segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Papa

Céu

Don't take yourself
Too seriously
Papa used to say
To me
Vagarosa
P.S.: Essa música, aliás todo CD Vagarosa, tem me dado uma alegria muito grande. Confira.

Vanessinha no TCA (Fim de agosto)

Vanessinha da Mata

Todinha de amarelo. Ares de Oxum. Pura beleza. A já estrela Vanessa da Mata lotou o Teatro Castro Alves, em Salvador, por três dias: 27(sessão extra), 28 e 29 de agosto. A entrega do público demonstra a grande popularidade da cantora na Bahia. O show possui acabamento cênico impecável, uma banda excelente, aquele repertório delicioso, a voz bem marcada de Vanessa, ainda que com pequenos erros e desafinações. Na apresentação de Sexta-Feira, dia 28, ela esteve econômica,um tanto quanto buracrática; errando em Eu sou neguinha, pediu desculpas simbólicas ao autor da canção, Caetano Veloso,que não estava na plateia.



Show compacto, ela linda. O repertório inteiro dominado pela assistência de fãs, inclusive eu. Aí o melhor aconteceu: ela cantou A lua e eu, de Cassiano, e eu chorei. Para melhorar, piorando minha emoção, ela cantou Último Romance, de Amarante Los Hermanos, e eu desisti de análises estruturais do que via; me perdi na memória da canção , na voz de Vanessinha, e fui doidamente feliz. Senti saudades dos shows de Maria Bethânia; senti vontade de ver algo alongado me dando profundas sensações, me fazendo esquecer pensamentos e racionalidades, me empurrando para o melhor que há em mim.


Ainda assim, o perfume de Vanessa me foi afirmativo, me inspirou. Valeu.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Para ser

Era ali naqueles olhos. Do profundo sentido. Lágrimas contra a dor. A camisa preta enunciando. Flâmulas da vontade intensa e uma leve vergonha. Por timidez. E o corpo em ebulição na aparência se comprimindo. Vastidão. Era a formulção de muitos escritos para tocar e inspirar mostras do dorso nu. Sem a camisa preta. "I'm not...". Nada alto se diria. Do jeito dos magros: o que era leve ficava por demais pesado. A camisa agora na braço da cadeira e a mão a se comentar, a se mostrar, a segurar o inesperado. Aprisionado sem fuga. Um poema para acalmar e... O beijo surgiu. Uma mão na mão e a outra confirmando. Encontro. Olhos fechados pensando no que o corpo sentia. A languidez da respiração como instrumento musical. Nada de velocidade. Cor preta ao chão. Peças outras ao chão. Dois corpos ao chão. Vaga e movimento. A intensidade de um momento no sabor instantâneo da eternidade. Líquidos e alívio. O prazer como paisagem. A lentidão dos risos acordados pela saída do medo. Quase cerveja na boca. Os olhos de um verde lindo. O mundo entregue. Uma música estranha, não. Céu cantando Papa. Minimalismos em língua inglesa. Cerveja de fato. Mais risos. Melodia no mesmo CD. Tardinha meio cinza meio azul. Dois inteiros. Corpos nus sendo acima de pergunta ou resposta. New York. O que será? Sem chance para janelas e nem para o mundinho de lá de fora. A vida aqui agora. No tempo de olhar: a camisa preta linda. " ...but my boyfriend is".

Palestras sobre memória e patrimônio no Afonjá

Mãe Stella é uma das palestras do ciclo de debates sobre patrimônio e memória. Foto: Rejane Carneiro AG. A TARDE
No próximo sábado tem mais uma rodada de conversa sobre patrimônio e memória no Ilê Axé Opô Afonjá (São Gonçalo do Retiro), a partir das 9 horas.
Dentre os temas que serão abordados estão arquitetura e urbanização e suas relações com o meio ambiente, documentação e acesso à informação como instrumentos de preservação e arte e memória iconográfica. (confiram a programação abaixo).
O ciclo de palestras faz parte das ações preparatórias para as comemorações do centenário do Afonjá que acontece no ano que vem. Eles integram um projeto denominado Programa de Educação para o Patrimônio do Centro de Documentação e Memória do Afonjá.
Dia: Sábado, 29
Mesa de abertura: ialorixá Mãe Stella, Ribamar Daniel,presidente do Conselho Civil e Marcos Santana – Coordenador do CDM.9h30 Arquitetura, urbanização e meio ambienteApresentadores: Prof. Dr. Fábio Velame – (Ufba) e Carlos Amorim – IPHAN-BA. Mediador: Prof. Carlos Alberto Caetano – Afonjá
14h- Documentação e acesso à informação como instrumentos de preservaçãoApresentadores: Ildete Santos Silva – Uneb; Lídia Tutain – ICI/Ufba; e Maria Cristina Santos – FPCMediador: Nelson Santos Filho– CDM – Afonjá16h- Arte e memória iconográficaApresentadores: Prof. Cláudio PereiraCeao/Ufba e Prof. Ms. Aírson Heráclito – UFRB. Mediador: Silverino Ojú – CDM-Afonjá
P.S.: Retirado do Mundo Afro, blog da jornalista Cleidiana Ramos. Tem Mãe Stella alegrando nossos olhos! Abenção.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Elza Sores - nova cidadã de Salvador

Elza - atualmente
Elza - adolescendo
Esta cantora é um punhado de positividades na cultura deste país. Ela é SIM! A voz mezzo jazz mezzo samba traduz a sua força negra, a sua persistência diante da vida, mais que tudo, seu talento. Detentora de belezas, sem dúvidas, uma das maiores cantoras vivas neste planeta. Uma majestade da nossa musicalidade com alma universal - dizem que ela é só sambista; nenhum demérito nisso mas, Elza é cantora e abarca ritmos e cria nortes com a peculiaridade do seu canto. Sobre a vida ela fala assim:
"Muita gente perde a esperança por pouco, eu não perco nunca"
Agora essa dona é cidadã soteropolitana - que honra para a Cidade da Bahia! Que enobrecimento para nós ganhando como presente uma cidadã do quilate de Elza Sores. Musa atemporal. Mulher coragem.
E ela canta no MAM, em sessão comemorativa aos 10 anos da Jam Session, improvisando acordes do seu vocal exemplar. Imperdível. Amanhã, 27 de agosto ( parece setembro), às 19 horas, no Solar do Unhão. Ingresso: 4 reais (inteira).

Linda Gaiaku Luiza

A sacerdotisa do Jeje-Mahi Luiza de Oyá (25/08/1909//20/06/2005)

Como D. Luiza era linda. Típica senhora do candomblé. Um rosto desenhado num corpo alto, esguio, harmonioso.Voz dos ventos desbragada como tempestade; a rainha adorava falar, conversar, ser escutada e também, escutar.

Suas histórias eram deliciosas, uma entre as mais famosas, dizia D. Luiza, foi a de quando Caymmi a abordou defronte ao Elevador Lacerda e questionou sobre sua indumentária de "baiana"; ela, que naqueles idos anos 30, vendia acarajé na Cidade da Bahia, narrou naquela capacidade descritiva primorosa que tinha, detalhe por detalhe de sua roupa ritual. Daí, com certeza, nasceu "O que é que a baiana tem?", sucesso estrondoso na voz de Carmen Miranda que deu visibilidade internacional ao iniciante Dorival Caymmi. Ele sempre negou esta história. Mas Gaiaku nunca a esqueceu. E a repetia num misto de orgulho e ressentimento pelo "esquecimento" do patriarca baiano.

Deslumbrante mulher. Símbolo da grandeza negro-feminina do lugar chamado Bahia. Sabedora dos deuses. Inspiração divina. Exemplo das possíveis intelectualidades que temos fora dos eixos acadêmicos. Mão civilizatória na história do nosso povo. Espécie de D. Diva. 100 anos. Oyá-Iansã.


