quarta-feira, 9 de julho de 2008

As curvas da estrada de Santos







Para Karina Rabinovitz e Vitor Carmezim, poetas da dicção do Amor.



No início dos anos 70, Roberto Carlos, em parceria com Erasmo, lançou a emblemática canção “As curvas da estrada de Santos”. E espalhou pelo país a bela imagem do litoral paulista, falando jovialmente sobre velocidade e amor. A saga desta música rodou o Brasil se incrustando, como outras do Rei, na memória afetiva do povo brasileiro. Avançou pelas estradas da nossa audição e vence o tempo, se tornou popularmente perene, e como diria os especialistas, tornou-se um clássico do cancioneiro tupiniquim. Uma balada meio rock meio blues, evocando um instante de solidão e desespero humanos, que só poderiam ser vencidos pela torrente velocidade, ou, pelo reencontro do perdido amor.
A letra da canção esboça uma tristeza d’alma à imagem das reflexões existencialistas de filósofos como Albert Camus. E imprime uma “queda” interna no sujeito ocasionada pela sensação de vazio, pelo vácuo deixado na veloz saída de alguém do seu convívio. Traz, a canção, em sua emissão melódica o desenrolar narrativo da tristeza que ela tematiza e a letra coroa de dor e sutil esperança as sensações vividas pelo ouvinte. Na interpretação de Roberto, já consolidado como ícone brasileiro na época, a canção perfila uma juventude urbana sudestina, classe média, alheia aos ditames sociais que imputavam a ordem e a disciplina como vetores comportamentais. E sem intenção, ela acaba por invalidar a ideologia do sistema político brasileiro do período, a enfadonha e cruel ditadura militar iniciada no ano de 1964. Invalida, pois desregra o comportamento de alguém movido por combustível amoroso e disposto a correr e a fazer qualquer ultrapassagem para vencer a dor por ele sentida.
Numa narrativa e numa sonoridade que nos faz sacudir a cabeça, a canção nos faz vivenciar as nossas próprias memórias amorosas e dialoga com a solidão em cada um de nós. E nossa identidade passa a ser mais fluida no dessentido que a vida, em determinados momentos, nos obriga:

“ Se você pretende saber quem eu sou
Eu posso lhe dizer
Entre no meu carro na estrada de Santos
E você vai me conhecer.
Vai pensar que eu não gosto nem mesmo de mim
E que na minha idade só a velocidade
Anda junto a mim”.

Aí a evasiva apresentação traduz a nadificação de alguém que só vê sentido dentro de um carro, correndo nas curvas da estrada de Santos para amortecer seu próprio sofrimento. Um humano em velocidade com a coragem de se ver sem ter como parar. Disposto a enfrentar os seus desencontros desafiando a vida, buscando, quem sabe, a morte. Buscando acima de tudo, a romântica convivência amorosa.

“Só ando sozinho e no meu caminho
O tempo é cada vez menor
Preciso de ajuda, por favor, me acuda
Eu me sinto muito só”.
A fala direta nesta estrofe traduz a inteireza da sensação de abandono do poeta, que desloca para o âmbito da poesia a sua necessidade de ajuda e a sua urgência em ser salvo da solidão. Tão simples na sua construção coloquial, esses versos corporificam as limítrofes enfrentadas pelo autor, que do centro do seu desespero, acende-se de coragem e diz: “preciso de ajuda, por favor, me acuda”. Encontra-se neste pedido de socorro duas transgressões sócio-culturais: sendo uma canção composta por dois homens, cantada por um, o eu-lírico masculino apresenta-se em fragilidade em busca da mulher perdida, há nessa relação homem – mulher, uma preponderância do feminino que abandona e põe o homem a correr desbragadamente e sem destino, por conta do doído vazio que ela lhe causou. A segunda transgressão refere-se à proposta de falar de amor no sentido auferido pelos poetas românticos, o amor como sentido maior: maior que regras econômicas, que necessidade de sobrevivência, que participações e decisões políticas, maior do que a razão que organiza e serve para vencer sistemas totalitários.
Nisso, o emblema que a canção ganha corresponde a idéia de alienação e descompromisso, uma obra radiofônica movida por mero sentimentalismo, bem aos moldes emocionais de escritores como Lord Byron e Álvares de Azevedo. Mas ela vinga, justamente por que toca onde não se pensa, mas se sente, nesta leve dicotomia entre o pensar e o sentir, quando o primeiro é feito de razão (sim?) e o segundo de emoção (não?).
Sem maiores polêmicas, As curvas da estrada de Santos, identifica-se à imagem de “hippie-chic” empreendida pela galera da Jovem Guarda, e acompanha o lema “ paz e amor”, deslocando-o para “ amor e música”. E segue assim:

