sábado, 20 de novembro de 2010

É carnaval

Uma bela e procedente análise-homenagem à nossa Daniela Mercury; feita pela cantor e sociólogo Carlos Barros, também fã inveterado da verdadeira rainha da Axé Music, é para conferir:

Calendário é uma invenção humana que sempre serviu para organizar o tempo em função das atividades necessárias à sobrevivência na vida social.

Eventos de calendário são acontecimentos que ocorrem regularmente e normalmente são considerados imperdíveis.

Na cultura brasileira, tal e qual o novo disco de Gilberto Gil, a nova peça de Fernanda Montenegro ou a récita mais recente de Bethânia, é de calendário saber qual a nova canção lançada por Daniela Mercury para o carnaval baiano de cada verão.

Daniela Mercury tem tido uma história de canções estampadas para o carnaval de fazer inveja a qualquer set list da folia contemporânea das terras de Caramuru.

De Rapunzel (Carlinhos Brown), passando por Quero a felicidade (Daniela Mercury / Manno Góes) e Olha o Gandhy (Tonho Matéria), além da eletrônica e inesquecível Maimbê Dandá (mais uma de Brown, alicerçado na tradição de Matheus Aleluia), a mais elétrica das baianas de hoje nos traz, SEMPRE, um misto de criatividade, inteligência frescor e competência difíceis de se perceber no reino da música produzida na Bahia, após os anos oitenta.

Digo, sempre em entrevistas e conversas sobre o meu trabalho musical que Daniela e Brown são ventos da melhor qualidade para a vela de meu barco da canção. Digo, repito e reafirmo!

Todo final de ano, é esperado pela mídia inteligente da cidade da Bahia, qual golpe de mestre será dado pela artista mercuriana no quesito canção do verão.

Este ano, uma muito bem sucedida versão do tema da Copa da África emerge com versos que demonstram, mais uma vez que o carnaval de Daniela nunca deixa de ser, entes de tudo, uma celebração à cultura brasileira, a partir do olhar da Bahia.

Acontece que a Bahia dela não é folclórica, preguiçosa ou somente brejeira: sua Bahia tem pulsação, beat, bit, batida, cérebro e eletrônica (que não faz tudo, mas quase tudo...).

É carnaval (Will Adams/Herry Clestin/Jerry Duplessis/Wyclef Jean/Roberto Martino/Daniela Mercury/Marcelo Quintanilha) vem com uma afirmação da Bahia como porto de chegada e reprocessamento das matrizes culturais do mundo inteiro, de Bilbao à Paris, como já sugere a própria letra.

A versão, que conta com participação de Wyclef Jean e Marcelo Quintanilha (que ano passado marcou ponto com Daniela na divisão da tarefa de compor da bela e forte Andarilho Encantado) tem tudo para conquistar as ruas e rádios de fevereiro e março, neste nosso carnaval tardio de 2011.

As barreiras que deve romper são as mesmas enfrentadas nos outros anos, em que refrões fáceis (e só) se justificam como sendo típicos de "música de carnaval".

Ai que saudades de Onde está o dinheiro e Balancê, que, sendo de carnaval, ironizavam e satirizavam a brasilidade com humor e descontração populares e ao mesmo tempo cheias de graça musical (o que tem faltado a algumas peças mais recentes).

Gosto da picardia e da sexualidade na música, mas penso ser importante cantar que o carnaval é também:

PRETA FESTA SANTA
SANTA FÉ PAGÃ
ALEGRIA DANÇA
ATÉ DE MANHÃ
LUMINOSA ARTE
CRIA DE OLORUM
SE O AMOR
SE REPARTE
SOMOS TODOS UM


Em poucos momentos de letra, versos simples e reveladores do carro naval antigo, que remonta, na festa, Dioniso e Zeus; Olorum e o retraimento de Orixás e de Cristo, na quaresma de depois da quarta-feira (que, segundo Vinícius, celebra o fim da alegria do povo...)

É carnaval vem, mais uma vez, reforçar que o carnaval de Salvador não pode deixar de ter muita coisa: participação popular, alegria, democratização da brincadeira, menos apartheid social, etc.

E o que me salta os olhos, positivamente é que a canção É carnaval vem nos lembrar (como o fazem eventos de calendário) que carnaval da Bahia não pode deixar de ter, sem dúvida a energia e a certeza (como salientei nos agradecimentos de meu disco de estreia) de Daniela Mercury.

Assim, se É Carnaval, pelo menos na minha Bahia, isso significa que
É Daniela Mercury!

Vamos pra rua!

P.S.: Essa mulher é uma delícia. E este lindo texto foi publicado originalmente no Cantiga vem do céu, blog do autor.

Um comentário:

Carlos Barros disse...

Obrigado pela publicação no seu espaço privilegiado da construção de sua arte: a poesia!

Axé!