terça-feira, 25 de agosto de 2009

A morte e a morte de Quincas Berro D'água

Jorge Amado

Este livro traz a ironia, a leveza, a graça e o olhar de Jorge Amado sobre o cotidiano da Cidade da Bahia lá pela metade do século XX. Aliás, este cotidiano é recorrência na obra amadiana. O livro apresentado nesta postagem corrobora a genialidade do mestre baiano, sua acidez ao ridicularizar a nossa classe média tão branca, tão chique e tão culta... Um surto de alegria numa novela imaginativa que nos traz diferenças sociais, racismos, contradições espaciais, injustiças, religiosidade, luso-afro-baianidades e literatura. Mato minhas saudades do amado Jorge relendo este livro.
***
Em 10 de agosto de 2009, se estivesse vivo, Jorge Amado faria 97 anos. E fez.
***
Para atiçar nossa memória em torno da obra do imperador da Bahia, acontecerá de 26 a 28, o seminário " A atualidade de Jorge Amado", leia o release abaixo:
"A atualidade de Jorge Amado. Este será o foco do Seminário Novas Letras, promovido pelo Núcleo do Livro, Leitura e Literatura (NLLL) da Fundação Pedro Calmon/Secult e que até final do ano promoverá uma série de debates literários na Academia de Letras da Bahia. Nesta edição, o projeto põe em foco a obra e legado de um dos principais representantes da literatura baiana. Serão três dias, de quarta a sexta-feira (26 a 28), de palestras com estudiosos da obra do autor, além do lançamento de Jubiabá em quadrinhos, do cartunista Spacca e do livro A última trincheira de Charles Kiefer.“O Seminário será uma grande reflexão da obra de um escritor de importância indiscutível que levou a Bahia para o mundo.
No mês em que se celebra o nascimento de Jorge Amado, a Fundação Pedro Calmon homenageia o escritor com extensa programação”, destaca a diretora do NLLL, Lúcia Carneiro. O Novas Letras é uma oportunidade de leitores, estudiosos e apreciadores da literatura baiana conferirem diferentes interpretações de aspectos da obra do escritor.Na abertura do Seminário, na quarta-feira (26) às 15h, na Academia de Letras da Bahia, a literatura de Jorge Amado será o tema central, dividida em três diferentes palestras: “Lívia, substituta simbólica de Guma”, com a Doutora em Letras pela UFBA, Nancy Vieira; “Do recente milagre dos pássaros: uma leitura de um conto de Jorge Amado”, com a escritora Pós-doutora em Literatura pela USP, Edilene Dias Matos, e “Jorge Amado e Roberto Drummond: Quincas Berro d’Água e mortos não dançam valsa”, com a também escritora e Doutora em Letras (UFBA), Eliana Mara Chiossi.Já na quinta-feira (27), o público poderá conferir, a partir das 15h, as palestras dos seguintes escritores: “A sonoridade e o silêncio em narrativas de Jorge Amado”, com o Mestre em Letras (UFBA), João Edson Rufino; “Jorge Amado: 40 anos de Tenda dos Milagres”, com o Doutor em Teorias e Críticas da Literatura e da Cultura pela UFBA, Benedito Veiga e “Jorge Amado, escritor de sua gente”, com o Doutor em Teoria da Literatura (PUC), Charles Kiefer.A sexta-feira (28) será dedicada a um dos principais romances escritos por Jorge Amado: Jubiabá. Na LDM Livraria Multicampi, a partir das 17h, ocorrerá um debate sobre a obra com o cartunista e ilustrador João Spacca de Oliveira e os Mestres em Literatura (UFBA), Lima Trindade e Cláudio José. Em seguida, às 18h30, ocorrerá o lançamento de Jubiabá em quadrinhos, de João Spacca e A última trincheira (arte, cultura e identidade nacional), de Charles Kiefer."
( Release retirado do site de notícias Bahia em Foco).

Simplesmente eu. Clarice Lispector

Beth Goulart como Clarice Lispector


Era domingo. Frio na noite carioca, às 19h., no Centro Cultural Banco do Brasil, 23 de agosto de 2009, na Sala 01, e um público ávido para assistir mais um espetáculo a partir da obra da escritora Clarice Lispector. A empreitada, desta vez, veio da atriz global Beth Goulart, exatamente sublime como Clarice. Patrocinada pelo Banco do Brasil, atuando, adaptando trechos literários e biográficos, dirigindo-se, Beth ,em uma hora, consegue silenciar e comover seus espectadores.
A escritura clariceana compõe-se de dramaticidades. Uma verve absurda pronta para exprimir sensações, percepções, intensidades. Exprimir o inexprimível como queria a autora de Água Viva, e fazer das viagens de seus leitores, a bordo de seus livros, encontros consigo numa reconstrução do demasiado humano. Clarice liberta e sufoca; impinge lamentações e nos desperta para Deus; questiona Deus mas ampliando o mistério da vida; desola, consola, subverte e perdoa; interna reflexão possível em linguagem literária inventiva e humanizadora à busca de algumas identidades. Clarice enfeitiça e nos encoraja a ser. Problematiza a tal vocação em contraponto ao talento; investiga nossas motivações e nos dá acesso ao seu (nosso) dilema perante o ato de escrever.
Tudo isso nos é apresentado pela atuação e pelo recorte feitos por Beth Goulart. Íntegra à elegância feminina de Clarice. Bem longe do caricatural, até a fala de "língua presa" da escritora, a atriz transporta com talento para o palco. Sua adaptação nos torna letárgicos diante do que vai sendo dito e, de alguma forma, inicia muitos na obra belíssima da maior escritora brasileira de todos os tempos. Outro mérito deste espetáculo, talvez o mais válido, é mostrar a mulher frágil, sensível, inteligente e intensa que foi Clarice Lispector. O figurino é outro trunfo do monólogo: a gente vê o requinte e a vaidade cotidiana da fêmea Clarice; trocar de roupa em cena, numa adaptação e ajuste de peças, é uma lição estética para artistas que sobem ao palco e vendem sua imagem.
Beth Goulart está inteira e entregue à sua amada personagem. E Clarice, para dentro dos seus manejos linguísticos, e das esferas terapêuticas de seus escritos, produziu uma literatura universal e brilhante.
E o Rio continua lindo.

O legado de Gaiaku Luiza

A sacerdotisa em cena do documentário Gaiaku Luiza - Força e Magia dos Voduns, de Soraya Mesquita. Foto: Divulgação

Uma das mais importantes sacerdotisas das chamadas religiões de matriz africana do século XX, Gaiaku Luiza de Oyá, faria amanhã, se estivesse viva, 100 anos. O legado desta senhora se fundamenta num saber litúrgico impressionante acerca das várias nações de candomblé, o Angola, o Ketu, o Jeje, e essa variância de complexa tradução, sua marca mais precisa, pode ser verificada na criação de um terreiro inteiramente dedicado ao Jeje-Mahi, nos idos de 1959, na bela e negra cidade de Cachoeira.
D. Luiza de Oyá, mãe de muita inspiração espiritual, faleceu no dia 20 de junho de 2005, em seu templo religioso, o Húnkpámè Ayíonó Huntóloji, casa que ilustra a grandeza desta sacerdotisa tão pouco conhecida dos baianos e brasileiros. Foi-se aos 95 anos de uma vida longeva, lúcida, comunicativa, criadora e sábia. A sabedoria foi a marca principal da Gaiaku que carregava o vodum das tempestades e do silêncio mortuário, rainha do branco na ligação da terra aos céus, morada dos nossos maiorais: Oyá, conhecida também, pelos filhos do Ketu, como Iansã.
Luiza Franquelina da Rocha viveu as delícias e agruras do povo-de-santo cachoeirano, nascendo no seio do candomblé, respirando os ares de uma recente abolição da escravatura, num universo racista que não respeitava as tradições religiosas de origem africana reinventadas no Brasil. Uma mulher nascida em 1909, de beleza e inteligência raras, que percorreu quase todo o século XX salvaguardando a liturgia desta nação ritual tão pouco conhecida de nós todos. Mais que baluarte, ela foi mestra pedagógica do que chamamos, em síntese, de candomblé. Recebia a todos em sua casa, sentada em sua cadeira, hospitaleira e majestosa, para mim, foi a real imperadora desta religião tão rica de significados, porque abrigava como mãe, ensinava como mestra, distraía como amiga, aconselhava em sua sabedoria, enriquecia-nos com palavras e iluminava como sacerdotisa. Que tardes deliciosas ela nos proporcionava com sua memória prodigiosa; quantas histórias e quanta luz de uma intelectualidade construída fora das formas das academias.
D. Luiza era uma espécie de tempero celeste que nos fazia imaginar outras senhoras do candomblé, como D. Aninha de Afonjá, a saudosa Obá Biyi, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá. Gaiaku Luiza corporificava sua cidade Cachoeira, com uma presença de espírito que a colocava como uma cidadã do mundo, que morou em outros lugares, como Salvador e Rio de Janeiro.
Oyá venta a memória de sua filha entre nós. Gaiaku, como era chamada respeitosamente, deixou seguidores; entre as mais coadunadas aos ensinamentos da grande mãe, está Mãe Zulmira de Nanã, potentado de saber, ligação entre três nações de candomblé – o Jeje-Mahi, o Ketu e o Angola, nação pela qual Mãe Zulmira cultua, em seu terreiro em Lauro de Freitas, as entidades legadas por nossos ancestrais africanos.
P.S.: Minha homenagem saudosa à grande Gaiaku Luiza. Este texto foi publicado no Opinião do A Tarde, dia 24 de agosto de 2009 e no blog Mundo Afro, da jornalista especial deste mesmo jornal, Cleidiana Ramos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Concordando com meu desejo


Há dias assim: só serve nossa imagem. Para concordar com o que somos e dizer 'eu estou aí... e sorrindo'. De um lugar feito para criar, repetir, ralar, construir. Um lugar pequeno que reflete o meu trajeto de sonhos. Ouço, ao longe, a voz de Bethânia. Não tem jeito, companhia constante em todos os meus amálgamas e eu delato aqui. Para sonorizar sentindo a grandeza. Minhas tralhas e coisas acima de preciosas colaborando para que eu possa comunicar minha imagem nessa cara-quase felicidade. Deve ser o Rio chegando amanhã, dia 21, eu todo em especial, em itálico, mais que carnaval... Além de entrevistas: o mar carioca, a gente carioca, Copacabana, a Lapa, os teatros, a Modern Sound... a vida estendida pelas ruas do Rio de Janeiro.
Tem dias que somos a poesia do nosso desejo e tudo concorda: sem desperdícios, sem saudade, força e vontade, criação bethânica, a palavra hilst, o sol de mim... Silêncio: nossa água. Um muito de mim do que fica aqui na Cidade da Bahia. Água.

