pede dispensa.
Finalmente, se estabelece na Etiópia como comerciante de café, vendedor de armas e camelos, como o que se chamaria hoje um freelancer ou, para usar linguagem mais popular: um biscateiro, vivendo de “bicos”.Pouco antes de completar 37 anos, já com a perna direita amputada em virtude de um ferimento, morre em Marselha - 10 de novembro de 1891 - em tempo de se reconciliar com a família, segundo cartas da irmã.Depois de conhecer Rimbaud, a poesia e a forma de ver o mundo nunca mais poderão ser as mesmas.
Na sinopse bilíngue de Poesia Completa – Rimbaud: Encarnação da Poesia e do próprio Pathos do Homem (Editora Topbooks- 2007) tradução de Ivo Barroso, o tradutor explica: "Arthur Rimbaud é um mistério humano e um enigma literário ainda não inteiramente decifrado, muito embora a indústria Rimbaud continue em grande atividade. Situar sua figura e sua obra no contexto da literatura francesa moderna tem sido a profissão da vida inteira de estudiosos”O filme Eclipse de uma Paixão(Total Eclipse, Inglaterra, França, Bélgica, Itália, 1995), drama com direção de Agnieszka Holland para roteiro de Christopher Hampton e Leonardo DiCaprio como Rimbaud mostra a trajetória dessa verdadeira supernova literária.Supernova, em astronomia, é a estrela em que ocorreram explosões internas e, em consequência disso, a luminosidade aumentou bruscamente.
(De super-+nova): "Uma supernova marca a morte de uma estrela numa explosão espetacular. Os cientistas dizem que esses eventos têm um papel crucial na criação de elementos pesados, por meio da fusão e síntese nuclear, e posterior lançamento no espaço, semeando o cosmo com metais."Rimbaud lançou criatividade e semeou o cosmo com sua genialidade.Foi o precursor do modernismo, do dadaísmo de Tristan Tzara, do surrealismo de André Breton e influenciou gerações e gerações. De Mário de Sá-Carneiro aos beatnicks e Bob Dylan, que se reconheceram no seu inconformismo juvenil.Cento e dezoito anos depois de sua morte, continua sendo o poeta francês mais lido no mundo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sereia



O que habita e seduz
O que sou e não tenho
O que é linguagem absoluta
E traduz minha existência de pescador.
Meu lado confuso e mulher
Certeza do melhor que trago em mim.
Aqui: água e sal
Meu canto é minha escrita
E minha fala me são esmeraldas
Voz para qualquer explicação.
Mito de navegação
Meu estado Bahia.
Sereia,
Âmago da poesia que vibro
No barulho e no silêncio.
Sereia,
Meu mimo, meu reflexo.
A mão de Iemanjá sobre meu ori.
Ninfa de algumas certezas
Dança da minha alma
Fruto da especial beleza.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Homem que anda

Esta é uma das peças de destaque da mostra Rodin, homem e gênio, que será aberta ao público a partir de 27 de outubro de 2009, sempre das terças aos domingos, das 10 às 18 horas. No Palacete das Artes, na Graça. Imperdível.

Márcia Short em Axé Acústico




Show Axé Acústico
05, 12, 19 de Novembro de 2009. Sempre às 20h.
R$ 5,00 reais.
Theatro XVIII

A cantora Márcia Short apresenta no Theatro XVIII, o show Axé Acústico. Interpretando grandes sucessos do ritmo da axé music, musical lançado na Bahia, numa formação acústica e inovadora.
No show serão cantadas músicas que permeiam e identifica o sucesso dos 25 anos do Axé, em um formato acústico, inovador e ousado. No palco Márcia será acompanhada pelo Produtor Musical Adson Santana, que assina a Direção Musical e Artística do espetáculo, além de um baixista, três violões e três percussionistas.
O show é um convite para ouvir as outras facetas da cantora e a um passeio prazeroso pelos 25 anos de Axé Music.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Doido Lelé é premiado em Festival do Paraná


Retirado do CINEINBLOG (Portal do A Tarde On Line):
"O curta-metragem da jornalista e cineasta baiana Ceci Alves, Doido Lelé venceu o prêmio de melhor ator no 4º Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino, com a performance do ator-mirim Vinicius Nascimento (Ó paí Ó e Capitais de Areia). Doido Lelé foi o único curta baiano presente na disputa e de quebra, ainda recebeu elogios de ninguém menos que Fernanda Montenegro. Ao todo, Doido Lelé disputou sete categorias, incluindo premiações importantes como melhor filme, direção e roteiro. Escrito e dirigido por Ceci Alves, o filme conta a história de Caetano, um garoto que deseja ser cantor de rádio na década de 50 e tenta a sorte em shows de calouros."
P.S.: Parabéns, Ceci Alves, cê sabe que cê merece, né? Beijos.

