segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Sem Carnaval
João Miguel: ator de verdade

Amor e medo
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
— "Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"
Como te enganas! meu amor, é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo...
Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair cias tardes,
Eu me estremece de cruéis receios.
É que esse vento que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!
Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: — que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?
A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!
Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!...
Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio!...
Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...
Diz: — que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca — sobre um chão de brasas!
No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.
Depois... desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?...
Eu te diria: desfolhou-a o vento!...
Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!...
Andar com Fé

sábado, 26 de fevereiro de 2011
Yemoja

Um pouco de sábado

Fé.
Movimento que azuleja meu dia.
Água marinha para eu me ter feliz.
Os olhos não se cansam.
A poesia deste dia figura
No meu nascer no lugar.
As sereias cantam e se
Me dão em peixes...
O mar é minha real morada
E leva-me aonde não posso chegar.
O mar me dá asas e sonhos,
Proteje-me o corpo
Que habita a Deusa...
Canções numa manhã
De sol chuva calor
E a brisa dançando
Um pouco de sábado em mim.
Sobre o cinza

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Morte dos Dias

Cláudia Cunha

Venho fazer meu passeio por dentro da brisa
Dizendo Caio Fernando Abreu

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Nana Caymmi: além de qualquer razão...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Eu quero a vida
O homem-poema
uma deixa por cima
uma abordagem que
enfeita enfeia encerra.
O homem -poema.
Um tema alinhado ao
destino; vinho tinto
senhoridade...
Caminhar sobre areias
desejar colado ao corpo
experiência...
Enfeiar-se no resumo
que o após traz...
ser silabas do gemido,
muito líquido, arfar...
Enfeitar-se de risos,
de prazer...
Flores ao lado, do outro
as águas do mar...
Em cima a beleza estelar;
embaixo o amor cavalgado.
Encerrar a espera,
levemente embriagado.
Ser o destino numa
justa conclusão...
Separar o homem do poema
E nos perder de imensidão.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Cadê Você (Leila XIV)
Chico Buarque
Me dê noticia de você
Eu gosto um pouco de chorar
A gente quase não se vê
Me deu vontade de lembrar
Me leve um pouco com você
Eu gosto de qualquer lugar
A gente pode se entender
E não saber o que falar
Seria um acontecimento
Mas lógico que você some
No dia em que o seu pensamento
Me chamou
Eu chamo o seu apartamento
Não mora ninguém com esse nome
Que linda a cantiga do vento
Já passou
A gente quase não se vê
Eu só queria me lembrar
Me dê noticia de você
Me deu vontade de voltar
Sem os olhos de alguém
Alguma cidade marítima,
que lavasse seus olhos
para que me olhassem
e lhe trouxessem
pelos portões gigantes
da minha espera.
Seria imaginar-lhe
ali em frente sem
roupas ou desistências
fazendo sentido...
Seriam meus olhos como
os seus me dando esperança...
Minha voz ventilando o tempo
para evitar calores,
minhas lágrimas e saliva
banhando-lhe o prazer.
Seria uma canção brasileira
Flecha certeira a lhe afetar...
A saudade feito carta escrita
à mão...
Suas fotos de mim escondidas
e as minhas esquecidas em
qualquer lugar.
Longe do mar de mim.
Perto da serra da desesperança.
Onde vivo sem enxergar.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Tabuleiro BA - A Bahia de todos os sons

Gal Costa
Simplesmente isso:
Sei que Jesus não castiga o poeta que erra
Nós os poetas erramos, porque rimamos também
Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem"
Lamartine Babo
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Rimbaud