Besouro, o filme

Foto retirada do A Tarde On Line
Publico aqui, antes de assistir ao filme, para expressar minha ansiedade pelo mesmo. A foto acima é mágica; dizem que é uma cena do filme... Pareceu-me Oxum em algum dia de tristeza. Linda.

Lucas Cunha, do A TARDE ON LINE

Um filme brasileiro de aventura, ação, misticismo e paixão, com a história de um mito da capoeira como pano de fundo, além de ter a cara, a cor, o sotaque e a gente da Bahia.

É isso que promete "Besouro", filme do cineasta João Daniel Tikhomiroof que vem ganhando destaque com o seu trailer, disponível na internet e já em veiculação nos cinemas.A superprodução brasileira está orçada em R$ 10 milhões e traz uma equipe que reúne nomes tarimbados do cinema nacional, como Daniel Filho (produtor) e Fátima Toledo (preparadora de elenco), e até participação internacional do chinês Dee Dee, um dos coreógrafos responsáveis pelas cenas de luta de filmes como "Matrix", "Kill Bill" e "O Tigre e o Dragão".

Mas o que chama atenção é o fato de ser um filme de ação nacional, algo que o Brasil está pouco acostumado a fazer e, para os baianos, com o 'plus' de trazer a capoeira como norte da trama.Nome já conhecido de quem conhece a cultura da capoeira, presente em várias das suas ladainhas, Besouro foi um homem nascido em 1897, em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, que ganhou fama por ser um exímio capoeirista, além de sua postura nada subserviente em um Brasil ainda com fortes resquícios da época da escravidão. Um herói para o povo negro da época.

Sobre Jornalismo Literário ( I )

Luiz Carlos Maciel, Kátia Borges e Nirlando Beirão
Luiz Carlos Maciel



Para falar de Jornalismo Literário no Brasil, e da abstração New Journalism, o Centro Cultural Banco do Brasil Itinerante trouxe a Salvador, uma espécie de papa da nossa imprensa, o gaúcho radicado no Rio de Janeiro, Luiz Carlos Maciel, ao lado do não menos importante, o paulista Nirlando Beirão, na noite de 18 de agosto de 2009, uma terça-feira, das 19 às 21h., na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, com mediação de Kátia Borges do Jornal A Tarde, e uma plateia repleta de alunos de comunicação ávidos a aprender com o grande mestre da contra-cultura, este que é um dos fundadores do Pasquim e que muito nos deliciou com sua literatura ficcional e jornalística.


O homem, Luiz Carlos Maciel, mesmo sem querer, é uma espécie de patrimônio imaterial dos levantes contra o estabelecido e hegemônico neste país, a partir dos anos 60. E defensor categórico, cheio de categoria, da prática jornalística que valoriza o cuidado estético e estilístico que o repórter deve ter com sua produção profissional. Para ele, " o jornalismo literário, o texto bem escrito numa linguagem próxima ou dentro da literatura, pode salvar o jornalismo impresso, jornais e revistas, da tão propalada extinção". E continua: " não existe objetividade nos moldes que ainda propagam e ensinam aos jornalistas; somos seres subjetivos e em nossos textos nossa emoção fala e é isso que diversifica os diversos olhares sobre um mesmo fato. Não há fato puro".


Ter cuidado com o texto, mais ainda do ponto de vista estético, apurar e depurar os fatos em matérias longas e consistentes, segundo as autoridades Maciel e Nirlando Beirão, são possibillidades de devolver aos jornais a importância que muitos já tiveram em nossas plagas. Isso de informações instantâneas, num formato de pílulas, curtas e sem profundidade, em nome da falta de tempo do leitor e do imediatismo da informação, é que andam fadando os nossos diários de papel à sua finalização.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Habita-me!



Da água sempre vida. Alento. Continuidade.
Sobressai o movimento da alma - os olhos em nós.

Da água uma espécie de perfume sereno, etéreo, íntimo, veloz.
Algo que reanima para além da compreensão.

Da água subescrita na obtenção do desejo
Da placenta rompida
Do poema emitido.

Da água que desorienta por conta do signo
Nítido elemento água
Natureza profunda
O amor sem corpo sem fala.

Nascentes.

Abrindo a mesma ferida sempre
Para a água
que escorre as respostas
De uma pergunta líquida:

Quando você vem?

Habita-me!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ouvindo João Gilberto


Com a vontade de calar o pensamento nesta noite e não ter que dimensionar o tanto que ainda precisa ser feito.

Tirar da música o silêncio necessário sem esperar nada. Estar na vida do meu tamanho. Minhas aborrecidas vírgulas, minhas expressões truncadas, imagens retorcidas, concordâncias desesperadas. Nada é menor nem maior do que ouço agora. Nem meu próprio barulho me perturba. Sigo ouvinte.

Paro para saber que estou entregue e que sou sincero e que tenho medo e que amanhã é um novo dia. Amanhã tem mais mistério. Sigo ouvinte.

Uma revolução em poucos movimentos. Quase tudo. Tudo é o singular no meu peito a exalar da canção do Gilberto. A voz João cantando a falta - única coisa que povoa meu deserto nesta noite em silêncio. Sigo Ouvinte.

Do meu tamanho. Nadando no mar da minha vergonha por não saber seguir. Sigo ouvinte. Me faço assim : nos erros desta escrita. Na rota mágica de um violão e o canto preciso como direção para uma outra etapa de mim.

Eu, o tão pequeno. O largado nesta cidade ouvindo antes gritos e reclamações.

Eu, o recaído em poemas e dilemas de pouca relevância.

Eu, o sem alma reiterando repetições.

Dentro de uma música me fazendo silêncio.

Descobrindo o meu tamanho numa cidade que me sufoca.

Eu, o tão pequeno que não sabe sair. Daqui.

Ouço João para ir além dos lugares. Ir para mais. Esvaziar qualquer necessidade e me ser silêncio.

Desexistir sem nunca deixar de ser. Estar ali na voz do cantor rodando numa eletrola durando eterno na ideia do amor que me consola.

E me chega num suspiro da poesia que eu desenho em minha mão.

Noite de pura estesia.
Sem pensamentos.

Bosco: "Caymmi é tão radical quanto João Gilberto"

