terça-feira, 8 de julho de 2008

Civilização Casa Branca



A história do povo negro na Bahia (e no Brasil) confunde-se com a construção e solidificação dos nossos principais templos religiosos de matriz africana. Foi através do Candomblé que muitos dos nossos ancestrais resistiram e lutaram contra o crime hediondo da escravidão. E foi também esta religião em sua majestade cênica e litúrgica que contribuiu para o desenvolvimento da auto-estima dos seus adeptos.

À frente como modelo de culto e como instrumento de integração de diversos valores espirituais de etnias vindas da África, a partir do século XIX, esteve o Candomblé da Barroquinha, que, além de instituir o modelo jeje-nagô entre nós, criou as bases mais profundas que nos alicerçam até hoje como instituição religiosa.

O antigo Iyá Omi Axé Airá Intile, erguido pelas míticas Iyá Kalá, Iyá Detá e a Iyá Nassô, transferiu-se da Barroquinha, indo para o Engenho Velho da Federação, tornando-se o hoje monumental Candomblé da Casa Branca, que sagradamente passou-se a chamar Ilê Axé Iyá Nassô Oká, em homenagem à mais célebre de suas fundadoras.

Esta Casa Sagrada corporifica uma verdadeira civilização, que, de modo singelo, mas austero, aos cuidados da Iyalorixá Tatá de Oxum, preserva um legado de ensinamentos litúrgicos que revelam a grandeza organizacional dos povos africanos que vieram para o nosso Estado. Suas festas públicas ensinam as práticas mais antigas que ornamentam e orientam a fé de uma gente que venceu desgastes físicos e psicológicos e ofereceu ao Brasil uma das expressões religiosas mais complexas e ricas, em suas teias de significados, que nós conhecemos.

A renovação no universo do Candomblé se dá através da iniciação de novos filhos e filhas (os iaôs) que nos seus corpos abrigam o Axé vívido dos seus orixás. É da presença destas pessoas dedicadas às suas divindades, que o candomblé mantém-se pleno em seu papel de religar humanos aos elementos da Natureza, trazendo para o nosso meio coexistencial a mágica presença das forças que comandam esta crença.

Portanto, para o povo-de-santo, uma iniciação de novas filhas geradas sob a inscrição civilizatória da Casa Branca é um ganho sem tamanho para a manutenção da religiosidade de um povo, que, em pleno século XXI, é discriminada e associada a práticas demoníacas. Se todos buscassem vencer sua ignorância e penetrassem, de modo respeitoso, na composição dos rituais que traduzem o Candomblé, experimentariam a beleza, a nobreza, a complexidade da tradição de negros ágrafos que ajudaram a fundar a idéia de uma Afro-Bahia.

O povo-de-santo da Bahia está em festa, as mãos cuidadosas da Iyá Tatá preparam o nascimento de novos orixás em nossas plagas, e no meio deles nascerá o Oxóssi de minha amiga Cristina Pechiné. Axé pra todos nós.

(Publicado no Opinião do A Tarde em 26/01/2008).

Um comentário:

Luanda Goux disse...
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