“Mas se acaso numa curva eu me lembro do meu mundo
Eu piso mais fundo corrijo num segundo não posso parar
Eu prefiro as curvas, as curvas da estrada de Santos
Onde eu tento esquecer um amor que eu tive
E vi pelo espelho na distância se perder”.

Nesses versos estão a força poética da canção. A imagem de alguém, ou nós mesmos, em disparada nas curvas de uma estrada querendo vencer o tempo e o próprio pensamento, para não lembrar da pessoa amada que foi perdida. A presença distante deste amor é o fio de condução da narrativa, que, lítero-musicalmente nos apresenta ao arranque da solidão grudando-se na memória e trazendo pelo retrovisor a nossa imagem da felicidade, ficando continuamente para trás. Até aí a canção desfia tristeza, arranjada por guitarras que imprimem a idéia de velocidade automotiva, arranhando a emoção dos ouvintes, dirigindo-os a rememorações amorosas fracassadas ou exitosas. Nesses versos há o sentido da invenção artística chamada canção, versos feitos para serem cantados e somados à harmonia tradutora da dor que se busca imprimir:
“Mas se o amor que eu perdi eu novamente encontrar
As curvas se acabam e na estrada de Santos
Eu não vou mais passar
Não vou mais passar”.

Aqui a canção esboça esperança com a alternativa do reencontro amoroso. E nos faz depreender que as curvas da estrada significam o desatino do poeta, arriscando-se em velocidade por conta do amor perdido. Uma letra que vibra doendo os instantes de alguém solto ao seu abandono e predisposto ao perigo, guiado pela necessidade do amor romântico, com o qual todo sentido existencial retorna, e as curvas e seus riscos desativam-se da função de desafiar o poeta ofertando-lhe a possibilidade da morte. Com amor, ele quer vida.
A beleza desta canção, do ramo popularíssimo de Roberto e Erasmo Carlos, arrebatou em 1970, a cantora Elis Regina, que fez uma leitura rocker da mesma, usando muito som eletrizado, bem distante de todas as críticas que a grande cantora fez aos tropicalistas por usarem este excremento, quer dizer, instrumento chamado guitarra. Elis se rendeu a Roberto numa versão de As curvas da estrada de Santos bem pesada para a então, brasilidade da cantora, e dela resultou a mais bela interpretação da canção até hoje. Paula Toller também a cantou de forma muito elegante e especial, nesta se sente mais claramente o lamento blue do texto do Rei.
Espera-se que um dia Maria Bethânia, especialista em Roberto e Erasmo, possa emprestar seu talento dramático a esta música.E na linha das melhores audições, numa tardinha meio azul, sem estradas nem chuviscos atrapalhando a vida, finca-se melhor que erudito, o jeito perfeito de se sentir feliz mesmo ao som da solidão, assistindo do coração, As curvas da estrada de santos

2 comentários:

bandodeuns disse...

omente posso diser que este texto sobre As curvas da estrada de Santos é do cacete! Isso pra me colocar no meu tempo, por que, na verdade, o texto é uma BRASA!

Roberto e Erasmo precisam ler isto!

ginna disse...

Interessante. Viajei no seu texto. E te pergunto. Tu se Sente só? Guardo vc no coração. Bjos.Paula