quarta-feira, 9 de julho de 2008

KIRIMURÊ


Talvez muitos soteropolitanos já tenham ficado imunes frente ao espetáculo natural baiano chamado Baía de Todos os Santos – a nossa Kirimurê, que quer dizer “mar grande”, na língua falada pelos tupinambás.
Mas é bom lembrar que, nesses tempos em que se discute constante e procedentemente questões ligadas ao meio ambiente, ao aquecimento global, a possibilidade de extinção da vida no planeta, estar diante deste patrimônio da natureza da Bahia, é gozar a felicidade de se viver na terra que possui o maior número de analfabetos do País.
E nisso não há nenhuma relação com compensação social, ou com a minimização dos sérios problemas que Salvador e todo estado sofrem cotidianamente. Tem haver com alívio existencial, com fruição estética neste contato do humano consigo mesmo.
Nos idos de 1501, em 1º de novembro, dia católico consagrado a Todos os Santos, este acidente geográfico chamado baía, foi encontrado pelos portugueses e os encantou em suas águas mornas, azuis e profundas e acabou por definir o nosso gentílico frente às demais províncias brasileiras. Éramos (e somos) os baianos, os filhos nascidos à beira da baía. Filhos da baía e de todos os santos.
Há que se falar ao meio de tanta desordem sócio-política estadual, das coisas que ainda não danificamos, e de como são sublimes as nossas águas marítimas vistas de Humaitá, da Praça Tomé de Souza, ao lado do Elevador Lacerda, do Mirante dos Aflitos, do Solar do Unhão, das redondezas do Farol da Barra, lugares que privilegiam uma das cenas mais bonitas da paisagem brasileira, quiçá do mundo também.
Recentemente, a Baía de Todos os Santos, ganhou do poeta Jota Velloso, um hino à altura dos seus encantos: a canção Kirimurê, gravada por Maria Bethânia em seu Cd Mar de Sophia (2006). É uma das músicas mais bonitas surgidas nos últimos anos, e mexe positivamente com nosso tão mutilado orgulho de ser baiano. De evocação épica, Kirimurê rememora feitos do povo baiano e concorre ao nacional Prêmio Tim – 2007 de melhor canção.
A letra da música é de grande força poética, louva as forças míticas dos índios, os caboclos, e faz manifestos em defesa da vida humana em harmonia com a natureza. A estrofe mais tocante, sibila, preservando os mistérios, os fundamentos maiores do povo de candomblé: “E se me derem a folha certa/ E eu cantar como aprendi/Vou livrar a terra toda/De tudo que é ruim”.
Ouvir a canção Kirimurê, na voz de Maria Bethânia, é estar de frente à Baía de Todos os Santos, pousando os olhos na sua beleza e deixando os ouvidos no coração. E assim, recuperar um pouco do amor perdido por nossas paisagens, e, talvez, por nós mesmos.

4 comentários:

Ari disse...

MM,
Bienvenido, muchacho. O não-lugar fica mais iridescente com a qualidade da sua escrita.

borboleta disse...

Olhe ... estou vendendo um lançamento, ou seja lofts na Gamboa - Kirumurê. Se interessar meu e-mail é cdora26@gmail.com .... Belo artigo fiquei encantada

Vanessa Medrado disse...

Minha devoção pela Bahia, de tão séria e profunda, é ininteligível para muitos, mas é ancestral. Nasci em São Paulo, na Maternidade São Paulo, numa travessa da Avenida Paulista. Mais paulistana impossível, mas meu pai é baiano de Mucugê. Morei um ano na Europa, viajei pela América do Sul e por quase todo o Brasil, vi lindas paisagens mas sempre digo que o Farol da Barra, visto do Cristo, é a maior maravilha que meus olhos já viram, só parelha com o nascer da lua cheia em Itapuã, onde comprei minha casa, para sempre, apesar de ainda morar em Sampa. Como é bom saber que ainda há quem ame tanto a Bahia e a Baía de Todos os Santos, a Kirimurê, quanto eu. Obrigada por esse texto sensacional!

CARLOS disse...

BONITO , MUITO BONITO , PESSOAS SENSÍVEIS COMO VOCE , MARCOS NOS MOBILIZAM A PERCEBER MAIS DE PERTO A GRANDIOSIDADE DA BELEZA DA NOSSA KIRIMURE , QUE É A SEGUNDA MAIOR BAÍA DO MUNDO...MAS A PRIMEIRA NO CORAÇÃO DOS SEUS APAIXONADOS BAIANOS E BRASILIANOS...
MUITA ENERGIA BOA , AXÉ PARA VOCE E TODOS QUE SENTEM A NOSSA "BAHIA" NO CORAÇÃO...
UM ABRAÇÃO.