Um Ano Novo em Mim


Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Eros e Psiquê

Pessoa
Mão Maria

O Mito


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o
Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
P.S.: Este poema é uma das minhas traduções. Vem de Pessoa na órbita do belo mito e quando Maria Bethânia diz, minha compreensão torna-se alumbramento; eu sinto tudo: é o mundo pulsando dentro de mim.


Resplendor da Primavera


Este é um blog que guarda e louva as águas. A Cidade da Bahia é das águas. Aqui é centro solar da primavera realçando flores e águas. Marítimo - meu ritmo mais prazeroso. Cheiro de minha alma. Humaitá em Salvador - perfume da beleza e música do pertencimento. Eu à esta cidade. Quanto desprazer mas, sempre menor que o meu amor.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Mais beleza


Nessas horas que os olhos querem descansar mas o restante acorda.

Sim.


Fanatismo

Paixão

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…
”Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”
Florbela Espanca
P. S. : Sempre: SIM

Brasil ganha edição comemorativa de "Cem Anos de Solidão"

Gabriel Garcia Márquez


A versão em português da edição comemorativa dos 40 anos de "Cem Anos de Solidão", do escritor colombiano Gabriel García Márquez, começa a ser vendida nesta semana nas livrarias brasileiras, mais de dois anos depois de seu lançamento em espanhol.
O romance teve seu texto revisado pelo próprio García Marquez, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1982, e foi editada no Brasil pela editora Record.
A obra foi traduzida para o português pelo escritor brasileiro Eric Nepomuceno, tradutor das obras dos principais autores ibero-americanos e amigo de García Márquez.
"Como a obra foi revisada pelo autor, fizemos uma tradução completamente nova", disse Nepomuceno à agência de notícias Efe.Segundo um comunicado divulgado hoje pela Record, a versão brasileira da edição comemorativa de 40 anos de "Cem anos de solidão" tem prensagem inicial de 15 mil exemplares e inclui um prólogo escrito por Nepomuceno, o discurso que García Márquez fez quando recebeu o Nobel de Literatura e a árvore genealógica da família Buendía.Na nota, a Record diz que Nepomuceno faz em seu prólogo "um passeio pela carreira literária de García Márquez desde seu começo" e relata a história da amizade entre os dois.
Foram retirados da edição em português os comentários escritos para o livro comemorativo em espanhol pelos escritores Álvaro Mutis (Colômbia), Mario Vargas Llosa (Peru), Carlos Fuentes (México) e Víctor García de la Concha (Espanha), além do escritor franco-espanhol Claudio Guillén.A nova edição em português de "Cem Anos de Solidão" terá 448 páginas e será vendida por R$ 49,90.A edição em espanhol foi considerada um sucesso de vendas e vendeu 25 mil exemplares na Espanha em apenas um dia.
(Retirado do Cultura Online do Jornal A Tarde,em 13/10/2009).

Roça do Ventura: à espera do tombamento

A Roça do Ventura ( Foto do Jornal A Tarde)
por MARLON MARCOS

A cidade de Cachoeira da Bahia, uma das mais bonitas deste País, salvaguarda em si grande parte da memória e presença religiosa de origem africana. Em sua paisagem privilegiada, banhada pelo Rio Paraguaçu, existem templos de candomblé que são monumentos históricos inaugurais desta religião negra no Brasil.
Um dos mais antigos e importantes clama por seu tombamento e pede às autoridades responsáveis que se adiantem numa ação de reconstrução, restauração, preservação e dignificação física, já que a chamada Roça do Ventura, ou ilustremente, o Zogbodo Male Bogun Seja Unde, o modelar terreiro de nação jeje-mahi, é de suma importância para continuar uma tradição de ensinamentos seculares.
O pedido de tombamento foi encaminhado ao Iphan, à sua 7ª Superintendência Regional, na Bahia, aos cuidados de Carlos Amorim, em 20 de dezembro de 2008, em nome de dona Alaíde Augusta da Conceição, a veneranda vodunce Alaíde de Oyá.
Nos últimos meses, as matas daquela casa sofreram um incêndio que por pouco não devastou o templo; ainda assim, agravou as suas condições físicas e mais do que de laudos antropológicos e da caridade de qualquer espécie, aquela “roça dos voduns” conclama os preservadores instituídos neste Estado a resolverem uma questão socioantropológica de alta relevância para um povo, no caso o baiano, que tem nas religiões de matriz africana esteio civilizatório.
Esta luta está sendo empreendida por patrimônios humanos, nela estão os ogãs Boboso com 103 anos, e Bernardino com 101, além das vodunces Alda e Alaíde de Oyá, a primeira funciona como uma espécie de guardiã, até que se defina a escolha de uma nova gaiaku, o que seria a ialorixá para o povo de ketu.
Também à frente desta ação de resistência e movimento estão o historiador Marcus Alessandro, que é ogã desta casa, a vodunce Dinalva e a ekedy mais antiga, Romilda; os ogãs Buda e Vando também lutam e representam a renovação daquele candomblé.
Recebendo também apoio direto da Secretaria de Promoção da Igualdade (Sepromi), na figura de Luiza Bairros, e dos cidadãos responsáveis pela preservação de nossa cultura, juntos pedimos: tombem o Seja Unde!
( Publicado no Opinião do A Tarde, em 14 de outubro de 2009 e no blog Jeito Baiano, de Jary Cardoso).

