sábado, 16 de janeiro de 2010

Billie Holiday: I'm a fool to want you




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Lady Day

Alguma coisa na linha antiga do tempo, mas que é sem tempo e é sonoramente tão próxima do silêncio. Uma voz. A voz. Vinda de uma fresta tecnológica em fiascos de imagens de mulher negra. A mais linda das mulheres.

Alguma coisa que piora o calor noturno num país como o Brasil e que nos Estados Unidos faz do frio enterro de corpos vivos em transe, quando ela canta. Algo sem sentido impedindo o destino do simplesmente viver. Não, ali é dor, intensidade; máscaras sem deixar de ser coragem e esgota na gente a vontade de ter. Tendo-se. Ter sendo o tempo perdido ao alcance das mãos. O desejo quase vivido, meio ferido sem chances para uma total cicatrização.
Excesso. Força da beleza. Mito feminino inaugurando outro século. Noção do eterno numa voz chorosa, lacrimosa, fina e instigante. Tantos pensamentos à luz da projeção – conquista tecnológica: ela viva linda sentada senhora rainha musa mulher doente morrendo. A vida. Ela talvez sem perfume. Ela com flores no cabelo. Ela jogando a sua dor infinda, inventada e sentida, sobre todos nós.

Alguma coisa no inexplicável das madrugadas que tira o nosso sono e verte o nosso sangue e a gente chora... Alguma coisa nisso chamado canção numa emissão feminina e a memória sem resolução bate sem clemência no corpo que arde, transpira e invade, em retrocesso, lugares deixados para trás.

Alguma coisa que é desperdício universal – o gênio de uma mulher murmurando o que podia ser amor.

Belo canto, hoje sem ventilação, fazendo sofrer.

Poesia dilacerante que rouba o travesseiro, a cama, o quarto, a sala, a casa, a respiração e nos coloca vulneráveis no vazio da nossa existência – temendo que, depois daqui, tudo ainda exista sem abrigo.

E não se pode parar de ouvi-la.


























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