Dorival Caymmi
Cláudio Leal (Terra Magazine)
Há um ano, em 16 de agosto, Dorival Caymmi morria no Rio de Janeiro, aos 94 anos. Presença cordial e canônica, o compositor baiano continua a oferecer um itinerário de sabedoria e candura em suas canções, apesar de ter deixado uma herança difusa na música popular brasileira (o que certamente lhe agradaria).
Em entrevista a Terra Magazine, o ensaísta e letrista Francisco Bosco, autor do livro "Dorival Caymmi" (Publifolha), avalia "a lição de perfeição e simplicidade na articulação entre letra e melodia" deixada pelo Buda Nagô.
- No meu entender trata-se de um projeto de civilização - mestiço, alegre, erótico, com boa dose de ócio - de que o Brasil se afastou, em parte empurrado pelo capitalismo desenfreado em nível mundial - afirma.
Francisco Bosco ressalta que o autor de "O mar" e "Dora" foi tão radical quanto o músico João Gilberto, um dos catalizadores da Bossa Nova.
- Ainda que não pareça, Caymmi é tão radical quanto João: a perfeição da relação letra/melodia é o resultado de uma paradoxal ascese sem esforço. Um rigor assim tão relaxado tem muito a ver com o projeto da bossa nova.
Em seu ensaio publicado em 2006, Bosco faz uma síntese do cancioneiro caymmiano: "Simples, coloquiais, apimentados, dengosos, rebolados, os sambas de Caymmi possuem aquela que talvez seja a virtude maior da canção popular: provocam a vontade de ouvi-los e reouvi-los, de decorá-los (o que se faz sem se dar conta) e cantá-los e cantá-los e cantá-los. São canções que parecem anônimas, parecem ter surgido espontaneamente das igrejas, dos sobrados, das ladeiras, do dendê, do vatapá, do requebrado das baianas".
Leia a entrevista de Francisco Bosco, concedida por email.
Terra Magazine - Se é difícil dizer de onde veio a música de Caymmi, como já falou Chico Buarque, é possível identificar as heranças deixadas por ele na música brasileira?
Francisco Bosco - Até onde posso ver, é claro que o impacto de Caymmi nos cancionistas foi profundo: suas novidades harmônicas, seu violão, digamos, tridimensional, e sobretudo a lição de perfeição e simplicidade na articulação entre letra e melodia são aspectos que se deixam notar na obra de muitos cancionistas seus herdeiros. Entretanto não vejo ninguém cuja obra resulte direta e primordialmente de Caymmi, no mesmo sentido em que se pode dizer, por exemplo, que um
Jorge Vercilo resulta de Djavan.
Em seu livro, você diz que a palavra "dengo" é definidora da representação feminina de Caymmi. Qual é o abismo que o separa do feminino da axé music? O axé não bebe numa fonte em comum, o samba do Recôncavo Baiano?
O abismo, no fundo, é do mundo: o mundo perdeu a inocência.
O antropólogo Antonio Risério situou a obra de Dorival Caymmi numa Bahia "pré-industrial". A urbanização feroz do Brasil, da Bahia, com o crescimento da violência, realçou ainda mais o poético nos sambas sacudidos e nas canções praieiras?
Sim, Risério chega a dizer que, na época que ela surgiu, a obra de Caymmi apresentou como que uma Bahia utópica para o Brasil. Hoje ela revela uma Bahia utópica para os próprios baianos. No meu entender trata-se de um projeto de civilização - mestiço, alegre, erótico, com boa dose de ócio - de que o Brasil se afastou, em parte empurrado pelo capitalismo desenfreado em nível mundial.
Como foi sua aproximação da obra de Caymmi?
Num primeiro momento foi quando eu era bem criança, com uns cinco anos. Meu pai (o compositor João Bosco) colocava Caymmi para eu escutar e eu me lembro de pedir sempre para ele colocar de novo, e de novo, e de novo. Depois seria impossível dizer quando me aproximei, pois Caymmi é como a linguagem: algo que está aí desde sempre.
O talento dele como intérprete das próprias canções não é pouco destacado?
Não percebo isso. Concordo com Risério que não há nada melhor do que Caymmi par lui-même. Os sambas sacudidos e os sambas-canção ainda deixam-se interpretar bem por outros, mas quando se trata das praieiras... Acho que só o próprio mar poderia interpretar O mar melhor que Caymmi.
Há uma leitura de que o Rio de Janeiro é quase que ausente no cancioneiro caymmiano. A fase do "samba-canção" contradiz essa leitura?
Foi uma escolha consciente a de "desprezar" as belezas geográficas?
Deleuze, o filósofo, diria que Caymmi canta um devir-Bahia, isto é, suas canções não recordam um lugar, mas materializam um bloco de sensações, de afetos, que presentificam uma Bahia. A Bahia está para Caymmi como Combray para Proust. Isso me parece o mais importante, e nada tem a ver com desprezar as belezas do Rio (que, depois, nos sambas-canção, como você sugere, ele chegaria a cantar). É que a fonte da obra dele é a Bahia.
João Gilberto sempre se mostrou devedor a Caymmi, mas o que define essa proximidade? A concisão caymmiana é uma dessas influências?
Sim, a concisão, a simplicidade, o tempero incomparável, e uma concepção radical da canção. Ainda que não pareça, Caymmi é tão radical quanto João: a perfeição da relação letra/melodia é o resultado de uma paradoxal ascese sem esforço. Um rigor assim tão relaxado tem muito a ver com o projeto da bossa nova.
O que garante a permanência da música de Caymmi?
O mesmo que garante a presença de todo artista num cânone: a diferença produzida por sua obra.
( Licença para tietar, adoro estes quatro com intensidade: Dorival Caymmi, João Gilberto, Claudio Leal e Francisco Bosco ).

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Pestes brasileiras

Esta postagem é imperdível: retirada do Terra Magazine, hoje, 17 de agosto de 2009. Atente, por favor, para o autor:
Milton Hatoum
De São Paulo
Hoje é segunda-feira e há três dias estou no mesmo lugar, que nem boi no confinamento. Um boi sem internet, sem telefone, sem família e amigos. Sozinho numa cabana, como se estivesse ilhado, mas sem a vocação de um Robinson Crusoe, pois não pretendo colonizar nenhuma ilha, muito menos passar vinte e oito anos na solidão absoluta. Se tiver sorte, esta crônica, escrita a lápis, será enviada por um amigo que mora na cidade mais próxima, a noventa quilômetros do meu confinamento rural.
Na manhã da quinta-feira passada, quando plantava raízes de beterraba, fui atacado por um enxame de abelhas ferozes, levei duas ferroadas e passei três dias com febre, falando sozinho e dando tapas no ar. Na minha face esquerda nasceu um calombo tão feio que parei de fazer a barba e até hoje me esquivo do espelhinho do banheiro.
As abelhas enlouqueceram, estão revoltadas, disse um amigo camponês. A rainha sumiu. Por isso, o enxame ataca todo mundo. Elas querem ordem, querem comando.
Jogamos óleo queimado num feixe de lenha, ateamos fogo e esperamos a fumaça afugentar essas voadoras loucas e perigosas, à procura de sua rainha. Fugiram, mas voltaram na manhã seguinte, me picaram e aprisionaram nessa cabana. Pensei nas beterrabas, nos pés de alface, na minha pequena horta sem agrotóxicos. Um dia as abelhas vão embora, mas a revolta do enxame, a ideia de milhares de abelhas revoltadas me atraiu.
Pensava nisso quando um cavaleiro chegou de uma cidade distante e me entregou dois jornais velhos. Notícias da semana retrasada.
Leio, sem surpresa, que um juiz de Brasília censurou o jornal O Estado de S. Paulo. O caso, escabroso, envolve um dos filhos do presidente do Senado e está sendo investigado pela Polícia Federal.
Entendi as causas da investigação, mas não entendi a decisão do desembargador, que proibiu o jornal de noticiar o descalabro.
Pobres leitores! Já não temos sequer o direito à informação. Vejo a fotografia desse magistrado-censor na festança de casamento da filha de um ex-chefão da burocracia do Senado. Uma fotografia incrível, pronta para ser transformada em peça de ficção, em tom buslesco ou sarcástico. Se fosse um concurso de cafonice e mau gosto, todos os personagens da fotografia seriam premiados. E quantos prêmios maravilhosos, querido (a) leitor (a)!
Ah, um lindo anel de rubi falsificado à mulher mais cafona da pátria! Ou seria rubi legítimo, importado clandestinamente por meio de um ato secreto?
Penso na promiscuidade entre os três poderes, na imunidade dos parlamentares e magistrados, na impunidade dessa gente que se lixa para o povo brasileiro. Os políticos pomposos, corruptos, autoritários. Lembrei dos sonetos de Camões, das receitas de bolo e dos quadrados pretos que substituíam as matérias censuradas do Estado de S. Paulo durante a ditadura. Sonetos e receitas inesquecíveis. Viro a página e vejo uma foto de Collor, escoltando Renan Calheiros e o presidente do Senado. Pensei: sou um convalescente de duas picadas de abelha, ainda sinto o corpo febril.
Estou delirando? Ou esses fatos e fotos são verdadeiros? A rainha das abelhas se extraviou. Leio que o rei do Senado e o filho do rei são réus, mas neste país só as abelhas se revoltam. Isso é injusto. Uma aberração da natureza. Será o reino animal mais consciente, mais revoltado e mais organizado que o nosso triste e conformado reino humano?
Se ao menos houvesse abelhas sem rainha em Brasília. Milhões de abelhas ferozes investindo em alguns magistrados, políticos e seus acólitos. Ia escrever alcoólicos, mas não tenho nada contra eles, e eu mesmo, sem ser viciado, gosto de tomar umas e outras.

Menino do Rio

Thiago Martins

Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Dragão tatuado no braço
Calção corpo aberto no espaço
Coração, de eterno flerte
Adoro ver-te...
Menino vadio
Tensão flutuante do Rio
Eu canto pra Deus
Proteger-te...
O Hawaí, seja aqui
Tudo o que sonhares
Todos os lugares
As ondas dos mares
Pois quando eu te vejo
Eu desejo o teu desejo...
Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Toma esta canção
Como um beijo...
Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Dragão tatuado no braço
Calção corpo aberto no espaço
Coração, de eterno flerte
Adoro ver-te...
Menino vadio
Tensão flutuante do Rio
Eu canto pra Deus
Proteger-te...
O Hawaí, seja aqui
Tudo o que sonhares
Todos os lugares
As ondas dos mares
Pois quando eu te vejo
Eu desejo o teu desejo...
Caetano Veloso

Vento no Litoral



De tarde quero descansar
Chegar até a praia e ver
Se o vento ainda esta forte
E vai ser bom subir nas pedras
Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora...
Agora está tão longe ver a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos
Na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim...
Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você esta comigo
O tempo todo
E quando vejo o mar
Existe algo que diz
Que a vida continua
E se entregar é uma bobagem...
Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos,
Lembra que o plano
Era ficarmos bem...
Eieieieiei!
Olha só o que eu achei
Humrun Cavalos-marinhos...
Sei que faço isso
Pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora...
Renato Russo

Aonde está você agora?