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Gal - Pérola Negra

Querida Gal,

Só pra lembrar da imensa saudade que sinto e dizer do quanto seu canto faz falta aos ouvidos dos seus pares e aos nossos. Trago-lhe aqui cantando outra paixão minha, Luiz Melodia e a sua Pérola Negra, imortalizada pelo cristalino da sua voz. Volta, e junto com Bethânia, ocupe o lugar que é de vocês.

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domingo, 11 de outubro de 2009

"A casa da saudade é o vazio"

Maria
Lenine

Lenine e Maria

Eu sei que o maior da minha vida é feito de esperas e está no futuro. Quando há desenho do presente em mim é a arte que me traz. A arte artesania dos nossos poetas e cantores, atores e atrizes, pintores, trapezistas, desenhistas, músicos, dançarinos nesta tessitura chamada Brasil.
O melhor na minha vida é projeto e quando se realiza, quase sempre é canção filme livro poema.
Estou diante disso: recorte lítero-musical de Maria Bethânia me mergulhando em minha sonora memória marítima e eu sendo. Tua - o novo CD de mais uma saga amorosa dela - e eu sendo minha própria inspiração para alcançar as cenas de dor e alegria nos traços daquela voz, marca da qualidade e movimento da criação.
O CD que traz Calcanhotto, Roberto Mendes, Dori Caymmi, Roque Ferreira; que traz Chico César, esse mago, e Moska, o bruxo, em Saudade, momento de junção entre Bethânia e Lenine, o mais doído e bonito do disco.
Saudade é um torpedo clariceano e desliza na gente, comove a gente como deveria ser na justeza daquelas vozes: Maria Lenine e o amor em mim, que nem começou, e eles me trazem acabando.
Este Tua ainda é mar e me afoga, adormece, faz sonhar. Sonho, repetindo-me na casa do silêncio e do vazio, olhos banhados em lágrimas gozando a noção de pertencer ali a este país; sonho, em minha configuração amorosa favorita; sonho, sem medida, em cada centímetro da esperança que não me abandona e vivo. Um dia de domingo chuvoso no âmago do que não sei definir e ouço:
"Quem foge da saudade
Preso por um fio
Se afoga em outras águas
Mas do mesmo rio"
Chico César/Moska



sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Obama: Prêmio Nobel da Paz


Não sei do sentido de nada disso. Mas gosto de saber de um homem negro resplandecendo-se neste nosso mundo tão desigual, racista e medíocre. Nem sei se Obama embute graves mediocridades; não sei de suas perspectivas políticas mais profundas e se ele representa o novo para nós, os carentes do novo. Agrada-me sua negritude, beleza, elegância e conquista nestes tempos de muita dificuldade estadunidense. Gosto da imagem de Obama; preferia Lula por achá-lo mais íntegro à noção de paz; não sendo Lula, que seja Obama. Axé!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Subitamente bela


Meus olhos entregues ao mistério e ao se existir beleza.
Formas do oculto que é o melhor.
Presença acima dos dizeres.
Magnânima forma artística
Em nada muito além.
Mulher miúda
Subitamente bela.
Em tudo muito além.

A lenda

"Existe coisa mais verdadeira que a verdade: a lenda. Ela é que dá sentido eterno à verdade efêmera"
Nikos Kazantzakis

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Toni Garrido canta em Lençóis


Retirado do Cultura On Line do A Tarde:



"A Chapada Diamantina recebe, na próxima sexta-feira, 9, a 11ª edição do Festival de Lençóis, que agora não é mais de inverno e acontece em plena primavera. Durante os três dias de música (o evento segue até domingo), o público irá conferir, gratuitamente, shows de artistas como Toni Garrido, Vander Lee, Jota Velloso e Vânia Abreu.
De acordo com Paula Resende, uma das organizadoras do festival, o principal interessedas 10 mil pessoas – que são esperadas a cada noite – é a própria Chapada. “O maior atrativo é a própria beleza natural do lugar. É isto que motiva os turistas.
Quem vai para a Chapada, vai com o propósito de fazer caminhadas, conhecer as grutas. Por isso os shows começam cedo e terminam cedo, para que as pessoas acordem e façam os passeios ecológicos”, explica. O evento, que já apresentou mais de 112 atrações musicais nestes 11 anos, traz agora quatro artistas de renome nacional. "

