quinta-feira, 10 de julho de 2008

Águas para Oxalá

É final do mês de agosto, e setembro se inicia em Salvador, trazendo as energias revigorantes do orixá maior entre os iorubanos, o Babá Oxalá, senhor da fertilidade, divindade do branco e da paz, patrono da vida humana, rei das águas potáveis e criadoras. Para festejá-lo, o Ilê Axé Iyanassô Oká, conhecido como Terreiro da Casa Branca, regido pela doce e misteriosa Mãe Tatá, inicia no dia 30 deste mês, quinta-feira, os mágicos rituais denominados “As Águas de Oxalá”, que celebram no âmbito do candomblé, uma espécie de contínuo renascimento entre seus adeptos.
A participação nesta festa, é de caráter reservado ao povo de santo, ou a pessoas que buscam um contato mais íntimo, sério, e de fé, com o universo religioso dos orixás. Geralmente, os de fora só participam se convidados, e devem estar dispostos, a acordar na calada da noite, íntegros em suas vestes brancas, de alma e boca silenciadas, carregando água para simbolicamente encontrar-se consigo mesmo, num processo de magnânima limpeza espiritual.
Em fila, em absoluto silêncio, todos de branco, respeitando o tempo de iniciação nos mistérios da religião, ou seja, os mais velhos na frente, seguidos pelos mais novos, descem até uma fonte e apanham água e enchem quartinhas, latas, vasilhames outros, vão até o barracão e as casas de santo e lavam todos os apetrechos usados para representar a presença dos deuses iorubanos entre seus filhos. Lavam os Ibás, que são ferramentas e tudo que significa, sagradamente, os orixás ali cultuados.
O ritual além de belíssimo cenicamente, comove pelo sentido antropológico que evoca: a vida se refazendo, os humanos renascendo sob a égide do deus da criação. Cânticos são sussurrados, palavras de louvação são ditas baixinhas, e cada gesto, cada movimento edifica uma narrativa mítica que conta a saga de Oxalá e seus filhos, os outros orixás, em tempos imemoriais africanos.
A Casa Branca é a grande maestrina deste episódio religioso: a sua Iyalorixá Tatá de Oxum, conduz seus filhos a elegantes procedimentos que configuram a complexa civilização jeje-nagô recriada na Bahia. Tudo feito em nome de uma fé em que em nada se assemelha às visões preconceituosas de outras tradições culturais e religiosas sobre o mundo das deidades de origem africana. Nas águas, a idéia sobre “Deus” se clarifica, e os humanos desenham-se ínfimos diante da beleza das divindades ali espraiada. Mas também, fazem-se lindos para merecerem às benções dos orixás a que são consagrados.
Iniciado este calendário, os filhos do Terreiro, resguardam-se durente 16 dias, vestindo-se só de branco, não comem azeite de dendê, não bebem bebidas alcoólicas e evitam relações sexuais. É um processo inteiro de purificação espiritual. Em três domingos subseqüentes à noite das águas, os atabaques tocam para Oduduwa, Oxalufá e Oxaguian, e um novo ano se inicia para aquela família de santo. Epa Babá!

Um comentário:

Povo de Santo disse...

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