Bruno Gagliasso e Thiago Martins

Ontem, mais um domingo sem gracinha, fui ao TCA, sala principal, assistir Aonde está você agora?, texto teatral de Regiana Antonini, construído a partir da canção de Renato Russo, Vento no Litoral, o que mais me estimulou, e acabei me emocionando com muitas cenas deste espetáculo adolescente, guiado pela direção de Bruno Gagliasso, que também atua ao lado de Thiago Martins. Ambos são bons atores. Achei Bruno muito preso ao seu personagem de Caminho das Índias, cheio de expressões do jovem esquizofrênico que ele interpreta com inteireza. Mas , em cena, o espetáculo é de Thiago de Martins, mais leve e mais entregue ao personagem, ele é uma boa surpresa! Uma voz bonita entoando algumas canções da Legião Urbana, como Sexo Verbal. Há uma discussão lagítima sobre a força da amizade, da paixão entre amigos, sem o desenho do sexo. Muito conjuntural, mas com algumas nuances de confusão como o tema, muito complexo, pede, mesmo sendo dirigido ao público adolescente querendo ver as estrelas globais. Valeu a pena: livro da sorte, Legião Urbana, amigos inspirados, pactos de eternidade, memória, encontro, saudade, ou seja, componentes de uma adolescência que trago em mim até hoje.


domingo, 16 de agosto de 2009

Atotô Ajuberô Xapanã


Calma, Senhor da Terra - promove sua chegada até aqui!
Na dança do Xaxará envolve a vida e traz o contrário do ódio.
Mestre do silêncio de beleza insuportável.
Raios solares por sobre os caminhos.
Calma, Senhor da vida e morte
Traz o contrário da doença!
Te louvo na grandeza do doboru
Pipocas aos ares; piso na areia
Canto à beira dos mares.
Opanijé da força
Marca negra deslumbrante
Colunas dos receios
Ardor da simplicidade...
Dança das calmarias
Reflexo de medo
Senhor de todo segredo
Barulho do adejar...
Calma, Senhor da luminosidade
Habitante da terra dos corpos sem vida
Homem da intemperância
Eu danço em sua coragem
Para dever prosseguir.
Espalho tudo que há em mim
Atotô Ajuberô Xapanã!
Licença, Senhor!

O Brasil sem Caymmi: um ano!

Dorival Caymmi
Em 16 de agosto de 2008, na cidade do Rio de Janeiro, morreu o patriarca da Bahia, inventor de uma das nossas muitas baianidades e o mais expressivo talento musical nessas esferas da canção.
Caymmi nos legou as mais belas crônicas, a partir do cotidiano de sua cidade natal, Salvador, iluminadas e transformadas por sua sensibilidade artística. Ouvi-lo é uma espécie de navegação e o maior sentimento é saudade... O cantor da minha terra deixa a gente mole.
Tomara que se faça na Bahia uma Fundação Dorival Caymmi à altura do mestre. Tomara que não se fustiguem sua memória e nem desaguem sua importância para o mar do esquecimento. O nosso João Valentão, ao longo de sua longeva existência, muito fez por nossa coletividade baiana e brasileira, o que políticos nunca fizeram e nem farão. Aguardamos e cobramos esta Fundação - aqui na Cidade da Bahia.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O caminho em mim

Meu caminho é contemplação. Pastos e pastos da vontade inquebrantável de ser. Coisas que não arrefecem e me levam para além de mim.

Traz-me notícias em solidão e acompanhamentos e sigo inteiro sendo-me eu mesmo sob o azul da minha inspiração.

Meus dias eu banho de doses poéticas - antídoto contra a mera insatisfação e represento a felicidade que persigo e refazendo diariamente o meu destino, o que me fica é matéria de criação. E eu aproveito.

Abuso da liberdade que tenho. Meu maior obstáculo é preguiça. Minha sede é amorosa e a arte, toda ela, me alucina.

A esperança, mesmo nos meus arroubos de pessimismo, é minha persistência. Gosto de acreditar. Preciso acreditar. E não só por mim.

Sim. Qualquer vida é afirmação e deve ser mantida entre o sono e a vigilia, embalada por canções.

Sim. Acordar é uma sonata de mistério. O mar à frente é permissão divina. Minhas roupas são brancas e eu, hoje, escolho meus pensamentos.

Sim. Quem me comanda domina as cabeças, o ori, a memória e o pensamento... eu me quero daqui pra frente aquático e lúcido, aquecido pela inteireza das coisas que me trouxeram até aqui.

Fé, muita Fé neste agosto solar na manhã do meu coração.

Poesia e intenção. Nada de subterfúgios e auto-enganamentos. Minha teoria do conhecimento maior reflete Álvaro de Campos e é um misto de perceber, saber, experienciar, criar, intuir e transceder. Sigo porque aprendo assim.

Rabisco estas imagens que me desenham para uma aproximação do que já sou. Guardo alguns segredos para que meu mistério não me falte.

Deus há comigo. A água é meu oriente e proteção. O vento me desatina. O sol esclarece. As folhas fascinam e o Tempo, senhor infinito, traça de movimento a finitude que me habita.

Estendo meus braços ao mundo e não desfaço meus erros. Pulso de intensidade e desejos e viajo ao interior do escrevo aqui. É uma transverdade verde.

Eu amei amo e amarei tudo que me for tesão, corpo, alma e sagração. Para que não haja preocupações com o fim.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O nome da cidade

Marlon Marcos ( Rio de Janeiro)
Adriana Calcanhotto


Ôôôôôôô ê boi! ê bus!

Onde será que isso começa

A correnteza sem paragem

O viajar de uma viagem

A outra viagem que não cessa

Cheguei ao nome da cidade

Não à cidade mesma, espessa

Rio que não é rio: imagens

Essa cidade me atravessa

Ôôôôôôô ê boi! ê bus!

Será que tudo me interessa?

Cada coisa é demais e tantas

Quais eram minhas esperanças?

O que é ameaça e o que é promessa?

Ruas voando sobre ruas

Letras demais, tudo mentindo

O Redentor, que horror!

Que lindo!

Meninos maus, mulheres nuas

Ôôôôôôô ê boi! ê bus!

A gente chega sem chegar

Não há meada, é só o fio

Será que pra meu próprio rio

Este rio é mais mar que o mar?

Ôôôôôôô ê boi! ê bus!Sertão, sertão! ê mar!

Caetano Veloso

P.S.: dia 21/08 estarei lá de novo. Fé em Iemanjá e Oxaguian( na mesma altura).

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Maria Bethânia e Alcione: Ternura Antiga


Tão simples assim: antiga eterna minha. E nessas vozes. Farewell.

video

Riscos do destino

Maria
Porque eu preciso de uma manhã com mais beleza e ventilada de boas notícias. Uma manhã musical descrita na voz viva que eu mais amo. Luminosa e conclusiva para os temas que há muito tempo me afetam. Manhã Oyá-Iansã. Tempestuosa no início e pacificadora nos instantes contínuos. Carinho. Encontro de dois. Poemas juntinhos. Preciso. Corpos colados em nome das almas que não calam. Textos de Fernando Pessoa. Suores para trazer o cheiro. Vida diuturna para rasgar as noites. Presença física de azul e branco. Sorte nas anotações do caderno. Premonições se cumprindo em esperas recompensadas. Voz vibrante da minha paixão. A mulher-águia cantando. Rascante. O amor se ensaiando para realizar-se. Já. A ruptura necessária nos meandros da cultura e o tempo se encurtando. Música e poema. Nela para nós. Assim:
Eu quero um colo, um berço
Um braço quente
Em torno ao meu pescoço
E uma voz que cante baixo
E pareça querer me fazer chorar
Eu quero um calor no inverno
Um extravio morno da minha consciência
E depois em som
Um sonho calmo
Um espaço enorme
Como a lua rodando entre as estrelas
Fernando Pessoa
depois,

Luminosa manhã
Para que tanta luz?
Dá-me um pouco de céu
Mas não tanto azul
Dá-me um pouco de festa não esta
Que é demais pra os meus anseios
Ele veio manhã
Você sabe, ele veio
Despertou-me chorando
E até me beijou
Eu abri a janela
E este sol entrou
De repente em minha vida
Já tão fria e sem desejos
Estes festejos
Esta emoção
Luminosa manhã
Tanto azul tanta luz
É demais para o meu coração.
(Canção da manhã feliz - Haroldo Barbosa e Luís Reis)
daí,
talvez eu não acorde.

Sem espanto, só poesia

Penélope Cruz e Pedro Almodóvar
A vida como surpresa e possibilidades:
"O cineasta espanhol Pedro Almodóvar disse em recente entrevista que já se sentiu sexualmente atraído por Penélope Cruz, com quem trabalhou em filmes como "Volver" e "Tudo Sobre Minha Mãe". Gay assumido, Almodóvar contou ter sentido vontade de partir para cima da atriz durante a gravação de "Los Abrazos rotos", em que Penélope é protagonista.
"Normalmente, um diretor se envolve com a protagonista em um alto nível emocional, mas sem sexo. Mas a verdade é que com Penélope é diferente. Ela me causa deseja sexual", derreteu-se o espanhol."
( Retirado do site gay MixBrasil - www.mixbrasil.com.br)

Caetano Veloso e novas assertivas sobre o 13 de maio

Durante a festa dos 120 anos do Bembé do Mercado, a historiadora Ana Rita Machado faz sua exposição em seminário de que participaram Rodrigo Velloso, Mabel Velloso, Zulu Araújo, o prefeito Ricardo Machado e Caetano, entre outros. Foto: Toinho Simões | Agência A Tarde 13.5.2009

Marlon Marcos

especialmente para o blog Jeito Baiano, de Jary Cardoso



Em 7 de agosto de 1942, na cidade de Santo Amaro da Purificação, polo de efervescência cultural do Recôncavo Baiano, nasceu Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso, internacionalmente conhecido como Caetano Veloso, um dos mais representativos artistas do cancioneiro brasileiro. Divisor de águas no cenário cultural deste país, além de cantor (hoje o melhor do Brasil) e compositor, Caetano se destaca entre nós como um formulador de idéias provocativas e instigantes. Cria canções com a mesma habilidade que desfia leituras polêmicas sobre o “ser Brasil”, fazendo incursões em áreas especializadas do saber acadêmico e, às vezes, enfurecendo historiadores, antropólogos, sociólogos, linguistas, literatos e seus eternos “amores”, os jornalistas.