Antropologia



Para Cláudio Pereira
Antropologia me é descoberta. O meu estar contemplando o outro. A vontade do novo nessa sutil sensação da imersão no susto de nos existir. E eu me aprendi assim: meio arriscado a teorias que não domino, meio íntegro às investigações no campo que aciono.
A antropologia é a epifania do outro que sou eu. Meu meio poesia. Meio sexualidade dual maior que meu corpo masculino. A antropologia é meu sal científico. Uma vontade louca de escrever. Sonhos-mímeses do que me penso ser e procuro em outrem.
A antropologia é um tipo de não-razão: os antropólogos todos que conheço são lotados de preconceito. Mas seus escritos, não.
A antropologia é meu desejo de ser cientista. É minha poesia possível de ser lida. É meu corpo entregue ao que busco não sei em quê.
É minha canção embalando minha vontade de ser poeta, de ser escritor, e nesse ardor de tanto querer, me ser antropólogo - como um mestre me demonstrou.

"A voz não é minha. É das sereias"

Maria na Bravo

Passa um pouco do meio-dia e, sob orientação do fotógrafo de BRAVO!, Maria Bethânia caminha pelos jardins da Villa Riso, a parte remanescente de uma fazenda do século 18 que se transformou em espaço para festas. É lá, na estrada da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, que a cantora costuma receber jornalistas. O lugar fica próximo à casa onde mora desde 1972.
"Por favor", pede-lhe o fotógrafo, "sente-se debaixo daquele pinheiro." Bethânia abana a cabeça negativamente: "Ali não". Com gentileza, mas irredutível, esclarece que pinheiros a incomodam. "Em minha terra, são árvores de cemitério."
Oriunda de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, a irmã de Caetano Veloso - adepto de "uma irreligiosidade feroz", como já se definiu - nunca separou rigidamente o místico daquilo que os cartesianos chamam de real. Para a intérprete, o sagrado e o corriqueiro se entrelaçam. Um explica e alicerça o outro. Tal convicção, que a artista manifesta com uma naturalidade às vezes desconcertante, estimula um divertido folclore em torno dela, uma profusão de lendas que a tomam por feiticeira ou algo assim. "Quando Bethânia inicia uma turnê, chove. Evite usar negro ao lado de Bethânia. Sempre que Bethânia entra no estúdio, os monitores de ouvido acusam interferências." Das inúmeras histórias, a cantora - famosa por resguardar avidamente a própria intimidade - só confirma que não veste roupas pretas. Dispensa a cor em respeito às recomendações do candomblé, crença que abraçou junto com a devoção pelo catolicismo. "Mas podem usar negro perto de mim", avisa, às gargalhadas.


A faceta mística de Bethânia desponta claramente no CD Encanteria, um dos dois que acaba de lançar. O álbum do selo Quitanda agrega 11 composições inéditas - sambas e toadas sobre orixás, santos e as celebrações que os homenageiam. Caetano e Gilberto Gil cantam na faixa Saudade Dela. O outro disco, Tua, sai pela Biscoito Fino. Também reúne 11 músicas inéditas e conta com a participação do pernambucano Lenine. De sonoridade mais urbana, tem como mote o amor.
Em conjunto, os delicados trabalhos reafirmam que Bethânia já não cabe apenas nos rótulos de "romântica", "brejeira" ou "artista de massa". Ela é hoje, aos 63 anos e 46 de carreira, um clássico à altura de Edith Piaf, Nina Simone ou Ella Fitzgerald, ainda que de abrangência menor.
Durante a entrevista de quase duas horas, a cantora trajava uma pantalona azul e uma pashmina cor-de-rosa, espécie de xale que lhe recobria os ombros. Pelas mãos, braços e pescoço, espalhava algumas joias, a maioria dourada. Um dos anéis e o relógio de pulso despertavam especialmente a atenção.
BRAVO!: Que anel curioso…

Maria Bethânia: Você gostou? Traz a imagem do meu caboclo.