um erro, uma iluminação.
tão longe sangrando
tão dentro de mim.
aspas na minha adolescência
maneira de desejar escrever.
para aquém da genialidade
o sentir como escopo profundo.
beijo-cuspo em Verlaine
medo animal na África.
asas numa espécie de carnaval
e o silêncio da grande desistência.
outro mito nos olhos meus
numa dança criando obscenidades.
palavra.
fruta-pão para minha fome-existência.
Caetano Veloso - Um dia
Como um dia numa festa
Realçavas a manhã
Luz de sol, janela aberta
Festa e verde o teu olhar
Pé de avenca na janela
Brisa verde, verdejar
Vê se alegra tudo agora
Vê se para de chorar
Abre os olhos, mostra o riso
Quero, careço, preciso
De ver você se alegrar
Eu não estou indo-me embora
Tou só preparando a hora
De voltar
No rastro do meu caminho
No brilho longo dos trilhos
Na correnteza do rio
Vou voltando pra você
Na resistência do vento
No tempo que vou e espero
No braço, no pensamento
Vou voltando pra você
No Raso da Catarina
Nas águas de Amaralina
Na calma da calmaria
Longe do mar da Bahia,
Limite da minha vida,
Vou voltando pra você
Vou voltando como um dia
Realçavas a manhã
Entre avencas verde-brisa
Tu de novo sorrirás
E eu te direi que um dia
As estradas voltarão
Voltarão trazendo todos
Para a festa do lugar
Abre os olhos, mostra o riso
Quero, careço, preciso
De ver você se alegrar
Eu não estou indo embora
Tou só preparando a hora
De voltar
De voltar
Caetano Veloso
Ezra Pound

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz
Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.
Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.
(tradução de Augusto de Campos)
P.S.: Meu vazio me assemelha aos cheios demais.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Jussara Silveira e Luiz Brasil: Argila
Argila, nas vozes de Jussara e Luiz, é exacerbação da beleza. Jussara é das cantoras que mais amo. Vivo a me curar de tudo quando a escuto e nessa canção, nessa execução no antológico show Nobreza, parece-me ali, que nada mais é preciso saber... Viver pra ouvir e sentir... Esta musa música ao som daquele violão...
Versos

(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo."
Livros leitores

Tropeçavas nos astros desastrada
Os livros são objetos transcendentes
Encher de vãs palavras muitas páginas
Nas curvas da antropologia


Bem na porta de entrada: as lutas em torno do querer viver e ser; signos gritantes da etnicidade. Alegorias do que fora dito antes, onde hoje é e se sabe, vai até o fim do humano nisto a que chamamos mundo.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Zezé Motta e Luiz Melodia: Dores de Amores
Tempo dos esconderijos
Pois não vivo à luz das certezas...
Antes o mar me ilude e embriaga
E minha sanha é duvidar dos altos
Arrojados senhores das decisões.
Esse é o tempo dos esconderijos
Onde rezo ao vivo às claras
Pedindo sorte à vida...
Indo em frente sozinho.
Quebraram minha lança
E a dança imposta
Não me convida a mudar.
Não sei mais o que é pressa
E choro por tudo que me
Embeleza;
Por tudo que anima
Tudo que enfeitiça
O que traz o sonho...
Ouvinte, choro...
E faço cenas em mim
Com as letras do outro poeta
Na voz drama da minha cantora
Brasil.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Mãe Menininha - sabedoria ancestral

Imensa em sua África sabedoria
Cantando para os orixás.
Sonhei com ela para atingir
Oxum e Nela,
Pedir amor e acordar.
Salve a fragrância da doçura
Abram o frasco do acontecer
E dance Mãe Menininha
Por entre os filhos da Bahia.
P.S.: Todo dia 10 de Fevereiro, Mãe Menininha é festejada como uma das rainhas da Bahia. É o dia do seu nascimento.
Realce
Muitos sorrisos.
Lugares lânguidos,
olhos do desejo,
ansiedade.
A beleza dança.
Naquele caso,
canta.
Vontade de pousar por ali.
Versos perdidos de fome,
de sede; canção de Gil...
Ali - homem e mulher -
lindos, o desejo tinindo
brilho de prazer.
Estão caindo as estrelas
preciso tê-las e sonhar.
Retrata-se em mim

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
O poema de Rimbaud para o mar

E eu que tanto o vejo, que tanta devoção tenho, quereria um poema meu, altivo e raro, que expressasse a minha embriagada paixão pelo mar.
Segredar
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Retirado do Blog Madame K

quando vivos nestas poses
que emprestam aos retratos
certo ar de documento
do quanto fomos, gente,
para algum arremedo
de posteridade. Ah, já estamos
mesmo todos mortos
quando abrimos os olhos
e arreganhamos os dentes
diante de algum fotógrafo.
Kátia Borges
P.S.: Mais dessa poesia dentro de mim... E ainda, James Dean.
Noites sem você