Foi no mês de maio do corrente ano, no dia em que se comemora a Abolição da escravatura, em Santo Amaro, que Caê tornou a irritar seus espectadores, desta vez, afirmando: “o 13 de maio é da Princesa Isabel e é burrice se negar a importância histórica da abolição”. Essa deixa inflamada ocorreu numa noite de reflexões sobre os 120 anos do Bembé do Mercado, festa religiosa do candomblé santo-amarense em comemoração ao fim da escravidão, que sempre tem sua culminância, no dia 13 , com a oferta de um grande presente à Senhora das águas salgadas, o orixá Iemanjá. O evento-seminário foi organizado pela Secretaria de Cultura daquele município, que tem como secretário Rodrigo Velloso, um dos irmãos do cantor, e contou com a participação de Zulu Araújo, presidente da Fundação Palmares, com a historiadora Profª. Ana Rita Araújo Machado, entre outros discursadores.



As falas de Ana Rita Machado e de Zulu Araújo foram na direção de se recuperar a memória popular, negra e religiosa do Bembé do Mercado e assim, minimizar a mitificação em torno do nome da Princesa Isabel, vista pelas historiografias oficiais como a redentora dos negros no Brasil, e negar o projeto abolicionista efetivado com a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, sem garantir cidadania e inclusão social aos negros tornados livres.



A partir destas falas, consideradas eloquentes e inteligentes por Caetano, que o nosso autor de Trilhos Urbanos despejou sua verborréia e criticou os movimentos negros brasileiros, apontando-os como meras cópias da negritude “norte-americana”, falou em atraso, em um aprisionamento ideológico datado nos anos 70 e que para se prosperar é preciso se fazer uma leitura mais ampla da Abolição, um fenômeno histórico considerado pelo cantor, como instrumento vital de emancipação sociopolítica dos humanos negros no Brasil, e que se deve falar em 13 de maio como conquista sem negar a importância da princesa Isabel neste processo.



Em entrevista coletiva para divulgar em Salvador seu trabalho mais recente, Zii Zie, um dia após as polêmicas desferidas em sua cidade natal, o compositor afirmou que os impedimentos de avanços e inclusão dos negros neste Brasil se devem muito mais a limitações da República do que um possível descaso legal por parte da Monarquia naquele período: “Se os negros não avançaram a culpa foi da República”.



Na órbita das revisões históricas em torno da Abolição, quem se filia a muitas impressões de Caetano Veloso é o seu conterrâneo, o poeta Jorge Portugal. Portugal acha que ao superestimar o papel de Isabel no 13 de maio, Caetano se lança numa provocação, mas não deixa de apontar reflexões muito relevantes para que tenhamos uma compreensão mais nítida da importância desta data na história brasileira.


Jorge Portugal comenta também outras reflexões que são emblemáticas e estão em sintonia com Veloso, as de Cristovam Buarque que afirmou: “O dia 14 de maio já foi melhor que o dia 12”; e do lustre militante do movimento negro Samuel Vida, advogado e professor universitário, que também defende uma releitura do 13 de maio para destacar os avanços que esse evento ocasionou aos nossos ancestrais de origem africana.



Hoje, Caetano faz 67 anos de vida, mais de quarenta de carreira, e com certeza, quase todos de polêmica e muita vanguarda, haja vista, reza a lenda, que foi ele quem escolheu o nome Maria Bethânia para sua irmã recém-nascida, quando ele tinha 4 anos; criou polêmica em casa, e ganhando na sugestão, acertou em cheio ao ajudar na afirmação de um nome artístico, o de sua irmã, como uma das marcas mais importantes do canto feminino no mundo contemporâneo.


(Publicado no Jeito Baiano ( http://jeitobaiano.wordpress.com/), em 07 de agosto de 2009, aniversário de 67 anos de Caetano Veloso).

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Roberto Mendes e Tiganá Santana: Vozes no Espelho

Foto Marcelo Bruzzi

A arte na Bahia promove um encontro musical de luminosidade: Roberto Mendes e Tiganá Santana cantam, historicamente juntos, no dia 11 de agosto de 2009, às 20h., no Teatro do SESI, e assim, celebram a música como expressão e mais ainda, perfilam as semelhanças de suas criações espelhando a recíproca alegria de estarem cantando juntos.

A música e a poesia, no formato canção, irão se encontrar de modo elegante e competente, na noite do dia 11 de agosto de 2009, precisamente às 20h., em tom de celebração, nas vozes de Roberto Mendes e Tiganá Santana, no Teatro do SESI. Luz e sabedoria aos nossos ouvidos: eis a tônica deste encontro que traz um veterano de qualidade musical inquestionável e de renome internacional, Roberto Mendes; e um neófito pronto para ganhar o mundo com sua obra nova, ainda desconhecida, mas de expressividade arrebatadora.

Os dois se respeitam em profundidade, convergem em assertivas sobre o papel da música em nossa sociedade e sobre o constante diálogo entre tradição e modernidade, destacando a ação necessária da preservação ancestral em nossas temáticas e construções artísticas. Querem, e vão, cantar juntos para trocarem experiências, dialogarem criativamente e permitir à Bahia novas vivências sonoras que nos possam arejar.

O show traduz-se no título que leva: vozes no espelho. É uma síntese artística de dois cantores e compositores que se reconhecem na maneira de compor, no rigor estilístico, no apego à ancestralidade, na permissão à música, na inventividade, na inteligência. São dois inventores da música popular brasileira, marcados de africanidades, lusitanismos, indianismos, dentro de uma territorialidade figurada como Recôncavo baiano, mas de projeção e capacidade comunicativa universais.

Roberto Mendes nasceu em Santo Amaro da Purificação e é dos mais importantes compositores brasileiros, suas músicas, muitas, fizeram história na voz de sua conterrânea, a cantora Maria Bethânia, intérprete e termômetro musical favoritos do compositor, na estrada há mais de vinte anos. É empreitada de Roberto também, juntamente com Jorge Portugal, a construção da chula Filosofia Pura, lançada no antológico Ciclo, de Maria Bethânia, em 1983, que contou com a participação especial de Gal Costa, justamente nesta canção, a primeira chula a percorrer as rádios de todo Brasil.

Tiganá Santana, 26 anos, filósofo de formação, já é um dos compositores favoritos de Virginia Rodrigues. Nasceu em Salvador, e, ultimamente está em fase de conclusão daquele que será seu primeiro CD, Maçalê, trabalho autoral que ilustra o grande talento que este jovem artista traz em si. Tiganá é um dos poucos, senão o único, compositores brasileiros que compõem em línguas africanas, principalmente o quibundo, quicongo e o iorubá.
Este encontro mais que renovação é história. Faz-se imperdível e nos permitirá momentos de grande fruição estética e inventiva.

SERVIÇO:

Show: Vozes no Espelho
Artistas: Roberto Mendes e Tiganá Santana
Onde: Teatro do SESI
Endereço: Rua Borges dos Reis, nº 09, Rio Vermelho
Quando: 11 de agosto de 2009 (terça-feira)
Horário: 20h.
Ingresso: 30 reais (inteira)
Telefone SESI: 71- 3535-3020



Maiores informações:


Assessoria de Comunicação:
Marlon Marcos (jornalista/DRT-BA 2235): 71- 8107-4693//8749-5595

Produção Executiva: EMMA ( Emílio / 71 – 8832-9348)



segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Dina Sfat: 20 anos de falta!

Dina em "Gabriela"

Ontem o Fantástico me prestou um grande serviço: me fez rememorar uma das presenças mais enigmáticas e fortes que a dramaturgia televisiva já teve: Dina Sfat, falecida em 1989. Ela era a própria contradição. Bela, misteriosa, talentosa e valente. Seu último papel foi na inovadora Bebê a Bordo, quando ela se despedindo da vida, não deixou de iluminar o horário das sete com seus olhos negros de expressão e verdade. Lembro dela em Gabriela, uma das minhas novelas inesquecíveis, eu era quase um bebê e já assistia, ela, Sônia e Elizabeth Savala, roubavam todas as cenas pra mim! Viu que há felicidade?