Um índio?
Exato, o caboclo que me protege, graças a Deus. Veja só que história inusitada: uma vez, desembarcando em Miami, topei na imigração com um policial branco, alto e muito forte. "Virgem Santíssima!", pensei. "Olhe o tamanho do sujeito!" No entanto, para minha surpresa, o homem sorriu. Quando pegou meu passaporte, notei que ostentava um anel de prata enorme. Uma peça luminosa, com o rosto de um índio. "Que anel incrível!", comentei em português. O homem continuou rindo como se me compreendesse. De repente, tirou o anel e me deu. Um gesto absolutamente improvável: a polícia dos Estados Unidos distribuindo presentes no aeroporto?! Tão logo retornei para casa, providenciei uma cópia do anel, menorzinha, em ouro. É a que estou usando.
Qual o nome do caboclo? Pode revelar?
Quer saber demais sobre o meu caboclo! (risos) Há décadas, pertenço à Nação Ketu do candomblé. Mas, ainda garota, em Santo Amaro, costumava visitar um terreiro de outra nação, a Angola. Ali os fiéis não cultuavam somente os orixás. Também recebiam o espírito dos índios que habitaram o Brasil, os caboclos. É uma tradição maravilhosa, que me comove. Por isso, conservo o anel. Sem contar que tenho uma bisavó indígena, da etnia pataxó.
E o relógio?
Comprei para marcar um acontecimento...
Que acontecimento?
Não vou entrar em detalhes. Foi algo bonito que me ocorreu e que se relacionava com o tempo. Precisava de uma coisa que simbolizasse aquilo.
Como uma tatuagem?
Tatuagem, não — o candomblé proíbe. Engraçado que, bem jovenzinha, sonhava em fazer uma. Cresci num lugarejo repleto de rios, mas passava as férias na praia. Sempre amei perdidamente o mar. Meu pai dizia que a terra e o oceano se espelham. "Tudo o que existe aqui em cima existe no fundo do mar." Eu o escutava, e minha imaginação corria solta: "Tudo, pai? Coqueiro, abelhas, montanha?". Ele jurava que sim. Não à toa, os marinheiros me encantavam. Admirava as tatuagens que carregavam nos braços. "Quando mandar em mim, arranjarei uma igual", planejava. Àquela época, poucas mulheres ousavam exibir tatuagem. Eu, atrevida, desejava uma nas costas, do lado direito, perto da bunda. Cogitei, primeiro, desenhar uma sereia. Sou fascinada por sereias. Depois mudei de opinião: "Vou botar uma estrela, ou um sol, ou uma lua". Acabei não desenhando nada.
Sereias a fascinam?
Imensamente. Criança, ganhava umas de minha mãe, pequeninas, de barro. Agora ganho dos amigos e dos fãs. Em casa, há um punhado: de metal, gesso, madeira. Sereias são as donas da voz... Senhoras da emissão, que cantam por minha boca. Só sei cantar graças às sereias. Elas me ensinaram. Minha voz apenas mora em mim. Não é minha. É das sereias. É de Deus.
Uma metáfora, não? Ou você realmente acredita que sereias existam?
Acredito. Certas pessoas conseguem ouvi-las, enxergá-las. Eu nunca as enxerguei. Mas as sinto, talvez porque queira senti-las. Creio que hoje esteja no mesmo lugar em que as sereias se encontram. Uma bênção!
Julga-se predestinada?
Sem dúvida. Nasci para o que faço. Já na infância, me comportava de maneira incomum. Andava maquiada por Santo Amaro como uma vedete, confeccionava minhas próprias roupas e imitava os personagens das peças que o grupo local de teatro montava. O povo da cidade morria de vergonha. Evitavam a minha companhia. Somente o Caetano me apoiava. Eu avisava: "Não adianta reclamar, pessoal! Sou do palco, vou viver do palco". Não suspeitava ainda que iria cantar. Pretendia virar trapezista. Circo me atraía muitíssimo. Uma ocasião, caí de amores por um palhaço, o Poli, mal o avistei no picadeiro. Paixão doida, de cinema! Fiquei tão envolvida que arrumei um jeito de conhecê-lo sem máscara. Era um homenzinho calvo, quase sexagenário. "Vou fugir com o senhor!", repetia. O coitado, lógico, apenas gargalhava. Quando o circo partiu de Santo Amaro, me desmanchei de tanto chorar.
Em que momento você resolveu se tornar cantora?
Com uns 15 anos. Ou melhor: Caetano resolveu por mim! (risos) Ele compunha a trilha de um curta [Moleques de Rua, do diretor Álvaro Guimarães, o Alvinho] e me pediu para gravá-la. Topei na hora. Quatro anos mais velho, Caetano me influenciava bastante. Nós o considerávamos o gênio da família. Desde cedo, o danado pintava como ninguém, tocava, escrevia canções. Lembro-me de vê-lo redigir uma peça inteira com 8 ou 9 anos. "Você vai fazer o papel da estrela", me prometia. Eu, um toquinho de gente, concordava. (risos) O negócio é que acabei gravando a trilha em Salvador, no ateliê de Mário Cravo Jr. [escultor]. Que período bom, rapaz! Pouco depois, em 1963, Alvinho encenou Boca de Ouro, a tragédia do Nelson Rodrigues, e me chamou para cantar um samba de Ataulfo Alves no prólogo. Iria interpretá-lo da coxia, sem aparecer. Mesmo assim, não deixei de caprichar nos trajes. Pus luvas, brincos, colar...
Foi em Salvador, na década de 1960, que você se aproximou de Gal Costa. Continuam amigas?
Continuamos, só que não como antigamente. Perdemos o convívio. Éramos grudadas, irmãs. Agora... Gal se distanciou muito de mim e de Caetano. Não brigamos nem nada. Ela apenas se isolou. Diminuiu o ritmo, se afastou da música, adotou um filho [Gabriel, em 2007]. Mora lá na Bahia e cuida do menino, linda. Um dia lhe perguntei: "Do que você mais gosta hoje, do canto ou da maternidade? Me responda, mulher!". Não respondeu. (risos) Tenho a impressão de que Gal, uma cantora inigualável, não se entusiasma tanto pelos novos autores. Deve avaliar que suas composições não estão à altura da voz dela, daquele cristal perfeito. É compreensível. A emissão de Gal exige de fato canções tão sofisticadas quanto as de Caetano, Chico Buarque, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Ary Barroso. Eu, em contrapartida, não enfrento o mesmo problema. Sou uma intérprete antes de tudo. Uma intérprete de textos, de ideias, que também pode cantar. Não sou uma purista.
Você nunca pensou em gerar ou adotar um filho?
Pensei em dar à luz com meus 18, 19 anos. Desisti mais tarde e não me arrependo. Filho são meus discos, é minha carreira. Não disponho da sabedoria de meus pais para educar uma criança. E o mundo em que vivemos... A correria, a violência, a competição, o ar irrespirável... Colocar um bebê nesse inferno? Em um planeta sufocado? Fico apavorada quando constato algumas inversões de valores. O dinheiro, por exemplo. Virou o centro do universo. Uma loucura! Às vezes, acho que a atual crise financeira é um alerta do próprio dinheiro: "Prestem atenção! Entendam a minha natureza. Posso dormir um hoje e acordar outro amanhã". Enfim... Sou cruel com os amigos e sobrinhos que têm filhos. Cobro que zelem pelas crias e não admito que se queixem. Decidiram ter? Então se redobrem para ampará-los.
Os dilemas ecológicos parecem preocupá-la. Você apoiará a possível candidatura à presidência da senadora Marina Silva, que acabou de ingressar no Partido Verde?
Marina me arrebata. É nobre, firme, sóbria. E domina a área dela, a do meio ambiente. Como Gilberto Gil [ex-ministro da Cultura], passou pelo governo federal sem se manchar, sem cometer erros crassos. Jurei que não votaria mais em candidato nenhum, nem do Executivo nem do Legislativo. Mas a Marina talvez me anime a voltar atrás. Fechei com Lula nas eleições de 2002 e, depois, parei de votar. Os políticos me irritam. Imaginam que somos idiotas.
Recentemente, você sofreu críticas da imprensa por recorrer à Lei Rouanet para bancar alguns de seus espetáculos...