Luz acesa na sala da vida amarga: goles de cerveja e o olho perdido entre livros, sem telefone, sem compromisso, sem responsabilidade... O olho absorto na vaga que a solidão deixa. Um poema sobre a mesa recém chegada incitando o morador a ir sem retorno para fora da morada. Uma tarde clara e quente sem caminho para esperança de voltar a ver. Aquele poema sobre a mesa pesando dor e paixão, assimilando confusão, nisso de enlouquecer em cartas a querer trazer o que vela minhas noites de melancolia: sem sono, sem café, sem poesia. Noites sem você.
Vinicius de Moraes: Suspenção

Pentimentos e rasuras da sua presença

Marina Lima: Acontecimentos
Uma das minhas paixões: Marina Lima. Aqui, cantando Acontecimentos, sua canção que eu mais gosto. Saudade tem nome e trilha sonora.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Retratos da Bahia do Mar



O que não se cansa: sereiar minha fé quando ando sobre areia. Me visga os olhos e arrepia a pele me faz sonhar. Sigo água doce e salgada. A deusa dança. Mãe do meu eu criança. Ela dança com os pés apoiados em minha alma. Me faz água a senhora dos iorubanos, dos negros baianos que pedem do Rio Vermelho. Dois de Fevereiro - retratos da Bahia do mar... Retratos da imagem mais profunda: uma negra mãe divina cuidando dos seus filhos nos dando guarida. Naquele dia: Iyá Ogunté em tudo que sonhei para mim.
Por cima do mar
Gal Costa: A preta do acarajé
Essa canção é uma etnografia das antigas ganhadeiras baianas. Gal é a voz da imensidão, tradução íntegra do que desenhou o nosso Caymmi. Eu amo isso aí!
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Maria Bethânia deve ser exaltada

Deve ser exaltada ainda mais quando chega o verão e me vejo obrigado ao imediatismo do corpo, obrigado a dançar a alegria que desmonta a gente da gente - que nos imbeciliza para que muitos engodos artísticos ganhem muito dinheiro. As fábricas da alegria baiana têm feito festas torpes, exilando a gente da expressão coletiva inteligente.
Maria Bethânia chega sem o discurso vazio das altas culturas. Aliás, ela chega sem discurso e sim, numa prece a Santa Bárbara, num Ilu a Oyá, num cântico a Nossa Senhora e a voz a falar e a cantar a cantar e a falar o que o humano precisa ouvir e aprender para crescer nobremente.
Exaltá-la é despertar a nossa exigência, espraiar a referência que ela imprime em todos que a consome. Para marcar que a cultura pop, sem maiores erudições, pode ter um artista daquela estatura; exaltá-la é apontar caminhos para outros e agradá-la para que ela se estimule a continuar a deixar na gente a vontade de um Brasil maior, com leitores não funcionais, nem ouvintes berrantes, nem consumidores apressados pela facilidade do que vêem ou ouvem.
Deve ser exaltada pelas canções que espalha
Pelos poemas que acende em nossa memória
Pela dilacerante voz e paixão...
Exaltada em seu fogo água
Renascendo tempos vitoriosos...
Exaltada para que tenhamos exemplo
Da mulher conduzindo destinos e,
Nos sendo força e inspiração.
Zezé Motta: Negra Melodia

Manuela Rodrigues, simplesmente

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Luiz Melodia

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
As encantadas de Mamãe

Iemanjá, soberana do 2 de Fevereiro

Sou um filho da Cidade da Bahia - tenho por hábito maior louvar os mares - e viajo todo ano na intensidade de Fé e alegria no Dois de Fevereiro, no Rio Vermelho, na entrega dos presentes à Dona Absoluta da minha crença que se renova sempre em minha vida.
Sou um filho do Candomblé e saúdo meu povo-de-santo que vai à Festa de Iemanjá, a mais nossa, a de toda água nos rios baianos passando pela Baía de Todos os Santos indo para a grandeza do Mar Aberto.
Dois de Fevereiro é meu dia na minha sagrada Bahia!
O sorriso
no calor insuportável:
bebi do seu sorriso e nele,
me perfumei de desejo e alegria.
Jack Kerouac