Para se homenagear uma estrela eterna do Brasil, o Rio de Janeiro faz exposição, no texto abaixo:

"Exposição fotográfica marca 20 anos sem a atriz Dina Sfat

Estrela do teatro, do cinema e da TV, Dina Sfat fez muitos trabalhos aqui no Fantástico. São 20 anos sem Dina Sfat. Na memória eletrônica do Fantástico, estão personagens inesquecíveis da carreira da atriz, como a Zarolha da novela 'Gabriela', ou Amanda, em 'O astro' e a Darlene de 'Eu prometo'. Em 1988, um ano antes de sua morte, Dina esteve no Fantástico para recitar um poema de Fernando Pessoa. Dez anos antes, também no Fantástico, Dina se definiu assim: "Às vezes eu sirvo como espelho. Às vezes eu me sinto como um vidro transparente. As pessoas também veem o que elas querem ver. Não o que eu quero". Para lembrar as duas décadas sem Dina Sfat, na próxima quinta-feira será aberta no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio de Janeiro, uma exposição sobre uma das maiores atrizes brasileiras de todos os tempos. A mostra reúne figurinos e fotografias de personagens vividos pela atriz em quase 30 anos de carreira. São tantas imagens que viraram também um livro que será lançado no próximo dia 26. "

(Retirado do site globo.com)






sábado, 8 de agosto de 2009

Solares


Esses dias andam sem sentido. A vontade é de sair escrevedo versos femininos para que se alcance outro modo de ver as coisas. Ver com mais tempo, mais duração. Instantes de contemplação e carinho. Tudo está tão rápido e faltoso. A vontade é de gestar meses e parir novidades. Feminino para fazer com cuidado a favor da arte. Olhar um colibri numa flor. Armazenar cartas de amor. Chorar, de mansinho, com uma música girando a vida inteira! Sem álcool. Escrevinhar projetos e aquecê-los de Fé. Ver filmes com a ânsia de comentá-los. Ter paciência de ensinar. Fazer movimento para aprender. Estudar e, também, escutar. Falar muito sem medo e com literatura. Misturar cores...
***

Vencendo o dessentido e esquecendo que estamos em agosto, respiro:

1. Bem-vindo o documentário Coração Vagabundo, de Fernando Grostein Andrade, sobre Caetano Veloso. Gostei até das cenas em que Paula Lavigne aparece. Chorei.

2. Uma delícia Diana Krall cantado em seu DVD no Rio de Janeiro; para o Rio de Janeiro. Uma atmosfera de elegância e prazer. Essa coisa chamada jazz faz a gente se perguntar: será que Caetano está certo, a melhor música do mundo é a estadunidense?

3. Aportou na terrinha De repente, Califórnia. Um filme com uma história gay exitosa! Suave e como grande fórmula para se vencer agruras de agosto. Vi no Rio de Janeiro. Verei de novo nas salas charmosas do Unibanco Glauber Rocha, em Salvador, é claro!

4. Violento mas ótimo o filme Inimigos Públicos. Que ator Johnny Deep! Tem Diana Krall cantado no filme em cena! E tem ela, Billie Holiday em três canções. Que trilha!

5. Vanessa da Mata aporta em Salvador. Último final de semana de agosto. Isso tem gosto de setembro.

6. Ouvi, repetidas vezes, Quero ficar com você, de Caetano Veloso, na voz de Maria Bethânia. Paixão.

7. Cheguei ao final de minha releitura de A morte e a morte de Quincas Berro D'água. Não tenho outra palavra: mágico! Viva Jorge Amado.

8. Antropologia é a ciência... Essa coisa de etnografar em observações partipantes. Vai doer em muitos, mas isso é um chamariz sexual ressignificado. A depender do tema se chega a poemas e prazer! Mariza Peirano me causa isso!

9. Minha frase contra o marasmo e os enganamentos desses dias: " Eu sou do sol. Eu quero ser lúcido e feliz". Eu te amo, Caetano. Muito.

Vida Azul

Karina Rabinovitz

O grande trunfo dela, além de suas contas indefectíveis no antebraço direito, é a sua poesia. Componente mágico que a faz azular a vida. Texto de luz. Leveza visual. Sorriso solar. Aconchego. Confira:


vida azul


de beira de praia,
essa liberdade
permanece em mim,
quando eu,
na fila do banco
ou quando estanco
de cansaço e sofrimento.

esse vento, essa areia, esse mar,
dentro de mim,
aliviam o dia-a-dia
de trabalhar
e fazer dinheiro.

esse cheiro de maresia,
esse sol, esse corpo nu
estão em mim,
até o fim.

vida azul.

Festa da Boa Morte - 2009


A partir do dia 13 e até 15 de agosto, mais um exercício de Fé e beleza será realizado na mágica cidade de Cachoeira( uma das minhas paixões!), pelas irmãs negras da Irmandade da Boa Morte. A festa possui significados litúrgicos que reúnem duas matrizes religiosas: o candomblé e o catolicismo. Deixa as marcas de permenância de uma instituição, a Irmandade, que teve papel central como instrumento de luta contra o cativeiro e ao mesmo tempo, como preservação de costumes religiosos de origem africana, quando aqui na Bahia, passaram a ser conhecido como candomblé, a partir do século XIX. Para participar da festa, de verdade, tem-se que acompanhá-la nos três dias: o primeiro representa o velório de Nossa Senhora; o segundo é o seu sepultamento simbólico; o terceiro é a Assunção da Mãe maior dos católicos aos Céus da eternidade. Lá dentro os orixás, voduns e inquices da vida e da morte são convocados ,agraciados e agradecidos. Um tom de mistério que ilumina. É quando, de certa forma, a religião tem gosto de libertação. Imperdível. Iemanjá tome parte daquela Assunção. Verde-azulzinha.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Soneto do Amor Total


E eu nunca me largo, mesmo frágil, saudoso, musical , antes, sou-me pura poesia navegando as imagens do amado Vinicius... E este poeminha do coração que me veste de azul, me lembra Maria Bethânia, me traz aquela emoção: cheiro olhos boca na memória daqui!

67 anos; Qualquer Coisa

Caetano Veloso


Meu ídolo na ativa, aos 67 anos; hoje é o melhor cantor deste país, compositor histórico, poeta desmedido. Meu amor Qualquer Coisa. Nascido a 07 de agosto de 1942 no rugido do leão. Bicho de sorte seu nome é canção. Parabéns para além do que você diz, mais que tudo você vive! E cria.


Esse papo já tá qualquer coisa

Você já tá pra lá de Marraqueche

Mexe

Qualquer coisa dentro, doida

Já qualquer coisa doida

Dentro mexe

Não se avexe não

Baião de dois

Deixe de manha, 'xe de manha, pois

Sem essa aranha! Sem essa aranha!Sem essa, aranha!

Nem a sanha arranha o carro

Nem o sarro aranha a Espanha

Meça: Tamanha!

Meça: Tamanha!

Esse papo seu já tá de manhã.

Berro pelo aterro

Pelo desterro

Berro por seu berro

Pelo seu erro

Quero que você ganhe

Que você me apanhe.

Sou o seu bezerro

Gritando mamãe.

Esse papo meu tá qualquer coisa

E você tá pra lá de Teerã

Caetano Veloso





quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Outro lugar

Preciso, fictício, alegórico, real, destino: Rio de Janeiro. Páginas de uma busca que enovela o desejo. Ânsia de um lugar mesmo mergulho na ilusão: mudança. Ares e a ventania como possibilidade e sorte. Meu sorriso leve (me) a outro lugar. Paisagem contínua e útil no meu lado dois. Água e estrelato. Permanência. A beleza como aconchego e eu viajando ali ainda que partido em um terço. Avante até que o Maior desenhe sua vontade.

A palavra como travessia

Eis-me nesse espelho de mim palavreando. Ânsia de desenho sem lamento nem dor. Escritos de um horizonte além. Vasilhames colhendo minhas perguntas e eu me movimentando. Em mim refletido no espelho. Me vejo num instante em que me salvo e escrevo. Perguntas. Naquele silêncio que se quebra no vulto de uma presença. Corpo humano saudoso: que é desejo animal, pensamento sofisticado, percepção e...Violenta. Ressonância sem viço. O peito dilacerado na palavra que delata. Formas do segredo gratuito. Reticências para o mistério. O lugar daqui. O grande medo. Beijo nos olhos-pefume. Dança singular. Apreço. Brutalidade de ausência. Falta do estar. Vísceras em uma canção. O tempo. O vento. Oyá-Iansã. Maria Bethânia. Festejos. Uma borboleta sinalizando o eterno começo. E a solidão da escrivaninha paralisando e piorando o cansaço. O sumidouro do espelho é a luz da minha inspiração. E me traço assim para vencer o sentido que sobrepõe falta a movimento. Eu preciso de mim. E de você.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Direito de Sambar

Batatinha

Amanhã ele faria 85 anos. Nasceu em Salvador, em 05 de agosto de 1924. O grande sambista brasileiro, autor desta obra prima, entre outras, Direito de Sambar, o momento mais bonito do novo show de Juliana Ribeiro. Morreu em 03 de janeiro de 1997. Toda lembrança a Batatinha, ilustração da grandeza criativa do povo deste país!

É proibido sonhar

Então me deixe o direito de sambar

É proibido sonhar

Então me deixe o direito de sambar

O destino não quer mais nada comigo

É meu nobre inimigoE castiga de mansinho

Para ele não dou bola

Se não saio na escola,

Sambo ao lado sozinho

É proibido sonhar

Então me deixe o direito de sambar

É proibido sonhar

Então me deixe o direito de sambar

Já faz dois anos que eu não saio na escola

A saudade me devora

Quando vejo a turma passarE

eu mascarado, sambando na avenida

Imitando uma vida que só eu posso enfrentar

Tudo é carnaval

Pra quem vive bem

Pra quem vive mal

Tudo é carnaval

Pra quem vive bem

Pra quem vive mal

Batatinha ( Genial!)