(Interrompendo) Sofri... Uma palhaçada! Uma tristeza! "Governo de esquerda só pode ajudar quem não faz sucesso." Que raciocínio torto! A lei deve acolher gregos e troianos: o ministério avaliza os projetos e cada artista sai à caça de patrocinador, como manda o figurino. Qual o drama? Por que tanta chateação?
Porque se trata de verba pública.

Verba pública? Nunca trabalhei com verba pública!

A lei prevê que os patrocinadores descontem os gastos do Imposto de Renda - um dinheiro que, em tese, iria para o setor público.
Renúncia fiscal, menino! É um mecanismo ótimo! O mínimo que a cultura merece.
E quanto à alegação de que shows como os seus ou os de Caetano, Ivete Sangalo e outros cantores famosos se pagariam apenas com a bilheteria, sem a necessidade de patrocínio?O quê?

Apenas com a bilheteria? Qualquer espetáculo de certo porte no Brasil consome uma fortuna. Nossos custos são de ópera! A plateia pede um cenário elegante, uma iluminação de primeira, um som magnífico. Não condeno, não. Estão corretíssimos! Mas qualidade tem preço. Para subir num palco, preciso ensaiar 40 dias ou mais. Você sabe o que significa arcar com 40 dias de estúdio, técnicos, equipamento, músicos? Um absurdo! "Ah, a cantora também leva uma bolada." Leva? Quem menos ganha é a cantora. Com despesas tão elevadas, você julga viável depender só da bilheteria? Não há Canecão lotado que cubra um espetáculo. Não há teatro no país que cubra - e olhe que os ingressos não são baratos, infelizmente. Sem patrocínio, amargaríamos prejuízo caso quiséssemos manter o alto nível dos shows. E, sem a lei, não conseguiríamos patrocínio nenhum. Zero! Portanto...
Retirado:

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Arco-íris


O que é de mim
Em paz comigo mesmo.
Me traz
Encontro de dois
A sós.
Feito lágrima e banho
Guiado ao centro do tempo.
Este desenho da minha alma
Difundindo-me caminhos afora,
Registros.
Nada que seja mais espera.
No rastro de algumas cores
Esse tal, o amor
Ressurgirá.

Eu também canto a mim mesmo

A partir de Walt Whitman

Para louvar a insubmissão do pensamento,
Tive filhos, plantei árvores, escrevi livros...
Mereço eu ser um homem infeliz?

