terça-feira, 8 de julho de 2008

Uma energia chamada Iemanjá














“O que ela canta?
Por quê ela chora?
Só canta cantiga bonita
Chora quando fica aflita
Se você chorar”.

( Iemanjá Rainha do Mar, Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro)

Enquanto há serenidade, a sua presença é marcada pela translúcida calma das águas dos mares. O seu corpo configura a imensidão e é usufruto primordial dos pescadores: a sua permissão. Ela se faz acúmulo de mistérios e segredos, e mata de medo por não se revelar. Os seus olhos realçam o brilho do sol, as suas mãos nos tocam na areia. De sereia à mulher parida: ela é o alfanje do feminino no mundo. Aquática. Andante. Senhora de todas as águas. Prenúncio dos rios da África, rainha dos mares americanos. Água. Transporte de esperança e calamidades. Mãe que insinua incestos. Acolhedora força que vence o fogo, vence a espada, vence a fala, vence o mal.


Mulher amalgâmica do corpo etéreo essencialmente peixe. Espelho da beleza madura. Um trânsito de vida. Um estar pós-morte. Uma canção lindíssima sendo ela à própria voz. Um corte que traz transformação. A Mãe do Mensageiro, do Ferreiro, do Grande Caçador. A Mãe dos filhos alheios. Senhora profunda de todas as humanas cabeças. Estrela de dentro do mar. Mulher que passeia por asfaltos e areias, pelo chão de cada casa, pelo chão de qualquer barracão e se evapora no calor das suas águas.

Quando não há serenidade, ela se sangra em ondas e rebate-se contra tudo que se opõe a sua vontade. Autoritária razão e sustentação dos lares. Mulher que sentencia em nome da maternidade. Belicosa protetora da sua cria. Ferocidade. Ávido desejo de paz. Presença cruel nas guerras. Dona da Incisão.


E ainda mais: doçura. Quanto mais mar mais doce é a sua energia. Ouvida de dentro dos silêncios profundos. Estesia que desliza pelo fulgor da pele, que esfria e arrepia e se faz melhor. Mulher que ondula a dança e faz da arte um exercício de Fé.

Uma vigilância que não sossega, nem de noite, nem de dia... Um tomar conta do mundo que gera brisas litorâneas. Um fruto qualquer de todo aconchego, símbolo metafísico do seu ventre.

A mulher. Detentora da poderosa beleza. Feitiço dos olhos e da mão. Sacralidade sexualizada. Dona dos seios e da sedução. Corpo vivo imaginário. Sonoridade que consola. Rainha desnuda em si mesma. Totalidade do desejo e Mãe.

A mais venerada proteção. Pura energia.

Mãe negra das baías, manancial de todas as águas.

Senhora Iemanjá!

Um comentário:

Cintia Ribeiro disse...

O melhor de mim,neste instante sinto-me precisada da vossa atenção orixá da minha vida!
Que belo texto,belo poema,bela oração, bela descrição da energia da minha Mãe Iemanjá. Muito Obrigada