sexta-feira, 6 de abril de 2012

Diário de Campo



Do pensamento: o olhar. Do olhar: o pensamento. Outro mundo se me apresenta. No que vejo estou sem sê-lo. Voo em campo. Imagens sem espelho. A lama toca a pele do meu sapato e sinto a lama na alma... Minha memória está debaixo do sol e superaquecida, corre solta, imagina ineditismo no tudo que já foi  feito.
Escrevo: Pina, lama,sol, cinema, árvore, amor, correria, briga, treva, mentira, fuga, amor... Escrevo com o pensamento que antes era os meus olhos. O tempo castiga e resmungo as sanções.
Perigo no que vejo, sem receio, faço a transcrição. Meu medo é o não lugar. Meu medo é o não lugar que sou. Do que mais não sou, sou o que transcrevo.
Revejo o lugar das cenas e nada mais me é igual. O tormento da escrita que não flagra nada. Ouço uma canção. Trilhos urbanos. O que acende uma cidade. Cheiro de maresia e é como se estivesse no cinema. Perfume do olhar. O que mais enfeitiça e não se pode estranhar: o mar.
Entrevejo perguntas. Não as posso fazer. Corro para o parapeito onde há a menina. Água desliza pela boca e olho no olho da menina. Enfrento este dia de cara limpa à luz do sol. Ainda a mesma canção. São 16 horas e 30 minutos agora; uma hora e meia de observação e uma criança grita.
Voo no campo, meu olhar na beleza agreste de um rapaz e as pequenas coisas sem solução. Participaria melhor com um beijo? Meu corpo diz sim. A teoria, não.
Voo no campo: nada acontece agora, mas estou em agitação. Minha memória é perdição. Sinto saudade . Fome das palavras escritas de alguém. Sede de uns olhos d'água que me afetam à eternidade.
Pensamento nos olhos sem coragem por não alcançar o que mais se teria...
Então, descrevo... O outro que sou eu.

Um comentário:

Carlos Barros disse...

Este texto poderia ser um prefácio/introdução a um livro de Antropologia. O eu, o outro e o sentido de existir nesta teia. Adorei!