Faço indagações sem respostas,
revolvo contradições e falta de sentido,
me envolvo em meandros e meandros de mim mesmo:
De que vale a escuridão para um cego?
Como alguém que nada tem pode dar?
Haverá deleite no silêncio sepulcral do espaço sideral?
Marchamos solenes e inexoráveis para o Fim dos Tempos?
Como fazemos para fecundar o simples no complexo?
Existirá no Paraíso um quarto de hóspedes arrumado para os rebeldes?
Desabrocharão orquídeas amarelas na primavera?

Todas as questões que hoje formulo
dizem tanto,
e tão pouco de mim mesmo:

O que espero eu da vida?
Um destemido gesto de afeto.
Respeito pelos meus cabelos brancos, mesmo quando eu estiver careca.
Uma palavra efetiva de agrado.
Reconhecimento insolente, mas sincero.
Ter o pedaço de chão debaixo de meus pés como meu único reino e domínio.
Ter, se possível, a cabeça nas nuvens, que lá se encontram os ventos do sul e do norte.
Livrar-me daquilo que abomino.
Um dia entender o princípio do Odioso Devastador que nos faz ter inimigos.
Manter a vigilância para que não me alcancem enquanto eu descanso.
Ziguezagear, ao som de um ziriguidum, sem ir a lugar nenhum.

O que farei eu da vida?
Ver despertar o dia de amanhã
após uma boa noite de sono,
ou após profícuo labor noturno na minha modesta artesania.
Labutar contra as perguntas que ainda não me fiz.
Encontrar no diferente aquilo que é igual,
e no igual aquilo que é revelador.
Inventar meu caminho enquanto caminho,
que o mundo mesmo não tem eira nem beira.
Ocupar o lugar certo na hora certa.
Manter todas as coisas sublimes suspensas em equilíbrio.
Louvar a insubmissão do pensamento.
Salvador, 02/10/2009 - Cláudio Luiz Pereira ( antropólogo)

Márcio Meirelles se reabilita com exposição de Rodin na Bahia

Diretor do Rodin na Bahia, Murilo Ribeiro (na foto em frente ao museu em Paris) foi peça essencial na atração da exposição

O secretário estadual Márcio Meirelles acaba de realizar uma proeza que pode simbolicamente ajudá-lo a reabilitar-se como gestor da cultura no Estado. Sua assessoria anunciou hoje que a partir do dia 26 – e pelos próximos três anos – o Palacete das Artes Museu Rodin vai receber 62 esculturas do escultor Auguste Rodin, considerado o pai da escultura moderna.



É a primeira vez que o Museu Rodin Paris concorda em ceder por tanto tempo suas peças para uma exposição, acatando solicitação do governo da Bahia, numa clara demonstração de confiança na secretaria de Cultura. A exposição “Auguste Rodin, Homem e Gênio” é um dos eventos mais esperados da programação do Ano da França no Brasil.

As obras foram cedidas em comodato de três anos pelo governo francês. A exposição surge num momento em que já se esgotavam todas as expectativas de que o Palacete das Artes abrigasse um acervo significativo de Rodin, justificando o nome que leva. É também uma prova de que Meirelles, que recebeu de Aninha Franco o apelido de “Macbeth da Província”, tem persistência e sabe escolher bem sua equipe.
Grande parte do mérito e das credenciais para a atração do trabalho devem-se ao artista plástico Murilo Ribeiro, diretor que deu função que não se esperava ao Palacete das Artes, inserindo-o, em três anos de gestão, definitivamente, na cena cultural da cidade. A respeitabilidade internacional de Murilo, sua fama como artista e competência como gestor foram essencias ao resultado.
(Retirado do blog Política Livre, do jornalista Raul Monteiro).

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Penumbras

Penumbras - Oléo sobre tela - Karina Gallo
Foi cedo para um ritual noturno. Daqueles feitos na calada da noite escondendo-se até para o mistério. Cedo demais para um coração em formação quando outro abrupto voraz e sedento já cantava despedidas. Foi o que era inteiro sob a marca da separação: despedaços num canto de quarto escuro sem tempo à penumbra de um tempo onde ainda só há vida nos esconderijos. Retoques da desmedida ilusão. Composição absurda baseada em carinho. Foi carinho na giratória da emoção querendo, fazendo, ofertando, cheirando, pedindo, ensinando, sendo, deixando, fitando, chorando, sorrindo, insistindo e no além-tempo: amando. Amor literatura. Entre as penumbras da confusa libido. Formas insanas do que não pode ser descrito. Resistência da criativa imaginação. Pintura noir novecentista para um futuro sem apreço e sem presente.
Ritual soturno e semente. Desafio incontido da emoção a qualquer postulado científico, a qualquer deixa da pútrida razão contemporânea. Para o alcance das bruxas - mesmo que sem realização. Ritual na madrugada dentro do cerne do perigo mas irremediavelmente nobre e prazeroso.

