terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Márcia Short e basta!


Antropólogo cobra reconhecimento para Márcia Short. Foto:Karina Zambrana/Divulgação


Marlon Marcos

Existe uma coisa nesta cidade que está longe de ser saudosismo. É vivacidade, luz criativa do presente musical de alguém que tem história e que conta história como poucos.
Seu nome é Márcia Short. A voz surgida da Axé Music que muito nos traduz. Ela não é uma cantora da Bahia – é do Brasil. Ampla emissão que ecoa em nossos ícones, como Elis Regina. A moça, mãe de dois filhos, é luminosidade em seu canto potente, sua presença de diva, sua experiência de mulher negra na Bahia, filha de Oyá do Terreiro do Gantois, rainha em seu ofício de cantora.
Márcia é daqueles adjetivos que a gente simplifica e chama de magnânima. Se não estamos emporcalhados pelos ditames do novo mercadológico, estamos surdos e insensíveis quando não a consumimos e não a destacamos. Nós que parimos Maria Bethânia, Gal Costa, Virgínia Rodrigues e que emprestamos ao mundo o suingue criativo de Daniela Mercury (ventilação absoluta no nosso desgastado Carnaval) e Margareth Menezes – força negra reluzente na Bahia das musinhas brancas… Sobre isso, prefiro não comentar.
Ouçam e divulguem Márcia Short. Não tem segredo. O Maranhão deu ao Brasil Rita Ribeiro. A Bahia esconde de nós mesmos e deste país, Márcia Short. Não estou falando do que já passou, ou da Banda Mel. Falo de uma cantora gigante, linda, expressiva e inventiva. Uma cantora que põe platéias inteiras para cantar, dançar e chorar felizes e, sem dramas, relembrar de “velhos” repertórios ratificados como clássicos no brilho de beleza desta filha de Mãe Cleuza de Nanã.
Não aceito como musa o engodo comercial Cláudia Leitte. E ver calada, sem espaço mercadológico, a voz de Short, rejeitada pelo discurso racial enrustido: quem vende o carnaval baiano são as louras, mesmo que a música seja periférica e de matriz negra na capital baiana.
Márcia é uma das maiores cantoras brasileiras. A Axé Music revelou o seu potencial. Mas ela canta este repertório com maestria e vai além muito desta classificação; é um tipo mais contemporâneo de Baby Consuelo, orquestrando, ao lado de Daniela Mercury, o melhor que a musicalidade do Carnaval baiano pode imprimir na gente.
Acordem mídia e baianos, neste verão, todas as segundas-feiras, às 20h, na Praça Pedro Archanjo, no Pelourinho, Márcia faz festa atiçando nossas memórias e nossos corpos. E quem for lá, comprovará o presente desta estrela aqui em questão. Alcançará a beleza daquela mulher mágica musical neste estado Bahia. Verá a poesia em retrospectiva e ouvirá um dos cantos mais gostosos deste Brasil.
Chega de tanta injustiça, se é para classificar Márcia como cantora regional, que ao menos em nossa região, durante o Carnaval, ela ocupe o lugar que é seu de direito, por talento e experiência: a melhor voz que se empresta a esta festa popular, constatada como a maior do planeta Terra.
Acordem! Márcia vive e canta na Cidade da Bahia.


Marlon Marcos é jornalista e antropólogo.


( Retirado do Mundo Afro, portal do A Tarde online, de Cleidiana Ramos).

2 comentários:

Marielson Carvalho disse...

Oi, Marcos, concordo com vc. Márcia Short é o que há em voz, corpo, som e espírito. Mulher poderosa, canto mais poderoso ainda. Sinto falta, muito falta de ouvi-la. Seu CD produzido por Elba Ramalho é fantástico e nada, nada foi falado, nada foi ecoado. Parabéns pelo texto.

Altair Paim disse...

Caro Marlon
Taí um texto que eu gostaria de ter escrito...
O que dizer: Parabéns...