quarta-feira, 19 de maio de 2010

Caio Fernando Abreu: dizeres de um lugar alto astral

Caio F.
Para Chiquinho
"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão."
Em mim essa estiagem numa falta crônica de lágrimas. Mas a presença mágica da coragem me impulsionando a desaguar. A força certeira da fé que nunca seca e meu abrigo sentido no colo dos amigos que mais quero, que mais preciso, que mais tenho... Eu que me mergulho na exata incompreensão da vida, naquela lógica descrita no "muito que amei e não me amaram", nesse hoje nem sujo nem limpo e, pior, hoje morno por onde já não me pergunto mas sigo...
Em mim no que melhor me resta: palavras. Erguidas ao vento da beiramar; lugar das memórias e dos pedidos e essa luz do chamado destino a me estacionar. Ao menos, frente ao mar como fruto da inspiração e alívio pelo contínuo desta dor que me leva todo dia a escrever, sem porquê só quase... Paisagem Clarice-Caio nos respingos miúdos do que eu, no meu tamanho, desejaria um dia parecer.
Mas Sim, para evitar o morno de hoje que se faça festa e se renasça à sombra do amigo, e digo na voz louca do lúcido Caio algo em que eu mesmo não mais acredito:
"Só que homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade - voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade."
P.S.: Chiquinho, obrigado por você existir e renascer sempre nos maios outonais. Beijos. Marlon.

Um comentário:

bentocasmurro disse...

Poxa, Marlon, belíssimo texto, belíssima lembrança (Caio), belíssima dádiva! Obrigado, meu caro! Emocionado fiquei. Grande beijo.