Separação

Milton Guedes

Pouco a dizer. Milagres disso em nós, música popular. Uma letra coloquial e linda; voz meiga; o poderoso sax aumentando aquela imagem no coração: "eu sei que te adoro, mas não digo não". Manhã de hoje quase sempre em mim. Antes, durante e depois. Meu ouvido na canção e o olho na tv: dor e esperança. Assim:

É COMO SE O AMOR FOSSE UM VÍCIO
QUE SE NOS DEU PRAZER
FOI SÓ NO INÍCIO
LEMBRA UM RITUAL
ONDE O SACRIFÍCIO
INSISTE NO BANAL, NO DESPERDÍCIO
EU SEI QUE TE ADORO
MAS, NÃO DIGO NÃO
PREFIRO MALTRATAR TEU CORAÇÃO
SE VOCÊ É SINCERA
EU ACHO QUE VOCÊ MENTIU
E QUANDO VOCÊ TEM PRAZER
ME GARANTE QUE FINGIU
PENSAMOS EM SEPARAÇÃO
DESISTIMOS SOMOS MUITO SÓS
É ATRAVÉS DA AGRESSÃO QUE O ÓDIO VIRA AMOR EM NÓS
Milton Guedes ( o de Lulu)

La Negra, adeus!

Mercedes de Sosa

Encerrou-se mais um canto a favor das liberdades. Uma voz dedicada ao humano no melhor que o humano pode ter. Uma mulher na senda de lutas invejáveis fazendo do seu talento caminho para outras possibilidades de coexistência. Uma das melhores cantoras do mundo e vívida em suas marcas indigenistas, folclóricas e absurdamente tocante a todos comovidos pelos seus pesares sonoros. Gracias a la vida, eu te ouvi cantar e lhe agradeço as coisas históricas que aprendi com sua arte; agradeço à senhora perante Chico e Caetano e mais ainda, perante à vida nesse desejo de possibilitar mais vida a quem andava aprisionado. Bravíssima! Sua história é indelével na alma de quem não se cansa disso a que chamamos esperança. Vá com Deus.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Gota de sangue

Maria
Ro Ro

Não tire da minha mão esse copo
Não pense em mim quando eu calo de dor
Olha meus olhos repletos de ânsia e de amor
Não se perturbe nem fique à vontade
Tira do corpo essa roupa e maldade
Venha de manso ouvir o que eu tenho a contar
Não é muito nem pouco eu diria
Não é pra rir mas nem sério seria
É só uma gota de sangue em forma verbal
Deixa eu sentir muito além do ciúme
Deixa eu beber teu perfume
Embriagar a razão, porque não volto atrás?
Quero você mais e mais que um dia
Não tire da minha boca esse beijo
Nunca confunda carinho e desejo
Beba comigo a gota de sangue final
Angela Ro Ro
P.S.: tiro o copo da minha mão e invalido esta fala notívaga, sangrando deveras, mas pronto a estancar tudo que me fez me apartar de mim. Estanco e abandono desde poesia até o silêncio estrondoso. Meu tempo é outro numa única continuação: estas mulheres falando por mim.

Das despedidas

Uma das vozes mais expressivas do mundo da canção adoeceu. E a possibilidade de perder o canto de alguém assim, é como perder um amigo, alguém de nossa intimidade,do nosso afeto, imprescindível à nossa continuidade. Setembro se foi com gosto de despedida. E doída. Cheirando falta. O olho preso no retrovisor. Nada está sendo muito fácil. E piora quando seres-luz deixam o planeta. Muita coisa à mercê do nada. Meus olhos tremeluzem à paisagem mais querida: um barco na beira-mar de um mar azulzinho, sol tropical, companhia mágica e Mercedes Sosa cantando...
Poetas inventam Pasárgadas; eu invento amor. Canso e invado outros. Por amor. Incremento essas despedidas numa linguagem sem afirmação - o mundo daqui numa cascata azulada de buscas infundadas e palavras de mim em mim, cansando... Amor - ah! quanto querer cabe em meu coração. Sosa cantando.Vácuos estes dias sem sono em som. Menor que agonia. Essa marca do enterro. Cor grafite negando meu rosa, meu verde; minha alegria. Djavan cantando.
Canso outros: não me convivam e nem me leiam. Amém.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Céu: um show paraquedas


Ela pousou entre nós, na Cidade da Bahia, no dia 26 de setembro, Concha Acústica do TCA, às 19 horas, e fez um show inesquecível. Domínio de palco, canto expressivo,repertório moderno e dialógico com outras possibilidades; além de inventiva compositora, Céu é de uma leveza fundamental. Vê-la e ouvi-la denotam flutuação, voo, ideias...Transcrições da evolução musical brasileira, tendo sempre à frente marcas históricas como as de Clara Nunes, Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia, filtrando a forte presença de Marisa Monte, é claro, por conta desta última ser mais recente no rol das grandes influências das cantoras brasileiras. Mas Céu é uma artista que já marca e como seus shows são agradáveis. Tudo verdinho, na Bahia, com jeito de Nova Iorque. Show paraquedas. Ou será contra? A favor?