segunda-feira, 29 de março de 2010

Salvador: o canto desafinado da cidade de 461 anos






Seria para exprimir a beleza que as suas águas marítimas traduzem; ou mais ainda, falar dos componentes complexos da cultura erigida a partir dos lusitanos, de muitas etnias africanas, de tradições indígenas dando nisso que simbolicamente compomos: baiano. Mas não, estamos na berlinda de nós mesmos lotados de problemas sócio-existenciais e sem capacidade criativa de resolver tantos entraves que, além de nos massacrar economicamente, aumentando violência, sujeira, crises contínuas na saúde, deseducação, corrupção, falta de moradia, racismo, intolerância religiosa, homofobia, experimentamos a frouxidão dos nossos propósitos artístico-culturais e invalidamos irresponsavelmente o legado de mestres e do povo que fizeram da Bahia a face viva de uma luso-africanidade expressiva e culturalmente exemplar para todo o Brasil.
São 461 anos desta Cidade da Bahia, lugar que amo e que sempre me abrigará como nenhum outro, terra fustigada pelos maltratos de governâncias e elites econômicas que nos arrancam o melhor da nossa tradição popular, inviabilizam o poder da diversidade incrementando a cultura, respeitam tão somente a lógica mercadológica e empurram como novo velhos valores sociais que garentem aos machos brancos católicos a hegemonia no comando das coisas daqui. E também, quando apresentamos "avanços" são leis geradas pelo ódio interracial entre brancos e negros, discursos severos contra o encontro verdadeiro entre humanos, tratados contra o casamento interétnico, negação do outro por interesses políticos, financeiros, prestígio e expurgação psicológica: alivar em si a dor de existir do jeito do qual não se pode escapar e como alternativa, transformemos em inimigos tudo que não for "eu".
Quero abraçar a poesia negro-marítima desta terra, louvar assistindo a dança de orixás, caminhar por ruas mais limpas, pessoas mais honestas, mais educadas, solidárias, alimentadas, assistidas, instruídas, especializadas, amantes da Bahia mas universais. Quereria dizer: parabéns, Salvador! Com o amor que me ocupava há anos atrás. Hoje este lugar me silencia negativamente... Ainda resta beleza em poesia cotidiana mas aqui o que vence é inoperância, repetições, preguiça, casuísmos, clientelismos, sexismos, incompetência e arre, o estrelismo generalizado de esquizofrênicos sociais que não sabem o que fazer a não ser derrubar, espezinhar, humilhar e negar a quem não lhes convier. Cidade em desinteria: muita merda rala; o esforço maior é tornar merda mais dura, as coisas menos confusas e se achar reinventores da civilização.
O Rio de Janeiro é mais bonito, São Paulo é a cidade necessária, Recife cada vez mais criativo, mas nada me tiraria de Salvador se nós não ficássemos a dar lucro ao minímo e aos mesmos, cristalizar discursos, oferecer o caquético como novo, matando jovens negros pobres, desrespeitando-se religiosamente e sem entender o que fomos e como podemos ser melhores para nós mesmos antes de servir reptilmente aos outros. Quero uma cidade verdadeiramente altiva e não arrogantemente ensimesmada para esconder ignorância, fraqueza, desonestidade, inoperância, preguiça e incompetência.
O nosso canto, que tanto iluminou a outros e a nós mesmos, cada vez mais desafina e em síntese somos hoje uma récita musical comandada pelo talento de Cláudia Leitte...
E matamos a memória de que na Cidade da Bahia, em 1945, nasceu Gal Costa - voz sagrada que perfila tudo o que fomos e ainda indica o que podemos ser... Trajetória de uma vida que vacila mas se eterniza como glória pelo talento somado ao trabalho e ao querer.
Tomara que a experiência de 461 anos mais a dor de estarmos assim nos façam melhorar; no entanto, para Salvador, só a sua parte marítima, antes da ponte, merece parabéns!

Um comentário:

Juliana Pires disse...

Parabéns Salvador, está para nascer cidade mais linda!

Beijos