"O mundo me navega e eu não sei navegar"


Não consigo tirar uma imagem de minha cabeça por dois dias: Juliana Ribeiro, de máscara, cantando Direito de Sambar, do nosso Batatinha, aqui na Cidade da Bahia. Um show tão simples e tão expressivo, comunicando o samba com elegância, talento, destreza e musicalidade. Pôxa, trazendo Batatinha e a minha Clemetina de Jesus. Juliana é linda e já está bem crescida tão somente para os palcos da Bahia. O Brasil a espera.
Estou largado na opressão dos meus limetes: dói essa coisa de miséria cultural. Queria inventar a palavra, não a que revolucionasse o mundo, mas a que convencesse alguém do amor profundo que há em mim.
Abri um livro para copiar um trecho de um poema: era de Sylvia Plath. Não consegui. Desaguei na avalache destes dias. O mundo dessinalizado.
Acometi-me de louvações ao inquice Tempo - tudo a que posso recorrer! Louvações intensas de quem precisa fazer ainda muita coisa por aqui. Tempo para dissipar sombras, para evitar descaminho.
Meu destino é água apesar das máculas do fogo. Sou intenso. Navego na conoa da esperança e olho firme para um sentido: a poesia fora de mim que faz nascer poesia de mim... Meu nome além de Mar é Fé.
E você, sempre azul, às vezes virando meu barco, nunca sai de mim. Eu te navego sem saber.

A miséria cultural baiana

Setaro

Hoje acordei tombando em dois sustos tornados belas surpresas. A primeira (ou o primeiro?) foi o texto de Vitor Carmezim, em seu blog Inéditos e Dispersos, poetando sobre Leite Derramado, o mais recente romance de Chico Buarque de Holanda, fazendo com lirismo, num texto curto, um tipo criativo e envolvente de jornalismo cultural: o blog é lindo! Depois, tive acesso pelo Terra Magazine, a metralhadora certeira de André Setaro analisando, com muita propriedade e procedência, os descaminhos da criatividade artística em nossa Bahia. Vitor trouxe poesia leveza reflexão e possibilidades; Setaro trouxe reflexão asco denúncia diagnósticos informação e possibilidades. Manhã proveitosa e, ainda tem gente que lê no mundo!
Na íntegra, a rajada de André Setaro especialmente para o Terra Magazine:
Diz-se que a Bahia já teve seu Século de Péricles, uma alusão ao período efervescente que se situou nos anos 50 e na primeira metade dos 60, quando Salvador congregava o que havia de mais criativo na expressão artística. Estimuladas pela ação da Universidade Federal da Bahia, comandada, e com mão de ferro, pelo Reitor Edgard Santos, as artes desabrocharam com o surgimento do Seminário de Música, da Escola de Teatro, do Museu de Arte Moderna, dos inesquecíveis concertos na Reitoria, da porta da Livraria Civilização Brasileira na rua Chile, dos papos ao por do sol frente à estátua do Poeta, no bar e restaurante Cacique, dos debates calorosos da Galeria Canizares (no Politeama), da "boite" Anjo Azul (na rua do Cabeça), entre tantos outros pontos que faziam da Bahia um recanto pleno de engenho e arte.
Na Escola de Teatro, por exemplo, que, inicialmente, foi dirigida por Martim Gonçalves, montava-se, lá, de Bertolt Brecht, passando por Ibsen, Eugene O'Neill, entre tantos, a Strindberg, com um rigor inusitado, e tal era a excelência de seus espetáculos que vinham pessoas do sul do País, e até do exterior, vê-los encenados "in loco". No curso de preparação de ator, o estudante levava alguns anos para poder participar de uma montagem teatral, iniciando a sua trajetória como um mordomo mudo ou de poucas falas. Somente ter o seu nome no programa da peça já era um prêmio, uma alegria, um consolo.
O recente livro, "Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia", de Jussilene Santana, analisa a configuração do teatro como temática na imprensa baiana em meados do século XX e, pela primeira vez, faz justiça a Martim Gonçalves, o responsável pela excelência das montagens teatrais, criador da Escola de Teatro (que hoje tem o seu nome), mas muito criticado na sua época e até mesmo denegrido pelos opositores. Após a leitura deste livro imprescindível, a conclusão é única e inequívoca: sem Martim Gonçalves não se teria um teatro baiano do nível a que chegou, ainda que, décadas depois, tenha perdido todo o seu vigor, transformando-se num grande proscênio destinado à proclamação de "besteiróis", honradas as exceções de praxe.
Cinqüenta anos depois, meio século passado, a realidade cultural baiana é uma antípoda da efervescência verificada, uma época que foi chamada, inclusive, de "avant garde" pela sua disposição de inovar, pela marca de vanguarda da mentalidade de seus artistas e intelectuais.
Atualmente, a Bahia regrediu muito culturalmente a um estado, poder-se-ia dizer, pré-histórico, e o "homo sapiens" do pretérito se transformou no "pithecantropus erectus" do presente. Aquele estudante do parágrafo anterior, por exemplo, não existe mais.
Na Bahia miserável da contemporaneidade, qualquer um pode pular em cima de um palco, qualquer um se sente apto a dirigir uma peça, "mexer" com cinema, fazer filmes. Com as sempre presentes exceções de praxe, o teatro que se pratica na Bahia é um teatro besteirol, que faria corar aqueles que participaram da antiga escola de Martim Gonçalves.
A Bahia não está apenas mergulhada em bolsões de pobreza, na violência diuturna e desenfreada, com seu povo excluído de tudo - e até mesmo dos cinemas, mas do ponto de vista cultural a miséria é a mesma. Miséria cultural, descalabro, ausência do ato criador, apatia, desinteresse. Eventos existem para a satisfação de pseudo-intelectuais que não possuem as bases referenciais necessárias para a compreensão do que estão a ver ou a ouvir. O momento presente, se comparado aos meados do século passado, assinala uma regressão cultural sem precedentes. Como disse Millor Fernandes, a cultura é regra, mas a arte, exceção, o que se aplica sobremaneira sobre o estado atual da cultura baiana. Cultura se tem em todo lugar, mas arte é difícil, e a arte baiana praticamente não existe.
Com o desaparecimento dos suplementos culturais e o advento de normas editoriais que privilegiam o texto curto, além da incultura reinante pela assunção do império audiovisual em detrimento da cultura literária (vamos ser sinceros: ninguém hoje lê mais nada), a crítica cultural veio a morrer por falência múltipla das possibilidades de exercício da inteligência numa imprensa cada vez mais burra e superficial.
Sérgio Augusto, crítico a respeitar, que militou nos principais jornais cariocas, em entrevista ao "Digestivo Cultural", site da internet (vale a pena lê-la na íntegra: http://www.digestivocultural.com/entrevistas/entrevista.asp?codigo=10), do alto de sua autoridade no assunto, afirmou que o jornalismo cultural está morto e enterrado, ressaltando que se fosse um jovem iniciante não entraria mais no jornalismo porque não vê, nele, perspectivas para a crítica de cultura (área de sua especialidade).
Dava gosto se ler o Quarto Caderno do Correio da Manhã com aqueles artigos copiosos, imensos, que abordando cultura e artes em geral, eram assinados por Paulo Francis, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, José Lino Grunewald, Antonio Moniz Viana, entre tantos outros. A rigor, todo bom jornal que se prezasse tinha seu suplemento cultural. Aqui mesmo em Salvador, vale lembrar o do Diário de Notícias e o do Jornal da Bahia (em folhas azuis). Atualmente, resiste o Suplemento Cultural de A Tarde (mas, mesmo assim...).
A inexistência da crítica de arte não diz respeito apenas ao soteropolitano. É uma constatação geral no jornalismo brasileiro. Mas, e os cadernos culturais e as ilustradas da vida? Caracterizam-se pela superficialidade e servem, apenas, como guia de consumo, com suas resenhas ralas. Atualmente, os cadernos dois, assim chamados, são até contraproducentes porque elogiam o que deveriam criticar, colocando na posição de artistas personalidades que deveriam, no máximo, estar no departamento de limpeza de estações rodoviárias.
A crítica de arte serve justamente para isso: para, construtivamente, sem insultos, mas com argumentos sólidos, desmontar aquilo que não presta. Que falta não faz uma crítica de teatro séria, que, semanalmente, venha a apreciar o que se está a apresentar na cidade como literatura dramática! Ou uma crítica de artes plásticas. A interferência de um crítico faria corar muitos pintores que estão expondo na Bahia e posando como artistas. Assim também uma crítica de cinema que fosse menos paternalista com os "coitados' dos cineastas baianos cujas imagens são a de "franciscanos" em busca da expressão cinematográfica, mas cujos resultados, em sua grande maioria, remetem o espectador aos braços de Morpheu, quando não à aporrinhação.
Se a miséria da cultura baiana é cristalina, a miséria da crítica cultural é, também, imensa. Que esmola pode ser dada para se acabar com ela?
André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).