segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Mãe Stella: 70 anos de Axé!

FOTO: XANDO PEREIRA AGÊNCIA A TARDE


por Marlon Marcos*
Ela é neta de Aninha de Afonjá e filha de Mãe Senhora de Oxum. Por pouco não foi iniciada na liturgia do candomblé por Mãe Menininha do Gantois. É regida pelo senhor da fartura, patrono dos caçadores, o altivo orixá do azul turquesa: Odé, mais conhecido como Oxóssi. Maria Stella de Azevedo Santos nascida em Salvador, em 2 de maio de 1925, enfermeira de profissão, é hoje a sacerdotisa da religião dos orixás mais prestigiada no mundo.
A história desta mulher dialoga, representa e acende nossas memórias acerca dos principais acontecimentos sobre as práticas do candomblé na Cidade da Bahia. Mãe Stella foi consagrada ao seu eledá, orixá principal, em 12 de setembro de 1939, aos 14 anos de idade, no Ilê Axé Opô Afonjá, pela já lendária Mãe Senhora de Oxum. Neste mês da Primavera, Iyá Stella faz 70 anos de iniciação nos fundamentos religiosos desta religião civilizatória no Brasil: o candomblé.
E a Bahia para e reflete sobre a importância de se ter uma mulher negra no comando de uma espiritualidade ainda tão atacada, incompreendida e vilipendiada pela presença do racismo e da intolerância de ordem religiosa. Uma mulher que se escreveu na história do seu país afirmando a sua religião, organizando e ampliando a sua comunidade, educando, escrevendo livros, preservando nossa ancestralidade, respeitando os rituais sagrados que lhe foram confiados por suas “mais velhas” e, politicamente, exercendo seu sacerdócio dignamente sem abdicar de suas demandas existenciais.
Uma história que se conta para marcar as conquistas femininas no século XX, e mais ainda, referendar a força das mulheres negras da Bahia que, através do candomblé, deram identidade cultural ao nosso povo, nos livrando assim, da esquizofrenia social.
Hoje, aos 84 anos, Mãe Stella serve de modelo e imagem de movimento. Ao iniciar novos filhos, sob a égide sacerdotal das filhas de Obá Biyi, Mãe Aninha, ela amplia com qualidade o número de adeptos de nossa religião e nos faz crescer e permanecer lutando a favor do culto amoroso e sério a nossos orixás.
Toda vez que olho para ela, Mãe Stella, lembro-me de Simone de Beauvoir e do orgulho que a filósofa teria por pertencer a esta construção cultural chamada mulher, a qual a iyalorixá baiana tão bem representa. Sua bênção, Iyá Stella.
*Marlon Marcos é jornalista e antropólogo
(Artigo transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde, 12.9.09 e do blog Jeito Baiano, de Jary Cardoso, em 13 de setembro de 2009).

Um comentário:

Alex disse...

Marlom, esse seu artigo encerra, digamos assim, todas as características de Mãe Stella: inteligente, determinada, cônscia de sua raça, uma Iyalorixá exemplar. Não nada, na história dessa mulher, que possa eivar sua imagem. Te saúdo Óh Mãe, peço-te sua bênção. Oke arô!!!